segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Misoginia explica desprezo do bolsonarismo por Nossa Senhora, a mãe de Jesus

bolsonarismo e a extrema direita mundial como um todo se afirmam “cristãos” e “defensores da família”, mas nutrem profundo desprezo por Maria de Nazaré, a mãe de Jesus. Para esta ala fanática dos evangélicos, a Sagrada Família dos católicos não existe: só existem Deus e Jesus. Maria é uma coadjuvante nesta história, uma serva que nasceu para ser submissa ao “Senhor”, assim como as mulheres em geral aos maridos.

Se fosse hoje em dia, os bolsonaristas estariam do mesmo lado dos que apedrejavam Maria Madalena e contra Jesus. Assim como certamente atacariam Maria e seu próprio filho, “acusando” o Cristo de ter “pai ausente”, como fazem os redpills com as feministas nas redes sociais

É (para dizer o mínimo) paradoxal o “cristianismo” dessa gente: embora passe o tempo todo com o nome de Jesus nos lábios e o utilize como arma política, a extrema direita raramente cita alguma frase do Evangelho em seus discursos. Não defendem os pobres, antes os desprezam; são contrários a dar o pão a quem tem fome; idolatram os bens materiais e os vendilhões do templo; não são tolerantes nem muito menos amam ao próximo como a si mesmos. Tudo ao contrário do que Jesus pregou.

Tenho certeza que, se fosse hoje em dia, os bolsonaristas estariam do mesmo lado dos que apedrejavam Maria Madalena e contra Jesus. Assim como certamente atacariam Maria como “adúltera” e apedrejariam seu próprio filho, “acusando” o Cristo de ter “pai ausente”, como fazem os redpills com as feministas nas redes sociais. Crucificariam Maria por ter “uma família disfuncional”.

Ora, Jesus foi criado por José, mas seu pai “verdadeiro” era Deus. Imaginem o que falaria um “cristão” desses diante de uma menina (Maria teria entre 12 e 15 anos quando deu à Luz) que se dissesse grávida “do Espírito Santo”? Se eles atacam até crianças estupradas! “Ninguém tropeça numa bicicleta e engravida”, disse recentemente o deputado Nikolas Ferreira ao defender que crianças vítimas de estupro levem adiante a gravidez do filho do pedófilo.

O papel de Maria, para esta ala evangélica bolsonarista, é de serva, de mulher submissa. Então, quando um país a alça a “padroeira”, obviamente que isso representa um problema para sua visão patriarcal de mundo. Alguns pastores fundamentalistas nem sequer escondem o desprezo por Nossa Senhora, como a célebre cena do bispo da Igreja Universal chutando uma imagem da santa em plena televisão, em 1995.

“O Brasil não pertence a essa senhora”, declarou o pastor Lucinho Barreto, da igreja da Lagoinha, em 2023, em uma fala onde chega a zombar inclusive da negritude da santa, cuja imagem foi encontrada em um rio onde hoje fica o santuário de Aparecida, em 1717. “A imagem estava era suja, ela não era preta, ela era branca”, diz o pastor. Risadas gerais.

Lucinho é o mesmo pastor bolsonarista que afirmou em sermão já ter beijado a própria filha na boca. “Eu peguei minha filha um dia, dei beijo nela, falei que amava ela. Ela passava e eu dizia: Nossa, que mulherão. Ai se eu te pego. Um dia ela se distraiu e eu dei um beijo na boca dela. E eu falei assim: Quando eu encontrar seu namorado eu vou falar: Você é o segundo, eu já beijei”, disse o pastor durante o culto.

Quando Michelle Bolsonaro defende a “submissão saudável” da esposa ao marido e que ela deve ser uma “auxiliadora” do esposo “de acordo com a Bíblia”, ela está falando de todas as mulheres e também de Maria, a mãe de Jesus. A ojeriza ao protagonismo de Nossa Senhora diz muito sobre o mundo que a extrema direita defende: a mulher não pode estar ao lado, ela precisa estar abaixo do homem.

O plano da masculinidade tóxica intrínseca ao bolsonarismo é apagar Nossa Senhora do imaginário religioso, enfraquecê-la como o emblema de uma mulher forte, poderosa, que deu apoio ao filho e que esteve sempre a seu lado, na vida como na morte. Simbolicamente, esta é uma ameaça a todas nós

Nos Evangelhos, era o filho o obediente, não a mãe. Há um trecho de Lucas que mostra isso: Jesus, com 12 anos, some após a festa da Páscoa em Jerusalém. Maria e José, depois de muito o procurarem, o encontram cercado de doutores que ouviam suas palavras no templo. O menino Jesus, como qualquer adolescente, leva uma bronca dos pais e volta com eles para casa. Esse é o exemplo do Novo Testamento: filhos obedientes aos pais e não a mulher ao marido. Jesus não escapou disso.

Mulheres, católicas ou não, precisam entender o que está em jogo neste domingo. O plano da masculinidade tóxica intrínseca ao bolsonarismo é apagar Nossa Senhora do imaginário religioso, enfraquecê-la como o emblema de uma mulher forte, poderosa, que deu apoio ao filho e que esteve sempre a seu lado, na vida como na morte. Simbolicamente, esta é uma ameaça a todas nós.

 

Fonte: Por Cynara Menezes, na Fórum

 

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