EUA
querem recolonizar o Sul Global para salvar o dólar. O Brasil pode ser o
próximo?
A
guerra contra o Irã, após o ataque armado à Venezuela, faz parte de uma
estratégia do imperialismo estadunidense para recolonizar o Sul Global como
meio de superar a dupla crise que enfrenta atualmente: por um lado, a
estagnação de sua economia, juntamente com a da economia mundial em geral, como
consequência da aplicação do neoliberalismo; por outro, o persistente déficit
em conta corrente dos Estados Unidos desde meados da década de 1970, que o
tornou a nação mais endividada do mundo e representa uma ameaça à hegemonia do
dólar. A recolonização, entendida como a tomada pela força dos mercados do Sul
Global e a aquisição do controle sobre seus recursos, especialmente o petróleo,
reduziria o déficit em conta corrente dos Estados Unidos, fortalecendo assim o
dólar, e superaria a estagnação econômica estadunidense, sem perturbar em
absoluto a hegemonia do capital financeiro internacional. A guerra contra o
Irã, portanto, prenuncia um ataque contra o Sul Global. A guerra entre os
Estados Unidos e Israel contra o Irã costuma ser atribuída ao caráter inepto ou
desequilibrado de Donald Trump; mas esta é uma visão totalmente superficial. O
que Trump tenta é uma estratégia de recuperação diante da crise que atravessa o
imperialismo estadunidense, e a guerra contra o Irã faz parte dessa estratégia.
Essa crise tem dois aspectos: um é a crise de estagnação e aumento do
desemprego que o capitalismo neoliberal desencadeou na economia mundial,
incluindo a estadunidense. O outro é o persistente déficit em conta corrente
que os Estados Unidos carregam desde meados da década de 1970, o qual, ao ser
financiado por exportações estadunidenses de dólares ou de ativos denominados
em dólares, transforma esse país na nação mais endividada do mundo e representa
uma séria ameaça para todo o sistema financeiro capitalista mundial. Analisemos
cada um desses aspectos.
O
capitalismo neoliberal deu origem a um imenso aumento da desigualdade de renda
e riqueza em todo o mundo capitalista. Isso se deve ao fato de que, no regime
neoliberal, enquanto o capital se globaliza, o trabalho permanece confinado às
fronteiras nacionais e se organiza principalmente segundo critérios nacionais.
Isso faz com que a mão de obra do Norte Global concorra com a do Sul Global, no
sentido de que qualquer aumento na diferença salarial entre ambas ameaça
provocar uma relocalização acelerada do capital do Norte para o Sul. Portanto,
os salários do Norte ficam vinculados aos do Sul e não podem aumentar nem mesmo
quando a produtividade do trabalho aumenta. De fato, Joseph Stiglitz estimou
que o salário real de um trabalhador estadunidense médio em 2011 era
ligeiramente inferior ao de 1968. Ao mesmo tempo, apesar de toda essa
relocalização da atividade do Norte para o Sul, dado que o crescimento da
produtividade do trabalho se acelera no Sul sob o neoliberalismo, as vastas
reservas de mão de obra do Sul, herdadas da época colonial e que mantêm os
salários do Sul vinculados ao nível de subsistência, não se esgotam como
proporção da força de trabalho. Isso mantém os salários do Sul mais ou menos no
mesmo nível de subsistência de antes. Portanto, tanto no Norte quanto no Sul, o
nível dos salários reais aumenta muito pouco, mesmo quando a produtividade do
trabalho cresce em toda parte, o que gera uma maior desigualdade de renda tanto
no nível da economia mundial quanto dentro de cada país capitalista. Como o
consumo por unidade de renda é maior entre os pobres do que entre os ricos, um
aumento na desigualdade de renda tem o efeito de diminuir a demanda de consumo
e, portanto, a demanda agregada, em relação à produção produtiva.
Consequentemente, a produção produtiva não pode ser vendida, o que leva a uma
redução da produção e, portanto, a um aumento do desemprego e à estagnação.
Isso afetou não apenas a economia mundial capitalista como um todo, mas também
países individuais dentro dela (embora, nos Estados Unidos, o aumento da taxa
de desemprego seja camuflado por uma queda na taxa de participação da força de
trabalho).
O
capitalismo neoliberal, contudo, não apenas dá origem a uma crise de estagnação
e aumento do desemprego, mas também impede que o Estado tome medidas para
combater essa crise; e é isso que constitui sua marca distintiva específica.
Isso ocorre porque, se um maior gasto estatal impulsionasse a demanda agregada
para superar a estagnação, então teria que ser financiado por meio de um
déficit fiscal (no qual ninguém paga impostos para arrecadar receitas) ou por
meio de um imposto sobre os ricos (no qual uma parte das receitas fiscais
provém da poupança e, portanto, não reduz a demanda); não pode ser financiado
por impostos sobre os pobres e os trabalhadores. Como os pobres e os
trabalhadores consomem praticamente toda a sua renda, o fato de o Estado
tributá-los e gastar o que arrecadou não contribui significativamente para a
demanda agregada: nesse caso, a demanda estatal apenas substitui o consumo dos
contribuintes pobres, mas não aumenta a demanda geral. Mas ambas as formas de
arrecadar receitas para o gasto público que permitiriam combater a crise de
estagnação — isto é, um déficit fiscal maior ou mais impostos sobre os ricos —
são descartadas sob o neoliberalismo, porque as finanças globalizadas se opõem
a ambas. E o Estado não pode superar essa oposição porque, dado que as finanças
estão globalizadas, elas podem sair do país em massa em caso de intransigência
estatal, provocando uma grave crise. Em outras palavras, sendo o Estado um
Estado-nação e o capital, incluindo as finanças, globalizado, qualquer economia
que adote um regime neoliberal (isto é, que aceite fluxos transfronteiriços
relativamente livres de bens, serviços e finanças) teria que se submeter aos
caprichos das finanças globalizadas; o Estado-nação desse país torna-se então
incapaz de intervir na economia para combater a tendência à estagnação.
O
neoliberalismo empurra assim a economia mundial, e as economias dos países
capitalistas individuais, para um beco sem saída, onde permanecem estagnadas
sem poder fazer nada a respeito; e sair dessa camisa de força tampouco é
possível, já que o neoliberalismo conta com o poderoso respaldo do capital
monopolista tanto no Norte quanto no Sul Global, integrado ao capital
financeiro de mobilidade global. Nessas circunstâncias, o capital monopolista
apoiou o surgimento do neofascismo para reforçar sua hegemonia, que se vê
ameaçada pelo desemprego em massa e pela precariedade que gera em amplos
setores da população. Há um crescimento neofascista em todo o mundo; em alguns
países, como Argentina, Itália, Estados Unidos e Índia, os neofascistas estão
no poder com o respaldo das grandes corporações; em outros países, como França,
Alemanha e Reino Unido, os neofascistas estão batendo às portas do poder. (O
Estado neofascista israelense, evidentemente, pertence a uma categoria
especial, já que está simultaneamente imerso em um projeto implacável de
colonialismo de assentamento.) Esses regimes neofascistas caracterizam-se, em
diferentes graus, por várias características que remetem ao fascismo da década
de 1930: a estigmatização de um grupo religioso ou étnico minoritário e o
estímulo ao ódio contra ele no seio da maioria, o que cria um discurso
alternativo que desvia a atenção da crise e, ao mesmo tempo, mantém a classe
trabalhadora dividida; o recurso à repressão estatal contra opositores
políticos, artistas, intelectuais e a esquerda; o uso de grupos de neofascistas
junto com agências estatais nesse processo de repressão; uma estreita
vinculação com o capital monopolista, e especialmente com um novo estrato do
capital monopolista; e a promoção de um culto ao “líder”, que supostamente
personifica a “nação”. Entretanto, um Estado neofascista não pode resolver a
crise de estagnação que aflige o capitalismo contemporâneo, assim como tampouco
pode fazê-lo um Estado liberal-burguês, e pelas mesmas razões. O neofascismo
apenas assume o controle do Estado-nação, que permanece tão impotente para
impor sua vontade contra o capital financeiro globalmente móvel quanto o
Estado-nação liberal-burguês havia sido. A oposição do setor financeiro aos
impostos sobre os ricos e aos déficits fiscais continua sendo um obstáculo
decisivo a qualquer intervenção fiscal expansionista, inclusive por parte do
Estado neofascista. Isso não ocorria na década de 1930, quando o capital
financeiro era nacional e, portanto, o Estado-nação fascista podia convencê-lo
a não se opor aos grandes déficits fiscais. Foi com tais déficits fiscais que
se financiou o aumento dos gastos estatais com o rearmamento na Alemanha e no
Japão, o que teve o efeito de retirar esses países da Grande Depressão.
Entretanto, essa situação não pode se repetir hoje e, portanto, o beco sem
saída que constitui o desenlace do neoliberalismo também não pode ser superado
pelo neofascismo.
O
segundo aspecto da crise enfrentada pelo imperialismo estadunidense e,
consequentemente, pelo capitalismo mundial, pode ser expresso de forma mais
simples. Ele surge devido aos persistentes déficits em conta corrente dos
Estados Unidos, que o transformaram no país mais endividado do mundo. Trata-se
de uma situação sem precedentes: até agora, o principal país capitalista, cuja
moeda atua como moeda mundial de facto, nunca havia precisado enfrentar
déficits persistentes em conta corrente. Entretanto, isso já não é assim. Essa
situação sem precedentes surgiu porque a “vantagem” de ter um império colonial,
que havia estado disponível para a Grã-Bretanha, a antiga líder do mundo
capitalista, já não está disponível para os Estados Unidos, o novo líder. A
Grã-Bretanha havia coberto seu déficit em conta corrente perante o mundo não
colonial e inclusive havia realizado exportações de capital para esse mundo,
fazendo uso de suas colônias. E havia feito isso de duas maneiras: primeiro,
vendendo seus produtos nos mercados coloniais cativos de países que não podiam
se proteger e tiveram de enfrentar a “desindustrialização”, no sentido do
deslocamento de um grande número de artesãos e produtores pré-capitalistas; e,
em segundo lugar, extraindo um “tributo”, ou o que foi chamado de “drenagem de
riqueza”, das colônias sob a forma de apropriação, sem qualquer contrapartida,
do excedente de exportação das colônias em relação ao mundo não colonial. Os
Estados Unidos não contaram com essas “vantagens”. Embora o imperialismo estadunidense
tenha assegurado a existência contínua de um “território econômico” que
sustenta o capitalismo metropolitano em geral e o capitalismo estadunidense em
particular, entre outras coisas, ao fornecer-lhe insumos a preços que não
aumentam, esse “território econômico”, embora constitua seu império, não tem a
natureza de uma colônia: não constitui um mercado cativo nem uma fonte de
“tributo”. Essa situação sem precedentes, na qual o principal país capitalista
mantém um déficit persistente em sua conta corrente, foi administrada até agora
porque o mundo esteve disposto a manter os dólares ou os ativos denominados em
dólares com os quais os Estados Unidos financiaram seus déficits em conta
corrente. Entretanto, por quanto tempo mais isso ocorrerá continua sendo uma
incógnita. Sempre que esse tema é
debatido, a discussão se limita a saber se aqueles que possuem dólares poderiam
mudar para outra moeda; e, dado que nenhuma outra moeda ainda se aproxima do
dólar em termos de importância, a ameaça que essa fonte representa para o dólar
não parece grave. Entretanto, o que é deixado de lado nesse debate é a ameaça
que uma possível mudança não para outra moeda, mas para alguma commodity,
representa para o dólar; e a commodity com maior probabilidade de representar
tal ameaça é o petróleo.
A
ruptura do vínculo ouro-dólar, estabelecido pelo governo Nixon sob o sistema de
Bretton Woods, não provocou um abalo no mundo financeiro, e a situação se
estabilizou após um breve período de incerteza, graças à expectativa de
estabilidade no preço do petróleo em dólares, o que descartou qualquer aumento
inflacionário generalizado. Se tal expectativa não tivesse existido, qualquer
tendência inflacionária, por qualquer que fosse o motivo, teria sido agravada
pela mudança do dólar para o petróleo, e a resposta teria consistido, em geral,
em medidas de austeridade em massa, empurrando o capitalismo mundial para outra
Grande Depressão. O fato de isso não ter ocorrido deveu-se à expectativa de
estabilidade no preço do petróleo em dólares. Essa estabilidade foi favorecida
por diversos fatores, entre eles a estreita relação dos Estados Unidos com a
Arábia Saudita, que, por sua vez, foi reforçada pela aliança
imperialista-sionista. Entretanto, isso continua sendo motivo de constante
preocupação. Em resumo, o imperialismo estadunidense precisa lidar com um
problema de estagnação e outro de déficits persistentes em conta corrente; mas
precisa fazê-lo sem perturbar em absoluto a hegemonia do capital financeiro
internacional que caracteriza o atual regime econômico neoliberal. Uma forma
evidente pela qual tentou superar essa situação é fazendo com que os países da
OTAN aumentem seus gastos militares para 5% de seu Produto Interno Bruto,
reduzindo assim seus próprios gastos militares no exterior e, consequentemente,
seu déficit em conta corrente. (O fato de os Estados Unidos manterem até 750
bases militares em todo o mundo é uma das principais razões de seu persistente
déficit em conta corrente, e que os países europeus assumissem algumas dessas
bases, ou permitissem o fechamento de outras, contribuiria para reduzir o
déficit estadunidense.) Entretanto, existe uma segunda via que Donald Trump
busca para resolver ambos os problemas enfrentados pelo imperialismo
estadunidense; e é nela que nos concentraremos aqui. Essa segunda via consiste
em uma recolonização do Sul Global, isto é, em recriar entre os Estados Unidos
e o Sul Global o tipo de relação econômica que existia na época colonial entre
a Grã-Bretanha e seu império colonial.
Essa
recolonização não enfraquece a hegemonia do capital financeiro internacional.
Ela não nega a ordem neoliberal, mas apenas a modifica, de modo que, em
primeiro lugar, tratados comerciais desiguais são impostos ao Sul Global; em
segundo lugar, o capital metropolitano, especialmente as empresas
estadunidenses, retoma o controle total sobre os recursos do Sul Global. Isso
permite aos Estados Unidos apropriar-se de parte do excedente econômico do Sul
sem qualquer contrapartida, de forma análoga ao que a Grã-Bretanha extraiu de
suas colônias por meio da “drenagem de riqueza”. E, em terceiro lugar, não são
impostas restrições à mobilidade financeira global, de modo que esta não se
opõe a ela. Cada uma dessas características já é visível na estratégia econômica
de Trump; e, em conjunto, elas não negam a hegemonia do capital financeiro
internacional.
Um
exemplo de tratado comercial desigual é aquele que os Estados Unidos estiveram
prestes a assinar com a Índia,⁴ até que as decisões da Suprema Corte
estadunidense sobre as tarifas de Trump levaram a uma renegociação; mas essa
renegociação não passa de um adiamento da data de entrada em vigor do tratado.
Esse tratado comercial tem duas características notáveis: primeiro, permite que
os produtos estadunidenses entrem no mercado indiano com tarifas baixas ou
nulas, enquanto os produtos indianos teriam de enfrentar tarifas muito mais
altas nos Estados Unidos. Segundo, estabelece metas absolutas específicas para
as importações indianas provenientes dos Estados Unidos em datas determinadas,
muito superiores ao volume atual das importações indianas, mas não são
estabelecidas metas semelhantes para as importações estadunidenses provenientes
da Índia. Isso equivale a transformar a Índia em um mercado cativo, ou um
“mercado à disposição” dos Estados Unidos, assim como os mercados coloniais sem
poder para impor tarifas aos produtos britânicos o foram para a Grã-Bretanha. A
situação é ainda pior do que a colonial, já que impõe metas específicas de
importação à Índia. É provável que tratados comerciais tão desiguais sejam
impostos a outros países do Sul Global. De fato, as enormes tarifas que Trump
impôs a todos esses países são uma forma de pressioná-los a aceitar tratados
tão desiguais como se fossem o “mal menor”. Esses tratados desiguais cumprem
dois propósitos simultaneamente. Primeiro, contrapõem-se à estagnação da economia
estadunidense ao aumentar o nível de atividade e emprego por meio de um aumento
das exportações líquidas, em vez de um aumento dos gastos públicos; portanto, a
oposição do capital financeiro a maiores déficits fiscais e impostos sobre os
ricos torna-se irrelevante. Segundo, reduzem o déficit em conta corrente dos
Estados Unidos e, consequentemente, contribuem para o fortalecimento do dólar.
Assim, esses tratados enfrentam simultaneamente ambos os problemas que afetam o
imperialismo estadunidense.
A
segunda vertente do esforço de recolonização, além da imposição de tratados
desiguais, é o controle dos recursos do Sul Global, especialmente o petróleo,
mas também outros recursos críticos, como as terras raras, pelas quais os
Estados Unidos aspiram controlar a Groenlândia. Embora os Estados Unidos já
sejam o maior produtor de petróleo do mundo, se chegassem a controlar os
recursos petrolíferos de países como a Venezuela, que possui as maiores
reservas do mundo, e o Irã, então teriam controle absoluto sobre a indústria
petrolífera mundial. Isso fortaleceria a posição do dólar de pelo menos três
maneiras. Primeiro, o uso do dólar nas transações petrolíferas seria mantido
intacto, de modo que sua importância não seria superada por nenhuma outra
moeda. Segundo, os Estados Unidos poderiam, assim, garantir que a expectativa
de estabilidade no preço do petróleo em dólares, que contribui para a
estabilidade do valor do dólar, permanecesse inalterada. Terceiro, com empresas
estadunidenses assumindo o controle dos recursos petrolíferos nos países do Sul
Global, não apenas a posição estratégica global dos Estados Unidos seria
fortalecida, mas também se ampliaria a margem para uma “extração de riqueza” do
Sul Global em direção aos Estados Unidos, isto é, uma mera apropriação de
excedentes sem qualquer contrapartida. Isso ajudaria a reduzir o déficit em
conta corrente dos Estados Unidos, bem como a combater as possíveis ameaças à
hegemonia do dólar e, portanto, ao sistema financeiro do mundo capitalista.
Portanto, a recolonização, por meio da obtenção de mercados cativos no Sul
Global e da exigência de um “tributo”, contribuiria para superar os dois
problemas que afligem o imperialismo estadunidense; constitui uma pedra angular
da estratégia econômica de Trump. A questão aqui não é se a recolonização será
suficiente para superar a crise do imperialismo estadunidense, mas que esta é a
estratégia de Trump.
Para o
Sul Global, tal recolonização significaria um retrocesso nos avanços alcançados
no pós-guerra. A conjuntura do pós-guerra havia tornado inevitável a
descolonização política; entretanto, o imperialismo esperava que, apesar dela,
conservaria o controle sobre os recursos do Sul Global. Consequentemente, o
processo de descolonização econômica revelou-se muito mais árduo do que a
descolonização política para os países descolonizados. De fato, o imperialismo
resistiu firmemente à descolonização econômica por meio de diversas medidas,
desde golpes de Estado até o fomento de guerras civis nesses países.
Quando
Jacobo Arbenz, da Guatemala, implementou reformas agrárias ao expropriar
grandes extensões de terras não utilizadas da empresa estadunidense United
Fruit Company, a CIA orquestrou um golpe de Estado em 1954 para derrubá-lo.
Quando Mohammad Mossadegh, no Irã, nacionalizou a indústria petrolífera do
país, pondo fim ao controle britânico sobre o petróleo iraniano por meio da
Anglo-Iranian Oil Company, a CIA e o MI6 organizaram um golpe de Estado em 1953
para derrubar Mossadegh e acabar com a democracia no país, instalando o xá Reza
Pahlavi como governante. Quando Gamal Abdel Nasser, no Egito, nacionalizou o
Canal de Suez, teve de enfrentar uma invasão anglo-francesa em 1956, que
fracassou por não contar com o apoio dos Estados Unidos e pela firme oposição
da União Soviética. Quando Patrice Lumumba ameaçou nacionalizar os recursos
minerais do Congo, interesses estadunidenses e belgas impulsionaram um
movimento separatista na província de Katanga, rica em minerais, e conseguiram
o assassinato de Lumumba em 1961. Quando Salvador Allende, no Chile,
nacionalizou importantes setores da economia, sobretudo a indústria de
mineração de cobre, que havia sido controlada por empresas estadunidenses, foi
assassinado em um golpe de Estado apoiado pela CIA em 1973.
Poderiam
ser citados muitos outros exemplos. O imperialismo nem sempre teve sucesso;
mesmo nos casos em que interveio dessa maneira, isso não necessariamente
significou um retorno ao status quo anterior. Trump agora busca reverter todo
esse processo de descolonização econômica, e de uma maneira totalmente sem
precedentes. Até agora, a oposição imperialista à descolonização econômica
havia se manifestado por meio de intervenções clandestinas através de grupos
locais apoiados por golpes de Estado ou guerras civis. Entretanto, com Trump,
pela primeira vez, presenciamos uma intervenção militar direta dos Estados
Unidos para recolonizar o Sul Global; e Venezuela e Irã são os exemplos mais
claros.
Os
argumentos apresentados pelos Estados Unidos para intervir no Irã não resistem
a uma análise rigorosa. A Agência Internacional de Energia Atômica não
encontrou provas de que o Irã estivesse fabricando armas nucleares, como
afirmavam os Estados Unidos; e, se essa era a preocupação estadunidense
(deixemos de lado, por um momento, o direito do Irã de desenvolver armas
nucleares caso Israel possua um arsenal nuclear), então os Estados Unidos não
deveriam ter revogado unilateralmente seu acordo nuclear com o Irã. Portanto,
falar de uma suposta ameaça nuclear iraniana era apenas uma desculpa frágil; o
verdadeiro objetivo da intervenção armada dos Estados Unidos e de Israel no Irã
era a “mudança de regime”, isto é, a instauração de um regime que obedecesse
aos ditames do imperialismo estadunidense. Justificar uma tentativa de “mudança
de regime” alegando a opressão do atual sistema político iraniano é totalmente
irrelevante: qualquer mudança de regime em um país é assunto exclusivo de seu
povo, salvo quando a própria ONU recorre a sanções para manifestar sua oposição
a tal regime, como ocorreu no caso do apartheid na África do Sul. Entretanto,
neste último caso, trata-se da ONU, e não de uma potência estrangeira.
Portanto, o ataque ao Irã não responde às razões que costumam ser apresentadas;
trata-se de uma tentativa de “mudança de regime” cujo objetivo é instaurar um
regime submisso que permita aos Estados Unidos controlar seus recursos. É isso
que Trump reserva para todo o Sul Global. O ataque ao Irã, consequentemente,
não é apenas uma questão bilateral; é um passo em direção à recolonização do
Sul Global, um prenúncio, por meio da força armada, de uma nova versão do
antigo império colonial.
O Sul
Global, entretanto, não renunciará às conquistas da descolonização econômica
sem lutar. É verdade que a burguesia monopolista do Sul, e até mesmo certos
segmentos da classe média urbana que desejariam que seus descendentes
emigrassem e se estabelecessem na metrópole, não se somariam a essa luta e
poderiam até mesmo ser cúmplices do projeto imperialista; e poderiam não apenas
se livrar dos efeitos adversos da recolonização, mas até mesmo se beneficiar
dela. Mas os camponeses, os pequenos produtores, os pequenos capitalistas, os
operários e os trabalhadores agrícolas, todos aqueles que continuam
comprometidos com a ideia da descolonização e que também seriam vítimas da
recolonização, resistiriam a essa recolonização. Também é verdade que o processo de perda do
controle de um país sobre seus recursos havia começado anteriormente com a
aplicação de políticas neoliberais; mas a recolonização pretende levar o
processo à sua conclusão e introduzir as características mencionadas
anteriormente, a saber, os mercados cativos e a extração de um “tributo” de que
o imperialismo agora necessita.
Aqui se
entrelaçam uma dialética de agressão e uma de resistência. O imperialismo
sentiu-se encorajado a atacar o Irã devido à relativa facilidade com que
realizou suas operações na Venezuela; e, se a mudança de regime no Irã tivesse
ocorrido com a mesma facilidade que o imperialismo havia imaginado, teria se
sentido ainda mais encorajado a estender imediatamente seus ataques a outros
países. Mas a resistência no Irã, que o pegou de surpresa, deteve-o
completamente por enquanto (ver outros comentários da mesa-redonda). Isso não
significa que abandonará seu projeto de recolonização, mas que será mais
prudente ao executá-lo. Da mesma forma, o exemplo da resistência iraniana dará
nova vida a outros países que poderiam se tornar os próximos alvos da agressão
armada estadunidense. Nos fóruns multilaterais, os países do Sul Global, até
agora bastante tímidos ao expressar sua oposição ao imperialismo, mostrar-se-ão
mais firmes graças à coragem da resistência iraniana. Consequentemente, o que
acontece no Irã influenciará o desenvolvimento dos acontecimentos em todo o Sul
Global nos próximos meses.
Fonte:
Por Prabhat Patnaik, no Observatório da Crise

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