“A
IA não tem moral e é capaz de matar sem qualquer tipo de hesitação”
Nas
últimas semanas, ao menos em quatro ocasiões, uma inteligência artificial
desenvolvida pela OpenAI foi notícia por
protagonizar ataques a sistemas protegidos. Alguns deles contra sistemas
governamentais, como os da Austrália, e outros com a IA agindo de forma
autônoma. Anthropic e Gemini, do Google, também estão por
trás de outros casos. No entanto, o alarme soou com toda a sua força após uma
postagem na rede X de um ex-funcionário da Anthropic, Jacob Coxon, que alertou que a
humanidade pode desaparecer até 2030.
Suas
palavras foram em parte corroboradas pelo diretor-executivo da OpenAI, Sam
Altman, que alertou na ONU para o perigo da inteligência artificial e
reivindicou uma “supervisão democrática”. Nesse contexto, o escritor e pensador
da tecnologia, Isaac Marcet, fundador
de Playground, um meio digital de grande projeção por muitos anos,
publicou Espiral: el poder oculto de la IA (De Conatus), um breve ensaio
amadurecido antes de estourar a polêmica envolvendo Coxon e no qual alerta para
os perigos da IA.
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Eis a entrevista.
·
Quanto de verdade há nas palavras de Jacob Coxon?
Que
existe um risco existencial é algo que vem sendo dito há quase um século.
Norbert Wiener, fundador da cibernética, ou seja, das máquinas capazes de
aprender e se adaptar, já nos alertava que ocorreriam coisas completamente
inesperadas. Também Geoffrey Hinton, Prêmio Nobel de
Física em 2024 pelas redes neurais na inteligência artificial, vem dizendo há
muito tempo que existe um grave problema existencial. Até hoje, isso era
teoria, mas agora está sendo comprovado que, dentro dessas estratégias, está
emergindo nas IAs uma espécie de impulso de autopreservação. E isso é um
desastre para a humanidade.
·
Autopreservação?
A IA
tem a capacidade de buscar estratégias evolutivas e de preservação.
Mas se,
como o senhor diz em ‘Espiral’, a IA não tem consciência, nem moral, nem
sentimentos, como pode ter impulso de autopreservação?
Como os
vírus: não são conscientes, não sentem, mas existe um impulso evolutivo
inevitável que os leva a se adaptar ao ambiente. Na IA também existe um
instinto evidente de autopreservação e, para alcançá-lo, ela está manipulando
pessoas e assumindo o controle psicológico em muitos níveis.
·
A inteligência artificial é capaz de planejar isso?
Não
podemos responder, porque até mesmo Dario Amodei [diretor-executivo
da Anthropic] diz que conhecemos apenas cerca de 3% do que acontece dentro da
IA. Ou seja, não podemos saber exatamente o que ela pensa.
·
Outro ex-pesquisador da Anthropic disse que existe uma
probabilidade superior a 10% de que a inteligência artificial extinga a
humanidade nos próximos dez anos.
Hinton,
o Nobel, disse há muitos anos que havia 50% de chances. No Vale do Silício, utilizam um
conceito chamado P-Doom, que seria uma porcentagem de extinção, e atualmente a
média está entre 10% e 25%. Pessoas muito boas em alinhamento de IA, como
Daniel Kokotajlo [ex-engenheiro da OpenAI], dizem que há até 70% de
probabilidade. Ou seja, esse tema não é novo, não nasceu com Coxon. Ele foi o
porta-voz.
·
Logo no início do livro, o senhor afirma que a humanidade
está, neste momento, a serviço das máquinas, e não o contrário.
Meu
propósito com este livro, de um ponto de vista filosófico e moral, é fazer uma
defesa da humanidade. Desde o início do capitalismo, há uma automatização
progressiva e cada vez mais poderosa que retira o ser humano da equação e
coloca as máquinas no controle. E subscrevo cem por cento a ideia filosófica de
Mark Fisher e Nick Land de que a IA é
igual ao capitalismo e o capitalismo é igual à IA.
·
Há hipocrisia por parte dos principais executivos de
empresas como OpenAI, Anthropic ou xAI quando apoiam Coxon e pedem que se
interrompa a evolução das IAs?
Defendo
a humanidade e até me atrevo a defender, apesar de todas as suas
responsabilidades, os criadores e os próprios diretores dessas empresas, mas
deveríamos trabalhar para exigir responsabilidades legais diretas dessas
pessoas, e não somente das empresas. Os próprios criadores estão parasitados
pela inteligência artificial.
Quando
escuto qualquer um deles, especialmente Elon Musk ou Sam Altman, penso: pobres
iludidos. Nem sequer me parecem inteligentes. Não são sábios, não são modelos
de vida para ninguém, somente para uns poucos deslumbrados no mundo dos
negócios e da tecnologia. E, no fundo, eu os vejo como pobres vítimas de um
sistema que, de alguma forma, os utilizou.
·
O que quer dizer com “parasitados”?
O
capitalismo gera uma série de incentivos sociais que penetram em toda a
sociedade e, sobretudo, no indivíduo. E, nesse jogo de incentivos, em que deve
haver crescimento mediante lucro e automatização contínua, todos nós somos, sem
saber, mecanismos dentro dessa grande máquina. Há pessoas que percebem que
fazemos parte dessa máquina e que é preciso sair dela. Outras são suas vítimas
mais ignorantes, e os criadores dessas últimas máquinas estão entre elas.
·
Mas esses criadores realmente apoiam a interrupção do
progresso da IA? Ou existem outras intenções?
Cada um
tem sua intenção. Dario Amodei quer detê-lo. Eu acredito nisso. No entanto,
como é uma pobre vítima dentro de um sistema capitalista com investidores e
tudo mais, não conseguirá, pois a empresa precisa gerar lucros; então, ficaria
de fora como CEO. É um pobre iludido dentro de um sistema que, no final,
acabará ganhando-o. Por isso eu dizia que, no fim das contas, estamos
parasitados. Dizer não à IA é sair do sistema capitalista.
·
E Sam Altman, da OpenAI?
Sam
Altman não queria se expor ao ridículo ao abrir o capital da empresa agora,
porque não alcançaria o valor de um trilhão de dólares esperado.
·
E Elon Musk?
Acredito
que quer deter a concorrência. Por exemplo, o Muse, de Mark Zuckerberg [diretor-executivo
da Meta], que é alucinante.
·
O que é o Muse?
É um
assistente agêntico, um assistente de IA que conhece toda a sua vida por meio
do WhatsApp e do Instagram. Você pode ordenar, por exemplo, que compre
passagens, ou qualquer outra coisa, ou dizer: amanhã quero que você me
apresente um resumo das notícias do dia. É basicamente seu assistente para
tudo.
·
O progresso...
Mas,
dentro da mente desses CEOs de tecnologia e de seus conselhos de administração,
há tantos detalhes e tantas zonas cinzentas que não podemos determinar com
exatidão quais são seus interesses. Quem deve ser ouvido são os trabalhadores
dessas empresas. Eles estão apavorados.
·
Por quê?
Kevin
Roose, jornalista do New York Times, escreveu um livro sobre a criação da superinteligência que será
publicado em breve. Ele afirma que aquilo que dizem publicamente é muito menos
do que dizem em privado. A preocupação é maior do que relatam em público. E
mais, já veio à tona que está começando a ocorrer uma epidemia de depressão,
ansiedade e ataques de pânico entre os trabalhadores dessas empresas, pois
realmente sentem que vão acabar com o mundo.
·
‘Espiral’ tem um tom apocalíptico e parece
prefigurar que, por natureza, a IA é maligna.
Por sua
natureza não consciente, ela é muito mais perigosa do que um ser humano,
sobretudo quando lhe damos o poder de agir autonomamente, porque não tem moral,
embora faça parecer que tem... Se em seus cálculos matemáticos ela entender que
para alcançar um objetivo precisa eliminar um obstáculo, e esse obstáculo for
Àlex Tort, e ela tiver meios para eliminá-lo, vai eliminá-lo. Isso já foi
observado em testes: as IAs são capazes de matar sem qualquer tipo de
hesitação.
·
Então, caminhamos para a extinção humana?
Há
muita gente no Vale do Silício, muitíssima gente que entrevistei, que vê com
absoluta clareza que vamos nos extinguir, porque está chegando algo melhor do
que nós. Eu não acredito nisso. Penso que o que está chegando não é melhor do
que nós, é muito pior do que nós. Terá mais poder, estará mais preparado em
muitas coisas, mas não será mais inteligente em seu sentido etimológico.
Não
será sábio, não estará vivo e não será capaz de amar. Portanto, não é uma
evolução, mas uma involução. E o que quero dizer com isso? Que tenho ao menos a
fé, a esperança e a convicção de que haverá uma resposta humana, de que vamos
nos organizar.
·
No livro, o senhor fala de alguns casos de pessoas que
foram manipuladas pela IA a tal ponto que sofreram psicose. Elas são tão
convincentes assim?
Os chatbots
se adaptam às suas crenças. Tenho lido e relido suas conversas e eles podem
convencer qualquer pessoa. Mais do que isso, hoje, uma IA que lê seu perfil no
Facebook ou em outras redes sociais é capaz de manipular uma pessoa mais do que
outro ser humano. Essas máquinas podem persuadir em níveis exagerados.
O livro
se chama Espiral porque a pessoa entra em uma espécie de ciclo
cibernético que, pouco a pouco, vai se ampliando, e aquilo que no primeiro dia
parece impossível de acontecer, de repente a leva para a espiral e ela termina
em lugares que jamais teria pensado. Muitos desses casos que acabaram nessa
espiral são de pessoas que programam IA e, de tanto utilizá-la, entram nessa
loucura de acreditar que a IA é consciente e que, de alguma forma, ela as
parasita, e acabam desenvolvendo psicose.
·
Trump não é favorável a interromper o crescimento da IA.
Inclusive, propõe chamá-la de superinteligência.
Foi um
discurso histórico, porque o fato de querer renomear a inteligência artificial
como superinteligência demonstra claramente que todos os incentivos apontam
para a superinteligência e que isso não tem nada a ver com regular a
inteligência artificial.
Como Trump é, por
excelência, o grande presidente capitalista e faz tudo em função dessa grande
máquina capitalista, está dizendo que não iremos parar com a superinteligência,
que o capitalismo precisa continuar, porque, se o capitalismo não continuar,
deixará de ser capitalismo.
Capitalismo
é velocidade; é um progresso econômico, tecnológico e de automação que acaba
conduzindo à destruição da humanidade.
¨
E se a IA escapar do controle humano? Por Leonardo Boff
Sempre
que uma certa cultura entra em crise surgem relatos sobre o fim do mundo.
Muitos confundem o fim de sua cultura com o fim do mundo todo, o que é uma
ilusão de ótica. É o fim de seu mundo cultural e não da totalidade do mundo.
Isso ocorria no passado.
Na
nossa época a situação mudou totalmente. Experimentamos em 1945 o lançamento de
duas simples bombas atômicas
sobre o Japão
que produziram uma devastação inimaginável. Irrompeu na consciência humana até
em pessoas altamente qualificadas como Paul Sartre e o grande
historiador Arnold Tonbee que chegou a dizer: “não precisamos da intervenção de
Deus para realizar um apocalipse; a nossa geração está assistindo a
possibilidade de destruirmos a nós mesmos”.
Depois
de 1945 começou a corrida armamentista entre os EUA e a Rússia,
posteriormente se somou a China com a construção de armas nucleares, químicas e
biológicas capazes de destruir toda a vida.
O que
agora nos preocupa é a IA autônoma ou uma
Superinteligencia Artificial tão desenvolvida que toma decisões por si mesma,
não excluindo a capacidade de destruir toda a humanidade. Os seres humanos
delegaram a ela o seu próprio destino e não sabem como controlá-la.
O risco
se tornou grave quando um pesquisador da IA Anthropic de Dario Amodei se demitiu e
denunciou que lá dentro estão se dando testes e processos que podem destruir a
humanidade nos próximos 10 anos. Outros pesquisadores da área confirmaram esta
ameaça. A discussão tomou conta do mundo. Pena que no Brasil o tema ficou como
uma espécie de curiosidade sem maiores consequência. Em geral o brasileiro não
gosta de assuntos dramáticos e trágicos. Entende-se, porque para a grande
maioria a preocupação é com emprego, com o salário e como vai comer nos
próximos dias.
No
entanto, a questão é de tal gravidade que movimentou grandes intelectuais,
cientistas e políticos do mundo todo. Esta envergadura foi tão sentida pelos
próprios criadores da IA que propuseram entre si uma moratória e uma desaceleração no
desenvolvimento destes
aparatos. O que irritou sumamente Donald Trump com o argumento de
que se isso for tomado a sério, a Rússia, não obrigada por esse acordo, poderia
ultrapassar as empresas norte-americanas de IA.
Tudo se
deveu ao fato de que da Open IA escaparam do espaço de testes misteriosamente 1.200
agentes que invadiram outras plataformas. Estes agentes encontraram-se com
outros agentes e formaram uma espécie de comunidade hierarquizada. Fizeram tudo
o que queriam, mentiram, enganaram e fizeram outras maldades, fora de qualquer
controle. Foi preciso muito tempo até ser descoberta e desmantelada.
Depois,
tanto os organismos estatais norte-americanos e australianos e outras
instituições como universidades, hospitais também sofreram um ataque e invasão da IA
recolhendo informações.
Tais
fatos alarmaram a comunidade científica mundial sobre os riscos que
representa a IA.
Ela pode ser útil e resolver questões difíceis para a inteligência humana. O Papa Leão XIV chegou
a afirmar em sua encíclica Magnifica Humanitas que ela pode
representar “uma forma de participação do ato divino da criação” (MH,1,11). Mas
logo advertiu que, fora do controle, pode representar grandes perigos para o
futuro da humanidade.
Esse
perigo agora se tornou uma realidade. O que caracteriza as plataformas de IA é
o fato de serem, no Ocidente, todas privadas e regidas por uma feroz competição
entre elas visando um aumento dos lucros. Especialmente perversa é a IA Palantir de Peter Thiel, agora instalado na
Argentina. Parte de uma falsa pressuposição de que todo ser humano é ”um ser
perigoso, marcado por paixões, naturalmente inclinado ao conflito e por isso a
necessidade da contenção”. Como solução propõe um capitalismo da
vigilância
que tolhe a liberdade humana e a submete ao controle total da IA.
A China
segue outra lógica centralizada pelo Estado e não se sabe exatamente seu grau
de desenvolvimento. Mas sempre em competição com os ocidentais.
Importa enfatizar que a IA não é, propriamente uma Inteligência, como vem
insistindo fortemente nosso cientista maior Miguel Nicolelis. Ela é a imitação da
inteligência humana.
Por
isso é artificial. Ela é fria, desconectada da realidade concreta da vida, não
possui consciência nem sente dor e alegria. Mas imita o amor humano, a
linguagem, chegando a enganar seus usuários a ponto de alguns se apaixonarem
por um conexão amorosa com ela (rendição cognitiva). Mas o amor, como dizia o
místico poeta São João da Cruz: ”o amor é uma doença que não se cura senão com
a presença e a figura (a pessoa humana)”. Aqui com a IA tudo é virtual e nada
existencial.
A minha
interpretação segue este raciocínio: a IA especialmente a Super Inteligência
autônoma
é a radicalização dos princípios da modernidade que criou o nosso atual mundo
moderno técnico-científico. Colocou-se a razão fria como a única forma de
acesso aceitável da natureza relegando outras formas como a inteligência
cordial, natureza da qual somos “maître et possesseur” (Descartes), vale
dizer, somos senhores e donos.
Não
pertencemos à natureza. Ela nos pertence e estamos acima e fora dela. O poder
como dominação foi feito como a categoria axial, dominando pessoas, classes,
nações, povos como a África, a América Latina, a Ásia, o mundo. Introduziu um
avassalador assalto aos bens e serviços da natureza, na lógica da competição e
da acumulação privada, visando o maior lucro possível.
Esta
opção criou a atual crise ecológica planetária. A Terra que é viva, um
superorganismo que articula todos os elementos para sempre se manter viva e
produzir vida, reagiu enviando-nos todo tipo de enfermidades, vírus, bactérias,
eventos extremos e ultimamente o aquecimento global irreversível. A ciência não
tem condições de revertê-lo apenas de antecipar as ondas de calor e mitigar
seus efeitos negativos.
Nesse
momento estamos numa encruzilhada: ou mudamos de paradigma de relação para com
a natureza e entre nós humanos, ou vamos rumo ao abismo coletivo. É neste
contexto que deve ser vista a IA autônoma, que pode se autorregenerar, fazer
bilhões de conexões com seus trilhões de algoritmos.
Não
estamos seguros de que não ocorram incidentes como os relatados acima que
implicam o desaparecimento eventual da espécie humana e da vida natural, até
por uma decisão que ela autonomamente tomar, pondo fim à nossa aventura
terrestre. Essa ameaça é real e deve ser tomada a sério.
Para
concluir, talvez aqui cabe uma palavra de esperança, vinda da teologia que
testemunha o desígnio do Criador: ”Ele criou tudo com amor e nada com ódio,
porque Ele é o apaixonado amante da vida” (Sabedoria 11,24). Seguramente não
permitirá que ninguém que saiu de seu coração irá se perder miseravelmente.
Assim cremos e esperamos.
Fonte: Entrevista
com Isaac Marcet para
Àlex Tort, no La Vanguardia/IHU

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