sábado, 3 de outubro de 2026

Honra, autoridade e fobia da redistribuição

A relação entre “pauta moral” e voto na extrema direita no Brasil tem sido mal interpretada. Muitos tomam pelo valor de face os enunciados em favor da tradição. Em contraste, sustento que o apelo do bolsonarismo provém do seu vínculo com as promessas mais ostentatórias da modernidade: o direito à particularidade (o proprietarismo) e a ascensão social via esforço (o utilitarismo).

Nesse sentido, o que recusam não é tanto o direito à diferença, mas a ideia de que a política seja uma arena de legítima redistribuição da honra, da propriedade, da autoridade e das oportunidades. Desinformação quanto ao Pix, “taxa das blusinhas”, IOF, INSS, Banco Master e segurança pública foram temas onde a extrema direita mais causou mais estragos à esquerda no último ciclo de quatro anos.

O bolsonarismo se apresenta como o mais intransigente defensor da cultura do particularismo e da performance. Seu projeto é instrumentalizar família, religião, escola, trabalho, polícia e sistema jurídico para a realização de uma sociedade de proprietários meritórios. Ele tensiona todas essas organizações, buscando delas eliminar as exigências solidaristas (“mi, mi, mi”) que onerariam uma missão primordial: regular e hierarquizar as pessoas, premiando os supostamente mais virtuosos e impondo correções aos “problemáticos”.

É por serem os representantes dogmáticos desse conteúdo que os vemos desdenhar de formalidades liberais, tais como a separação entre três poderes, respeito aos direitos humanos e a problematização da desigualdade social. A extrema direita internacional já mostrou que até o livre mercado pode ser desdenhado se convier a uma política nativista (baseada na propriedade de uma nacionalidade) anti-imigratória e xenófoba.

No vértice das promessas de propriedade e meritocracia está o valor da isonomia, isto é, a igualdade formal perante a lei. Esse valor tem um papel contraditório nas sociedades modernas: é ele que concede legitimidade às desigualdades socioeconômicas numa sociedade concorrencial. É por mitificarem isonomia, disciplina e particularismo que os “patriotas” qualificam de degeneradoras as cotas e as políticas de transferência de renda.

Colocando-se como os defensores do “Brasil produtivo”, numa falsa equivalência entre trabalhadores e capitalistas, precisam apagar ou obstruir a pauta trabalhista da esquerda, como o fim da escala 6×1. Buscam associar a esquerda apenas aos que vivem de assistência social, à criminalidade urbana, às construções de gênero alternativas, beneficiários de cotas ou a um mundo intelectual “inútil”.

O discurso de um motofretista bolsonarista, arrependido por ter votado em Lula tempos antes, deixa explícito como essa estigmatização ganhou força: “[a esquerda] falava muito em pobreza. Hoje, não gosto que fale muito nisso, pois a gente não tem que ficar nessa (…) Eu não quero que o governo me dê nada. Nada de bolsa isso, bolsa daquilo (…) Eu defendo só uma pauta, que é a do ser humano. Tem que criar lei para todos nós, não criar uma lei só para uma classe… para mim essa minoria não é ninguém (…) Não existe “igualar”, porque tem que ter a classe baixa, a classe média e ter a classe alta (…) a gente depende do empresário para colocar a nossa comida dentro de casa (…) Tem governo que só pensa em arrecadar (….). Pra gente ter essas coisas, tem que tirar o Estado das nossas costas” (Souza apud Klava, 2024).

Como a esquerda é a porta-voz das missões redistributivas do Estado, sua crise de imagem, em meados dos anos 2010, associada ao avanço do “indivíduo-empresa” trouxeram forte ceticismo à causa da redistribuição em si. Uma pesquisa de 2018 captou com clareza esse cenário. Excetuando os evangélicos, todos os grupos de renda, gênero, raça, escolaridade, religião e região acreditavam que Jair Bolsonaro era o candidato que mais beneficiaria os “ricos, empresários e banqueiros”.

Também concordavam, em coerente complemento, que Fernando Haddad seria o melhor para os “pobres” e para os “trabalhadores” (IBOPE-Inteligência, 2018). No entanto, somente 31% dos eleitores com renda familiar situada entre um e dois salários-mínimos declarava votar no candidato do PT. Jair Bolsonaro, por outro lado, mesmo sendo identificado como o candidato dos poderosos, venceu o pleito com 55% dos votos válidos.

<><> Tradição ou hipercapitalismo?

O bolsonarismo não foi engendrado por nenhum movimento societário de retorno à tradição. Pelo contrário, o contexto neoliberal de valorização da autonomia individual e do desempenho modernizou como nunca a família, a sexualidade e a religião, no sentido de as racionalizar para o hedonismo e a ascensão social. As disputas no campo religioso não são a causa primária das transformações sociopolíticas, mas a sua expressão, especialmente nas demandas por individuação, fervor sentimental e meritocracia.

Afinal, o campo religioso é menos forte hoje do que era no passado: a proporção de cristãos caiu 12% em quatro décadas. Evangélicos ainda não chegam a um terço da população e se caracterizam cada vez mais pelo binômio fragmentação-individualização da experiência religiosa. Uma evidência disso é que a Igreja Universal do Reino de Deus perdeu, em números absolutos, 10% dos seus fiéis entre 2000 e 2010 (Mariano 2013).

Ao longo do século XXI, as famílias continuam a encolher. Os casamentos ficam mais informais e mais curtos. A aceitação de que a mulher tenha trabalho ou renda própria supera 90% em todos os estratos de cor e gênero (Nunes, 2025, p. 47). Outro traço modernista das famílias foi o crescimento médio de 60% nas despesas com educação privada entre 2008 e 2017. No período, só as despesas com dívidas foram superiores.

Portanto, não se trata de tradicionalismo, mas de família normalizada a uma sociedade seletivista e desejante por prêmios de ajustamento. A família arca com o ônus e com as tensões de um mundo do trabalho individualizado e incerto. Por isto ela é um tema bolsonarista: funciona tanto como uma propriedade de distinção meritória num mundo “anômico” quanto como um caminho para distinção e prosperidade.

A valorização do esforço se combina a um ostentatório hedonismo, visível no investimento em beleza corporal, segmento em que o Brasil é um dos maiores mercados do mundo. O hedonismo também se revela nas buscas que os brasileiros fazem no Google. Nelas, mostra-se menos interesse em temas religiosos do que por celulares premium, pelo Big Brother Brasil, o futebol, as bets e criptomoedas. Embora apenas 18% dos proprietários de aparelhos celulares portem um IPhone, ele é o item específico mais procurado na internet brasileira, evidenciando o quanto o progresso material e os signos de status deixaram de ser anseios exclusivos da pequena burguesia.

<><> Três consequências políticas do performismo particularista

É preciso perceber que a generalizada valorização da isonomia, da responsabilidade individual e da propriedade particular tem três efeitos principais sobre a política. O primeiro é alimentar uma concepção antipolítica da própria política, isto é, uma visão minimalista, policialesca e administrativa dos problemas coletivos. A política é vista como “casa de correção”, restrita a lutas sanitizantes contra corrupção e bandidagem.

Além desse sentido evidente, subsiste um significado mais vasto: o proprietarismo tende a ver como “crime” toda e qualquer medida redistributiva exercida pelo Estado em favor dos dominados. A fobia da redistribuição fica patente no google trends, que mostra os brasileiros buscando mais o termo “comunismo” do que “corrupção” desde 2004, com pico nas eleições de 2018 e 2022.

O que caracteriza a “política patriota” é a acusação à priori de que a esquerda é expropriativa e caminha para o autoritarismo, mesmo quando suas propostas produzem desenvolvimento econômico ou social. Javier Milei foi explícito quando veio prestigiar o lançamento da candidatura Flávio Bolsonaro: “não se surpreenda que sempre haverá socialistas ao lado de ladrões, porque os socialistas são ladrões”. Concebendo a política pela metáfora da guerra aos problemáticos, nada mais natural do que se voltar à destruição da reputação de quem defende alguma forma de redistribuição. Quase não há “programa”, mas sobra a estratégia.

Nos termos de Chantal Mouffe, a extrema-direita cultiva o conflito político (the political) justamente porque descrê na política (politics) como a arte de conduzir a uma boa vida em comum. Esse “comum” não existe; há apenas uma coleção de particulares que devem se defender do Outro a partir de técnicas de soberania territorial e simbólica: muros, armas, fronteiras, certificados de pertencimento etc.

Em segundo lugar, utilitarismo e proprietarismo engendram uma visão de luta de classes distinta do marxismo: ela se desloca do conflito entre capital e trabalho para uma luta dos “produtivos” contra uma plebe “ociosa e perigosa”. Essa divisão simbólica, reforçada tanto pelo bolsa-família quanto pela criminalidade, é capaz de explicar por que a maioria dos brasileiros com renda familiar menor do que dois salários-mínimos considera pertencer à “classe média”. Também a maioria acredita que os pobres não se esforçam para melhorar de vida e que bolsas e auxílios desincentivam o trabalho (Nunes, 2025).

A terceira característica complementa aquelas duas: é tornar a política basicamente um terreno da luta por status numa sociedade competitiva, confirmando “a dignidade superior” dos que ostentam um estilo de vida aderente às relações de dominação. As redes sociais, ao multiplicar as plateias e os palcos, aguçaram esse traço. Se a política não deve redistribuir, sua missão é ser a fonte do reconhecimento oficial do orgulho dos ajustados. Aos patriotas precários, essa política oferece a manutenção da escala do prestígio com base naquilo que já possuem: a disposição para prosperar, a conformidade às convenções de gênero, a religiosidade cristã e a intolerância ao crime. Até a “superioridade” quanto aos padrões de beleza faz parte do pacote.

Como essa distinção trabalhadora é mais ancorada em ostentação simbólica do que em arranjos coletivos, nada mais natural que ele seja lida como uma espécie de valentia. Não por acaso, o político de extrema-direita parece, frequentemente, uma espécie de coach da prosperidade e da masculinidade. O maior testemunho disso ocorreu durante a pandemia, quando “#EuVouTrabalhar” foi a principal hashtag dos opositores das medidas de distanciamento social (Pinheiro-Machado, 2025).

<><> Balanço e confrontação

O repertório básico da extrema direita não é rejeitar a diferença cultural, mas a igualdade social. Enquanto houver democracia, a extrema direita tenderá mais a lutar pela “exemplaridade” e o status superior dos estilos de vida convencionais do que para eliminar a isonomia. Suas iniciativas na política formal terão como foco reenquadrar os problemas distributivos como problemas correcionais.

Um dos caminhos capazes de furar essa estéril e antissocial política do reconhecimento é a explicitação de bandeiras redistributivas em prol da classe trabalhadora. É o que se vê na campanha pelo fim da escala 6×1: os “patriotas” recuam da retórica da ameaça de tirania para a retórica tecnocrática do “tiro pela culatra”, afirmando que a diminuição da jornada vai gerar desemprego. Como análogo ocorreu quando o Congresso legislou sobre a isonomia salarial entre homens e mulheres em 2023. Nessa votação, a extrema-direita ficou isolada, brandindo o tosco argumento de que as mulheres seriam demitidas.

Agora que Nayib Bukele aparece como grande referência do grupo, cabe mostrar todos os equívocos do diagnóstico correcional acerca dos problemas públicos brasileiros. Em 2025, houve oito vezes mais mortes causadas por forças policiais do que por latrocínio. Agentes da polícia, por seu turno, morreram quatro vezes mais por suicídio do que por confrontos durante o serviço (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).

Isso mostra uma instituição sobrecarregada e adoecedora, cujos esforços violentos para tornar o país seguro beiram a inutilidade, considerando que a taxa de elucidação de homicídios é inferior a 40%. Seu trabalho é basicamente colocar pessoas desarmadas e sem facção dentro do sistema prisional para, de lá, saírem armadas e faccionadas (Soares, 2019). Cerca de 80 mulheres sofreram latrocínio ano passado, mas 1.500 foram vítimas de feminicídio, denotando que o feminismo e a educação para a equidade de gênero podem salvar mais vidas do que o braço armado do Estado.

A esquerda não é propriamente anti-meritocrática e nem anti-proprietária. Seu traço é recolocar essas questões de modo coletivizante: o socialismo foi historicamente concebido como um regime de gestão da propriedade coletiva e da justa interdependência entre trabalhadores. Essas pautas continuam relevantes. Isso se vê não apenas no sucesso da campanha pela redução da jornada, como no fato de que até eleitores bolsonaristas defendem a oferta pública de saúde, educação e aposentadoria (Nunes e Traumann, 2023).

A valorização dessas bandeiras pode romper o monopólio da extrema direita nos temas do trabalho e da propriedade. Teríamos assim a chance de resgatar a política como arena de redistribuição do poder material e simbólico, formando uma base mais igualitária e genuína para os projetos de autonomia pessoal.

 

Fonte: Por Gustavo Neves Bezerra, em A Terra é Redonda

 

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