Por
que a "terceira via" fracassou mais uma vez em 2026?
Candidatos
que tentaram se apresentar como alternativas à polarização entre Lula (PT) e
Flávio Bolsonaro (PL) amargaram desempenho pífio nas pesquisas e indiferença da
maior parte do eleitorado, com alguns ainda sofrendo pressão para abandonar a
disputa. Especialistas afirmam que entre os fatores para o novo fracasso estão
a persistente força eleitoral do lulismo e do bolsonarismo, o peso da rejeição
na decisão do voto e a cristalização há meses de um cenário de duelo entre os
dois líderes nas pesquisas, além de um leque de candidatos de direita que não
souberam se diferenciar.
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"Terceira via" de candidatos de direita
No
primeiro semestre, ocorreram especulações sobre potenciais candidaturas de
nomes como o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa e Aldo Rebelo, os governadores
Eduardo Leite e Ratinho Junior (ambos no PSD), entre outros.
No
final, houve um afunilamento, restando entre as candidaturas mais chamativas
Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema
(Novo). Todos esses candidatos pontuaram em pesquisas ou antes ocuparam cargos
de destaque ou eram filiados a partidos com representação no Congresso, se
diferenciando de candidaturas de legendas nanicas que sempre apresentam
candidatos, como o PSTU e PCO, mas raramente ultrapassam 1% dos votos e não
contam com políticos de projeção nacional.
Apesar
de serem chamadas pela imprensa de "terceira via", essas candidaturas
eram todas situadas no campo da direita, segundo Marcelo Tokarski, do instituto
de pesquisas Nexus. "Eu não gosto nem de falar de terceira via. Os
candidatos não são de ‘terceira via'. São candidatos de direita. Eles correm
num campo ideológico mais parecido com o do Flávio. E eles não conseguem
crescer", afirma.
Com
discursos semelhantes ao do bolsonarismo, Caiado e Zema penaram especialmente
para se diferenciar da candidatura de Flávio, avalia Rodrigo Prando, cientista
político da Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Para o eleitor não
houve uma diferença substantiva entre projetos. Caiado, por exemplo, verbalizou
que se fosse eleito ele libertaria Jair Bolsonaro. O eleitor então se pergunta
‘por que eu votaria no Caiado e não no filho Bolsonaro diretamente?'. O Zema
foi a mesma coisa falando de anistia", diz Prando.
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"Eleição da rejeição" dificulta alternativas
Ao
longo do ciclo eleitoral antes do primeiro turno, apenas a candidatura de
Augusto Cury chegou a se destacar em pesquisas, registrando um crescimento
chamativo na última semana de agosto, saltando de 2% para 11% na pesquisa
Nexus, fazendo com que Lula e, especialmente, Flávio, perdessem alguns pontos.
Na
ocasião, o crescimento ocorreu na sequência da participação do candidato do
Avante numa sabatina do Jornal Nacional, da TV Globo e no primeiro debate entre
os candidatos, na Band.
No
entanto, o crescimento de Cury se revelaria efêmero, e já na segunda semana de
setembro ele começaria a cair, sem reverter a tendência. Caiado e Renan Santos
tiveram como teto 6% e 4% nas pesquisas e depois caíram. A candidatura de Zema
teve desempenho ainda pior. Começando a série com 4%, em março, ele pontou
apenas 1% no fim de setembro, quando a campanha de Flávio começou a fazer
apelos por voto útil.
Em todo
esse período, apesar de algumas oscilações, Lula e Flávio nunca ficaram abaixo
da marca de 30%.
Para
Tokarski, da Nexus, a falta de crescimento da maioria desses candidatos e o voo
efêmero de Cury esbarraram numa dinâmica que já havia sido decisiva no pleito
anterior.
"É
uma eleição de rejeição, como foi a de 2022", diz. Segundo Tokarski, um
quarto do eleitorado, ao ser questionado sobre uma situação de segundo turno
entre Lula e Flávio Bolsonaro, opta por um dos dois não por acreditar que se
trata do melhor candidato, mas para derrotar o adversário. Dessa forma, nomes
mais bem-posicionados como o "anti" de outro candidato no topo acabam
se fortalecendo ainda mais. Conforme a eleição se aproxima, mesmo alguns
eleitores que haviam optado em algum momento por uma "terceira via"
começam a antecipar o voto útil já no primeiro turno.
"Pelas nossas contas, mais ou menos 1/4
do eleitorado escolhe Lula ou Flávio não porque é lulista ou porque é
bolsonarista, mas porque é antilulista ou antibolsonarista. Tem quase 25% dos
eleitores que dizem que tão votando no Lula contra o Flávio não porque acham o
Lula o melhor, mas porque querem derrotar o Flávio", prossegue Tokarski.
"No
caso do Flávio, um terço do voto dele no segundo turno contra o Lula é de
pessoas que quando você pergunta: ‘Qual é o principal motivo de você votar no
Flávio? É porque o Flávio é melhor que o Lula ou por que você quer derrotar o
Lula?'. E a pessoa responde: ‘É porque eu quero derrotar o Lula'. E isso de
alguma maneira dificulta a vida da chamada terceira via. Então é uma eleição
muito encaminhada para um segundo turno entre Lula e Flávio", completa.
Prando,
da Mackenzie, também aponta que as "bolhas" dos dois principais
candidatos têm se retroalimentado. "A força de um dos polos levanta o
outro, e é assim que uma polarização acontece."
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Piso de Lula e Flávio também dificultam alternativas
Tokarski
também destaca a própria força eleitoral de Lula e da família Bolsonaro como
fator de dificuldade para que alternativas ganhem força. Os pisos eleitorais do
petista e da família Bolsonaro já são altos na largada.
"Pode-se
gostar de um, gostar e não gostar do outro, vice-versa, gostar dos dois ou não
gostar de nenhum deles. Mas uma coisa a gente não se pode discordar: na
história recente política do Brasil são os dois maiores líderes, né? Não o
Flávio, mas o pai dele, Jair Bolsonaro, e o Lula. São pessoas que mobilizam o
voto", diz Tokarski.
"Em
2026, temos a permanência de um candidato carismático. Lula é candidato, direta
ou indiretamente, desde 1989. Já Flávio recebe o bônus do sobrenome”, aponta
Prando. "Mesmo que os candidatos de ‘terceira via' elaborassem discursos
que os diferenciassem, eles até poderiam ter um pouco mais de votos, mas a
polarização é tão forte que esses votos seriam insuficientes para ameaçar Lula
e Flávio."
Flávio,
após anunciar sua pré-candidatura em dezembro de 2026, já estreou na primeira
pesquisa Nexus de voto estimulado, em março, com 38%. Lula, por sua vez,
apareceu com 41%. Os candidatos alternativos somavam apenas 12%.
Na
última pesquisa Nexus, divulgada nesta semana, 27% dos eleitores foram
agrupados como lulistas convictos. Já o percentual de bolsonaristas convictos
chegou a 29%. E entre os 42% que afirmaram que pretendem votar em Lula, a
decisão do voto foi apontada como imutável para 92%, com apenas 7% afirmando
que ainda podem mudar. No caso de Flávio, a certeza foi de 91%, com 8%
apontando que ainda podem rever a decisão.
"Se
todos que hoje votam no Lula ou que votam no Flávio no 1° turno e que podem
mudar o voto abandonassem esse candidato e votassem no Caiado, por exemplo, os
pisos de Lula e de Flávio ainda seriam suficientes para levá-los ao segundo
turno", diz Tokarski. "Temos essa polarização cada vez mais intensa
do voto que acaba se refletindo nessa eleição dura ali entre os dois, e ninguém
consegue furar essa bolha."
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Dinheiro não é fator decisivo
Líderes
nas pesquisas, Lula e Flávio Bolsonaro também lideram gastos de campanha. Até
30 de setembro, a campanha do petista já havia gastado R$ 64 milhões. A de
Flávio, R$ 58,5 milhões. Seus partidos também são os maiores recipientes do
fundo de financiamento de campanhas de 2026. O PL de Flávio recebeu R$ 881
milhões. O PT, R$ 615 milhões.
São
valores que empalidecem os gastos e recursos da maior parte dos candidatos da
"terceira via". Zema gastou R$ 4,3 milhões até o momento e seu,
partido, o Novo, que tem apenas cinco representantes no Congresso, recebeu R$
37 milhões do fundo. Renan Santos, por sua vez, gastou R$ 1,2 milhão e sua
legenda, Missão, fundada em 2023 e que só conta com um deputado, recebeu R$ 3,3
milhões em financiamento. Cury, do Avante, declarou até agora gastos de apenas
R$ 527 mil e seu partido, que tem seis membros no Congresso, recebeu R$ 72
milhões.
No
entanto, nem todas as candidaturas "alternativas" estão limitadas a
máquinas tão diminutas em relação a Lula e Flávio. A exceção é o PSD de Caiado,
que conta com a quarta maior bancada individual na Câmara dos Deputados e a
segunda no Senado. O partido recebeu R$ 420 milhões do fundo de campanha para
2026. Caiado, por sua vez, gastou até o momento 24,5 milhões. Ainda assim, ele
apareceu com apenas 3% das intenções de voto no último Datafolha, atrás de Cury
e empatado com Renan Santos, que declararam gastos menores.
Para o
professor Prando, estrutura e dinheiro até fazem diferença, mas outros fatores
acabam sendo mais decisivos.
"O
piso eleitoral do Lula e do Flávio e o peso da rejeição deles são muito altos.
Uma política eleitoral assentada em forte rejeição significa que alguém escolhe
um candidato como Flávio não pelas qualidades ou projeto, mas por ódio ou medo.
E com Lula há o medo do retorno da família Bolsonaro ao poder. Nesse cenário
polarizado, isso é um elemento fundamental. Se tivermos segundo turno, a
decisão vai ser apertadíssima, com uma diferença mínima."
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"Terceira via" teve poucas chances desde 1994 – e espaço está
encolhendo
Nas
últimas oito eleições presidenciais desde 1994, quando os pleitos passaram a
ser dominados por duas candidaturas principais antagônicas – que já apareciam
no topo das pesquisas muito antes do início da campanha –, nomes que se
apresentaram como alternativas ou "terceira via” acumularam fracassos e
chances perdidas.
Por
mais de três décadas, os pleitos seriam dominados por dois ciclos de disputas,
primeiro entre o PT e o PSDB de 1994 a 2014 e depois pelo PT e o bolsonarismo
de 2018 até o presente.
Ocorreram
apenas dois soluços nessa polarização no período: 2002 e 2014. Na primeira
eleição do milênio, Anthony Garotinho (então no PSB) foi o terceiro colocado
que mais se aproximou do segundo turno, ao acumular 17,9% dos votos, contra
23,2% do segundo colocado, José Serra (PSDB). Se somados os votos de Garotinho
com os 12% do quarto colocado, Ciro Gomes (então no PPS), os candidatos não
tucanos e petistas conseguiram quase 30% dos votos. Foi a eleição pós-1994 que
mais se aproximou de romper a polarização.
Já a
eleição de 2014 marca o pleito no qual um "terceirável” obteve a melhor
votação individual em termos percentuais desde 1994. À época, Marina Silva
(então no PSB), chegou a aparecer em pesquisas à frente de Aécio Neves (PSDB) e
até mesmo empatada com a então presidente Dilma Rousseff (PT).
No
entanto, Marina viu suas intenções de voto erodirem nos dias anteriores ao 1°
turno, terminando com 21,32% dos votos, 12 pontos atrás do segundo colocado,
Aécio Neves.
Há
ainda algumas eleições que embora tenham repetido novos fracassos para a
"terceira via” pelo menos tiveram candidatos que conseguiram romper a
marca de dois dígitos na votação. Em 1998, Ciro Gomes (PPS) obteve 11%. Em
2010, Marina Silva (então no PV) obteve 19,33%. Ciro, então no PDT e novamente
candidato, conseguiu 12,47% em 2018.
Mas
desde 2022 – a segunda eleição dominada pelo lulismo e bolsonarismo – o espaço
de uma "terceira via” vem encolhendo ainda mais. No pleito de 2022, que
ainda teve o fator de contar com duas pessoas que haviam ocupado o Planalto, os
nove candidatos que não eram Lula ou Jair Bolsonaro somaram apenas 8,3% dos
votos no primeiro turno. Nome com maior destaque nesse grupo, Simone Tebet
(MDB), conseguiu apenas 4,16% – pior resultado de um terceiro colocado desde
1994.
Fonte:
BBC News Brasil/DW Brasil

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