Redes,
moral, identificação e mais: o que as eleições revelam, mas não aparece nas
urnas
Neste
domingo (4), os eleitores brasileiros votaram em seus representantes para os
cargos de presidente, governadores, senadores e deputados. Apesar da
possibilidade da decisão para os cargos executivos ser definida apenas em um
segundo turno e estender os prazos das campanhas eleitorais, a pauta política
não deve se restringir apenas às vésperas de votação. Entender e acompanhar a
atuação de cada cargo e partidos é fundamental para o desenvolvimento do país
nos próximos anos.
Além do
presidente e governadores de todas as unidades da federação, também serão
definidas 513 cadeiras na Câmara e 54 das 81 do Senado. Para a cientista
política Tathiana Chicarino, entrevistada no Pauta Pública desta semana, em um
cenário de crescente personalização da política, os papéis dos partidos e do
Legislativo muitas vezes ficam em segundo plano. Na conversa com Andrea Dip,
ela também chama atenção para a forma como escândalos políticos e de corrupção
ocupam o debate eleitoral, principalmente em período de campanha, e acabam
transformando a política em espetáculo.
Coordenadora
do curso de sociologia e política da Fundação Escola de Sociologia e Política
de São Paulo (Fesp-SP) e pesquisadora do Observatório de Conflitos Online da
Universidade Federal do ABC (UFABC), Chicarino afirma que “as eleições já têm
um teor bastante personalizado e passa a ser consumida numa lógica entre bem e
mal, com um enredo como se fosse uma novela ou um folhetim, e isso é muito
despolitizante” e acrescenta que a política precisa ser trazida novamente para
o debate público.
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Leia os principais pontos da conversa:
• Às vésperas das eleições, sob as atuais
denúncias e conflitos envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), os debates
sobre as propostas políticas ficaram em segundo plano. Porém, a composição do
Supremo depende diretamente de quem ocupa a presidência da República e o Senado
Federal. Por que o Congresso Nacional é peça central na disputa de poder? E
qual a importância de entendermos a atuação de cada cargo político e da
relevância dessas eleições?
A gente
costuma dizer que desde por volta de 2013, embora tenham eventos anteriores a
isso, como a crise econômica de 2008, de 2010 em diante, inaugurou-se uma
“década crítica” em que uma série de crises, de hegemonia e escândalos, vão
perpassando nossa política institucional. Tivemos junho de 2013, Lava Jato;
2018, eleição do Bolsonaro, e agora mais uma eleição que, de novo, reforçamos
sua importância, que se insere nessa conjuntura um pouco mais ampla.
• Olhando para o STF, podemos até traçar
um pouco antes, com o Mensalão. Em toda a dinâmica de espetacularização que o
poder judiciário vem tendo no Brasil, a partir dos anos 2000, o Mensalão é um
momento muito importante. Historicamente, a gente dá muito mais atenção às
eleições dos cargos majoritários: presidência da república, governo de estado e
prefeituras. As eleições já têm um teor bastante personalizado, então, quem é o
candidato? O que aquele candidato representa em oposição a uma outra personalidade
política?
No
nosso período de construção de um sistema partidário no Brasil, por volta dos
anos 1930, quando começamos a estruturar partidos políticos, temos um período
de ditadura. Depois uma quadra democrática, a primeira com certa estabilidade –
mas bem longe de ser Estado [Democrático de Direito]. Tem Juscelino Kubitschek
quase não assumindo; Jânio Quadros renunciando; golpe [de 1964]… Quer dizer, os
partidos, que estavam se estruturando, tendo alguma capacidade de articulação
nacional e também de identificação, isso também é interrompido ali com a
ditadura. Que depois vem a Arena e o MDB. Com a redemocratização, em 1979,
abre-se uma lei orgânica de partidos e aí a possibilidade de criação de vários
partidos.
O
Partido dos Trabalhadores (PT), partido com a maior identificação partidária, é
criado nesse contexto. De lá para cá, temos muitos partidos. É claro que, com
algumas legislações de cláusula de desempenho – a chamada cláusula de barreira
também –, se tenta diminuir o número de partidos políticos. Ainda assim, são
muitos partidos e as pessoas mal conseguem identificar quais partidos são e
qual a diferença entre um e outro. Vira tudo uma coisa grande, homogênea e
disforme, chamada Centrão, e, do outro lado, o PT.
Mas,
quando a gente fala de cargos do legislativo, é fundamental entendermos essa
estrutura partidária. Porque, para deputados estaduais, federais e vereadores,
nós votamos no partido, não votamos na pessoa em primeiro lugar. Nós votamos no
partido e dizemos quem gostaríamos que ocupasse a cadeira que o partido
porventura venha a ganhar.
O nosso
trabalho é quase ranquear os candidatos. Assim, fica muito difícil para as
pessoas entenderem as crises institucionais, que se estendem. Além das pessoas
conseguirem pouco identificar o papel dos partidos no legislativo, essa eleição
ainda foi completamente capturada por todo o discurso de escândalo político e
de corrupção. É uma eleição bastante complexa desse ponto de vista.
• Com as redes sociais, temos visto um
crescimento justamente nessa personificação de quem ocupa os cargos políticos e
menos destaque no peso institucional partidário, mesmo em projetos políticos,
na composição do Congresso. Porque, na verdade, as campanhas políticas não
acabam nunca, elas continuam online ininterruptamente e de uma maneira
totalmente personificada. Então, quais são os efeitos e riscos dessa
personalização e dessa espetacularização da política?
A
espetacularização da política não é de agora, mas ela se intensifica. Então, o
que seria essa espetacularização da política? É a gente consumir a política
como uma mercadoria, e, sendo uma mercadoria: “eu vou escolher aquilo que mais
me convém, se serve mais para mim, se tem mais status’. Enfim, ela passa a ser
uma dinâmica bastante individualizante e muito pouco responsável, na qual as
pessoas “se tornam muito pouco responsáveis por aquilo que consomem”. E
política não é assim.
O
político que está lá, eleito por nós, não é o nosso funcionário. Não é assim
que funciona a política. A política tem como base interação e coletividade.
Então, uma vez que votei, consumi, pronto, paguei, minha responsabilidade
acabou. A espetacularização é exatamente isso: consumir a política a partir da
mercadoria, da imagem do espetáculo, enquanto uma passividade. “Eu sou a
plateia e o espetáculo está ali, e eu estou consumindo aquele espetáculo”.
Porque
a lógica algorítmica das plataformas vai tracionar ainda mais esse tipo de
conteúdo e adicionando a isso, uma camada de personalização, que tem relação
com o histórico da construção da política no Brasil, especialmente em um
sistema presidencialista.
Não
importa o meu perfil – se eu estou em um coletivo ou partido político – as
redes tracionam ainda muitos conteúdos que são individualizantes, de indivíduos
personalizados. Então, esses dois elementos, a personalização e a
espetacularização, ganham ainda mais fôlego, mais ênfase nesse contexto de
plataformização, e aí coloca-se uma terceira: o escândalo.
• A escandalização da política, que também
temos passado em alguns momentos de lá para cá – e eu estou falando dessa
década crítica de 2013 – tendo como marco importante esse processo de
escandalização. A política passa a ser consumida numa lógica entre o “bem e o
mal”, entre o “mocinho e o bandido”, tem um enredo que acompanha-se como se
fosse uma novela, um folhetim. Isso é muito despolitizante, porque a política
fica capturada nesse contexto pela moral. Então, “a moral diz o que é certo, o
que é errado, o que é o bom, o que é o mal” e aí as pessoas ficam até um pouco
confusas. “Nossa, mas ele era bonzinho, agora não é mais?”
E por
quê? Porque a política é tratada dessa maneira, a partir da moralização. Também
temos outras questões, como o corte neoliberal nas nossas vidas como um todo,
na nossa vida, no trabalho e também na política, que puxa para uma
superindividualização. Tudo isso que estamos vivendo.
Agora,
como sair disso? A política precisa ser trazida novamente para o debate, a
política, política mesmo, a discordância, a busca por consensos, ainda que
sejam consensos temporários. Porém, dentro dessa década tem sido complexo
trabalhar isso. Em termos, como de Antonio Gramsci (1891-1937), estamos
passando por uma crise de hegemonia. Nessa década crítica em que é muito
difícil encontrarmos um sentido de direção política.
• Por isso que a eleição é importante, mas
ela é um momento. Se tratarmos a eleição como algo que vai resolver todos os
nossos problemas, ano que vem, vamos voltar aqui e falar “nossa, e as
instituições, hein?”
Inclusive
vimos isso acontecer na passagem de Bolsonaro para Lula em 2023. Quando Lula é
eleito, então pensa-se que “acabou a extrema direita no Brasil”; depois quando
Bolsonaro é preso, pensa-se “acabou a extrema direita e o bolsonarismo no
Brasil”. Mas estamos vendo que não é assim. Como se deu a movimentação da
direita, nesse caso?
É
interessante trazer essa questão do Bolsonaro, enquanto a vitória eleitoral em
2018. Eu falo muito isso: “ele não é como um raio de luz que apareceu no céu
azul, de repente. Nossa, ninguém estava vendo e, de repente, um candidato de
extrema direita é eleito”. A construção já vinha acontecendo nas redes, desde
pelo menos 2010. Por uma rearticulação das chamadas “novas direitas”,
articulando-se com uma direita mais tradicional, uma direita muito radical, uma
direita das “viúvas da ditadura”.
Todos
esses movimentos ajudaram a rearticular essa direita, que passa a não ter mais
vergonha e encontra em Bolsonaro um projeto político viável, do ponto de vista
eleitoral. E isso não aconteceu só no Brasil; também pode-se pensar isso nos
Estados Unidos, em outros países em que a extrema direita também passa a ter
essa viabilidade eleitoral. Mas não foi uma derrota em 2018. Eles elegeram uma
série de senadores, deputados, governadores, e em 2022 também, com muita
estratégia, com táticas muito claras.
Então,
isso está acontecendo de forma sistemática desde 2010. Em 2018, tem esse
momento importante da vitória à presidência da República. De fato, a cadeira de
presidente importa, tem muito poder, tem capacidade de desarticular projetos
políticos que estão em andamento, em disputa, tem um processo de
desinstitucionalização muito grande, de rompimento de política pública. O
retrocesso é muito grande; perder uma presidência da República é algo muito
importante, mas não resolve todos os problemas. – Como eu estava falando – o
Jair Bolsonaro perde em 2022, é preso, julgado e, ainda assim, existe uma força
política e social bastante expressiva.
Fonte:
Por Andrea DiP, Stela Diogo, Ricardo Terto, Sofia Amaral e Natália Perez, da
Agencia Pública

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