Misoginia
explica desprezo do bolsonarismo por Nossa Senhora, a mãe de Jesus
bolsonarismo
e a extrema direita mundial como um todo se afirmam “cristãos” e “defensores da
família”, mas nutrem profundo desprezo por Maria de Nazaré, a mãe de Jesus.
Para esta ala fanática dos evangélicos, a Sagrada Família dos católicos não
existe: só existem Deus e Jesus. Maria é uma coadjuvante nesta história, uma
serva que nasceu para ser submissa ao “Senhor”, assim como as mulheres em geral
aos maridos.
Se
fosse hoje em dia, os bolsonaristas estariam do mesmo lado dos que apedrejavam
Maria Madalena e contra Jesus. Assim como certamente atacariam Maria e seu
próprio filho, “acusando” o Cristo de ter “pai ausente”, como fazem os redpills
com as feministas nas redes sociais
É (para
dizer o mínimo) paradoxal o “cristianismo” dessa gente: embora passe o tempo
todo com o nome de Jesus nos lábios e o utilize como arma política, a extrema
direita raramente cita alguma frase do Evangelho em seus discursos. Não
defendem os pobres, antes os desprezam; são contrários a dar o pão a quem tem
fome; idolatram os bens materiais e os vendilhões do templo; não são tolerantes
nem muito menos amam ao próximo como a si mesmos. Tudo ao contrário do que
Jesus pregou.
Tenho
certeza que, se fosse hoje em dia, os bolsonaristas estariam do mesmo lado dos
que apedrejavam Maria Madalena e contra Jesus. Assim como certamente atacariam
Maria como “adúltera” e apedrejariam seu próprio filho, “acusando” o Cristo de
ter “pai ausente”, como fazem os redpills com as feministas nas redes sociais.
Crucificariam Maria por ter “uma família disfuncional”.
Ora,
Jesus foi criado por José, mas seu pai “verdadeiro” era Deus. Imaginem o que
falaria um “cristão” desses diante de uma menina (Maria teria entre 12 e 15
anos quando deu à Luz) que se dissesse grávida “do Espírito Santo”? Se eles
atacam até crianças estupradas! “Ninguém tropeça numa bicicleta e engravida”,
disse recentemente o deputado Nikolas Ferreira ao defender que crianças vítimas
de estupro levem adiante a gravidez do filho do pedófilo.
O papel
de Maria, para esta ala evangélica bolsonarista, é de serva, de mulher
submissa. Então, quando um país a alça a “padroeira”, obviamente que isso
representa um problema para sua visão patriarcal de mundo. Alguns pastores
fundamentalistas nem sequer escondem o desprezo por Nossa Senhora, como a
célebre cena do bispo da Igreja Universal chutando uma imagem da santa em plena
televisão, em 1995.
“O
Brasil não pertence a essa senhora”, declarou o pastor Lucinho Barreto, da
igreja da Lagoinha, em 2023, em uma fala onde chega a zombar inclusive da
negritude da santa, cuja imagem foi encontrada em um rio onde hoje fica o
santuário de Aparecida, em 1717. “A imagem estava era suja, ela não era preta,
ela era branca”, diz o pastor. Risadas gerais.
Lucinho
é o mesmo pastor bolsonarista que afirmou em sermão já ter beijado a própria
filha na boca. “Eu peguei minha filha um dia, dei beijo nela, falei que amava
ela. Ela passava e eu dizia: Nossa, que mulherão. Ai se eu te pego. Um dia ela
se distraiu e eu dei um beijo na boca dela. E eu falei assim: Quando eu
encontrar seu namorado eu vou falar: Você é o segundo, eu já beijei”, disse o
pastor durante o culto.
Quando
Michelle Bolsonaro defende a “submissão saudável” da esposa ao marido e que ela
deve ser uma “auxiliadora” do esposo “de acordo com a Bíblia”, ela está falando
de todas as mulheres e também de Maria, a mãe de Jesus. A ojeriza ao
protagonismo de Nossa Senhora diz muito sobre o mundo que a extrema direita
defende: a mulher não pode estar ao lado, ela precisa estar abaixo do homem.
O plano
da masculinidade tóxica intrínseca ao bolsonarismo é apagar Nossa Senhora do
imaginário religioso, enfraquecê-la como o emblema de uma mulher forte,
poderosa, que deu apoio ao filho e que esteve sempre a seu lado, na vida como
na morte. Simbolicamente, esta é uma ameaça a todas nós
Nos
Evangelhos, era o filho o obediente, não a mãe. Há um trecho de Lucas que
mostra isso: Jesus, com 12 anos, some após a festa da Páscoa em Jerusalém.
Maria e José, depois de muito o procurarem, o encontram cercado de doutores que
ouviam suas palavras no templo. O menino Jesus, como qualquer adolescente, leva
uma bronca dos pais e volta com eles para casa. Esse é o exemplo do Novo
Testamento: filhos obedientes aos pais e não a mulher ao marido. Jesus não
escapou disso.
Mulheres,
católicas ou não, precisam entender o que está em jogo neste domingo. O plano
da masculinidade tóxica intrínseca ao bolsonarismo é apagar Nossa Senhora do
imaginário religioso, enfraquecê-la como o emblema de uma mulher forte,
poderosa, que deu apoio ao filho e que esteve sempre a seu lado, na vida como
na morte. Simbolicamente, esta é uma ameaça a todas nós.
Fonte:
Por Cynara Menezes, na Fórum

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