segunda-feira, 5 de outubro de 2026

 

Eleição brasileira serviu de teste para estratégia de Trump na América Latina

Em um momento em que os Estados Unidos vêm buscando ampliar sua influência sobre a América Latina, a eleição presidencial brasileira é vista por muitos analistas como um teste crucial para a estratégia do governo de Donald Trump na região. A disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição e um quarto mandato, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ocorre em meio a uma guinada à direita em vários países latino-americanos. Uma vitória de Bolsonaro representaria a consolidação desse movimento e da influência regional de Trump, com o triunfo da direita e de um aliado político do republicano no maior país da região. "Seria a peça fundamental da chamada 'onda laranja' (em referência ao presidente americano) de líderes alinhados a Trump que vêm ganhando força e se espalhando pela América Latina", diz à BBC News Brasil o analista político Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly. "O Brasil é o maior prêmio. É pessoalmente importante para Trump. Ele tem uma relação com a família Bolsonaro que remonta a muitos anos", afirma Winter.

O analista observa que, por outro lado, uma vitória de Lula solidificaria o legado do petista como figura histórica da esquerda em todo o Sul Global. Também criaria uma "dor de cabeça no curto prazo" para Trump, diante da relação marcada por "altos e baixos. Acho que a Casa Branca provavelmente reagiria com decepção caso Lula vença. E então buscaria algum tipo de entendimento pragmático com Lula", diz Winter.

Na quinta-feira (1/10), três dias antes do primeiro turno, Trump afirmou em conversa com jornalistas que está acompanhando "de perto" o pleito no Brasil. "O Brasil é um país muito importante. É um ótimo país. As pessoas do Brasil são fantásticas. É uma eleição muito importante", afirmou o presidente americano, sem mencionar nenhum dos candidatos. Na sexta (2/10), questionado se iria apoiar Bolsonaro, Trump voltou a dizer simplesmente que está acompanhando a eleição de perto. As declarações foram feitas em meio ao receio do governo brasileiro de que Trump tente interferir na eleição brasileira.

<><> Doutrina 'Donroe'

Desde o início de seu segundo mandato, em janeiro do ano passado, o presidente americano declarou abertamente apoio a diversos candidatos de direita ao redor do mundo e, especificamente, na América Latina. Entre os exemplos recentes estão Abelardo De La Espriella, eleito em junho na Colômbia, e Nasry Asfura, vencedor no pleito do ano passado em Honduras. Na Argentina, a coalizão do presidente Javier Milei (que tomou posse em 2023, antes do retorno de Trump à Casa Branca) conquistou uma grande vitória nas eleições legislativas do ano passado após Trump sugerir que o auxílio financeiro ao país dependia do resultado nas urnas. As manifestações públicas de apoio por parte de Trump ocorreram em meio a uma onda recente de vitórias da direita na América Latina.

Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador e Peru também estão entre os países da região cujas eleições presidenciais recentes foram vencidas por candidatos conservadores.

Oscilações à direita ou à esquerda são consideradas comuns e ocorrem periodicamente na América Latina. Entre os exemplos estão a chamada "Maré Rosa", como ficou conhecida a guinada à esquerda no início dos anos 2000, e as próprias vitórias de candidatos esquerdistas em vários países, entre eles o Brasil, no início da década atual. Além disso, o movimento atual também é impulsionado pelo sentimento anti-incumbência. "Acho que é uma questão menos ideológica e mais das pessoas insatisfeitas com os atuais mandatários", diz à BBC News Brasil o especialista em relações Brasil-EUA Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais da universidade Berea College, no Estado americano do Kentucky.

No entanto, analistas ressaltam que a atual onda de vitórias da direita ocorre em um contexto de maior pressão dos Estados Unidos sobre a América Latina. As medidas do governo Trump na região vão desde tarifas, como as impostas sobre produtos brasileiros, até a captura do presidente da Venezuela, o líder chavista Nicolás Maduro, em janeiro deste ano. Poggio observa que a visão de política externa defendida por Trump e por seu secretário de Estado, Marco Rubio, é "uma visão de hegemonia nas Américas". "Acho que Rubio é a principal pessoa (no governo Trump) que está tentando colocar a América Latina na agenda", complementa o cientista político Edgar Franco-Vivanco, especialista em política latino-americana e professor da Universidade de Michigan. A interpretação do atual governo americano da Doutrina Monroe, de 1823, que defendia a predominância americana no continente, ficou conhecida como "Doutrina Donroe", em referência ao primeiro nome de Donald Trump. O atual governo defende "restaurar a proeminência americana no hemisfério ocidental".

<><> Segurança

Uma questão central nesse cenário é a da segurança pública, que é prioridade tanto para os eleitores de vários países na América Latina quanto para a estratégia de Trump no continente. Franco-Vivanco diz à BBC News Brasil que muitos eleitores latino-americanos estão decepcionados com as falhas de governos de esquerda em controlar a violência e agora querem tentar algo diferente. Isso abre uma vantagem para candidatos de direita. "Pelo menos em eleições, a direita é muito boa em dizer que vai fazer algo sobre o problema", observa. Entre os líderes de direita eleitos nos últimos anos com a promessa de combater a violência está Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que reduziu a criminalidade em seu país, mas é criticado por supostos abusos de direitos humanos.

Muitos dos políticos de direita na América Latina alinhados a Trump estão abertos a maior cooperação com os Estados Unidos na área de segurança, inclusive com operações militares conjuntas. O governo americano vem promovendo uma nova "guerra às drogas" na região e criou recentemente o chamado Escudo das Américas, iniciativa com o objetivo de ampliar a cooperação, a segurança e o combate ao narcotráfico, da qual o Brasil não faz parte. A expectativa é a de que, sob um eventual governo Bolsonaro, o Brasil passasse a integrar o grupo.

O governo Trump também designou cartéis e facções criminosas da região como grupos terroristas. Foram incluídos nessa lista os grupos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), apesar da oposição do governo Lula. "Na agenda política americana, sempre que se falava em América Latina, entrava a questão de migração, segurança, drogas. Mas, ao mesmo tempo, nunca foi prioridade na política externa americana", destaca Poggio. "O governo Trump parece que está colocando a América Latina como prioridade. Nesse sentido, as coisas podem tomar um novo rumo, porque você tem uma administração que está prometendo, e que já fez, operações militares no continente", observa. "A questão de colocar cartéis como organizações terroristas, a justificativa disso é utilizar ferramentas militares", afirma Poggio.

<><> Tarifas e sanções

Diferentemente de vários pleitos em outros países da região, Trump até o momento não declarou apoio abertamente a nenhum dos candidatos no Brasil. "Com certeza, o governo Trump prefere que Bolsonaro vença esta eleição, porque é um aliado mais próximo e há maior afinidade política entre eles. No entanto, não houve (até agora) apoio direto", salienta Franco-Vivanco. No entanto, mesmo sem apoio declarado, há receio de tentativa de interferência. No ano passado, os Estados Unidos adotaram medidas contra o Brasil descritas como uma resposta "à caças às bruxas" sofrida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Entre as medidas estavam tarifas contra produtos brasileiros e sanções contra autoridades do país, entre elas o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Recentemente, o jornal Estado de S. Paulo revelou que, nas negociações na época, uma das demandas do governo Trump era a de que o Brasil permitisse a participação de "dissidentes políticos" no pleito deste ano. O lado brasileiro rejeitou os termos, lembrando que não há dissidentes no país, que é uma democracia.

No fim do ano passado, houve alívio das tarifas e sanções. Mas neste ano os Estados Unidos voltaram a impor novas tarifas contra produtos brasileiros, e autoridades de ambos os países tiveram vistos negados ou revogados. Depois de uma visita de Lula a Washington, seu adversário, Flávio Bolsonaro, também foi recebido por Trump na Casa Branca. O anúncio da classificação do PCC e do CV como organizações terroristas, defendida por Bolsonaro, veio logo após essa visita. Diante das ações do governo Trump desde o ano passado, a resposta de Lula foi a defesa da soberania, e pesquisas e analistas indicam que as medidas podem ter beneficiado o presidente brasileiro mais do que seu adversário. "Qualquer declaração mais forte de Trump, o tiro pode sair pela culatra", resume Poggio, lembrando que, em diversos casos anteriores, o presidente americano declarou apoio a determinado candidato e acabou beneficiando o adversário.

¨      Ingerência explícita dos EUA no Brasil reflete a erosão do poderio de Washington, apontam analistas

As tentativas de interferência dos EUA nas eleições do Brasil se tornaram um tema central para o governo brasileiro e foram apontadas por congressistas norte-americanos em carta enviada ao secretário de Estado, Marco Rubio.

Washington tem um histórico de intervenções políticas em países sul-americanos, praticadas tanto por governos democratas quanto republicanos. Exemplos recentes supostamente ocorreram em 2022, quando o governo Joe Biden teria tentado interferir no pleito brasileiro em favor da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.

O caso foi exposto em 2025, por Mike Benz, ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA, que, em audiência na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados, afirmou que os EUA financiaram ONGs americanas para operações no Brasil que tinham como objetivo enfraquecer o governo de Jair Bolsonaro. Segundo ele, somente a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês) recebeu US$ 90 milhões (cerca de R$ 407,7 milhões).

Na administração do presidente Donald Trump, a busca por consolidar a América Latina como área de influência norte-americana levou Washington a se alinhar à campanha de Flávio Bolsonaro, que já prometeu que, se eleito, colocaria sua equipe de transição à disposição dos EUA.

À Sputnik Brasil, o cientista político Afonso de Albuquerque, professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais (INCT DSI), da universidade, avalia que a política de interferência dos EUA na América Latina se apresenta desde 1823, quando foi instituída a Doutrina Monroe, criada para impedir a Europa de criar novas colônias ou de influenciar países da região.

"Mas, na prática, os Estados Unidos intervieram em muitos países, principalmente da América Central", aponta.

Posteriormente, a vitória dos EUA na Guerra Hispano-Americana (1898) levou a Espanha a ceder ao país as colônias de Cuba, Porto Rico e Guam, além de vender as Filipinas por US$ 20 milhões (cerca de R$ 104,2 milhões). O episódio marcou o início da hegemonia dos EUA no mundo, consolidada no pós-Primeira Guerra Mundial.

Albuquerque destaca que essa ingerência dos EUA na região permaneceu, na maior parte das vezes, pouco visível nas décadas que se seguiram ao pós-Segunda Guerra.

"Os Estados Unidos usaram muito suas universidades, usaram muito fundações, iniciativas frequentemente articuladas entre setores de inteligência, para intervir em assuntos de outros países. A ideia era formar as elites de outros países para produzir esse efeito."

Essa política avançou com a construção do Fundo Nacional para a Democracia (NED, na sigla em inglês), criado na década de 1980, na gestão de Ronald Reagan. Segundo Albuquerque, a iniciativa tinha o pretexto de promover e fortalecer instituições democráticas ao redor do mundo, mas na prática foi uma forma de os EUA reivindicarem para si o papel de "guia moral da humanidade".

"Aí temos uma série de intervenções em outros países, a Guerra da Iugoslávia, a Guerra do Golfo, a operação no Afeganistão, e mais operações em toda parte do mundo", destaca Albuquerque.

No recorte do Brasil, ele aponta que a intervenção dos EUA se consolidou a partir da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, com tropas subordinadas a Washington atuando no front na Itália. Posteriormente, com a globalização neoliberal liderada pelos EUA, em busca de se fortalecer como superpotência global, Washington buscou eliminar qualquer concorrência, tendo entre os alvos o Brasil.

"O Brasil é um alvo tão permanente porque é o segundo país mais poderoso das Américas, em termos de população, de economia, de várias maneiras. As operações Mensalão e Lava Jato são interferência dos Estados Unidos."

Ele acrescenta que a Lava Jato se iniciou no Departamento dos EUA e se transformou em operação de combate à corrupção no Brasil, com o objetivo de "tirar a Petrobras do jogo" e eliminar o poder que a empresa dava ao Brasil naquele momento.

Albuquerque faz uma distinção entre as políticas de intervenção de Estado e de governo dos EUA. Segundo ele, no caso da gestão Trump, a intervenção ocorre como política de governo.

"O Trump dá nome para as coisas mundo afora — golfo Pérsico vira 'golfo Trump' —, há uma política personalista nos Estados Unidos hoje em dia, que se opõe à lógica da intervenção política de Estado. A política de governo, no caso do Trump, ganha peso em relação à política de Estado porque o Estado dos Estados Unidos está vivendo uma crise bem grande."

Ele avalia que a agressiva Doutrina Donroe de Trump é reflexo dessa crise excepcional, da qual os Estados Unidos "vão sair muito menores do que são hoje", e observa que Washington conquistou algumas vitórias estratégicas no continente americano, como a guinada dos países da região à chamada extrema-direita.

No entanto, ele diz que as intervenções do governo Trump também alimentam a oposição aos Estados Unidos, o que acaba dilapidando o poder de longo prazo de Washington de interferir em outros países.

"Trump, pelo seu estilo personalista abusivo, está dilapidando o capital de respeitabilidade que os Estados Unidos tinham, não porque fossem respeitosos, mas o capital de respeitabilidade permitia aos Estados Unidos agirem de maneira não respeitosa e ainda assim serem vistos como um agente ordenador do mundo. Nesse momento, os Estados Unidos atuam como um agente caótico."

Albuquerque afirma que um ponto positivo na busca do Brasil por se blindar das investidas norte-americanas é o fato de a soberania ter entrado no debate público e ter também ocasionado um princípio de mudança na visão dos militares.

"Os militares brasileiros começaram a ser atraídos para esse discurso da soberania, porque percebem na interferência estadunidense uma ameaça à indústria bélica nacional."

Mateus Mendes, doutor em economia política internacional e mestre em ciência política, considera que há um conjunto de fatores que torna a América Latina suscetível à interferência dos EUA.

Autor de "Guerra híbrida e neogolpismo: geopolítica e luta de classes no Brasil (2013-2018)" e "É a ideologia, estúpido!", ele aponta que, além do poder econômico e militar e da proximidade geográfica, as elites da região, mesmo aquelas que se apresentam como nacionalistas, majoritariamente mimetizam os Estados Unidos, enquanto as correntes contra-hegemônicas dessa camada que se inspiram em Rússia e China ainda são muito pequenas. Isso inclui as elites militares, que são muito próximas ao Pentágono.

"É até curioso, porque, se tem uma coisa em que os militares tinham que prestar atenção era quem seria o potencial inimigo. E, claramente, o principal potencial inimigo de qualquer um desses países [latino-americanos] são os Estados Unidos. E isso nunca impediu que a elite militar estadunidense tivesse uma ascendência, até mesmo intelectual, sobre esses militares", observa.

Mendes avalia que o lançamento da Doutrina Donroe faz parte da postura "histriônica" de Trump, mas aponta que o intervencionismo sempre norteou, em algum grau, a política externa dos EUA, tanto em governos republicanos quanto democratas.

"A gente vê, por exemplo, que a revolução colorida aqui no Brasil, as manifestações de 2013, tiveram forte relação com os democratas. […] A questão é que o Trump elevou isso a outro patamar."

Ele destaca que essa tendência reflete não apenas a forma de governar de Trump, mas um contexto global no qual os EUA também estão inseridos.

"Se, por exemplo, o Marco Rubio for eleito presidente, sucessor do Trump, a gente vai ter isso de forma mais evidente. Será que no possível governo dele a gente tem um corolário Rubio? Certamente", avalia.

E no Brasil, sublinha Mendes, a ingerência dos EUA encontra eco especificamente no bolsonarismo, que se coloca "totalmente submisso aos Estados Unidos".

"A capacidade de intervir dos Estados Unidos se dá justamente em função de que eles têm uma contraparte aqui dentro disposta a fazer o que eles querem."

 

Fonte: BBC News Brasil/Sputnik Brasil

 

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