Por
que a eleição para o Senado é decisiva para o Brasil
Além de
escolher o próximo presidente do Brasil, os eleitores brasileiros definirão
neste domingo (04/10) a composição do Senado Federal. A Casa terá papel
estratégico nos próximos anos, com poder para influenciar a tramitação das
pautas do Executivo e aprovar a indicação de quatro ministros do Supremo
Tribunal Federal (STF), além de novos chefes de missões diplomáticas do país.
A eleição renovará dois terços das 81
cadeiras do Senado e poderá determinar para que lado penderá a balança da Casa
pelos próximos oito anos. Isso porque os senadores são eleitos para representar
seus estados e o Distrito Federal por um mandato que atravessa dois períodos
presidenciais.
Entre
os 314 candidatos ao cargo em todo o país, 32 são senadores que tentam a
reeleição. Dos 54 parlamentares cujos mandatos estão em disputa, quase metade
integrava a base governista. Os novos nomes que tomarão posse em janeiro de
2027 poderão, portanto, redefinir a maioria parlamentar e reequilibrar as
forças entre Executivo e Legislativo.
<><Peso
estratégico
O
número reduzido de parlamentares ajuda a explicar a importância do Senado. Como
bastam 41 votos para alcançar a maioria absoluta, o governo federal dispõe de
menos margem para negociações voto a voto na aprovação de seus projetos. O
quórum varia conforme a matéria: uma PEC exige 49 votos, enquanto o
impeachment de um ministro do STF depende de 54.
Na
tramitação de projetos de lei, Câmara e Senado podem atuar como Casa iniciadora
ou revisora. Os senadores podem alterar, aprovar ou rejeitar textos enviados
pelos deputados, criando obstáculos legislativos aos interesses do Planalto.
A
margem de manobra do governo diminuiu ainda mais com o avanço das emendas parlamentares impositivas no total dos
gastos públicos – um recorde de R$ 44,8 bilhões no próximo ano. Tratam-se de
valores incluídos no Orçamento da União cujo destino é indicado pelo próprio
parlamentar e o governo é obrigado a pagar. Issoreduz o poder de barganha do Executivo, que
não tem mais a liberação de recursos como ativo de negociação.
Outro
ponto estratégico atribuído ao Senado é a instalação de Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI), que pode inquirir testemunhas, convocar
ministros e investigar ações do governo, como no caso da CPI da Covid, em 2021.
Neste
ano, as tensões entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do
Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), também evidenciaram o peso político da Casa. Alcolumbre travou
pautas prioritárias do governo e só voltou a sinalizar que colocaria em votação
propostas como o fim da escala 6x1 e a PEC da Segurança Pública em agosto, às
vésperas do início da campanha eleitoral. A definição do ritmo de tramitação da
agenda legislativa está nas mãos do presidente do Senado.
Também
cabe à Presidência do Senado conduzir as sessões do Congresso Nacional que
analisam vetos presidenciais. Durante o terceiro
mandato de Lula o Congresso registrou uma proporção excepcionalmente alta de
derrubadas de vetos, com mais da metade dos vetos presidenciais rejeitados,
indica levantamento da DW.
O
Congresso impôs derrotas ao presidente ao derrubar, por exemplo, o veto ao
aumento do IOF, que poderia render mais de R$ 20 bilhões aos cofres da União, e
ao restabelecer a chamada "saidinha" de detentos. Também avançaram no
Legislativo a manutenção do marco temporal para terras indígenas e a derrubada
do veto à desoneração da folha de pagamento. Em todos esses episódios, o Senado
teve participação decisiva.
<><>
Indicação e impeachment de ministros
As
turbulências entre governo e Senado também incluem a rejeição histórica do nome
de Jorge Messias para uma cadeira no STF. Foi a primeira vez,
em 132 anos, que a Casa rejeitou um indicado da Presidência para o Supremo. A
derrota ocorreu em meio a uma articulação de bastidores liderada por
Alcolumbre, que, à época, defendia a indicação do senador Rodrigo Pacheco para
a vaga.
Entraves
semelhantes já haviam surgido durante o governo de Jair Bolsonaro. O Senado não
decide apenas se uma indicação será aprovada ou rejeitada, mas também o ritmo
de sua tramitação. André Mendonça, segundo nome indicado pelo ex-presidente ao
STF, aguardou cerca de quatro meses e meio até ser
sabatinado após um impasse com Alcolumbre.
Ao
rejeitar Messias e romper a tradição de aprovar os indicados do Executivo, ou
ao retardar o andamento de indicações presidenciais, o Senado demonstra que sua
próxima composição terá influência decisiva sobre a formação do Supremo. A
Corte tem assumido papel cada vez mais relevante em temas sensíveis tanto para
o Executivo quanto para o Legislativo.
Pelo
rito da Casa, o indicado ao STF precisa passar por sabatina na Comissão de
Constituição e Justiça (CCJ) e, posteriormente, ser aprovado pelo plenário.
Na
próxima legislatura, três ministros do Supremo atingirão a idade-limite de 75
anos. Somada à vaga aberta pela aposentadoria voluntária de Luís Roberto
Barroso, a próxima composição do Senado poderá analisar quatro indicações do
futuro presidente da República.
Como os
eleitos neste ano atravessarão dois mandatos presidenciais, o Senado escolhido
em 2026 ainda poderá participar da aprovação de outra indicação, em 2033,
quando o ministro Edson Fachin deixará a Corte.
Além de
definir quem entra no STF, o Senado também pode decidir quem sai. Até o final
de 2025, a Casa acumulava quase uma centena de pedidos de impeachment contra
ministros do Supremo. Cabe ao presidente do Senado dar encaminhamento inicial a
essas denúncias, como as que se acumulam, a pedido da oposição, contra o
ministro Alexandre de Moraes. Na prática, os pedidos podem permanecer por
longos períodos sem arquivamento nem deliberação, mas podem ser pautados a
qualquer momento.
<><>
Embaixadores
O poder
de influência do Senado também alcança a indicação de embaixadores. Em uma eleição marcada por pressões externas, como a imposição de
tarifas americanas, a nomeação de chefes de missões diplomáticas para
diferentes capitais e organismos internacionais tornou-se um tema relevante
para o governo. Em alguns casos, essas indicações também têm peso político nas
articulações do Executivo.
Em 2020
e 2022, por exemplo, o Senado adotou medidas que atrasaram ou interromperam a
tramitação de indicações diplomáticas. Em outubro de 2022, a Comissão de
Relações Exteriores cancelou uma sessão que previa a sabatina de 12 indicados a
embaixadas e organismos internacionais, sem marcar nova data. Dois anos antes,
o então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, sofreu uma derrota
quando seu indicado, Fabio Mendes Marzano, foi rejeitado para o posto em
Genebra por 37 votos a 9.
Em
2019, também dependeria da aprovação do Senado a intenção declarada de Jair
Bolsonaro de indicar seu filho, Eduardo Bolsonaro, para a Embaixada do Brasil
nos Estados Unidos. A indicação, porém, nunca foi formalizada. Após a
repercussão negativa, o então presidente afirmou que reavaliaria a proposta
para evitar submeter o filho a uma derrota no Senado.
Fonte:
DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário