segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Como a imprensa internacional repercutiu vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula no 1º turno

O senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno da eleição presidencial à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contrariando as pesquisas, que davam leve vantagem ao petista. Com 99,9% das urnas apuradas, Flávio teve 47,05% dos votos válidos e Lula, 45,13%, o que equivale a cerca de 56,1 milhões de votos contra 53,8 milhões. Os dois voltam a se enfrentar em 25 de outubro.

Lula classificou o resultado como inesperado e admitiu que estava convencido de que venceria já no domingo. Flávio disse que o resultado mostra que o Brasil quer mudança. A direita também teve um desempenho expressivo nas disputas para o Congresso e para os governos estaduais.

Veja abaixo como veículos de diferentes partes do mundo noticiaram o resultado.

O jornal argentino Clarín descreveu o resultado como "uma virada surpreendente e dramática". O francês Le Monde observou que, assim como em 2018, as pesquisas subestimaram a força da direita. Em reportagem de seus correspondentes, o jornal também resumiu a noite com o título "Lula pagou o preço do descontentamento dos eleitores".

O britânico Financial Times afirmou que Flávio está em "pole position" [a posição de largada mais vantajosa numa corrida] para vencer a eleição.

Segundo analistas ouvidos pelo jornal, as chances do senador são maiores porque a maioria dos outros candidatos do primeiro turno vem de partidos de direita. O Guardian, também britânico, foi na mesma linha. Para o jornal, Flávio deve se beneficiar da migração de votos de candidatos como Ronaldo Caiado (2,1%) e Renan Santos (2,2%).

A emissora France 24 reforçou essa leitura com um dado histórico. Segundo a cientista política Carolina Botelho, da UERJ, o primeiro colocado no primeiro turno venceu todas as eleições presidenciais desde o fim da ditadura.

A rede catariana Al Jazeera trouxe um contraponto, com base em análise da agência Reuters. Flávio pode ter recebido já no domingo o "voto útil" antipetista que se esperava apenas no segundo turno.

Para o analista político Rafael Favetti, isso o beneficia agora, mas reduz seu potencial de crescimento até 25 de outubro, porque esse apoio foi antecipado. A emissora também lembra que Caiado e Renan Santos já disseram que não vão apoiar nenhum dos dois candidatos.

<><> Um eleitorado desencantado

O Clarín deu destaque à abstenção, de cerca de 21%, e a interpretou como um voto de castigo dos eleitores de baixa renda, tradicionalmente fiéis a Lula, sufocados por dívidas. Segundo o jornal, oito em cada dez famílias recorrem a empréstimos para cobrir necessidades básicas.

O texto também ressalta que esta foi a campanha com menor mobilização desde a redemocratização e a primeira sem debates entre os principais candidatos.

A France 24 ouviu eleitores pouco convictos, como uma cuidadora de 62 anos que pretendia votar em Lula, como sempre, mas mudou de ideia diante da urna, "só para ver se alguma coisa muda".

O Guardian descreveu uma visita a um bar de esquerda em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Ali, apoiadores de Lula esperavam comemorar ao som de samba, mas acabaram em lágrimas. Ao lado do bar, uma bandeira com o rosto de Lula pedia uma guinada à esquerda. O Brasil, conclui o jornal, votou por uma guinada à extrema direita.

<><> A sombra de Trump

Segundo o Guardian, Donald Trump se tornou um tema central da eleição. O jornal relata que Lula acusou o presidente americano de tentar influenciar o resultado a favor de Bolsonaro para "colonizar" o Brasil e se apropriar de seus recursos naturais. Ainda de acordo com o Guardian, Trump espera que uma vitória da direita ajude a consolidar o controle dos EUA sobre a América Latina, depois da eleição de líderes alinhados a ele no Chile, na Colômbia e no Peru.

O Clarín foi além e disse que os EUA fizeram uma aposta total em Flávio, com apoio público do secretário de Estado, Marco Rubio. O jornal lembra que, desde a chegada de Trump ao poder, todas as sete eleições presidenciais na região foram vencidas por candidatos alinhados a Washington, e que o Brasil é o prato principal dessa estratégia.

Já o Le Monde e a France 24 ressaltaram que, apesar da pressão com tarifas e sanções, Trump não declarou apoio formal ao senador.

O texto da Reuters, reproduzido pelo britânico The Independent e pelo indiano The Hindu, trata da suspeita de interferência estrangeira. Segundo a agência, aliados de Lula alertaram que o governo americano poderia se recusar a reconhecer uma eventual vitória do petista. A Reuters relata ainda que a inteligência brasileira informou delegações da França e da Alemanha sobre supostas interferências dos EUA, o que Washington nega, e da Rússia.

<><> Mercado otimista

O Financial Times destacou a reação esperada dos investidores. Segundo William Jackson, economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, o resultado deve ser bem recebido diante da perspectiva de uma política fiscal mais rígida sob Bolsonaro. Ele considera plausível uma forte alta do real e da bolsa nos próximos dias.

<><> Escândalo do Banco Master

O texto da Reuters destaca que o escândalo do Banco Master ofuscou o debate de propostas. Flávio é investigado pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro ligada ao caso. Ele nega irregularidades, mas confirmou ter captado milhões de dólares com o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. O Clarín seguiu na mesma linha e chegou a comparar Vorcaro a uma versão brasileira de Jeffrey Epstein.

<><> A força do bolsonarismo

O Le Monde falou em uma colheita para o clã Bolsonaro. Michelle e Carlos Bolsonaro foram eleitos para o Senado, e Jair Renan, para a Câmara. O PL conquistou sozinho 19 das 54 cadeiras em disputa no Senado. Segundo o jornal francês, isso dá ao campo bolsonarista uma maioria mais robusta para aprovar uma anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro — sob prisão domiciliar após ser condenado por vários crimes ligados a uma tentativa de golpe de estado.

O Le Monde também destacou duas vitórias emblemáticas nos Estados. Tarcísio de Freitas foi reeleito em São Paulo com mais de 60% dos votos, em uma derrota dura para Fernando Haddad, e Sergio Moro, o juiz que condenou Lula em primeira instância, foi eleito governador do Paraná.

O Guardian explicou por que os bolsonaristas priorizaram a disputa pelo Senado: os senadores são os únicos parlamentares que podem abrir processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal. Dos 54 senadores eleitos, 34 são de direita ou de extrema direita.

Para o historiador Andre Pagliarini, da Universidade Estadual da Louisiana, ouvido pela Al Jazeera, o desempenho no Legislativo mostra que o projeto bolsonarista tem uma base popular mais profunda do que se imaginava.

¨      Bolsonarismo avança no Senado, mas vai ter que negociar para impeachment de ministros do STF

A liderança do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno das eleições presidenciais não foi a única vitória da direita na disputa deste domingo (4/10).

A bancada bolsonarista no Senado chegou a 44 dos 81 senadores, segundo levantamento feito pela cientista política e pesquisadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Beatriz Rey, encaminhado à BBC News Brasil.

Pela classificação feita por ela, 44 dos 81 senadores que estarão em exercício a partir de 2027 podem ser associados ao bolsonarismo.

Outros 24 são ligados ao campo lulista e 13 foram classificados por ela como independentes dos dois grupos.

Entre as 54 cadeiras que estavam em disputa neste domingo, 30 foram conquistadas por candidatos que receberam apoio direto de Flávio Bolsonaro.

Por outro lado, 16 senadores eleitos hoje fora apoiados por Lula e oito por candidatos que não se enquadram diretamente em nenhum dos dois campos.

A vitória do campo bolsonarista foi impulsionada pelo desempenho do PL, que venceu 19 das 54 cadeiras em disputa neste ano, e também pela performance do Novo, que chegou a três assentos.

Em alguns Estados, como o Distrito Federal ou São Paulo, o desempenho da ala bolsonarista fará com que todos os seus senadores sejam alinhados à liderança da direita.

Partidos de esquerda ou de centro-esquerda, por outro lado, viram suas bancadas praticamente estagnadas.

O PT, que tinha nove cadeiras no Senado em 2022, venceu seis disputas e conseguiu, descontando os mandatos que vão até 2031, manter suas nove cadeiras em 2027.

O PSB conseguiu aumentar de dois, em 2022, para quatro o seu número de senadores em 2027. O PDT, por outro lado, saiu de duas para uma vaga.

Apesar do seu tamanho, a bancada bolsonarista não será capaz de, sozinha, aprovar o impeachment de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), já que são necessários 54 votos.

Mesmo assim, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que essa nova composição de forças no Senado vai aumentar a pressão sobre o Judiciário.

Mas como a direita conseguiu avançar tanto no Senado nestas eleições?

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que essa vitória foi resultado de um trabalho estratégico feito pela direita ao longo dos últimos quatro anos, que mapeou oportunidades e realizou acordos que possibilitaram vitórias expressivas em diversos Estados.

Por outro lado, os especialistas apontam possíveis erros na construção de candidaturas no campo da esquerda, que abriram espaço para vitórias adversárias.

<><> Senado à direita

O professor de Ciência Política da Universidade de Brasília, Carlos Machado, diz que o bolsonarismo entendeu mais cedo que a esquerda ou os partidos de Centro a importância de coordenar candidaturas para uma eleição majoritária como a do Senado.

"É uma questão de coordenação eleitoral. Eles entenderam o quão estratégico era ter o controle do Senado e trabalharam para isso", afirma.

Machado lembra que uma estratégia semelhante já havia aparecido em 2018, quando candidatos bolsonaristas até então pouco conhecidos conseguiram crescer rapidamente na reta final, beneficiados, em sua grande maioria, pela mobilização digital.

Em 2026, ele ressalta, essa estrutura estava mais organizada.

Em diversos Estados, a direita lançou duas candidaturas competitivas para as duas vagas disponíveis e trabalhou para orientar seu eleitorado a votar nos dois nomes.

Foi o caso do Distrito Federal, onde a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e a deputada federal Bia Kicis (PL), foram eleitas com relativa facilidade para o Senado.

As duas se juntarão a outra parlamentar bolsonarista, a ex-ministra do governo de Jair Bolsonaro (PL) Damares Alves (Republicanos-DF).

A ala bolsonarista emplacou outras dobradinhas como essa em outros Estados. Em São Paulo, Guilherme Derrite (Republicanos-SP) e André do Prado (PL) venceram as duas candidatas de centro-esquerda que vinham liderando as intenções de voto ao longo dos últimos meses: Marina Silva (PT) e Simone Tebet (PSB).

Em Mato Grosso do Sul, outra dobradinha, ampliando ainda mais a bancada bolsonarista: Capitão Contar (PL) e Reinaldo Azambuja (PL).

Outra dobradinha bolsonarista aconteceu em Santa Catarina, onde Carolina de Toni (PL-SC) e Carlos Bolsonaro (PL-SC) venceram as duas vagas em disputa.

Com isso, sem contar com Flávio Bolsonaro, que ainda pode se tornar presidente, a família Bolsonaro terá dois integrantes no Senado.

Para Machado, o resultado estava longe de ser imprevisível.

"Não era comum um partido lançar duas candidaturas ao mesmo tempo. Mas eles colocaram candidatos competitivos puxando votos para o companheiro de chapa. Deu certo em vários lugares. Era uma crônica de uma vitória anunciada", diz o professor.

<><> A fragmentação dos adversários

Se de um lado a direita bolsonarista conseguiu superar diferenças e saiu vitoriosa, os dois especialistas também apontam para um problema no campo oposto: a ausência de coordenação suficiente entre partidos de centro e de esquerda.

Enquanto a direita investiu numa estratégia voltada especificamente para conquistar o Senado, candidaturas não-bolsonaristas acabaram, em diferentes Estados, disputando entre si parcelas semelhantes do eleitorado.

Um exemplo de articulação para obter melhores resultados foi a desistência de Ricardo Salles (Novo) a uma vaga no Senado em prol de candidaturas mais competitivas.

Beatriz Rey considera que faltou pragmatismo ao centro e à esquerda.

"Faltou entender que a disputa em 2026 era diferente da de 2022. A gente vinha avisando que algo assim poderia acontecer há mais de um ano. Era preciso ser mais pragmática e estratégica para construir consensos e evitar candidaturas que disputavam votos entre si, como vimos, por exemplo, em São Paulo", afirmou.

A diferença de organização também teria aparecido, segundo Beatriz Rey, na forma como as campanhas da esquerda se estruturam na comparação com as da direita.

Segundo a cientista política, a direita e a extrema direita conseguiram combinar mobilização digital com atuação em espaços de convivência e organizações sociais.

"Só o campo da extrema-direita ou da direita está entendendo a importância da eleição do Senado. Enquanto os demais campos políticos não entenderem quão importante o Senado e o Congresso são, o Parlamento será ocupado, majoritariamente, pela força política que se articulou melhor", afirma.

<><> Pedidos de impeachment e PECs

Uma das consequências mais imediatas da nova composição deverá aparecer na relação entre Senado e Supremo.

Até o início de setembro, havia ao menos 109 pedidos de impeachment contra ministros do STF apresentados ao Senado, segundo o próprio presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

O principal alvo da direita é o ministro Alexandre de Moraes, que entrou na mira preferencial após ser o relator do processo que acabou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.

Apesar do número, Alcolumbre não colocou nenhum pedido de impeachment para andar.

A decisão sobre dar seguimento inicial a esse tipo de processo passa pela Presidência do Senado, mas Alcolumbre vem resistindo às pressões da oposição para abrir processos contra integrantes da Corte.

"Minha percepção é que tem 109 pedidos. Isso não é normal", afirmou Alcolumbre em setembro.

Este cenário, no entanto, pode mudar com a direita bolsonarista fortalecida na Casa.

"A direita, agora, tem muito mais capacidade de fazer isso andar do que antes", diz Beatriz Rey.

Ela pondera, no entanto, que os 44 votos contabilizados por ela não seriam suficientes para aprovar o impeachment.

"Isso vai exigir negociações. É claro que, agora, o custo para Alcolumbre barrar algum pedido é maior. Ainda temos eleição para a presidência do Senado e algum nome mais à direita pode vencer. Mesmo assim, será necessário ver como esse campo político vai se comportar. Não é garantido que eles tentem ir pra esse embate com o Supremo imediatamente", diz a pesquisadora.

Se para derrubar um ministro do STF a conta ainda parece distante, a bancada bolsonarista contabilizada por Beatriz Rey dependeria de apenas mais cinco votos para aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) - o mínimo necessário é de 49. As PECs, em geral, tratam de assuntos estruturantes e, em geral, polêmicos.

Um dos temas que pode entrar na mira de uma PEC bolsonarista, por exemplo, é a proposta de emenda que prevê a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, pauta defendida por diversos dos candidatos de direita que venceram neste domingo.

<><> Senado e Presidência

Os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que o novo Senado de 2027 vai representar um desafio grande para um eventual quarto mandato de Lula.

"O que já era difícil tende a ficar ainda pior para um possível novo governo petista", disse Rey.

Ela pontua que, ao longo dos últimos quatro anos, Lula teve uma série de dificuldades em aprovar propostas no Senado. Um dos exemplos onde essa resistência ficou ainda mais evidente foi na derrota da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma vaga no STF.

De forma inédita em quase 100 anos, o Senado rejeitou uma indicação feita pelo presidente da República.

Beatriz Rey pontua que se Flávio for eleito, o cenário tende a ser mais confortável, mas não lhe dará controle absoluto do Senado.

"O atual cenário não garante que ele vá conseguir fazer tudo o que desejar. Será necessário fazer negociações com os outros partidos. Mas, evidentemente, há uma identificação ideológica maior entre a bancada e Flávio", disse.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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