segunda-feira, 5 de outubro de 2026

“Se não saiu no Jornal Nacional, não aconteceu”. A frase é atribuída a Antônio Carlos Magalhães, que conhecia como poucos o poder político da Rede Globo. Para milhões de brasileiros, o telejornal ajudava a determinar quais acontecimentos mereciam existir.

Leonel Brizola, adversário histórico da Globo, também ficou associado a outra frase: “Se a Globo for a favor, sou contra. Se for contra, sou a favor”.

Em campos políticos diferentes, os dois reconheciam o mesmo poder: transformar notícias em acontecimentos nacionais, ampliar ou reduzir personagens e definir a agenda do dia seguinte.

Na noite de 1º de outubro de 2026, esse poder encontrou um limite que talvez nenhum dos dois imaginasse.

<><> A eleição acontece sem a Globo

Faltavam três dias para o primeiro turno. A Globo havia reservado seu horário nobre para o último debate presidencial.

Lula decidiu não comparecer e concedeu entrevista ao Flow Podcast. Flávio Bolsonaro, que havia confirmado presença, desistiu horas antes.

Decisões judiciais alteraram as condições do encontro. O TSE proibiu a manutenção de um púlpito vazio identificado com o nome de Lula e perguntas ao candidato ausente. Outra decisão assegurou a participação de Renan Santos.

A Globo alegou “insegurança jurídica” e cancelou o debate.

Entrou a novela.

Lula não trocou o debate pelo silêncio. Trocou uma tela por outra.

Às 21h39, o contador do YouTube mostrava 1.582.594 espectadores acompanhando a entrevista. Às 22h49, quase duas horas depois do início, havia ainda mais: 1.608.627.

Não foi apenas um pico passageiro.

Esses números e os pontos de audiência da televisão não são diretamente comparáveis. Mas demonstram que um candidato à Presidência conseguiu falar simultaneamente a mais de 1,6 milhão de pessoas sem entrar no estúdio da Globo.

Leonardo Attuch escreveu no Brasil 247 que naquela noite “o império midiático da Globo desmoronou”. A dimensão simbólica do episódio merece atenção.

<><> Brizola, Collor, Lula e a Globo

Em 1982, Brizola disputava o governo do Rio de Janeiro quando explodiu o caso Proconsult. A empresa envolvida na totalização dos votos tornou-se centro de uma controvérsia sobre a apuração. Brizola denunciou uma tentativa de lhe retirar a vitória.

A Globo rejeita envolvimento em fraude e cita investigações que não comprovaram intencionalidade nos erros. Outras reconstruções históricas sustentam que a apuração paralela e a denúncia pública impediram uma fraude contra Brizola.

Ele venceu. Em 1994, Brizola conquistou um direito de resposta. Na noite de 15 de março, Cid Moreira teve de ler no Jornal Nacional, durante cerca de três minutos, o texto do governador contra Roberto Marinho e a emissora.

A vitória também revelava o tamanho do poder combatido: para responder à Globo, Brizola precisava aparecer na Globo

Em 1989, na primeira eleição presidencial direta em 29 anos, Lula enfrentou Fernando Collor no segundo turno. Depois do último debate, o Jornal Nacional exibiu uma edição acusada de selecionar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula, concedendo ao primeiro cerca de um minuto e meio a mais.

O PT recorreu ao TSE. Até mesmo artistas da própria Globo protestaram. Hoje, a Memória Globo reconhece os equívocos daquela cobertura, incluída em sua seção de “Erros”. 

Trinta e dois anos depois, Lula não precisou pedir nada à Globo. Simplesmente disse não vou ao debate do primeiro turno. Em vez disso foi ao Flow Podcast.

<><> A Vênus já não é dona do céu

Num texto que circulou pelo WhatsApp, Gustavo Balduino chamou aquela noite de “O velório da Vênus Platinada”. Encontrou também uma imagem mais precisa:

“A velha Vênus Platinada descobrindo que não é mais dona do céu”.

A Globo continua poderosa, e o Jornal Nacional mantém sua influência. Mas internet, YouTube, redes sociais, podcasts, streaming e canais independentes abriram outras praças públicas. Políticos e jornalistas alcançam milhões de pessoas sem pedir passagem a uma rede de televisão.

Na quinta-feira, a transformação ganhou uma cena quase teatral: a Globo tinha estúdio, apresentador, câmeras, horário nobre e seis décadas de história.

Mas não tinha Lula.

<><> Uma coisa é poder, outra é voto

Essa mudança não significa transferência automática de votos nem permite concluir que o cancelamento decidirá a eleição.

No Datafolha divulgado na quinta-feira, Lula aparece com 45% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro com 40%. Num eventual segundo turno, são 48% a 45%, empate técnico. E 17% dos entrevistados disseram que podem mudar de voto.

A disputa permanece apertada. O que aquela noite revelou foi um limite ao poder da Globo de determinar onde a política brasileira precisa acontecer.

<><> Se não saiu, aconteceu

Talvez Brizola estivesse mesmo gargalhando, como imaginou Gustavo Balduino.

O debate cancelado pode simbolizar um processo que levou décadas. A campanha prosseguiu fora da tela que ACM considerava indispensável e Brizola precisava enfrentar.

A Vênus Platinada continua no céu. Só não é mais dona dele.

E a velha máxima atribuída a ACM pode ser virada pelo avesso:

Se não saiu na Globo, aconteceu.

 

Fonte: Por Gustavo Tapioca, na Fórum

 

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