“Se não
saiu no Jornal Nacional, não aconteceu”. A frase é atribuída a Antônio Carlos
Magalhães, que conhecia como poucos o poder político da Rede Globo. Para
milhões de brasileiros, o telejornal ajudava a determinar quais acontecimentos
mereciam existir.
Leonel
Brizola, adversário histórico da Globo, também ficou associado a outra frase:
“Se a Globo for a favor, sou contra. Se for contra, sou a favor”.
Em
campos políticos diferentes, os dois reconheciam o mesmo poder: transformar
notícias em acontecimentos nacionais, ampliar ou reduzir personagens e definir
a agenda do dia seguinte.
Na
noite de 1º de outubro de 2026, esse poder encontrou um limite que talvez
nenhum dos dois imaginasse.
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A eleição acontece sem a Globo
Faltavam
três dias para o primeiro turno. A Globo havia reservado seu horário nobre para
o último debate presidencial.
Lula
decidiu não comparecer e concedeu entrevista ao Flow Podcast. Flávio Bolsonaro,
que havia confirmado presença, desistiu horas antes.
Decisões
judiciais alteraram as condições do encontro. O TSE proibiu a manutenção de um
púlpito vazio identificado com o nome de Lula e perguntas ao candidato ausente.
Outra decisão assegurou a participação de Renan Santos.
A Globo
alegou “insegurança jurídica” e cancelou o debate.
Entrou
a novela.
Lula
não trocou o debate pelo silêncio. Trocou uma tela por outra.
Às
21h39, o contador do YouTube mostrava 1.582.594 espectadores acompanhando a
entrevista. Às 22h49, quase duas horas depois do início, havia ainda mais:
1.608.627.
Não foi
apenas um pico passageiro.
Esses
números e os pontos de audiência da televisão não são diretamente comparáveis.
Mas demonstram que um candidato à Presidência conseguiu falar simultaneamente a
mais de 1,6 milhão de pessoas sem entrar no estúdio da Globo.
Leonardo
Attuch escreveu no Brasil 247 que naquela noite “o império midiático da Globo
desmoronou”. A dimensão simbólica do episódio merece atenção.
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Brizola, Collor, Lula e a Globo
Em
1982, Brizola disputava o governo do Rio de Janeiro quando explodiu o caso
Proconsult. A empresa envolvida na totalização dos votos tornou-se centro de
uma controvérsia sobre a apuração. Brizola denunciou uma tentativa de lhe
retirar a vitória.
A Globo
rejeita envolvimento em fraude e cita investigações que não comprovaram
intencionalidade nos erros. Outras reconstruções históricas sustentam que a
apuração paralela e a denúncia pública impediram uma fraude contra Brizola.
Ele
venceu. Em 1994, Brizola conquistou um direito de resposta. Na noite de 15 de
março, Cid Moreira teve de ler no Jornal Nacional, durante cerca de três
minutos, o texto do governador contra Roberto Marinho e a emissora.
A
vitória também revelava o tamanho do poder combatido: para responder à Globo,
Brizola precisava aparecer na Globo
Em
1989, na primeira eleição presidencial direta em 29 anos, Lula enfrentou
Fernando Collor no segundo turno. Depois do último debate, o Jornal Nacional
exibiu uma edição acusada de selecionar os melhores momentos de Collor e os
piores de Lula, concedendo ao primeiro cerca de um minuto e meio a mais.
O PT
recorreu ao TSE. Até mesmo artistas da própria Globo protestaram. Hoje, a
Memória Globo reconhece os equívocos daquela cobertura, incluída em sua seção
de “Erros”.
Trinta
e dois anos depois, Lula não precisou pedir nada à Globo. Simplesmente disse
não vou ao debate do primeiro turno. Em vez disso foi ao Flow Podcast.
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A Vênus já não é dona do céu
Num
texto que circulou pelo WhatsApp, Gustavo Balduino chamou aquela noite de “O
velório da Vênus Platinada”. Encontrou também uma imagem mais precisa:
“A
velha Vênus Platinada descobrindo que não é mais dona do céu”.
A Globo
continua poderosa, e o Jornal Nacional mantém sua influência. Mas internet,
YouTube, redes sociais, podcasts, streaming e canais independentes abriram
outras praças públicas. Políticos e jornalistas alcançam milhões de pessoas sem
pedir passagem a uma rede de televisão.
Na
quinta-feira, a transformação ganhou uma cena quase teatral: a Globo tinha
estúdio, apresentador, câmeras, horário nobre e seis décadas de história.
Mas não
tinha Lula.
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Uma coisa é poder, outra é voto
Essa
mudança não significa transferência automática de votos nem permite concluir
que o cancelamento decidirá a eleição.
No
Datafolha divulgado na quinta-feira, Lula aparece com 45% dos votos válidos e
Flávio Bolsonaro com 40%. Num eventual segundo turno, são 48% a 45%, empate
técnico. E 17% dos entrevistados disseram que podem mudar de voto.
A
disputa permanece apertada. O que aquela noite revelou foi um limite ao poder
da Globo de determinar onde a política brasileira precisa acontecer.
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Se não saiu, aconteceu
Talvez
Brizola estivesse mesmo gargalhando, como imaginou Gustavo Balduino.
O
debate cancelado pode simbolizar um processo que levou décadas. A campanha
prosseguiu fora da tela que ACM considerava indispensável e Brizola precisava
enfrentar.
A Vênus
Platinada continua no céu. Só não é mais dona dele.
E a
velha máxima atribuída a ACM pode ser virada pelo avesso:
Se não
saiu na Globo, aconteceu.
Fonte:
Por Gustavo Tapioca, na Fórum

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