Honra,
autoridade e fobia da redistribuição
A
relação entre “pauta moral” e voto na extrema direita no Brasil tem sido mal
interpretada. Muitos tomam pelo valor de face os enunciados em favor da
tradição. Em contraste, sustento que o apelo do bolsonarismo provém do seu
vínculo com as promessas mais ostentatórias da modernidade: o direito à
particularidade (o proprietarismo) e a ascensão social via esforço (o
utilitarismo).
Nesse
sentido, o que recusam não é tanto o direito à diferença, mas a ideia de que a
política seja uma arena de legítima redistribuição da honra, da propriedade, da
autoridade e das oportunidades. Desinformação quanto ao Pix, “taxa das
blusinhas”, IOF, INSS, Banco Master e segurança pública foram temas onde a
extrema direita mais causou mais estragos à esquerda no último ciclo de quatro
anos.
O
bolsonarismo se apresenta como o mais intransigente defensor da cultura do
particularismo e da performance. Seu projeto é instrumentalizar família,
religião, escola, trabalho, polícia e sistema jurídico para a realização de uma
sociedade de proprietários meritórios. Ele tensiona todas essas organizações,
buscando delas eliminar as exigências solidaristas (“mi, mi, mi”) que onerariam
uma missão primordial: regular e hierarquizar as pessoas, premiando os
supostamente mais virtuosos e impondo correções aos “problemáticos”.
É por
serem os representantes dogmáticos desse conteúdo que os vemos desdenhar de
formalidades liberais, tais como a separação entre três poderes, respeito aos
direitos humanos e a problematização da desigualdade social. A extrema direita
internacional já mostrou que até o livre mercado pode ser desdenhado se convier
a uma política nativista (baseada na propriedade de uma nacionalidade)
anti-imigratória e xenófoba.
No
vértice das promessas de propriedade e meritocracia está o valor da isonomia,
isto é, a igualdade formal perante a lei. Esse valor tem um papel contraditório
nas sociedades modernas: é ele que concede legitimidade às desigualdades
socioeconômicas numa sociedade concorrencial. É por mitificarem isonomia,
disciplina e particularismo que os “patriotas” qualificam de degeneradoras as
cotas e as políticas de transferência de renda.
Colocando-se
como os defensores do “Brasil produtivo”, numa falsa equivalência entre
trabalhadores e capitalistas, precisam apagar ou obstruir a pauta trabalhista
da esquerda, como o fim da escala 6×1. Buscam associar a esquerda apenas aos
que vivem de assistência social, à criminalidade urbana, às construções de
gênero alternativas, beneficiários de cotas ou a um mundo intelectual “inútil”.
O
discurso de um motofretista bolsonarista, arrependido por ter votado em Lula
tempos antes, deixa explícito como essa estigmatização ganhou força: “[a
esquerda] falava muito em pobreza. Hoje, não gosto que fale muito nisso, pois a
gente não tem que ficar nessa (…) Eu não quero que o governo me dê nada. Nada
de bolsa isso, bolsa daquilo (…) Eu defendo só uma pauta, que é a do ser
humano. Tem que criar lei para todos nós, não criar uma lei só para uma classe…
para mim essa minoria não é ninguém (…) Não existe “igualar”, porque tem que
ter a classe baixa, a classe média e ter a classe alta (…) a gente depende do
empresário para colocar a nossa comida dentro de casa (…) Tem governo que só
pensa em arrecadar (….). Pra gente ter essas coisas, tem que tirar o Estado das
nossas costas” (Souza apud Klava, 2024).
Como a
esquerda é a porta-voz das missões redistributivas do Estado, sua crise de
imagem, em meados dos anos 2010, associada ao avanço do “indivíduo-empresa”
trouxeram forte ceticismo à causa da redistribuição em si. Uma pesquisa de 2018
captou com clareza esse cenário. Excetuando os evangélicos, todos os grupos de
renda, gênero, raça, escolaridade, religião e região acreditavam que Jair
Bolsonaro era o candidato que mais beneficiaria os “ricos, empresários e
banqueiros”.
Também
concordavam, em coerente complemento, que Fernando Haddad seria o melhor para
os “pobres” e para os “trabalhadores” (IBOPE-Inteligência, 2018). No entanto,
somente 31% dos eleitores com renda familiar situada entre um e dois
salários-mínimos declarava votar no candidato do PT. Jair Bolsonaro, por outro
lado, mesmo sendo identificado como o candidato dos poderosos, venceu o pleito
com 55% dos votos válidos.
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Tradição ou hipercapitalismo?
O
bolsonarismo não foi engendrado por nenhum movimento societário de retorno à
tradição. Pelo contrário, o contexto neoliberal de valorização da autonomia
individual e do desempenho modernizou como nunca a família, a sexualidade e a
religião, no sentido de as racionalizar para o hedonismo e a ascensão social.
As disputas no campo religioso não são a causa primária das transformações
sociopolíticas, mas a sua expressão, especialmente nas demandas por
individuação, fervor sentimental e meritocracia.
Afinal,
o campo religioso é menos forte hoje do que era no passado: a proporção de
cristãos caiu 12% em quatro décadas. Evangélicos ainda não chegam a um terço da
população e se caracterizam cada vez mais pelo binômio
fragmentação-individualização da experiência religiosa. Uma evidência disso é
que a Igreja Universal do Reino de Deus perdeu, em números absolutos, 10% dos
seus fiéis entre 2000 e 2010 (Mariano 2013).
Ao
longo do século XXI, as famílias continuam a encolher. Os casamentos ficam mais
informais e mais curtos. A aceitação de que a mulher tenha trabalho ou renda
própria supera 90% em todos os estratos de cor e gênero (Nunes, 2025, p. 47).
Outro traço modernista das famílias foi o crescimento médio de 60% nas despesas
com educação privada entre 2008 e 2017. No período, só as despesas com dívidas
foram superiores.
Portanto,
não se trata de tradicionalismo, mas de família normalizada a uma sociedade
seletivista e desejante por prêmios de ajustamento. A família arca com o ônus e
com as tensões de um mundo do trabalho individualizado e incerto. Por isto ela
é um tema bolsonarista: funciona tanto como uma propriedade de distinção
meritória num mundo “anômico” quanto como um caminho para distinção e
prosperidade.
A
valorização do esforço se combina a um ostentatório hedonismo, visível no
investimento em beleza corporal, segmento em que o Brasil é um dos maiores
mercados do mundo. O hedonismo também se revela nas buscas que os brasileiros
fazem no Google. Nelas, mostra-se menos interesse em
temas religiosos do que por celulares premium, pelo Big Brother Brasil, o
futebol, as bets e criptomoedas. Embora apenas 18% dos proprietários de
aparelhos celulares portem um IPhone, ele é o item específico mais
procurado na internet brasileira, evidenciando o quanto o progresso material e
os signos de status deixaram de ser anseios exclusivos da pequena
burguesia.
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Três consequências políticas do performismo particularista
É
preciso perceber que a generalizada valorização da isonomia, da
responsabilidade individual e da propriedade particular tem três efeitos
principais sobre a política. O primeiro é alimentar uma concepção antipolítica
da própria política, isto é, uma visão minimalista, policialesca e
administrativa dos problemas coletivos. A política é vista como “casa de
correção”, restrita a lutas sanitizantes contra corrupção e bandidagem.
Além
desse sentido evidente, subsiste um significado mais vasto: o proprietarismo
tende a ver como “crime” toda e qualquer medida redistributiva exercida pelo
Estado em favor dos dominados. A fobia da redistribuição fica patente no google
trends, que mostra os brasileiros buscando mais o termo “comunismo”
do que “corrupção” desde 2004, com pico nas eleições de 2018 e 2022.
O que
caracteriza a “política patriota” é a acusação à priori de que a
esquerda é expropriativa e caminha para o autoritarismo, mesmo quando suas
propostas produzem desenvolvimento econômico ou social. Javier Milei foi
explícito quando veio prestigiar o lançamento da candidatura Flávio Bolsonaro:
“não se surpreenda que sempre haverá socialistas ao lado de ladrões, porque os
socialistas são ladrões”. Concebendo a política pela metáfora da guerra aos
problemáticos, nada mais natural do que se voltar à destruição da reputação de
quem defende alguma forma de redistribuição. Quase não há “programa”, mas sobra
a estratégia.
Nos
termos de Chantal Mouffe, a extrema-direita cultiva o conflito político (the
political) justamente porque descrê na política (politics) como a
arte de conduzir a uma boa vida em comum. Esse “comum” não existe; há apenas
uma coleção de particulares que devem se defender do Outro a partir de técnicas
de soberania territorial e simbólica: muros, armas, fronteiras, certificados de
pertencimento etc.
Em
segundo lugar, utilitarismo e proprietarismo engendram uma visão de luta de
classes distinta do marxismo: ela se desloca do conflito entre capital e
trabalho para uma luta dos “produtivos” contra uma plebe “ociosa e perigosa”.
Essa divisão simbólica, reforçada tanto pelo bolsa-família quanto pela
criminalidade, é capaz de explicar por que a maioria dos brasileiros com renda
familiar menor do que dois salários-mínimos considera pertencer à “classe
média”. Também a maioria acredita que os pobres não se esforçam para melhorar
de vida e que bolsas e auxílios desincentivam o trabalho (Nunes, 2025).
A
terceira característica complementa aquelas duas: é tornar a política
basicamente um terreno da luta por status numa sociedade competitiva,
confirmando “a dignidade superior” dos que ostentam um estilo de vida aderente
às relações de dominação. As redes sociais, ao multiplicar as plateias e os
palcos, aguçaram esse traço. Se a política não deve redistribuir, sua missão é
ser a fonte do reconhecimento oficial do orgulho dos ajustados. Aos patriotas
precários, essa política oferece a manutenção da escala do prestígio com base
naquilo que já possuem: a disposição para prosperar, a conformidade às
convenções de gênero, a religiosidade cristã e a intolerância ao crime. Até a
“superioridade” quanto aos padrões de beleza faz parte do pacote.
Como
essa distinção trabalhadora é mais ancorada em ostentação simbólica do que em
arranjos coletivos, nada mais natural que ele seja lida como uma espécie de
valentia. Não por acaso, o político de extrema-direita parece, frequentemente,
uma espécie de coach da prosperidade e da masculinidade. O maior
testemunho disso ocorreu durante a pandemia, quando “#EuVouTrabalhar” foi a
principal hashtag dos opositores das medidas de distanciamento social
(Pinheiro-Machado, 2025).
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Balanço e confrontação
O
repertório básico da extrema direita não é rejeitar a diferença cultural, mas a
igualdade social. Enquanto houver democracia, a extrema direita tenderá mais a
lutar pela “exemplaridade” e o status superior dos estilos de vida
convencionais do que para eliminar a isonomia. Suas iniciativas na política
formal terão como foco reenquadrar os problemas distributivos como problemas
correcionais.
Um dos
caminhos capazes de furar essa estéril e antissocial política do reconhecimento
é a explicitação de bandeiras redistributivas em prol da classe trabalhadora. É
o que se vê na campanha pelo fim da escala 6×1: os “patriotas” recuam da
retórica da ameaça de tirania para a retórica tecnocrática do “tiro pela
culatra”, afirmando que a diminuição da jornada vai gerar desemprego. Como
análogo ocorreu quando o Congresso legislou sobre a isonomia salarial entre
homens e mulheres em 2023. Nessa votação, a extrema-direita ficou isolada,
brandindo o tosco argumento de que as mulheres seriam demitidas.
Agora
que Nayib Bukele aparece como grande referência do grupo, cabe mostrar todos os
equívocos do diagnóstico correcional acerca dos problemas públicos brasileiros.
Em 2025, houve oito vezes mais mortes causadas por forças policiais do que por
latrocínio. Agentes da polícia, por seu turno, morreram quatro vezes mais por
suicídio do que por confrontos durante o serviço (Fórum Brasileiro de Segurança
Pública).
Isso
mostra uma instituição sobrecarregada e adoecedora, cujos esforços violentos
para tornar o país seguro beiram a inutilidade, considerando que a taxa de
elucidação de homicídios é inferior a 40%. Seu trabalho é basicamente colocar
pessoas desarmadas e sem facção dentro do sistema prisional para, de lá, saírem
armadas e faccionadas (Soares, 2019). Cerca de 80 mulheres sofreram latrocínio
ano passado, mas 1.500 foram vítimas de feminicídio, denotando que o feminismo
e a educação para a equidade de gênero podem salvar mais vidas do que o braço
armado do Estado.
A
esquerda não é propriamente anti-meritocrática e nem anti-proprietária. Seu
traço é recolocar essas questões de modo coletivizante: o socialismo foi
historicamente concebido como um regime de gestão da propriedade coletiva e da
justa interdependência entre trabalhadores. Essas pautas continuam relevantes.
Isso se vê não apenas no sucesso da campanha pela redução da jornada, como no
fato de que até eleitores bolsonaristas defendem a oferta pública de saúde,
educação e aposentadoria (Nunes e Traumann, 2023).
A
valorização dessas bandeiras pode romper o monopólio da extrema direita nos
temas do trabalho e da propriedade. Teríamos assim a chance de resgatar a
política como arena de redistribuição do poder material e simbólico, formando
uma base mais igualitária e genuína para os projetos de autonomia pessoal.
Fonte:
Por Gustavo Neves Bezerra, em A Terra é Redonda

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