Vorcaro
forneceu jatinho e Moët Chandon a desembargador para viagem a Buenos Aires,
mostram mensagens
Trocas
de mensagens extraídas do telefone celular do banqueiro Daniel Vorcaro pela
Polícia Federal (PF) e obtidas pela BBC News Brasil apontam que o desembargador
federal do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) Newton Ramos solicitou
ajuda ao empresário para fazer uma viagem de Brasília a Buenos Aires no fim de
novembro de 2024 em jatinhos privados vinculados ao empresário.
As
conversas indicam que Vorcaro teria disponibilizado duas aeronaves para
realizar o deslocamento e providenciado bebidas como whisky, cerveja e até
mesmo espumantes das marcas Moët Chandon e Don Pérignon para o magistrado
durante o voo. As mensagens não indicam, no entanto, se Newton Ramos embarcou
de fato no voo.
As
relações entre Ramos, sua mulher, a advogada Camilla Ramos, e Daniel Vorcaro
chamaram atenção nos últimos dias depois da revelação de um contrato de até R$
427 milhões firmado entre o banqueiro e o escritório da advogada para
representar o banco em causas que tramitam no TRF1 e no Superior Tribunal de
Justiça (STJ) relacionadas a pré-precatórios (dívidas judiciais) do setor
sucroalcooleiro compradas pelo Master no valor de R$ 8,5 bilhões. O valor de R$
427 milhões equivale a uma taxa de sucesso de 5% sobre o total dos precatórios
em disputa.
Na
semana passada, Ramos foi alvo de uma operação do Conselho Nacional de Justiça
(CNJ), com o auxílio da PF, depois que o contrato veio à tona.
Mensagens
também obtidas pela BBC News Brasil sugerem que Newton Ramos é citado por
interlocutores de Vorcaro junto ao termo "Turma do KN".
Investigadores
da PF suspeitam que a abreviação seja uma referência ao ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF) Kássio Nunes Marques, de quem o desembargador foi
juiz-auxiliar durante a passagem de Marques pelo TRF-1.
Esta
não é a primeira vez que as relações entre Vorcaro e membros do Judiciário
chamam atenção. Desde que foi preso pela primeira vez, em novembro de 2025, as
investigações da PF apontaram suspeitas de ligação do banqueiro com ministros
do STF como o ministro Dias Toffoli e Alexandre de Moraes e com os filhos dos
ministros Kássio Nunes Marques e Luiz Fux.
Em nota
enviada à BBC News Brasil, Nunes Marques disse que "nunca votou a favor de
Daniel Vorcaro" e nunca trocou mensagens com ele. A nota também reconheceu
sua amizade com Newton e Camilla Ramos, mas negou ter atuado em favor de ações
do escritório da advogada.
"É
de conhecimento público que o ministro é amigo do casal Newton e Camilla e se
declara suspeito para as ações do escritório dela. São irresponsáveis quaisquer
tentativas de relacionar a atuação do ministro com a conduta de
terceiros", disse o ministro.
Também
em nota, Camilla Ramos reconheceu o voo citado pela BBC News Brasil.
"A
advogada Camilla Ramos esclarece que o voo mencionado foi de sua
responsabilidade e teve caráter estritamente particular, sem qualquer vínculo
comercial", disse um trecho da nota.
A
advogada negou, no entanto, que seus serviços ao Banco Master tivessem relação
com a atividade de membros do Judiciário.
"A
advogada presta serviços ao Banco Master exclusivamente em processos cíveis,
sobretudo na área tributária, não se confundindo sua atividade com a de
qualquer magistrado, seja do TRF1, seja do STF", disse.
A
advogada disse ainda que seu escritório nunca atuou nos casos relacionados aos
interesses do Banco Master junto à Segunda Turma do STF, da qual Kássio Nunes
Marques faz parte.
Procurados,
Newton Ramos e a defesa de Daniel Vorcaro não se manifestaram.
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A viagem
As
mensagens entre Vorcaro e Newton Ramos sobre a viagem a Buenos Aires obtidas
pela BBC News Brasil sugerem que os detalhes logísticos começaram a ser
discutidos em 13 de novembro de 2024.
Naquele
dia, Ramos enviou as datas e os pontos de partida e chegada do que os registros
da conversa sugerem ser sua viagem para Buenos Aires.
"29/11
pela manhã - Bsb/Buenos Aires
01/12
pela tarde - Buenos Aires/Bsb"
Sem uma
resposta, em 19 de novembro, Ramos pediu uma posição de Vorcaro.
"Depois
confirma para mim?", disse o desembargador a Vorcaro.
Dois
minutos depois, o banqueiro respondeu: "Confirmado".
Em
seguida, Ramos perguntou se Vorcaro também iria a Buenos Aires, mas o banqueiro
não respondeu.
Em 23
de novembro, Ramos voltou a fazer contato com Vorcaro. Queria saber o porte do
avião.
"Amigo,
tudo bem? Depois me confirma quantos assentos têm a aeronave", indagou o
desembargador.
No dia
seguinte, Vorcaro respondeu: "9".
Logo
depois, o desembargador agradeceu: "Beleza". E, em seguida, mencionou
que cuidaria de um tema.
"Outra
coisa: amanhã estarei no Brasil e vou atualizar aquele assunto", disse o
desembargador, sem revelar o que seria.
"Aí
falo com você", completou o magistrado.
Logo
depois, Vorcaro encaminhou o contato de uma pessoa conhecida como
"Berg", que, nas mensagens extraídas pela PF, aparece como
responsável pelos trâmites logísticos da frota de aeronaves do banqueiro.
O
banqueiro, então, mudou de assunto.
"Vai
ter julgamento dia 4", disse.
"Não
sei se viu", complementou.
Logo
depois, Ramos respondeu, mas a mensagem foi apagada.
Em 2 de
dezembro, um dia depois do fim previsto da viagem a Buenos Aires, o
desembargador enviou uma mensagem de agradecimento ao banqueiro.
"Bom
dia. Obrigado pelo apoio no fim de semana", disse.
"Se
vier essa semana a Brasília me avisa pra gente atualizar os assuntos",
completou o magistrado.
Vorcaro
respondeu que estaria na capital federal naquela semana.
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Moët Chandon e Don Pérignon a bordo
As
mensagens obtidas pela BBC News Brasil também sugerem que Vorcaro mobilizou
seus funcionários e sua frota de aeronaves para atender ao pedido de Newton
Ramos.
Em 27
de novembro, uma funcionária de Vorcaro avisou ao banqueiro que uma pessoa
chamada "Newton" lhe havia mandado mensagens solicitando um avião.
A
funcionária alertou Vorcaro que não seria possível atender ao pedido do
magistrado.
"Não
tenho avião pra atender, GAF está no limite das horas para trocar motor, e está
pesquisando uma pane", disse a funcionária. GAF parece ser uma menção a
algum prefixo de aeronave usada por Vorcaro.
A
funcionária faz um relato sobre a disponibilidade de outras aeronaves, mas
Vorcaro deixa claro que o pedido de Newton era para ser atendido.
"Eu
preciso arrumar avião pro Newton", disse o banqueiro.
"Já
tinha comprometido", afirmou.
"Fsw
vai e volta então", complementou, indicando o prefixo do avião PS-FSW, um
jatinho modelo Falcon 2000, fabricado pela francesa Dassault, e avaliado entre
R$ 20 milhões e R$ 30 milhões.
O avião
está em nome da empresa SPE-FSW, que tem entre os sócios o cunhado de Vorcaro,
Fabiano Zettel.
Vorcado
está preso desde março, assim como Zettel, apontado pela PF como um dos
operadores financeiros do banqueiro.
Em
seguida, a funcionária avisou que enviaria outra aeronave para buscar Ramos em
Buenos Aires.
Em
outro momento, a funcionária informou o banqueiro sobre os preparativos para a
viagem do desembargador.
"Estou
colocando Haineken (sic) e Moet Chandon pro voo do Newton", disse a
funcionária na véspera da viagem, em 28 de novembro, às 13h04.
Ela
ainda perguntou se o banqueiro gostaria que fosse oferecida outra marca de
espumante.
Vorcaro
disse que não, mas pediu um complemento.
"Coloca
whiskey, dom perignon", diz o banqueiro, referindo-se, também, a um
champanhe com preço estimado entre R$ 2 mil e R$ 3 mil por garrafa.
Dias
depois, Berg procurou Vorcaro para saber qual empresa arcaria com a despesa dos
voos.
"O
centro de custo do voo do Newton será: viking ou Banco??"
Às
15h25min26s, Vorcaro respondeu: "Banco".
Viking
é o nome de uma das empresas do conglomerado vinculado ao banqueiro.
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'Turma do KN'
A
relação de Daniel Vorcaro e a mulher de Newton Ramos, a advogada Camilla Ramos,
tinha como pano de fundo um negócio bilionário: créditos de pré-precatórios
cobrados da União por empresas do setor sucroalcooleiro.
Precatórios
são dívidas que governos acumulam após perderem processos na Justiça e serem
condenados a pagar indenizações a particulares.
Essas
dívidas formam uma fila de pagamentos com diferentes expectativas de quitação,
criando incerteza para credores sobre quando o dinheiro será pago.
Documentos
apontam que Vorcaro e suas empresas compraram pré-precatórios, ou seja, dívidas
que ainda não haviam sido reconhecidas judicialmente, do setor sucroalcooleiro.
Esses títulos eram, depois, usados com lastro para fundos de investimento e
negociados no mercado.
Os
papéis envolviam a expectativa de recebimento de dívidas de até R$ 8,5 bilhões
referentes a processos movidos por empresas do setor contra a União em função
do controle de preços do álcool nos anos 1980 e 1990.
Mas,
para receber esse valor, Vorcaro precisava, antes, de decisões favoráveis na
Justiça.
Atualmente,
a aquisição de direitos creditórios permite aos seus detentores apostar no
recebimento futuro de uma indenização.
Segundo
documento revelado pelo site Metrópoles e pela CNN Brasil, o acordo com o
escritório de Camilla Ramos previa honorários, em caso de sucesso nas causas,
equivalentes a 5% líquidos dos valores recebidos pelo banco.
Se
todas as causas fossem bem-sucedidas, o grupo de Vorcaro poderia faturar até R$
8,5 bilhões, rendendo até R$ 427 milhões a Camilla Ramos. Segundo o escritório
de Camilla Ramos, os casos do Banco Master sob sua responsabilidade tramitam no
TRF-1 e STJ.
As
mensagens obtidas pela BBC News Brasil também registram uma conversa de Camilla
Ramos com Vorcaro sobre processos do setor sucroalcooleiro. Em 19 de fevereiro
de 2024, às 17h59min25s, ela escreveu: "Boa tarde, Daniel. Estou no
aguardo da relação dos processos do Sucro que você ficou de nos passar para
análise e trabalho".
A
expressão "Turma do KN" e "Turma do KN/Newton" foi usada em
outros diálogos obtidos pela BBC News Brasil envolvendo o banqueiro. Em um
deles, em fevereiro de 2025, o funcionário de uma agência de turismo e recepção
informa Vorcaro sobre um pedido da "turma".
"Dani,
turma do KN/Newton me mandou aqui 6 nomes para colocar na lista do
Camarote…posso encaminhar isso la pra lista do Camarote, neh?", perguntou,
em referência a acessos a um camarote no Carnaval do Rio de Janeiro.
Em
nota, Nunes Marques diz que nunca pediu nada a Vorcaro e que, no desfile das
escolas de samba campeãs do Carnaval do Rio de Janeiro, em 2025, ele passou por
vários camarotes, mas ficou no que era mantido pela Prefeitura do Rio de
Janeiro.
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Crise do Master envolvendo magistrados
A
relação entre Vorcaro e Newton Ramos não é a única entre o banqueiro e
integrantes do Judiciário.
Desde
que foi preso, em novembro de 2025, mensagens obtidas pela PF apontam que
Vorcaro trocaria mensagens com o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e que
sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, firmou um contrato de R$ 129
milhões com o banqueiro.
O
escritório reconheceu, em notas divulgadas à imprensa, que foi contratado pelo
Banco Master, mas negou que Moraes tenha atuado em quaisquer processos
relacionados ao banqueiro.
Em
setembro, veio à tona um relatório elaborado pela PF sobre supostas trocas de
mensagens entre Moraes e Vorcaro. Em uma dessas mensagens, no dia 15 de
novembro de 2025, Vorcaro indaga a Moraes sobre se ele deveria estar
"fora" até o dia 17 daquele mês. Naquele dia, Vorcaro foi preso pela
primeira vez.
Moraes
classificou as alegações sobre as supostas conversas com Vorcaro de
"diálogos fantasiosos" e diz que suas supostas mensagens "nunca
existiram".
Em
setembro, o jornal O Globo revelou que Moraes e Viviane realizaram voos em
aeronaves vinculadas a Vorcaro.
Na
época, o escritório da advogada justificou os voos afirmando que teria
contratado a empresa Prime You, ligada ao banqueiro, e que teria a propriedade
do avião.
André
Mendonça, o atual relator da investigação Compliance Zero, que apura crimes
financeiros supostamente praticados por Vorcaro, pediu a abertura de
investigação contra Moraes, o que gerou semanas de embates no STF.
Outro
ministro com supostos vínculos com Vorcaro é Dias Toffoli, que era sócio de um
resort que foi comprado por empresas ligadas ao banqueiro.
Em nota
divulgada em fevereiro, quando deixou a relatoria do caso, Toffoli negou
irregularidades e disse que "jamais teve qualquer relação de amizade e
muito menos amizade íntima com o investigado Daniel Vorcaro. Por fim, o
Ministro esclarece que jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro".
As
mensagens de Vorcaro obtidas pela BBC News Brasil também apontam que ele
mantinha conversas com o filho de Luiz Fux, o advogado Rodrigo Fux. Nos
diálogos, os dois se tratavam pelo termo "irmão".
Em nota
enviada à CNN Brasil, Rodrigo Fux disse que os diálogos representam uma
tentativa de aproximação comercial e disse que nunca recebeu valores de Vorcaro
ou de suas empresas e que nunca advogou ou foi contratado por ele.
As
mensagens também mostram menções ao filho de Kássio Nunes Marques, o advogado
Kevin Nunes e um suposto pagamento de R$ 500 mil mensais a ele.
Em nota
enviada à coluna da jornalista Andreia Sadi, da GloboNews, Kevin negou ter
prestado serviços ao Master e negou ter recebido dinheiro de Vorcaro. Ele
disse, contudo, que recebeu um pagamento de R$ 281,6 mil da empresa Consult, a
quem ele teria prestado serviços jurídicos na área tributária e administrativa.
A nota
diz ainda que "a atuação profissional do advogado Kevin Marques em favor
da Consult não tem qualquer relação com o Supremo Tribunal Federal."
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Leia as notas na íntegra
>>>>
Kássio Nunes Marques
"Resposta
à BBC
O
ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive
deu voto pela manutenção da prisão), nunca trocou mensagens com ele e nem pediu
nada ao banqueiro. Apenas o conheceu, mas não tinha relação próxima e nunca
tratou sobre processo. O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em
nome dele.
O
ministro não participou das viagens mencionadas. Em relação ao desfile das
campeãs no sábado após o Carnaval, o ministro passou por diversos camarotes e
ficou no Camarote da Prefeitura do Rio de Janeiro.
É de
conhecimento público que o ministro é amigo do casal Newton e Camilla e se
declara suspeito para as ações do escritório dela. São irresponsáveis quaisquer
tentativas de relacionar a atuação do Ministro com a conduta de
terceiros.">>>> Camilla Ramos
"Nota
de esclarecimento
A
advogada Camilla Ramos esclarece que o voo mencionado foi de sua
responsabilidade e teve caráter estritamente particular, sem qualquer vínculo
comercial.
A
advogada presta serviços ao Banco Master exclusivamente em processos cíveis,
sobretudo na área tributária, não se confundindo sua atividade com a de
qualquer magistrado, seja do TRF1, seja do STF.
No que
diz respeito à atuação para o Banco, o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz
& Ramos possui contrato formal apenas de êxito e está devidamente
habilitado nos respectivos processos, no pleno exercício das prerrogativas da
advocacia, não tendo recebido qualquer valor relativo ao contrato.
Esclarece,
ainda, que o escritório nunca atuou no processo relacionado a usinas de
cana-de-açúcar em tramitação na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal
(STF)."
Fonte:
BBC News Brasil

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