O
Brasil diante da destruição do possível
Como
parte da totalidade do mundo que abriga o pequeno e ameaçado planeta Terra, sob
o domínio do destrutivo modo de produção capitalista, atualmente em sua fase
mais bélica, o Brasil não está imune ao que globalmente podemos caracterizar
como barbárie social e colapso ambiental, questões ostensivamente visíveis e
criminosamente borradas e negadas pela direita e, com rematado deboche e
escárnio, pelo discurso obscurantista e estratégico difundido pela extrema
direita local e global.
Algo
como uma cegueira coletiva passa a ocupar e neutralizar o poder de cognição da
sociedade. A ignorância é fortalecida por um processo programático de aversão à
teoria. A quem tem alguma familiaridade com o pensamento filosófico é dado
saber que a palavra teoria, de origem grega, inclui a ideia de visão.
Desde a
segunda metade da segunda década do século XXI, agudizada no período 2019-2022,
o Brasil adentrou na fase cognitiva da ignorantosfera. A agnotologia é a área
do conhecimento que cuida desse estado social, não previsto por Comte em sua
tipologia dos três estados. A visão se fez curta e a ignorância, na forma mais
encouraçada, passou a ser celebrada com euforia social. Publicada em 1953, a
obra O Assassinato de Cristo: Volume Um de A Peste Emocional da
Humanidade, escrita por Wilhelm Reich, segue como uma contribuição
incontornável para pensar e enfrentar o imenso vazio cognitivo da humanidade.
A
despeito, como afirma Wilhelm Reich, do que já escreveram Locke, Hume, Kant,
Marx, Spengler, Freud e muitos outros grandes pensadores, a verdade é que “a
imensa maioria dos homens não foi tocada pela pesquisa filosófica”. Como
estamos distantes do que Santo Agostinho, na Antiguidade Cristã, imaginava como
ideal da humanidade: ter na sabedoria a verdadeira medida da alma.
Neste
2026, no dia da eleição presidencial mais importante para a escolha dos limites
e possibilidades de um povo, num contexto econômica, política e socialmente
revolvido pela globalização neoliberal, brasileiros e brasileiras se veem
diante de uma decisão. Que decisão é essa?
Ela não
diz respeito a uma pessoa, a um partido ou a uma ideologia, como pode ter sido
em outras eleições. Ela sequer diz respeito, como há muito não diz, à escolha
de um projeto de país. Mal saído do inferno que foi o período 2019-2022, o
Brasil de 2023 até 2026 ainda em curso, a despeito do que foi reconstruído pelo
governo Lula, não conseguiu retomar o necessário e há muito abandonado – e sem
dúvida por adesão à equivocada política de conciliação de classes – projeto do
Brasil-nação.
Como
escreve o grande pensador de nossas contradições sociais, Octavio Ianni: “O que
caracteriza a encruzilhada em que se encontra o Brasil, na transição do século
XX ao XXI é o abandono e o desmonte do projeto nacional, com suas implicações
político-econômicas e sócio-cuturais, e a implantação de um capitalismo
transnacional”.
Não
houve desvio de rota: de província do colonialismo no século XVI chegamos à
condição de província do globalismo no século XXI. O que podemos escolher
nessas eleições? Trata-se pura e simplesmente da escolha da possibilidade de
manutenção de padrões institucionais razoavelmente democráticos de regulação da
luta de classes ou da implantação de um estado de exceção legitimado pelo voto
e legalizado institucionalmente, no qual a violência da classe dominante se
torna a forma fundamental de dominação para sustentar a superexploração dos que
vivem do próprio trabalho.
O
projeto de Brasil-nação foi sequestrado da pauta política das eleições de 2026.
Por falta, de um lado, de iniciativa orgânica das forças de esquerda e, de
outro, com generoso financiamento da burguesia nacional e transnacional, pela
ocupação do espaço político pela pauta da moralidade, da corrupção, dos bons
costumes, colorida em verde e amarelo pela hipocrisia da direita e, sobretudo,
da extrema direita, sob o vazio das palavras de ordem em defesa de Deus, da
Pátria e da Família.
Esse é
o significado das duas candidaturas com chances reais de vitória.
Contrariamente ao que muitos chamam de “polarização”, aludindo ao que
caracterizaria a política brasileira – e mundial – hoje, não estamos diante de
nenhuma candidatura de esquerda com chances de vencer as eleições, assim como
não tivemos, desde o fim da Nova República, nenhum governo de esquerda. Isso
para não observar que sob a obtusa compreensão política de boa parte da direita
e maior parte da extrema direita até uma corporação mediática como a Rede Globo
é vista como de esquerda.
Talvez
se possa dizer que um partido de origem esquerdista, o PT, venceu cinco
eleições. Mas há enorme diferença entre a formalidade do governo e a
materialidade do poder e não se pode afirmar que nenhum de seus governos foi,
de fato, orientado, predominantemente, por políticas comprometidas com mudanças
estruturais da sociedade brasileira que a aproximassem de outro modo de
organizar as relações de produção econômica e de dominação política. Não!
Os
vice-presidentes de Lula e Dilma Rousseff dizem muito sobre o sentido
conciliador de seus governos. Os dois primeiros governos de Lula, entre 2003 e
2010, foram feitos ao lado de José Alencar, grande empresário mineiro filiado
ao antigo Partido Liberal (algo bastante diferente do que é hoje essa
agremiação); ao lado de Dilma Rousseff, em seus cerca de seis anos de mandato,
estava Michel Temer, do insuspeito Movimento Democrático Brasileiro, que de
herdeiro da resistência à ditadura se converteu em parteiro de ditadores.
Essa
política de “conciliação pelo alto”, como cunhou Florestan Fernandes, redundou
em compromissos formal e objetivamente assumidos, como foram a Carta ao Povo
Brasileiro e a manutenção das orientações relativas ao ajuste estrutural
determinadas pelo Banco Mundial e pelo FMI. Além do tripé macroeconômico –
superávit primário, metas de inflação e câmbio flutuante –, os governos de
conciliação pelo alto mantiveram as políticas de desestatização, através das
concessões e privatizações, da contrarreforma previdenciária, das políticas
focais (isto é, dirigidas a grupos específicos da sociedade brasileira em
oposição às políticas universalistas), das políticas educacionais de mercado e
do beneficiamento do agronegócio e das finanças na definição das políticas de
financiamento e gasto público – o que implica a destinação orçamentária.
Cabe
lembrar que boa parte dessas políticas é de definição do legislativo; ou seja,
a ele também coube a iniciativa ou a concordância com projetos de lei e medidas
provisórias que atendiam a tais demandas. Também é preciso mencionar que outras
tantas propostas, que feriam ou fugiam às determinações da Constituição de
1988, foram acolhidas pelo Supremo Tribunal Federal, como as relativas à
própria Previdência, às relações de trabalho e às privatizações. O fato é que
desde seu primeiro governo, Lula e o PT se afastaram dos ideais que, quando da
fundação do Partido, em 1980, o identificavam como um partido “de esquerda”.
Esse
afastamento se deu num contexto de aprofundamento da crise capitalista em
escala mundial e de avanço da financeirização da economia apoiada nas
tecnologias de informação e comunicação, que a partir dos anos 2010 se
converteriam no centro nevrálgico da política. Lula deixou seu segundo mandato
consagrado pelo eleitorado e pela comunidade internacional.
Não à
toa, foi importante agente político na eleição de sua Chefe da Casa Civil,
Dilma Roussef, reeleita em 2014, mesmo depois de enfrentar fortes movimentos
populares que reivindicavam políticas que levassem à melhoria das condições de
vida da maioria da sociedade (educação, saúde, saneamento, transporte etc.). As
assim chamadas Jornadas de Junho de 2013 não foram compreendidas pelo governo
como parte das reivindicações que deram origem ao próprio partido. Ao
contrário, foram interpretadas como provenientes de opositores ao governo cujo
fim era desestabilizá-lo.
A
surdez para as ruas levou a atenção do governo para os agentes do mercado e,
para atendê-los, a políticas fiscalistas de maior arrocho ainda para a classe
trabalhadora. O isolamento político de Dilma culminou com um golpe legislativo
e judiciário, a que muitos chamam de impeachment.
Com
Dilma Rousseff ainda à frente do governo, teve início uma luta que articulava
internacionalmente o Estado norte-americano e sua alta burguesia, combinados à
alta burguesia de origem nacional brasileira, à grande imprensa tradicional e a
frações dos poderes judiciário e legislativo, todos amalgamados na Operação
Lava-Jato.
Golpeado
o governo de Dilma Rousseff, o desafio posto para essas forças políticas era
evitar descontinuidade e, se possível, aprofundar a tragédia da Ponte para o
Futuro erguida por Michel Temer, com seu teto de gastos que engessava o
investimento e o gasto público por vinte anos. Deu-se o segundo golpe: Luiz
Inácio Lula da Silva, cuja nomeação para o ministério de Dilma Rousseff fora
proibida pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, foi
condenado em primeira instância e preso.
O
processo e a prisão do ex-Presidente nada tinham a ver com a justificativa da
Operação da Polícia Federal. O vazamento das mensagens trocadas entre Sérgio
Moro, juiz que o condenou, e Deltan Dallagnol, promotor que chefiou a acusação,
revelaram um conluio envolvendo ambos, além da grande imprensa que os apoiou
irrestritamente e o Departamento de Estado norte-americano.
O
objetivo principal da Operação foi alcançado: preso, Lula foi impedido de
concorrer às eleições e com isso abriu-se espaço para uma vitória eleitoral de
candidato mais à direita do espectro político. Contudo, o feitiço fugiu ao
controle dos feiticeiros. A militância política contra a política repetida
diuturnamente nos canais abertos de TV, nas rádios e também nas redes sociais,
criou o ambiente propício para o surgimento de um candidato que se travestia da
indignação generalizada, representando-a sob a forma de um discurso de
inspiração neofascista, num contexto político e econômico que se assemelhava ao
fascismo apenas pelo fato de ser o de uma crise capitalista.
Jair
Bolsonaro foi eleito e governou, se assim se pode dizer, sob o signo da
destruição. Seu governo acelerou algo anunciado no primeiro governo de Fernando
Henrique Cardoso, a liquidação da era Vargas. Os efeitos dessa destruição foram
tão profundos que, candidato à reeleição, o ex-presidente foi o primeiro a não
se reeleger estando no exercício do mandato. Diante da possibilidade do
fracasso eleitoral, vislumbrada desde o primeiro dia de mandato, Jair Bolsonaro
despendeu a maior parte de seus esforços retóricos e políticos com a
desqualificação das instituições da república (por ele governada) e com a
conspiração para um golpe de Estado.
O golpe
foi evitado, mas os poderes da república, já frágeis, foram ainda mais abalados
por sua ação. Na mobilização popular com vistas a pressionar as forças
armadas a aderirem ao golpe desejado, várias cenas chocantes de dissonância
cognitiva explícita ganharam a praça pública. Uma delas, icônica, a manifestar
o apogeu do negacionismo, foi a de pessoas organizadas em volta de um pneu para
o qual rezavam, a implorar uma intervenção de forças sobrenaturais.
Hoje,
quase quatro anos após o registro daquelas cenas, estamos às vésperas de uma
nova eleição presidencial. O que vemos? O que percebemos é que muitas das
pessoas que rezavam para pneu em praça pública ainda o fazem em seus altares
privados. O simples fato de uma pessoa como Flávio Bolsonaro ter a
possibilidade de concorrer ao cargo de Presidente da República com alguma
chance de ganhar, diz muito sobre aquilo em que foi transformada a política,
como a conhecíamos, e as eleições.
Nos
EUA, Donald Trump foi reeleito, mas depois de ter perdido uma eleição. Aqui,
Bolsonaro, o Jair, perdeu, foi processado e preso, o que o impediu de
concorrer. Designou seu filho como herdeiro do espólio eleitoral e o 01, apesar
de uma ficha corrida que passeia pelo código penal, pode ir ao segundo turno
das eleições com chances de vencê-las. O que isso prova? Pergunta que nos
fazemos. A resposta mais direta a que conseguimos chegar é que para uma boa
parte da sociedade, a selva capitalista nua e crua, sem anteparos, é mais
honesta do que as tentativas de remediar um ou outro efeito da superexploração.
O que
talvez não se tenha entendido é que o fim dos anteparos, por menores que sejam,
é igual a uma combinação perversa e brutal de superexploração com
superdominação de classe. Flávio Bolsonaro é a face visível dos senhores das
Big Techs, de Wall Street e do agro. Eles são a encarnação perfeita do espírito
do capitalismo, a aparência como simulacro da essência, ambos constituindo o
todo. Dos hábitos de consumo sofisticados à moral, são o oposto do que dizem e
do que se vê.
Logo,
há um número expressivo de pessoas entregando suas vidas e desejando entregar a
de todos a embusteiros, sacripantas, em suma, ao capital em forma de gente. A
questão não é moral e o mal que ameaça o cotidiano da vida do povo brasileiro é
de gênese política, não metafísica.
O que
nos causa temor e tremor é, a depender do resultado dessas eleições, a
possibilidade real de o Brasil se converter num quintal da geopolítica
imperialista do Império do Norte, mais como escárnio do que tragédia e farsa,
porque sob gritos de conteúdo religioso e moral, e sob bandeiras da defesa
ideológica de Deus, da Pátria e da Família. Seremos a Grande Pátria da
soberania reversa.
Fonte:
Por Marcelo Seráfico, em A Terra é Redonda

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