segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Sergio Ferrari: Fé, política e desigualdade - uma encruzilhada latino-americana

No último ano, em vários países latino-americanos, como no Chile, no Equador, na Colômbia e no Peru, chegaram ao poder governos que estão alinhados ao presidente dos EUA, Donald Trump, e multiplicam-se os discursos fundamentalistas, e até messiânicos.

Nesse contexto de um continente que está se voltando para a direita, as eleições presidenciais no Brasil são de particular importância, assim como a próxima visita, do Papa Leão XIV à América do Sul, em novembro próximo.

Nessa conjuntura particular de uma região majoritariamente cristã –profundamente enfraquecida e polarizada economicamente–, a questão que adquire uma dimensão particular é se a Teologia da Libertação, nascida na década de 60 e que tem sido promotora de mudanças sociais, ainda permanece vigente.

<><> Projetos que se enfrentam

Se há algo que continua constante no vasto mundo do cristianismo latino-americano é a existência de dois setores ou projetos, explica Nelson Villarreal Durán, filósofo uruguaio, professor, especialista em questões religiosas e assessor da Conferência Episcopal de seu país em questões relacionadas à memória e à busca pelos desaparecidos durante a ditadura.

O que se denomina Teologia da Libertação, explica Villarreal, “ainda está presente na dinâmica de muitas comunidades, em suas práticas diárias e, inclusive, se consolidou e penetrou na estrutura cultural católica e também evangélica como método para partir da realidade. Esse aspecto metodológico é fundamental, porque a Teologia da Libertação com o método VER (a realidade, mediada pelas ciências sociais), JULGAR (abordagem bíblica), AGIR (praxis transformadora), se distingue de outras concepções teológicas abstratas, especialmente as defendidas na Europa”.

O Papa Francisco legitimou alguns dos conceitos que foram seus pilares, e os incorporou em suas Encíclicas e documentos. Da mesma forma, seu sucessor, Leão XIV, “marcado por sua própria experiência ao longo dos anos no trabalho pastoral em bairros e comunidades humildes do Peru, mantém e defende esses conceitos enquanto essência da prática de uma Igreja centrada nos pobres”. Ambos “sustentam que ser cristão é estar com os pobres e excluídos, em prol do meio ambiente, em defesa da Terra e contra a guerra. E essa concepção continua tendo uma força importante na Igreja latino-americana”. Em geral, as Conferências Episcopais do continente, com um bom número de bispos e cardeais nomeados pelo Papa Francisco, “defendem em parte as diretrizes que, paradoxalmente, até sua eleição, foram combatidas pelo próprio poder institucional do Vaticano”.

Por outro lado, o outro projeto de Igreja, “também continua existindo e é assumido por um setor do bispado e do corpo sacerdotal, especialmente pelos padres mais jovens. Prioriza questões morais em detrimento dos temas políticos; baseia-se em tudo que expressa religiosidade popular para estar alinhado com a base social e defende valores tradicionais, negando os valores gerados nas novas realidades sociais e culturais. Representa uma visão conservadora que coincide com aquela defendida pelos setores mais reacionários das igrejas evangélicas. Se para esses setores do catolicismo, por exemplo, a Virgem é a expressão de um tipo de família, da mesma forma, os televangelistas reivindicam, a partir de sua perspectiva, a família tradicional e a prática espiritual despolitizada”.

Segundo Villarreal, essa igreja tradicional está entrelaçada com os novos governos conservadores. E acrescenta: “se a Teologia da Libertação alimentou comunidades eclesiais, movimentos sociais no campo e na cidade, forças e governos progressistas em todo o continente, os setores tradicionais e seus discursos fundamentalistas sustentam as propostas dessa nova direita que está se expandindo atualmente”.

<><> “A voz dos sem voz diante das injustiças”

O papel principal da Igreja, “ancorada no Evangelho e em sua rica tradição, é ser um sinal de contradição diante de qualquer poder político”, diz o Cardeal brasileiro Jaime Spengler, que, atualmente, preside tanto a Conferência Episcopal do Brasil quanto o Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM). “A Igreja esteve, está e estará pronta para colaborar onde houver determinação política para cuidar da vida e promovê-la –especialmente a dos mais vulneráveis– em conformidade com os valores evangélicos”. Nas últimas décadas, o Cardeal Spengler especifica, “ela [a Igreja] tem sido, frequentemente, a voz dos sem voz diante de regimes de exceção e de injustiças promovidos por forças sombrias na sociedade”.

Quando se trata de conceituar o catolicismo latino-americano, o prelado brasileiro menciona a longa tradição e a religiosidade popular. Reconhece o surgimento de diversas denominações cristãs e não cristãs que começaram a desafiar a Igreja e suas escolhas pastorais. Mas, também ressalta com otimismo o “retorno de fiéis à comunidade católica, destacando o impressionante número de adultos que buscam os sacramentos da iniciação cristã”, embora não subestime a preocupação com o crescimento do número de jovens que se declaram “sem religião”.

Em declarações recentes ao ADN/CELAM, o Cardeal Spengler pediu que se faça um exercício profundo de discernimento e de participação ativa dos cristãos (contra todas as formas de abstenção) nas próximas votações no Brasil. Ele citou como referência para poder optar nas urnas, o capítulo 10 do Evangelho de João: “’Vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância’. O que nos leva a nos posicionar e expressar neste momento da história é a preocupação com a vida e a vida digna de nosso povo”.

Em uma entrevista publicada em meados de setembro no jornal religioso italiano Avvenire, o Cardeal brasileiro pronunciou-se a favor de um “diálogo entre o Norte e o Sul globais [como] uma resposta à injustiça. E a Trump”. Ele expressou sua preocupação “com as ações do presidente dos Estados Unidos na América do Sul” e chamou a “unir as melhores energias de ambos os hemisférios para redimir a vida de todos, não apenas a de alguns”.

<><> Viagem e teste

O Papa Leão XIV chegará a esse continente polarizado e em ebulição no dia 6 de novembro, iniciando sua turnê no Uruguai e continuando-a na Argentina e no Peru. Segundo o Cardeal Spengler, essa viagem reafirma “a urgência de proclamar e testemunhar o Evangelho a todos, mantendo viva a opção preferencial pelos pobres, a defesa da justiça, a promoção da ética, do bem comum e do cuidado com a Casa Comum”.

Para Washington Uranga, jornalista especializado em questões religiosas do jornal argentino Página 12 e responsável pelo meio de comunicação independente 4 Palabras, a visita do sumo pontífice ao continente terá um significado particular não apenas para a Igreja Católica, mas também para a sociedade latino-americana como um todo. Sua estadia na Argentina, por exemplo, “promete converter-se em um choque entre dois modelos, entre a Doutrina Social da Igreja e o dogma do ajuste libertário, o que pode levar a uma intensa disputa simbólica que já preocupa o governo de Javier Milei”.

Uranga afirma que, na atual conjuntura, a Conferência Episcopal Argentina é muito crítica ao governo e constitui, na prática, “a principal oposição”. E recorda que, em um documento publicado pelos bispos no início de setembro, por ocasião da conclusão da Semana Social, eles insistiram que a pessoa humana nunca deve ser a variável do ajuste econômico estrutural. Nesse documento, reafirmaram seu compromisso com a justiça social, ratificaram a decisão de caminhar ao lado do povo “ouvindo o clamor da terra e dos pobres” e enfatizaram que a paz é fruto da justiça e se funda na verdade histórica. Leão XIV se reconhece como herdeiro de Francisco e, nesse sentido, “esta viagem ao continente será uma verdadeira prova de fogo para medi-lo, de fato”, conclui Uranga.

Italo Cherubini, um teólogo ítalo-suíço que fez parte do Grupo de Trabalho que elaborou a nova Constituição do Vaticano, também concorda com esses conceitos. Acredita que a viagem de Leão XIV terá um componente simbólico particular para a Igreja e para o poder, “em particular em relação ao que acontece na Argentina e, especialmente, no Peru, onde o atual Papa exerceu toda a sua vida pastoral, até o Papa Francisco convocá-lo para se juntar à sua equipe no Vaticano”.

Os setores mais conservadores tentarão buscar, nessa viagem, os sinais que os fortaleçam. “No entanto, estou convencido de que não há possibilidade de grandes surpresas. O compromisso central da Igreja com os pobres foi incorporado pelo Papa Francisco ao próprio Magistério e à Constituição da Igreja”, insiste Cherubini. E conclui que “Leão XIV, embora diferente de Francisco em alguns assuntos formais, tem ratificado as renovadas premissas doutrinárias essenciais. A Teologia da Libertação que nasceu na América Latina já faz parte da própria doutrina da Igreja”, conclui.

•        A ruína moral do império e a farsa judicial contra a América Latina. Por José Evangelista Rios

1.       A Renúncia do Acusador e o Colapso da Farsa no Brooklyn

A desistência oficial do procurador federal encarregado de liderar o processo contra o Presidente Nicolás Maduro e a Primeira Combatente Cilia Flores no Distrito Sul de Nova York representa um abalo profundo na estratégia do governo dos Estados Unidos. O afastamento do chefe da acusação formaliza o impasse de uma engrenagem judicial instrumentalizada politicamente: sem a apresentação de provas materiais capazes de sustentar as alegações de envolvimento com o crime organizado internacional, a narrativa montada para justificar o sequestro e a agressão de 3 de janeiro desmorona no próprio tribunal de Manhattan.

Esse recuo institucional ocorre no momento em que a defesa protocolou moções exigindo o arquivamento definitivo da causa com base no princípio da imunidade soberana de Chefe de Estado, pilar fundamentador do Direito Internacional Público. A ausência de documentos ou registros concretos que vinculem a alta liderança venezuelana às acusações penais expõe a verdadeira natureza da operação: uma encenação destinada a encobrir a expropriação de reservas petrolíferas e a imposição de um regime de tutela extrativa sob o disfarce da legalidade doméstica.

2.A Trajetória Imperial e o Duplo Padrão da Moralidade

A régua do moralismo e da criminalização utilizada pela Justiça dos Estados Unidos contra a liderança venezuelana adquire traços de ostensiva contradição quando confrontada com o histórico político, penal e geopolítico da própria chefia do executivo em Washington.

No plano interno e internacional, o histórico do comando imperial acumula registros que evidenciam o caráter seletivo do sistema penal e político norte-americano:

Condenações Penais e Farsas Financeiras: Registram-se condenações e processos por falsificação de documentos comerciais, fraudes patrimoniais e incentivo direto a atos de insurreição contra as próprias instituições do país;

Violação Sistemática dos Tratados Internacionais: A política externa de Washington caracteriza-se pela ruptura unilateral de acordos internacionais de desarmamento, pelo apoio logístico e diplomático a ações de força no Oriente Médio e pela ameaça recorrente de intervenção armada contra a soberania de nações do Sul Global;

A Prática da Pilhagem Unilateral: Ao celebrar publicamente a custódia e o direcionamento de bilhões de dólares resultantes da comercialização do petróleo venezuelano para contas administradas pelo Tesouro norte-americano, a liderança imperial incorre na confissão aberta de apropriação indébita das riquezas de um povo soberano.

3. O Materialismo Histórico e a Natureza de Classe da Exceção

À luz do materialismo histórico e da análise de classe, o contraste entre a perseguição à liderança da República Bolivariana e a impunidade assegurada aos agentes centrais do capital monopolista revela o caráter assimétrico do Direito burguês internacional. A moralidade seletiva empregada pelas potências hegemônicas atua como superestrutura ideológica: rotula-se como ilegítimo qualquer governo periférico que exercite a soberania sobre seus recursos naturais, enquanto se concede imunidade irrestrita às metrópoles que promovem invasões, sanções econômicas e o estrangulamento social de populações inteiras.

A metodologia do planejamento estratégico indica que a renúncia do procurador nova-iorquino enfraquece a capacidade de sustentação da acusação, abrindo um flanco decisivo para a denúncia pública e a cobrança pela libertação imediata dos detidos. A insistência na manutenção desse processo sem substância fática converte-se em um severo fardo reputacional para o próprio sistema judiciário dos Estados Unidos perante o fórum multilateral das Nações Unidas.

4. Conclusão

A crise da acusação no Brooklyn atesta que a tentativa de criminalização contra Nicolás Maduro e Cilia Flores foi apenas a cobertura narrativa para a consumação de um ato de expropriação neocolonial. Ao medir os acusadores imperiais com a mesma régua de rigor e princípios exigida dos povos agredidos, a história expõe a falência ética das doutrinas de intervenção unilateral.

A reconstrução da dignidade e da autonomia da América Latina e do Caribe exige o cancelamento irrestrito do processo em Nova York, o fim do regime de tutelas financeiras e a garantia do direito inalienável do povo venezuelano de conduzir seu destino em paz. A verdadeira justiça para o Sul Global não emanará de tribunais metropolitanos comprometidos com o capital financeiro, mas da intransigente solidariedade entre as nações e da defesa inegociável da soberania popular.

 

Fonte: Brasil 247

 

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