A
pátria “distraída”
Durante
o pleito de 2010, um candidato do PR (Partido da República) ao cargo de
Deputado Federal – pelo Estado de São Paulo – martelava o slogan “Pior [do] que
tá não fica”. Fosse pela desfaçatez embutida no bordão, fosse pela antiga
popularidade como cantor, palhaço e humorista, o fato é que, transcorridos
dezesseis anos, o sujeito acumula quatro mandatos consecutivos (com baixíssima
assiduidade à Câmara), a atuar por legendas partidárias diferentes.
Três
anos depois, uma campanha de origem popular, em luta contra o aumento na tarifa
das passagens de ônibus, foi prontamente absorvida por grupos de extrema
direita, financiados pelo grande capital. Em junho de 2013, uma multidão tomou
a Avenida Paulista, sob o prédio da Fiesp a irradiar luzes verdes-e-amarelas.
Simultaneamente, a esplanada dos ministérios era tomada por um bando de
desordeiros. Parte deles furou o bloqueio dos agentes de segurança, subiu a
rampa e invadiu a marquise e as cúpulas do Congresso Nacional.
Em
2018, uma gigantesca manobra de lawfare – sabidamente apoiada pelos Estados
Unidos e por setores do ralo empresariado brasileiro – acusou e condenou,
sumariamente e sem provas (mas segundo “convicções” pessoais) Luiz Inácio Lula
da Silva: o candidato mais bem colocado nas pesquisas para a Presidência da
República, na ocasião. Em seu lugar, o PT (Partido dos Trabalhadores) e o PSol
(Partido Socialismo e Liberdade) mobilizaram Fernando Haddad e Manuela d’Ávila
como candidatos às eleições.
A
despeito do curtíssimo período de campanha, a chapa obteve 44,87% dos votos
válidos, contra o então representante do PSL (Partido Social Liberal), que saiu
vitorioso. Pela segunda vez, em brevíssimo espaço de tempo, parte expressiva da
população brasileira brincava de fingir moralismo, modernidade e combate à
corrupção. Tão logo começou o mandato do ex-capitão, aumcularam-se ofensas
diárias contra a imprensa.
Veio a
pandemia mundial da Covid, em 2020. Apareceram dezenas de escândalos de
corrupção documentada (em meio a trocas constantes do comando das
investigações). Assim como o palhaço que entoava o “pior do que tá não fica”,
no penúltimo ano de sua (indi)gestão, o ex-presidente migrou para o PL (Partido
Liberal).
A
promiscuidade partidária passou batido. Em 2022, qualquer cidadão minimamente
bem-informado concluíra que fora possível piorar o que já estava tenebroso.
Assim como fingiram votar “em protesto”, quando elegeram Tiririca em 2010, os
adeptos do “mito” simularam ver sinceridade na fala grosseira e virulenta
(apoiada por fake news, irradiadas pelo gabinete do ódio, e replicadas por seus
apoiadores nas redes sociais); sorriram, achando graça da postura indecorosa do
presidente que elegeram.
Apesar
dos elogios a torturadores, do negacionismo anti-vacina, das numerosas
denúncias de atividades irregulares e criminosas; a despeito de constantes
alusões a frases e cenas abjetas do fascismo e do nazismo, interpretadas por
ele mesmo e por seus ministros; apesar do desmatamento recorde (não só na
Amazônia) e da liberação de 2.182 agrotóxicos, quase todos proibidos no resto
do mundo, durante seu governo; embora se orgulhasse da postura anti-ciência e
do desestímulo às artes, a educação e a cultura… quase metade dos votos, em
outubro de 2022, foram creditados ao ex-mandatário.
Substancialmente,
estamos cercados de seres mitômanos que persistem em fingir patriotismo e
adesão ao “resto” do povo. Multiplicaram-se condutas irresponsáveis de quase
todo o seu staff, também replicadas por seus aliados pseudopolíticos, que
passaram a chamá-lo de “chefe”. Alçado ao posto máximo da república, graças à
cruzada liderada por um ex-magistrado empenhado em retirar Lula do páreo, tão
logo empossado o desgovernante alimentara a ambição do ex-juiz, acenando-lhe
com a possibilidade de uma carreira no STF (Supremo Tribunal Federal).
No
domingo seguinte à posse de Luiz Inácio, em 8 de janeiro de 2023, milhares de
tipos caricatos, novamente fantasiados de verde-e-amarelo, depredaram os
prédios do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal
Federal (STF), em Brasília. Fechava-se uma década de mobilizações da
extrema-direita. O episódio não foi espontâneo: nasceu de acampamentos
aquartelados e do custeio de dezenas de ônibus, repletos das hostes
pseudopatriotas, rumo à capital do país.
Os
atos, decorrentes de uma trama golpista, coroavam a carreira de um tipo
destituído de projetos: um falastrão habituado a mentir e a agir sempre em prol
de si mesmo (e de seus apaniguados), sem respeito algum pela qualidade de vida
dos cidadãos de seu país, nem mesmo durante a maior crise sanitária mundial da
história recente.
Eis
mais um momento decisivo da República. Quarenta e um anos após a chamada
redemocratização, corre-se, mais uma vez, o risco de retrocedermos, com o aval
de Donald Trump, Javier Milei e do genocida israelense. Desta vez, eles foram
ainda mais longe. Afora mentirem de modo contumaz, eles obtiveram apoio
expresso dos Estados Unidos – “terra da liberdade e lar dos bravios” – que se
traduz no envio de drones e no financiamento de outras ações antidemocráticas,
em evidente desrespeito à soberania do país e à dignidade dos brasileiros.
Estamos
à beira de um “ismo” irresponsável, leviano e falacioso, que não se via desde
2016, quando Dilma Roussef foi acusada por uma prática administrativa
recorrente entre todos os presidentes que a antecederam (e a sucederam). Dez
anos após o golpe que colocou seu vice no poder, quase metade dos eleitores não
vê mal algum em associar patriotismo a entreguismo, a reacionarismo, a
militarismo, a exclusivismo….
Será
razoável supor que este país tenha vocação golpista, embora possa comportar
projetos muito maiores, mais abrangentes e inclusivos? A pátria é cínica? Ou
estará distraída? Nossos conterrâneos terão rebaixado a macro-política a uma
aposta na ciranda de perversos narcisistas? Até quando seremos punidos pela
falta de memória? Que ruptura civilizacional é esta que impede ver que o único
projeto da extrema direita é franquear o território aos gringos e deixar o povo
à míngua? Alguém acredita, mesmo, que esses candidatos sejam contra o sistema?
• A promessa de um grande futuro. Por
Rafael R. Ioris
Nenhuma
sociedade na história se desenvolveu sem que tenha havido um projeto nacional
que garantisse que a maior parte dos seus habitantes pudesse participar
minimamente do processo decisório e no mercado interno. Por mais evidente que
tal afirmação possa parecer, o Brasil, país que foi, por muitas vezes, a grande
promessa do Sul Global desde os anos 1950, ainda não conseguiu avançar de forma
significativa em nenhuma dessas áreas.
De
fato, apesar de ter sido uma das economias que mais cresceu, se industrializou
e urbanizou ao longo do século XX, a evolução histórica brasileira foi pautada
por uma longa sucessão de avanços e retrocessos, ambos definidos pela
continuada exclusão política e econômica da grande maioria da sua população.
Claro
que numa sociedade com o trágico legado de ter sido a maior economia
escravocrata da era moderna, a formulação de qualquer tipo de projeto nacional
de desenvolvimento iria inevitavelmente ter que enfrentar dificuldades
específicas. Mas ainda que com uma riqueza produzida por milhões de
escravizados, acumulamos ao longo do século XIX suficientes recursos que mais
tarde iriam ser convertidos, pelo menos em parte, em um dos mais acelerados
processos de industrialização coordenada pelo estado em meados do século
passado.
Tragicamente,
comprovando que as amarras para um desenvolvimento efetivo se manifestam
reiteradamente também na esfera política, mesmo quando nos industrializavamos
de forma significativa, especialmente nas décadas de 1930 e 1940, isso ocorreu,
em grande medida, por meio de um estado autoritário que limitava o processo de
inclusão social ‘as classes médias e restritas camadas de trabalhadores urbanos
sindicalizados.
Esses
últimos, em especial, embora obtendo ganhos históricos, continuavam a enfrentar
limitações legais na busca por maior autonomia e participação nas esferas
econômica e política.
Surpreendentemente,
no contexto do pós-guerra, parecia que esse padrão histórico poderia ser
finalmente alterado de maneira duradoura. O país experimentaria pelos próximos
20 anos um dos períodos mais promissores, especialmente no sentido de conseguir
crescer e se industrializar de forma acelerada ao mesmo tempo em que mantinha e
aprofundava sua institucionalidade democrática. Essa rica e nova experiência,
contudo, não seria mantida. E no golpe militar de 1964, as elites dirigentes do
país reiterariam sua opção por destruir a democracia a fim de impedir que
reformas estruturais mais amplas e capazes de promover os tão necessários
maiores níveis de inclusão fossem evitadas.
Sim, o
país conseguiria manter altos níveis de crescimento econômico, e os processos
de industrialização e urbanização aceleradas seriam mantidos. Mas isso se deu
em meio a um regime autoritário que cerceava qualquer oposição, impedindo assim
que a permanente questão da desigualdade assumisse qualquer centralidade nas
políticas públicas seguidas. De fato, mesmo quando da longa e controlada
transição democrática dos anos 1980, optou-se pela necessária livre expressão e
participação política amplas, mas sem que houvesse uma verdadeira concertação,
também necessária, pela redução da exclusão socio-econômica histórica.
Após os
dolorosos ajustes macro-econômicos dos anos 1990, o novo século parecia apontar
para algo finalmente novo. O país mantinha a estabilidade monetária, mas também
agia de forma coordenada na redução da pobreza absoluta. O crescimento
econômico foi retomado no início dos anos 2000, quando novos e corajosos
programas sociais aumentavam os números da classe média baixa, finalmente
minimamente integrada no mercado consumidor interno.
Infelizmente,
ecoando novamente o passado, tais dinâmicas não teriam continuidade. Afinal, a
crise econômica de meados da segunda década do século acabaria não só por
reverter muitos dos ganhos socio-econômicos dos anos anteriores, mas também
colocariam em xeque a própria lógica da Nova República.
Lembremos
que mesmo que desde meados dos anos 1990, o sistema político funcionasse com
base em disputas acirradas entres coalizações de forças políticas situadas em
quadrantes ideológicos opostos, não havia forças políticas de expressão que
questionassem a própria validade do regime e procedimentos políticos em curso.
Tragicamente, é na permanente deslegitimação da democracia, conseguida a duras
penas, onde nos encontramos nos dias de hoje.
Temos
pois, uma polarização não entre esquerda e direita, mas, de fato, entre quem
defende a necessidade da manutenção da institucionalidade democrática e os que
a questionam – a menos, é claro, que essa os beneficie eleitoralmente.
Interessantemente,
embora tenha encontrado um certo grau de apoio nos anos 1950 e 1960, a agenda
anti-sistêmica, que inclusive apoiava posiçôes golpistas, não detinha de apelo
popular mais amplo. O cenário de hoje é diferente e ainda mais preocupante já que
parece existir uma forte e continuada adesão entre camadas socio-econômicas
mais baixas, portanto historicamente mais excluídas da população, ‘a narrativa
de que atores envolvidos na tentativa de golpe de estado de janeiro de 2023
são, na verdade, vítimas de uma grande armação do sistema.
No
mesmo sentido, os atuais candidatos alinhados a tais atores, muitas vezes por
laços de família, são, assim, vistos, como os verdadeiros defensores dos
efetivos interesses da nação, não obstante seu retrospecto político pífio e
moralmente questionável.
Que
tenhamos chegado aqui, em grande parte, com na base em uma engenhosa e
continuada articulação de falsas informações e na desligitimação do sistema
político e políticas sociais de inclusão, nada disso defaz a gravidade do
quadro e os desafios que enfrentamos hoje. Estamos, de fato, vivenciando
novamente um processo de retrocesso político e reversão de ganhos econômicos
que tanto marcaram nossa história. Com tais dinâmicas de sucessivas crises e
aprofundamentos da exclusão social e política, é muito difícil que se consiga,
quem sabe um dia, avançarmos rumo a uma sociedade mais desenvovida.
É
inegável que o Brasil é um país que tem tudo para dar certo. Mas elites
reiteradamente insistem em não deixar que isso ocorra. Pelo menos não no
sentido pleno do termo, qual seja uma nação mais inclusiva, autônoma e justa.
Claro que se dar certo signifique beneficiar reiteradamente somente uma
minoria, temos um amplo e bem-sucedido retropecto que talvez venha a ser
aprofundado nos próximos dias, a depender do resultado das eleições.
Caso
isso ocorra, e refletindo uma dimensão adicional da tragédia atual,
diferentemente de outros momentos históricos de golpismo militar mais
explícito, dessa vez pode ser que seja pelas mãos de grande parte da população
que venhamos a consagrar o neofascismo no poder. Triste nação cuja promessa de
um grande futuro parece ser mesmo só uma promessa, e cujo passado parece sempre
estar a nos definir.
• A eleição dos desafetos. Por Eugênio
Bucci
A frase
foi escrita por Baruch Espinosa (ou, se você preferir, Benedictus de Spinoza),
no livro Ética: “Quem imagina que aquilo a que odeia é destruído, se alegrará”.
É a proposição de número 20 da parte terceira desse clássico essencial. Isso
mesmo: o ódio alegra os viventes.
Espinosa
nasceu no dia 24 de novembro (data boa) de 1632, em Amsterdã, numa família de
origem judaico-portuguesa (falava o nosso idioma), e morreu em Haia, aos 44
anos. Esse tempo lhe bastou. Ninguém, como ele, escrutinou as afecções do
espírito que nos aprisionam. Ninguém, como ele, ensinou que o ódio é inimigo do
pensamento e da felicidade. Ninguém, como ele, foi tão incompreendido.
Na
apresentação que fez para a edição de Ética publicada pela Edusp em 2015,
Marilena Chaui diz que a obra desse pensador inigualável “faz desabar os
pilares que sustentam a superstição religiosa, a tirania política e a servidão
ética”. Ela tem razão, mas, na vida cotidiana, os pilares não desabaram. Na
campanha eleitoral que aí está, o ódio, o medo, o remorso e o ressentimento
falam mais alto. Os pilares da superstição religiosa, da tirania e da servidão
continuam firmes, para o gozo das multidões. O ódio presenteia o eleitorado
apenas com momentos de alegria, mas com doses viciantes de euforia.
Olhe à
sua volta, por um minuto que seja. Muita gente aí do seu lado celebra por
antecipação o vislumbre de que “aquilo a que odeia” será destruído. Nessas
celebrações, acendem-se faíscas opacas em olhos que não veem. É um ódio com
tamanha carga, com tanto investimento pulsional, que a gente pode até tocá-lo
com os dedos. É um ódio que se avoluma, ganha concretude, ocupa lugar no espaço
e pesa feito chumbo. É o ódio dos fanáticos.
Mas em
que consiste o objeto desse sentimento atroz? A pergunta incomoda, eu sei, mas,
se queremos pensar a respeito, temos de enfrentá-la. Não que alguém aqui seja
capaz de desarmar a fúria e o ressentimento. Eu apenas diria que, se soubermos
pensar, ao menos um pouco, será possível entender um pouco do que se deu
conosco. Vamos lá.
O
epicentro do malquerer se materializa na personalidade do atual presidente da
República, como todo mundo sabe. Odeia-se Lula. Odeia-se o lulismo. Comecemos,
pois, pelo que está à mostra. Os índices de rejeição ao atual chefe do governo
aparecem nas pesquisas de todo dia, inamovíveis. Não é preciso muito esforço
para ver que eles não se devem a uma escolha eleitoral de momento. Os índices
de rejeição não são um dado da conjuntura, mas se vinculam a um asco que
remonta a forças imperiosas do passado.
Trata-se
de uma parede sólida que finca alicerces no nosso marco civilizatório – ou na
nossa incivilidade ancestral. Vista por esse ângulo, a hostilidade raivosa
contra o presidente mal dissimula seus traços de patriarcalismo, de
intolerância à visibilidade pública da pobreza e de preconceito de cor.
Nada de
novo sob o sol dos trópicos, infelizmente. Mas, à medida que a análise crítica
procura ir além do visível, descortinam-se alguns veios por baixo da cena
aparente. Esses veios compõem uma trama de muitos nós que reproduz a influência
do presidente em todas as dimensões da vida social.
Explicando
melhor: a liderança do governante instaurou figuras de menor projeção que o
representam (por mimetismo ou por emulação) em planos mais exíguos, que vão se
subdividindo nas comunidades, nos ambientes de trabalho, nos locais de
diversão, nas igrejas, e, por fim, nas esferas mais recônditas da intimidade,
seja nos círculos de amizade, seja nos laços familiares.
O
lulismo – o pacto do “reformismo fraco”, na definição do cientista político
André Singer – soube, assim, ramificar-se em rede até os âmbitos mais ínfimos.
Toda gente tem lá um conhecido, uma amiga, um primo ou uma irmã que funcionam
como o expoente governista dentro de casa. Por efeito dessa trama que faz do
lulismo uma rede coesa, o repúdio incontido contra o chefe de Estado, que está
lá longe, ganha tradução num repúdio menos declarado contra personagens que
estão mais próximas ou muito próximas.
Assim,
aquele sujeito reacionário, pouco versado nas verborragias da política, que
perde todas as discussões na mesa de almoço de domingo para o cunhado de
esquerda, falante e saidinho, vai votar no candidato da extrema direita
antidemocrática só para se vingar. Vai votar bufando. Vai usar a urna para
desopilar e, no mesmo ato, vai dar o troco no cunhado a quem dedica uma aversão
maldisfarçada, silenciosa e ressentida.
Não há
dúvida. Os ódios íntimos, principalmente aqueles mais mesquinhos e desprezíveis
(embora atados ao grande ódio que se arrasta, pestilento, desde os tempos da
colônia), incidirão sobre o resultado das eleições deste mês de outubro. Isso
acontecerá não porque somos um país governado pelo PT, mas porque somos um país
governado pelo ódio.
Muitos
de nós padecemos da “impotência” a que Espinosa deu o nome de “servidão”: a
“incapacidade de moderar ou coibir os afetos”. O filósofo ensinou que “o homem
submetido aos afetos não é senhor de si”. Esse homem, porém, poderá ser o
senhor do destino do Brasil.
Fonte:
Por Jean Pierre Chauvin, em A Terra é Redonda

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