Como
a imprensa internacional repercutiu vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula no
1º turno
O
senador Flávio
Bolsonaro (PL) terminou o
primeiro turno da eleição presidencial à frente do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT), contrariando as pesquisas, que davam leve vantagem ao
petista. Com 99,9% das urnas apuradas, Flávio teve 47,05% dos votos válidos e Lula, 45,13%, o que
equivale a cerca de 56,1 milhões de votos contra 53,8 milhões. Os dois voltam a
se enfrentar em 25 de outubro.
Lula
classificou o resultado como inesperado e admitiu que estava convencido de que
venceria já no domingo. Flávio disse que o resultado mostra que o Brasil
quer mudança. A direita também teve um desempenho expressivo nas disputas para
o Congresso
e para os governos
estaduais.
Veja
abaixo como veículos de diferentes partes do mundo noticiaram o resultado.
O
jornal argentino Clarín descreveu o resultado como "uma virada
surpreendente e dramática". O francês Le Monde observou que, assim como em
2018, as pesquisas subestimaram a força da direita. Em reportagem de seus
correspondentes, o jornal também resumiu a noite com o título "Lula pagou
o preço do descontentamento dos eleitores".
O
britânico Financial Times afirmou que Flávio está em "pole position"
[a posição de largada mais vantajosa numa corrida] para vencer a eleição.
Segundo
analistas ouvidos pelo jornal, as chances do senador são maiores porque a
maioria dos outros candidatos do primeiro turno vem de partidos de direita. O
Guardian, também britânico, foi na mesma linha. Para o jornal, Flávio deve se
beneficiar da migração de votos de candidatos como Ronaldo Caiado (2,1%) e
Renan Santos (2,2%).
A
emissora France 24 reforçou essa leitura com um dado histórico. Segundo a
cientista política Carolina Botelho, da UERJ, o primeiro colocado no primeiro
turno venceu todas as eleições presidenciais desde o fim da ditadura.
A rede
catariana Al Jazeera trouxe um contraponto, com base em análise da agência
Reuters. Flávio pode ter recebido já no domingo o "voto útil"
antipetista que se esperava apenas no segundo turno.
Para o
analista político Rafael Favetti, isso o beneficia agora, mas reduz seu
potencial de crescimento até 25 de outubro, porque esse apoio foi antecipado. A
emissora também lembra que Caiado e Renan Santos já disseram que não vão apoiar
nenhum dos dois candidatos.
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Um eleitorado desencantado
O
Clarín deu destaque à abstenção, de cerca de 21%, e a interpretou como um voto
de castigo dos eleitores de baixa renda, tradicionalmente fiéis a Lula,
sufocados por dívidas. Segundo o jornal, oito em cada dez famílias recorrem a
empréstimos para cobrir necessidades básicas.
O texto
também ressalta que esta foi a campanha com menor mobilização desde a
redemocratização e a primeira sem debates entre os principais candidatos.
A
France 24 ouviu eleitores pouco convictos, como uma cuidadora de 62 anos que
pretendia votar em Lula, como sempre, mas mudou de ideia diante da urna,
"só para ver se alguma coisa muda".
O
Guardian descreveu uma visita a um bar de esquerda em Laranjeiras, no Rio de
Janeiro. Ali, apoiadores de Lula esperavam comemorar ao som de samba, mas
acabaram em lágrimas. Ao lado do bar, uma bandeira com o rosto de Lula pedia
uma guinada à esquerda. O Brasil, conclui o jornal, votou por uma guinada à
extrema direita.
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A sombra de Trump
Segundo
o Guardian, Donald Trump
se tornou um tema central da eleição. O jornal relata que Lula acusou o
presidente americano de tentar influenciar o resultado a favor de Bolsonaro
para "colonizar" o Brasil e se apropriar de seus recursos naturais.
Ainda de acordo com o Guardian, Trump espera que uma vitória da direita ajude a
consolidar o controle dos EUA sobre a América Latina, depois da eleição de
líderes alinhados a ele no Chile, na Colômbia e no Peru.
O
Clarín foi além e disse que os EUA fizeram uma aposta total em Flávio, com
apoio público do secretário de Estado, Marco Rubio. O jornal lembra que, desde
a chegada de Trump ao poder, todas as sete eleições presidenciais na região
foram vencidas por candidatos alinhados a Washington, e que o Brasil é o prato
principal dessa estratégia.
Já o Le
Monde e a France 24 ressaltaram que, apesar da pressão com tarifas e sanções,
Trump não declarou apoio formal ao senador.
O texto
da Reuters, reproduzido pelo britânico The Independent e pelo indiano The
Hindu, trata da suspeita de interferência estrangeira. Segundo a agência,
aliados de Lula alertaram que o governo americano poderia se recusar a
reconhecer uma eventual vitória do petista. A Reuters relata ainda que a
inteligência brasileira informou delegações da França e da Alemanha sobre
supostas interferências dos EUA, o que Washington nega, e da Rússia.
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Mercado otimista
O
Financial Times destacou a reação esperada dos investidores. Segundo William
Jackson, economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, o
resultado deve ser bem recebido diante da perspectiva de uma política fiscal
mais rígida sob Bolsonaro. Ele considera plausível uma forte alta do real e da
bolsa nos próximos dias.
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Escândalo do Banco Master
O texto
da Reuters destaca que o escândalo do Banco Master ofuscou o debate de
propostas. Flávio é investigado pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro
ligada ao caso. Ele nega irregularidades, mas confirmou ter captado milhões de
dólares com o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. O
Clarín seguiu na mesma linha e chegou a comparar Vorcaro a uma versão
brasileira de Jeffrey Epstein.
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A força do bolsonarismo
O Le
Monde falou em uma colheita para o clã Bolsonaro. Michelle e Carlos Bolsonaro
foram eleitos para o Senado, e Jair Renan, para a Câmara. O PL conquistou
sozinho 19 das 54 cadeiras em disputa no Senado. Segundo o jornal francês, isso
dá ao campo bolsonarista uma maioria mais robusta para aprovar uma anistia ao
ex-presidente Jair Bolsonaro — sob prisão domiciliar após ser condenado por
vários crimes ligados a uma tentativa de golpe de estado.
O Le
Monde também destacou duas vitórias emblemáticas nos Estados. Tarcísio de
Freitas foi reeleito em São Paulo com mais de 60% dos votos, em uma derrota
dura para Fernando Haddad, e Sergio Moro, o juiz que condenou Lula em primeira
instância, foi eleito governador do Paraná.
O
Guardian explicou por que os bolsonaristas priorizaram a disputa pelo Senado:
os senadores são os únicos parlamentares que podem abrir processos de
impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal. Dos 54 senadores
eleitos, 34 são de direita ou de extrema direita.
Para o
historiador Andre Pagliarini, da Universidade Estadual da Louisiana, ouvido
pela Al Jazeera, o desempenho no Legislativo mostra que o projeto bolsonarista
tem uma base popular mais profunda do que se imaginava.
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Bolsonarismo avança no Senado, mas vai ter que negociar
para impeachment de ministros do STF
A liderança do
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno das eleições
presidenciais não foi a única vitória da direita na disputa deste domingo
(4/10).
A bancada
bolsonarista no Senado chegou a 44 dos 81 senadores, segundo
levantamento feito pela cientista política e pesquisadora do Instituto de
Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Beatriz Rey, encaminhado à BBC News
Brasil.
Pela
classificação feita por ela, 44 dos 81 senadores que estarão em exercício a
partir de 2027 podem ser associados ao bolsonarismo.
Outros
24 são ligados ao campo lulista
e 13 foram classificados por ela como independentes dos dois grupos.
Entre
as 54 cadeiras que estavam em disputa neste domingo, 30 foram conquistadas por
candidatos que receberam apoio direto de Flávio Bolsonaro.
Por
outro lado, 16 senadores eleitos hoje fora apoiados por Lula e oito por
candidatos que não se enquadram diretamente em nenhum dos dois campos.
A
vitória do campo bolsonarista foi impulsionada pelo desempenho do PL, que
venceu 19 das 54 cadeiras em disputa neste ano, e também pela performance do
Novo, que chegou a três assentos.
Em
alguns Estados, como o Distrito Federal ou São Paulo, o desempenho da ala
bolsonarista fará com que todos os seus senadores sejam alinhados à liderança
da direita.
Partidos
de esquerda ou de centro-esquerda, por outro lado, viram suas bancadas
praticamente estagnadas.
O PT,
que tinha nove cadeiras no Senado em 2022, venceu seis disputas e conseguiu,
descontando os mandatos que vão até 2031, manter suas nove cadeiras em 2027.
O PSB
conseguiu aumentar de dois, em 2022, para quatro o seu número de senadores em
2027. O PDT, por outro lado, saiu de duas para uma vaga.
Apesar
do seu tamanho, a bancada bolsonarista não será capaz de, sozinha, aprovar o
impeachment de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), já que são
necessários 54 votos.
Mesmo
assim, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que essa nova
composição de forças no Senado vai aumentar a pressão sobre o Judiciário.
Mas
como a direita conseguiu avançar tanto no Senado nestas eleições?
Especialistas
ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que essa vitória foi resultado de um
trabalho estratégico feito pela direita ao longo dos últimos quatro anos, que
mapeou oportunidades e realizou acordos que possibilitaram vitórias expressivas
em diversos Estados.
Por
outro lado, os especialistas apontam possíveis erros na construção de
candidaturas no campo da esquerda, que abriram espaço para vitórias
adversárias.
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Senado à direita
O
professor de Ciência Política da Universidade de Brasília, Carlos Machado, diz
que o bolsonarismo entendeu mais cedo que a esquerda ou os partidos de Centro a
importância de coordenar candidaturas para uma eleição majoritária como a do
Senado.
"É
uma questão de coordenação eleitoral. Eles entenderam o quão estratégico era
ter o controle do Senado e trabalharam para isso", afirma.
Machado
lembra que uma estratégia semelhante já havia aparecido em 2018, quando
candidatos bolsonaristas até então pouco conhecidos conseguiram crescer
rapidamente na reta final, beneficiados, em sua grande maioria, pela
mobilização digital.
Em
2026, ele ressalta, essa estrutura estava mais organizada.
Em
diversos Estados, a direita lançou duas candidaturas competitivas para as duas
vagas disponíveis e trabalhou para orientar seu eleitorado a votar nos dois
nomes.
Foi o
caso do Distrito Federal, onde a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e a
deputada federal Bia Kicis (PL), foram eleitas com relativa facilidade para o
Senado.
As duas
se juntarão a outra parlamentar bolsonarista, a ex-ministra do governo de Jair
Bolsonaro (PL) Damares Alves (Republicanos-DF).
A ala
bolsonarista emplacou outras dobradinhas como essa em outros Estados. Em São
Paulo, Guilherme Derrite (Republicanos-SP) e André do Prado (PL) venceram as
duas candidatas de centro-esquerda que vinham liderando as intenções de voto ao
longo dos últimos meses: Marina Silva (PT) e Simone Tebet (PSB).
Em Mato
Grosso do Sul, outra dobradinha, ampliando ainda mais a bancada bolsonarista:
Capitão Contar (PL) e Reinaldo Azambuja (PL).
Outra
dobradinha bolsonarista aconteceu em Santa Catarina, onde Carolina de Toni
(PL-SC) e Carlos Bolsonaro (PL-SC) venceram as duas vagas em disputa.
Com
isso, sem contar com Flávio Bolsonaro, que ainda pode se tornar presidente, a
família Bolsonaro terá dois integrantes no Senado.
Para
Machado, o resultado estava longe de ser imprevisível.
"Não
era comum um partido lançar duas candidaturas ao mesmo tempo. Mas eles
colocaram candidatos competitivos puxando votos para o companheiro de chapa.
Deu certo em vários lugares. Era uma crônica de uma vitória anunciada",
diz o professor.
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A fragmentação dos adversários
Se de
um lado a direita bolsonarista conseguiu superar diferenças e saiu vitoriosa,
os dois especialistas também apontam para um problema no campo oposto: a
ausência de coordenação suficiente entre partidos de centro e de esquerda.
Enquanto
a direita investiu numa estratégia voltada especificamente para conquistar o
Senado, candidaturas não-bolsonaristas acabaram, em diferentes Estados,
disputando entre si parcelas semelhantes do eleitorado.
Um
exemplo de articulação para obter melhores resultados foi a desistência de
Ricardo Salles (Novo) a uma vaga no Senado em prol de candidaturas mais
competitivas.
Beatriz
Rey considera que faltou pragmatismo ao centro e à esquerda.
"Faltou
entender que a disputa em 2026 era diferente da de 2022. A gente vinha avisando
que algo assim poderia acontecer há mais de um ano. Era preciso ser mais
pragmática e estratégica para construir consensos e evitar candidaturas que
disputavam votos entre si, como vimos, por exemplo, em São Paulo",
afirmou.
A
diferença de organização também teria aparecido, segundo Beatriz Rey, na forma
como as campanhas da esquerda se estruturam na comparação com as da direita.
Segundo
a cientista política, a direita e a extrema direita conseguiram combinar
mobilização digital com atuação em espaços de convivência e organizações
sociais.
"Só
o campo da extrema-direita ou da direita está entendendo a importância da
eleição do Senado. Enquanto os demais campos políticos não entenderem quão
importante o Senado e o Congresso são, o Parlamento será ocupado,
majoritariamente, pela força política que se articulou melhor", afirma.
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Pedidos de impeachment e PECs
Uma das
consequências mais imediatas da nova composição deverá aparecer na relação
entre Senado e Supremo.
Até o
início de setembro, havia ao menos 109 pedidos de impeachment contra ministros
do STF apresentados ao Senado, segundo o próprio presidente da Casa, Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP).
O
principal alvo da direita é o ministro Alexandre de Moraes, que entrou na mira
preferencial após ser o relator do processo que acabou na condenação do
ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de
Estado.
Apesar
do número, Alcolumbre não colocou nenhum pedido de impeachment para andar.
A
decisão sobre dar seguimento inicial a esse tipo de processo passa pela
Presidência do Senado, mas Alcolumbre vem resistindo às pressões da oposição
para abrir processos contra integrantes da Corte.
"Minha
percepção é que tem 109 pedidos. Isso não é normal", afirmou Alcolumbre em
setembro.
Este
cenário, no entanto, pode mudar com a direita bolsonarista fortalecida na Casa.
"A
direita, agora, tem muito mais capacidade de fazer isso andar do que
antes", diz Beatriz Rey.
Ela
pondera, no entanto, que os 44 votos contabilizados por ela não seriam
suficientes para aprovar o impeachment.
"Isso
vai exigir negociações. É claro que, agora, o custo para Alcolumbre barrar
algum pedido é maior. Ainda temos eleição para a presidência do Senado e algum
nome mais à direita pode vencer. Mesmo assim, será necessário ver como esse
campo político vai se comportar. Não é garantido que eles tentem ir pra esse
embate com o Supremo imediatamente", diz a pesquisadora.
Se para
derrubar um ministro do STF a conta ainda parece distante, a bancada
bolsonarista contabilizada por Beatriz Rey dependeria de apenas mais cinco
votos para aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) - o mínimo
necessário é de 49. As PECs, em geral, tratam de assuntos estruturantes e, em
geral, polêmicos.
Um dos
temas que pode entrar na mira de uma PEC bolsonarista, por exemplo, é a
proposta de emenda que prevê a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos,
pauta defendida por diversos dos candidatos de direita que venceram neste
domingo.
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Senado e Presidência
Os
especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que o novo Senado de 2027
vai representar um desafio grande para um eventual quarto mandato de Lula.
"O
que já era difícil tende a ficar ainda pior para um possível novo governo
petista", disse Rey.
Ela
pontua que, ao longo dos últimos quatro anos, Lula teve uma série de
dificuldades em aprovar propostas no Senado. Um dos exemplos onde essa
resistência ficou ainda mais evidente foi na derrota da indicação do
advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma vaga no STF.
De
forma inédita em quase 100 anos, o Senado rejeitou uma indicação feita pelo
presidente da República.
Beatriz
Rey pontua que se Flávio for eleito, o cenário tende a ser mais confortável,
mas não lhe dará controle absoluto do Senado.
"O
atual cenário não garante que ele vá conseguir fazer tudo o que desejar. Será
necessário fazer negociações com os outros partidos. Mas, evidentemente, há uma
identificação ideológica maior entre a bancada e Flávio", disse.
Fonte:
BBC News Brasil

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