As
surreais eleições dos anos 80 e 90 em que uma marca de cerveja estampou as
cabines de votação no Brasil
Se não
são poucas as questões em que olhares contemporâneos se espantam com o que era
normal no passado, publicidade de cerveja no momento da votação é um item que merece
estar na lista.
Pois da
redemocratização do Brasil até meados dos anos 1990, a Antarctica — hoje marca
do grupo Ambev — tinha seu logo e nome em letras garrafais estampados nas
cabines que protegem o sigilo do voto do eleitor brasileiro.
"Mais
do que algo 'autorizado pela lei', me parece que foi algo que era meio que
tolerado em um espaço que ainda não estava claramente regulado", diz o
consultor de marketing Nino Carvalho, professor no Instituto Português de
Administração de Marketing (IPAM) e autor do livro Mais Marketing, Menos Guru.
"Era meio que novo para todo mundo. E isso abriu espaços a interpretações
e usos que, hoje, nos parecem abusos ou até coisas inacreditáveis."
Carvalho
vê problemas éticos nesse tipo de ação. "O voto, provavelmente, é um dos
atos mais públicos e simbólicos do exercício da cidadania. Quando uma marca
privada aparece justamente dentro daquele. ambiente, ela deixa de ser
simplesmente a fornecedora de um pedação de papelão ou de uma estrutura física.
Passa a se associar simbolicamente à eleição e à própria instituição
democrática. Isso é forte. Temos de refletir sobre isso."
A
julgar pela imprensa da época, não parecia ser um fato encarado como
problemático. Uma das raras críticas a respeito teve contornos de humor. Em sua
coluna no jornal Folha de S. Paulo, o articulista José Simão fez piada a partir
do fato de que a mesma agência de publicidade que tinha realizado a campanha
vitoriosa do então presidente eleito Fernando Henrique Cardoso era a responsável
pela conta da Antarctica.
Simão
escreveu que aquilo parecia "um pacote". "[A agência] patrocinou
as cabines e elegeu o presidente: tudo ao mesmo tempo", brincou ele.
"E olha a ironia: não pode beber no dia da eleição mas as cabines eram da
Antarctica. E outra ironia: as cabines eram da Antarctica e a gente que fica de
ressaca?"
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Falta de dinheiro
Levantamento
realizado pela reportagem a partir de fotografias de eleições passadas
identificou o patrocínio nas eleições de todas as esferas de 1989 a 1998. Nem o
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nem a Ambev confirmaram as datas.
Procurada
pela BBC News Brasil, a assessoria de imprensa do TSE disse não ter informações
para responder às perguntas sobre o tema. Já a equipe de comunicação da marca
de bebidas demonstrou não querer falar sobre o assunto e, por fim, declarou que
não conseguiria contribuir com as informações solicitadas.
A
decisão de abrir para a iniciativa privada a participação no processo eleitoral
reflete as dificuldades orçamentárias enfrentadas pela Justiça Eleitoral
naquele momento de redemocratização, prestes a organizar a que seria a maior
eleição do Brasil até então: a que elegeu Fernando Collor de Mello em 1989, o
primeiro presidente escolhido por voto direto desde a ditadura militar que
durou de 1964 a 1985.
"A
legislação [eleitoral] ainda era prematura e havia um vácuo orçamentário. Com
dificuldades financeiras para cobrir a distribuição de todas as cabines no
Brasil, já que a eleição era um evento novo em termos de instraestrutura e
logística, a Antarctica veio como parceira, como patrocinadora", analisa o
publicitário Marcello Monteiro Gabbay, professor na Universidade São Judas.
"Era
uma possibilidade muito curiosa, de fato. Não havia, na época, uma preocupação
tão grande assim com a mistura de dinheiro de empresa privada com o processo da
eleição", diz o advogado Alberto Rollo, especializado em direito
eleitoral.
"E,
francamente, a Justiça Eleitoral passava por dificuldades financeiras grandes e
talvez até não tivesse dinheiro para fazer isso."
Na
realidade, a lei não permitia expressamente. Mas também não proibia.
"A
legislação era dúbia. Em uma época de escassez e poucos recursos para a Justiça
Eleitoral, qualquer empresa podia patrocinar ou custear a infraestrutura",
comenta o jurista Giuliano Salvarani, professor na Escola Superior de
Propaganda e Marketing (ESPM). "O debate ético passava ao largo das
discussões mais antigas, ninguém via problema."
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O fim do marketing na cabine
Ao
mesmo tempo que o processo eleitoral se consolidava, com a democracia
brasileira se acomodando, entendimentos legais passaram a disciplinar melhor os
limites do privado no processo público de votação. Há pistas disto na Lei das
Eleições, de 1997. "Não trata propriamente do assunto, mas tem uma norma
que parece logicamente incompatível com o uso de cabines para propaganda",
afirma o jurista Carlos Ari Sundfeld, professor na FGV-Direito.
Ele se
refere ao artigo 44, que fala especificamente da "propaganda
eleitoral". Em um dos parágrafos, diz que "não se permitirá
utilização comercial ou propaganda realiza com a intenção, ainda que disfarçada
ou subliminar, de promover marca ou produto".
O ponto
da lei não são as cabines, e sim a propaganda eleitoral dos candidatos. Mas,
por extensão, é possível ampliar o entendimento, segundo o jurista.
"Imagino
que, com o crescimento das verbas para a organização dos pleitos, que ocorreu
com a consolidação da democracia, a Justiça Eleitoral tenha conseguido se virar
sozinha", comenta Sundfeld.
De lá
para cá, contudo, há entendimentos do TSE que confirmam a abolição da ideia de
usar esses espaços como veículo de publicidade. "Com muita eficiência, e
super-corretamente, penso eu, a regulação brasileira tem ficado cada vez mais
restritiva em relação à presença do poder econômico privado em qualquer etapa
do processo eleitoral", analisa o professor Carvalho.
"Verificou-se
que não era adequado, não era ético. E talvez até não fosse moral",
comenta Rollo. "A Justiça Eleitoral entendeu que não deveria misturar
empresas privadas com o processo eleitoral."
Levantamento
feito por Carvalho encontrou um entendimento do TSE datado de 16 de dezembro de
2003, a partir de análise da possibilidade de patrocínio de cabines de votação
e formulários de justificativa. A resposta foi negativa.
"O
fundamento foi claríssimo", diz o especialista. "Basicamente dizendo,
com palavras técnicas, que não seria conveniente que esses materiais trouxesse
referência a 'entidade ou empresa, pública ou privada', porque a independência
da Justiça Eleitoral precisava ser preservada de qualquer suspeita."
Cinco
anos mais tarde a pauta voltou ao tribunal. Outra vez, o entendimento foi que
não era pertinente. Ao que parece, a era das cabines patrocinadas ficou para
trás.
"O
que dá para afirmar, com base em fontes concretas, é que em 2003 o TSE rejeitou
expressamente o patrocínio e, em 2008, reafirmou [a rejeição]", diz
Carvalho.
"Discussões
éticas foram acontecendo ao longo do tempo", argumenta Gabbay. "Hoje
consideramos anti-ético a interferência de marca em um processo que se
pressupõe isento. Mas no passado não se pensava nisso."
"Houve
uma certa moralização", define o jurista Salvarani.
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Álcool e eleições
As
cabines de votação com logo da Antarctica hoje são gatilhos de memória afetiva
e rendem memes, principalmente quando viralizam imagem de celebridades no
momento da votação — caso icônico e que reverbera muito é o do piloto Ayrton
Senna da Silva (1960-1994) votando em 1989.
"A
intenção, ao pé da letra, era promover a marca em um evento de grande alcance
público", comenta o publicitário Gabbay. Praticamente todo mundo vota. E
as imagens da eleição circulam na mídia. O alcance, portanto, é gigantesco.
"Uma oportunidade massiva, com fotos maravilhosas do ponto de vista da
marca", prossegue o professor.
"Uma
das funções do patrocínio é exatamente essa transferência de associações e de.
imagem entre aquilo que é patrocinado e a marca patrocinadora",
contextualiza o consultor Carvalho. "Por isso, [nesse caso,] o buraco
ético é mais embaixo. A prática [da cabine patrocinada por cervejeira] pode não
ter sido ilegal, mas, ainda assim, deve muito ser questionada."
Há uma
ironia ética nessa história. A norma conhecida popularmente como "lei
seca". Não se trata na verdade de uma legislação federal, mas de uma
tradição administrativa regionalizada, que começou a surgir ainda nos anos 1960
e se tornou amplamente difundida em boa parte do país nos anos 1990. Na
prática, cabe a cada estado definir se proíbe ou não — e sob quais condições e
horários — a venda e o consumo, em espaços públicos, de bebidas alcoólicas no
dia da eleição. Determinada por portarias, costuma ser adotada na maioria das
unidades da federação.
A ideia
é diminuir a incidência de conflitos e tumultos. E também preservar a
consciência do cidadão, para que esteja lúcido no momento do voto. "A
preocupação é que não haja excesso de consumo de algo que altere a consciência
em um dia em que o eleitor precisa tomar uma decisão objetiva. Há o compromisso
moral de estar sóbrio, ciente da escolha feita no momento do voto",
analisa Gabbay.
Salvarani
afirma que, se tal patrocínio institucional "não fazia diferença
alguma" do ponto de vista da lei seca, a situação "deixava a
circunstância um tanto quanto mais constrangedora".
"Não
dá pra ignorar o fato de que, enquanto autoridades públicas restringiam a venda
de álcool no dia da eleição em nome da ordem e da liberdade do voto, uma marca
vinculada fortemente à cerveja podia aparecer dentro da própria cabine
eleitoral", afirma Carvalho.
Especialistas
comentam — e era um argumento utilizado pela própria empresa na época — que a
Antarctica não é apenas marca de cerveja, mas também de refrigerante. O logo
estampado na cabine, entretanto, é a inconfundível imagem dos dois pinguins do
rótulo cervejeiro, muito diferente do que aparece nas embalagens de guaraná.
O
especialista Nino Carvalho explica que, ainda que haja "um prisma"
que permita a leitura ampla de que se tratava de uma marca "de bebidas em
geral", do ponto de vista do marketing, "o efeito desejado pela ação,
sim, era evidente e associação especialmente com cerveja".
Da
perspectiva estritamente marqueteira, é claro, a ideia de uma cerveja gelada em
um dia sem trabalho parecia ser uma boa sacada. Inclusive porque eleições
sempre aos domingos são uma novidade — o primeiro turno de votação de 1994, por
exemplo, foi em uma segunda-feira tornada feriado por causa do pleito.
Fonte:
BBC News Brasil

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