segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O capital em crise e o futuro em disputa

Há uma contradição central em nosso tempo. A economia mundial nunca produziu tanta riqueza, conhecimento e capacidade tecnológica. Ao mesmo tempo, para a grande maioria da população, segurança econômica, mobilidade social e trabalhos de qualidade parecem sonhos cada dia mais distantes. Essa contradição do capitalismo contemporâneo é observável nos dados: os 10% mais ricos do planeta recebem 53% de toda a renda mundial e detêm cerca de três quartos da riqueza. Na outra extremidade, os 50% mais pobres recebem apenas 8% da renda e possuem 2% da riqueza. O 1% mais rico, sozinho, controla 37% do patrimônio mundial, segundo o World Inequality Report 2026.

No mercado de trabalho, a contradição ganha outra dimensão. A Organização Internacional do Trabalho projeta uma taxa global de desemprego relativamente baixa, de 4,9% em 2026. Mas estima também um déficit global de empregos de 408 milhões de pessoas, gente que deseja trabalho remunerado, mas não consegue obtê-lo. Cerca de 2,1 bilhões de trabalhadores permanecem na informalidade e quase 300 milhões trabalham mesmo vivendo em situação de pobreza extrema.

A hipótese defendida neste ensaio é que, quando forças de esquerda não conseguem traduzir essas contradições em respostas políticas percebidas como concretas, abre-se espaço para que outras correntes disputem a interpretação dos anseios e das frustrações sociais. A questão central é: o que acontece quando uma sociedade possui enorme capacidade de produzir riqueza, mas encontra dificuldades para transformar essa capacidade em segurança econômica, mobilidade social e perspectiva de futuro para uma parcela significativa de sua população?

É nesse ponto que a discussão sobre a crise contemporânea do capitalismo deixa de ser apenas econômica. Ela se torna também uma disputa sobre o sentido da sociedade e sobre quem será capaz de explicar suas contradições.

<><> A riqueza existe. A disputa é pelo acesso a ela

Os dados sobre desigualdade mundial são importantes justamente porque afastam uma interpretação simplista da crise. O mundo não está ficando simplesmente “mais pobre”. A questão é como renda e patrimônio estão distribuídos. Se os 10% mais ricos concentram aproximadamente 75% da riqueza mundial enquanto a metade mais pobre detém apenas 2%, o crescimento da capacidade produtiva não determina, por si só, como os resultados dessa produção serão apropriados. É nesse sentido que Marx permanece relevante. Ele oferece, antes de tudo, uma maneira de investigar a estrutura econômica: quem controla os meios de produção, como a riqueza é produzida, de que maneira os ganhos são apropriados e quais relações sociais sustentam esse processo.

Em face disso, é necessário compreender melhor o que estamos tratando como “crise”. Uma economia não precisa estar em recessão para produzir insegurança social. PIB, emprego e produtividade podem crescer enquanto determinados grupos enfrentam dificuldades para transformar trabalho em patrimônio, renda em estabilidade ou qualificação em mobilidade social. O capitalismo não é experienciado por meio de uma abstração. As pessoas o experimentam no salário que recebem, no preço do aluguel, no custo dos alimentos, na possibilidade de comprar uma casa, na estabilidade do emprego, na qualidade dos serviços públicos, no dinheiro que sobra ou falta no final do mês. Uma economia pode crescer enquanto uma geração conclui que terá mais dificuldade do que a anterior para acumular patrimônio. Pode apresentar desemprego baixo enquanto milhões trabalham em ocupações precárias. Pode produzir grandes inovações tecnológicas enquanto os ganhos associados a elas são distribuídos de maneira profundamente desigual. A crise contemporânea é, nesse sentido, também uma crise de expectativas. E expectativas frustradas em grande escala têm consequências políticas relevantes.

<><> Ter emprego não significa necessariamente ter segurança

O problema, portanto, não é apenas quantos empregos existem efetivamente. É preciso perguntar que empregos são esses, quanto pagam, quais direitos oferecem, quanto tempo duram e que tipo de vida permitem construir. O Brasil oferece um exemplo particularmente interessante dessa diferença. Em 2025, a taxa anual de desemprego caiu para 5,6%, a menor desde o início da série histórica da PNAD Contínua, em 2012. O país chegou ao recorde de 103 milhões de pessoas ocupadas, e o rendimento real habitual do trabalho atingiu R$ 3.560, alta real de 5,7% em relação a 2024. São avanços concretos. Mas a mesma fotografia contém outros números: a taxa de informalidade permaneceu em 38,1% da população ocupada e a taxa de subutilização da força de trabalho ficou em 14,5%. Havia ainda 13,8 milhões de empregados sem carteira assinada e 26,1 milhões de trabalhadores por conta própria.

Os dois conjuntos de dados precisam ser observados simultaneamente, já que fornecem subsídios para o entendimento da complexa realidade do trabalho no Brasil. Seria, portanto, incorreto descrever o mercado de trabalho brasileiro recente simplesmente como uma situação de declínio: emprego e renda melhoraram significativamente. Mas seria igualmente insuficiente concluir, a partir da queda do desemprego, que a insegurança econômica desapareceu. Uma pessoa pode estar empregada e ainda assim possuir pouca proteção contra uma queda de renda, uma emergência familiar ou um período sem trabalho. Essa distinção ajuda a compreender por que percepções de insegurança podem sobreviver, ou mudar mais lentamente, mesmo quando determinados indicadores macroeconômicos melhoram. O trabalho, por si só, já não garante a uma parcela da população estabilidade econômica nem melhora contínua das condições de vida.

<><> Crescimento não é necessariamente desenvolvimento

É justamente nesse ponto que Celso Furtado continua indispensável. Uma das preocupações centrais de sua obra foi distinguir crescimento econômico de desenvolvimento. Uma economia pode ampliar sua produção, modernizar setores e incorporar tecnologia sem necessariamente realizar uma transformação estrutural capaz de distribuir amplamente os benefícios desse processo. Desenvolvimento, nessa perspectiva, envolve mais do que produzir uma quantidade maior de bens e serviços. Envolve transformação da estrutura produtiva, ganhos de produtividade, diversificação econômica e ampliação das possibilidades sociais abertas à população.

A pergunta, portanto, não é apenas quanto uma economia cresce, mas o que ela produz, como produz, quem captura os ganhos de produtividade e quais oportunidades sociais surgem desse processo. Essa distinção é especialmente importante para países como o Brasil. A economia brasileira passou por sucessivos ciclos de modernização sem eliminar desigualdades históricas. Diferenças regionais continuam expressivas: em 2025, por exemplo, o rendimento domiciliar nominal mensal per capita variou de R$ 1.219 no Maranhão a R$ 4.538 no Distrito Federal.

A própria trajetória recente mostra como avanços e fragilidades podem coexistir. Entre 2015 e 2016, o Brasil atravessou uma das recessões mais profundas de sua história recente. O PIB caiu 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016. Apenas em 2015, a formação bruta de capital fixo, medida que inclui investimentos em máquinas, equipamentos, construção e outros ativos, despencou 13,9%, enquanto o PIB per capita recuou 4,3%. No ano seguinte, o PIB per capita voltou a cair, dessa vez 4,1%. Uma contração dessa magnitude não permanece confinada às contas do Estado. Ela atravessa empresas, empregos, decisões de investimento e expectativas familiares. E expectativas econômicas têm importância e peso político. Quando parcelas da sociedade passam a acreditar que seus filhos terão menos oportunidades, que melhores condições de vida permanecerão distantes ou que a estabilidade alcançada por gerações anteriores deixou de ser possível, a sociedade enfrenta algo maior do que uma oscilação do ciclo econômico. Surge uma disputa para explicar por que isso aconteceu e quem é responsável por mudar essa trajetória.

<><> A economia não determina automaticamente a política

Aqui é necessário fazer uma distinção fundamental. Não existe uma linha mecânica entre crise econômica e crescimento da extrema direita, assim como não existe uma passagem automática da crise ao fortalecimento da esquerda. Uma recessão, por si só, não contém uma ideologia pronta. A mesma experiência de insegurança pode produzir demandas por proteção social, redistribuição, liberalização econômica, nacionalismo, mudanças institucionais, maior controle migratório, fortalecimento do Estado ou diferentes combinações dessas respostas. A experiência material precisa primeiro ser transformada em uma explicação política.

Para Gramsci, a política não acontece apenas dentro das instituições formais do Estado. Ela envolve também a disputa pela construção do senso comum: a capacidade de transformar determinada interpretação da realidade em algo que pareça evidente, natural e intuitivamente verdadeiro. Com base nessa interpretação e diante dessa deterioração material, surgem perguntas sobre salários que não acompanham o custo de vida, serviços públicos insuficientes, concentração de poder econômico e incapacidade das instituições tradicionais de responder aos problemas.

As perguntas podem partir de experiências econômicas semelhantes, mas as respostas políticas podem ser radicalmente diferentes. É nessa distância entre experimentar uma crise e explicar uma crise que se trava uma das disputas centrais da política contemporânea. Em períodos de insuficiência do modelo capitalista, importa compreender quem consegue interpretar e organizar as demandas concretas da população.

<><> O que a história diz sobre crises e radicalização

Há evidência histórica de que determinadas crises econômicas podem alterar significativamente o comportamento político. Mas essa relação precisa ser tratada com precisão.

Manuel Funke, Moritz Schularick e Christoph Trebesch construíram uma base histórica cobrindo mais de 800 eleições em 20 economias avançadas entre 1870 e 2014. O resultado é importante justamente porque contém uma distinção frequentemente perdida no debate público. Os autores encontraram aumento de polarização, fragmentação parlamentar e apoio à extrema direita depois de crises financeiras sistêmicas. Em média, a participação eleitoral de partidos classificados pelos pesquisadores como extrema direita aumentou aproximadamente 30% nos cinco anos posteriores a essas crises.  Os autores não encontraram o mesmo padrão depois de recessões comuns ou de choques macroeconômicos severos sem crise financeira. Isso enfraquece qualquer explicação determinista. A natureza da crise, a resposta institucional, a distribuição das perdas e sua interpretação política importam.

A Grande Depressão oferece um exemplo extremo. O colapso econômico não produziu sozinho o nazismo. A Alemanha possuía uma trajetória particular de derrota militar, instabilidade institucional, nacionalismo, violência política e conflitos sociais, mas a depressão alterou drasticamente o ambiente em que essas forças disputavam apoio. A crise financeira de 2008 recolocou a questão em outro contexto. Para milhões de pessoas, significou desemprego, perda patrimonial, endividamento e redução de oportunidades. Para os Estados, exigiu enfrentar o risco sistêmico representado por instituições financeiras cuja quebra poderia aprofundar a crise.

As intervenções adotadas após a crise contribuíram para limitar perdas ainda maiores de produto e emprego, segundo avaliações posteriores do FMI. Mas deixaram uma questão distributiva importante: quem absorve as perdas quando uma crise ameaça o funcionamento do sistema? Crises não determinam a preferência política, mas ampliam a disposição para ouvir ideias antes consideradas insuficientes ou marginais.
Nas teses Sobre o conceito de história, Walter Benjamin mostra por que o avanço de forças autoritárias não deve ser tratado apenas como anomalia ou interrupção inesperada de uma trajetória de progresso. Na Tese VIII, escrita em 1940 sob a ascensão do fascismo europeu, Benjamin adverte que “o assombro com o fato de que os episódios que vivemos no século XX ‘ainda’ sejam possíveis não é um assombro filosófico” (BENJAMIN, 1987, p. 226). Esse espanto revela os limites de uma concepção da história fundada no progresso automático. Mais do que perguntar como certas ideias ressurgiram apesar dos avanços econômicos, sociais ou institucionais, é necessário investigar as condições históricas que permitiram sua recepção e seu fortalecimento.

<><> A extrema direita e a batalha pela interpretação da crise

É nesse terreno que diferentes movimentos de extrema direita contemporânea conseguiram ampliar seu espaço político em vários países. Não porque exista uma causa econômica única para esse fenômeno. Tampouco porque seus eleitores constituam um grupo homogêneo. Mas porque movimentos políticos crescem também quando conseguem conectar experiências individuais a uma narrativa coletiva. Dependendo do país e do movimento, discursos classificados como de extrema direita combinam, em diferentes proporções, nacionalismo, restrição à imigração, conservadorismo cultural, crítica às elites políticas tradicionais, defesa da ordem e referências nostálgicas a um passado percebido como melhor.

Outras forças oferecem interpretações diferentes das mesmas transformações econômicas. Uma pessoa que atravessou anos de instabilidade não procura necessariamente uma teoria completa sobre financeirização, produtividade ou transformação estrutural. Ela quer entender sua própria experiência. Por que consigo trabalhar, mas não acumular patrimônio? Por que uma casa que meus pais puderam comprar parece inacessível para mim? Por que meu diploma não produz a estabilidade que eu esperava? Por que determinados grupos enriqueceram tanto enquanto outros encontram dificuldade para acessar o mínimo? Quem oferece respostas convincentes a essas perguntas disputa algo maior do que eleições. Disputa o senso comum e, em última instância, a hegemonia da narrativa de uma sociedade. Nesse sentido, uma crise econômica pode se transformar também em uma crise de interpretação.

<><> O paradoxo brasileiro

No Brasil, essa discussão assume características próprias. O país possui uma economia diversificada, enorme base de recursos naturais, instituições de pesquisa, universidades, relativa capacidade industrial e um mercado interno de mais de 200 milhões de habitantes. Ao mesmo tempo, mantém grandes desigualdades regionais e sociais e enfrenta dificuldades históricas para elevar sua produtividade. O cenário, contudo, não é exclusivamente pessimista. O PIB real cresceu 3,4% em 2024. Em 2025, o desemprego atingiu o menor nível e a população ocupada, o maior nível da série da PNAD Contínua. Falar em “crise do capitalismo”, portanto, não significa afirmar que todos os indicadores brasileiros estejam piorando, mas perguntar se melhorias conjunturais bastam para enfrentar problemas estruturais.

O desenvolvimento não se resume à variação anual do PIB, assim como o desemprego baixo não resolve, sozinho, problemas de produtividade, informalidade, desigualdade, serviços públicos e acumulação patrimonial. O desafio brasileiro é transformar capacidade econômica em desenvolvimento sustentado e socialmente disseminado.

<><> A disputa pelo futuro

Marx, Furtado, Gramsci e Benjamin pertencem a tradições intelectuais e contextos históricos diferentes. Mas colocá-los em diálogo permite formular quatro perguntas que permanecem extraordinariamente atuais. Marx pergunta: quem controla e se apropria da riqueza produzida socialmente? Furtado: que tipo de desenvolvimento uma estrutura econômica produz e quem participa dele? Gramsci: quem consegue a hegemonia e, por consequência, transformar sua explicação da realidade em senso comum? Benjamin: quais custos ficam escondidos quando descrevemos determinada transformação como progresso?

A economia contemporânea possui extraordinária capacidade de gerar riqueza e inovação, mas seus resultados são distribuídos de maneira profundamente desigual. Ao mesmo tempo, melhorias importantes em emprego e renda mostram que essa realidade não é estática nem pode ser reduzida a uma narrativa simples de deterioração permanente. É justamente essa complexidade que torna a disputa política tão intensa. Diferentes correntes oferecem diagnósticos distintos. Algumas enfatizam desigualdade e concentração econômica. Outras, produtividade, regulação ou limites do Estado. Há ainda as que destacam imigração, transformações culturais, globalização ou perda de soberania, muitas vezes combinando esses elementos. Não existe uma passagem automática dos dados para uma única conclusão política. Os dados delimitam o problema. A política disputa seu significado.

A posição de Benjamin contra a ideia de que a história necessariamente caminha para melhor permanece pertinente. Avanço tecnológico não garante progresso social. Crescimento econômico não garante desenvolvimento. Produção de riqueza não garante sua distribuição. Reconhecer isso não é meramente pessimismo, mas a necessidade de abandonar a ideia de que o futuro se resolverá sozinho e assumir a responsabilidade de construí-lo. O aumento da produtividade, a transformação tecnológica do trabalho e o crescimento da economia abrem disputas sobre a distribuição de seus benefícios e custos. Se a riqueza permanecer concentrada e milhões de pessoas considerarem o futuro menos acessível do que esperavam, compreender essa experiência será indispensável para explicar as respostas políticas que emergem dela. Talvez esse seja o aspecto mais importante da atual crise do capitalismo.

Não se trata apenas de saber se a economia está crescendo ou se retraindo. Trata-se de saber o que as pessoas podem razoavelmente esperar da sociedade em que vivem e quais caminhos podem responder a essas demandas genuínas. É nesse terreno que se trava uma das grandes disputas políticas do nosso tempo. A história não oferece garantias sobre seu resultado. O futuro não está escrito. Mas quem consegue dar sentido às contradições do presente participa, inevitavelmente, da disputa para construí-lo. Por isso, torna-se fundamental que os diferentes campos da esquerda assumam a responsabilidade de avaliar criticamente seus erros e acertos e, sobretudo, compreender em que medida foram capazes de responder às novas demandas de uma classe trabalhadora que não é estática, mas que se transforma junto com as relações de trabalho, a tecnologia e a própria sociedade. A partir desse diagnóstico, coloca-se uma questão incontornável para o futuro: quais caminhos políticos serão capazes de responder aos anseios dessa classe trabalhadora e em que medida a atuação pelas vias institucionais existentes é suficiente para produzir as transformações que essas demandas exigem?

 

Fonte: Por Bruno Alexandre, em Outras Palavras

 

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