Quem
vencerá a corrida da IA: China ou EUA?
Dan
Wang, que morou na China entre 2017 e 2023, extraiu nesses anos uma perspectiva
singular sobre o aceleracionismo made in China, a visão de futuro do
país e o modelo estadunidense com o qual rivaliza. É uma reflexão que ele
desenvolve com rigor em seu novo ensaio, A todo vapor. Tecnologia e poder na
China e a disputa com os Estados Unidos (Intrínseca).
“Whoever
wins AI wins” (Quem vencer na IA,
vence tudo).
Foi com essas palavras que Donald Trump, em visita à
Irlanda, resumiu sua doutrina sobre a inteligência artificial em meados de
setembro. Em outras palavras: na corrida da IA, não há como tirar o pé do
acelerador. Poucos dias antes, no entanto, Dario Amodei, chefe da Anthropic, havia defendido uma
desaceleração no desenvolvimento dos modelos mais potentes (por questões de
segurança). Essa cautela foi imediatamente descartada pelo presidente
estadunidense, determinado a manter sua vantagem sobre a China.
Afinal,
se há um campo de batalha onde a disputa pela IA já ocorre em velocidade
máxima, é justamente aquele que opõe os Estados Unidos à China, ambos engajados
em uma corrida de investimentos sem precedentes. Somente em 2025, os
investimentos privados estadunidenses em IA atingiram 285 bilhões de dólares,
segundo o mais recente relatório anual AI Index, da Universidade de Stanford.
Do lado
chinês, o financiamento público é o que mais pesa na balança: ao todo, 184
bilhões de dólares em recursos públicos foram injetados em empresas
especializadas em IA entre 2000 e 2023. Trata-se de uma batalha tecnológica de
grande envergadura que, para Dan Wang, revela sobretudo o papel decisivo que
essas duas superpotências pretendem desempenhar na construção do mundo de
amanhã.
Pesquisador
da Hoover Institution da Universidade de Stanford, o ensaísta – que nasceu na
China, foi criado no Canadá e que passou um tempo nos Estados Unidos – lançou
no início de setembro, pela editora Arpa, o livro La Chine à toute vitesse :
La quête de la Chine pour façonner l’avenir (publicado no Brasil com o
título A todo vapor: tecnologia e poder na China e a disputa com os
Estados Unidos), na qual analisa detalhadamente as rivalidades entre as
duas maiores potências do mundo.
Conversamos
com ele por videoconferência logo após o encontro entre Xi Jinping e seu
homólogo Donald Trump, em Washington. Foi uma oportunidade para abordar essa
visita amplamente comentada e as questões em jogo na corrida pela IA entre as duas
superpotências, bem como a margem de manobra que ainda resta à Europa nesse
embate que já está redesenhando a economia global.
>>>>
Eis a entrevista.
·
Xi Jinping visitou Donald Trump nesta semana [a visita se
deu entre os dias 23 e 25 de setembro] para discutir uma trégua comercial, a
guerra no Irã, Taiwan e a IA. Foi um encontro no qual o presidente
estadunidense tratou seu homólogo chinês como igual, rompendo radicalmente com
a postura de confronto que prevalecia até então. As relações sino-americanas
estão mudando de natureza?
Não
acredito que a desconfiança fundamental e a hostilidade entre os dois
desaparecerão. Donald Trump continua sendo Donald Trump, e seu humor pode mudar
muito, muito rapidamente. Tomemos o exemplo de Emmanuel Macron: sua relação com o
presidente francês evoluiu bastante, oscilando entre períodos de alinhamento –
ou até de camaradagem – e de distanciamento. Donald Trump tem o hábito de agir
assim com praticamente todos os líderes mundiais. Mesmo que ele pareça dar
grande importância a Xi Jinping durante uma
importante visita de Estado, não há nada de imutável nisso.
·
Durante sua estadia na Casa Branca – a primeira em mais
de 10 anos –, Xi Jinping defendeu uma “coexistência pacífica” entre as duas
maiores potências do mundo, evitando mencionar a guerra comercial e diplomática
que as divide. Em que áreas elas podem realmente dialogar?
Em
muitos aspectos. Há cerca de 20 anos, o historiador Niall Ferguson cunhou o termo “Chimerica” para descrever a complementaridade entre a China e
os Estados Unidos. Os Estados Unidos forneciam capital, pesquisa,
desenvolvimento e marketing; a China, mão de obra abundante e capacidade
produtiva considerável. Era uma parceria econômica particularmente eficaz,
cujos efeitos ainda são visíveis hoje: a China continua fabricando a maior
parte dos iPhones da Apple e dos carros elétricos da Tesla.
Mas a
China não quer mais se contentar em ser a “fábrica do mundo”. Ela busca agora se
posicionar em setores industriais de ponta, especialmente o de equipamentos
industriais. Isso abre novas possibilidades de cooperação. Os Estados Unidos
poderiam, por exemplo, incentivar as fabricantes chinesas de veículos elétricos
a produzir em seu território, importar certos equipamentos chineses de ponta ou
até mesmo utilizar tecnologias chinesas nos setores de energia solar e baterias para acelerar a
eletrificação de sua indústria.
O
problema é que esses setores estão hoje intrinsecamente ligados à questão dos
dados. Nos Estados Unidos, sempre que um produto tem capacidade de transmitir
dados – veículos conectados, smartphones ou até guindastes portuários –, ele é
frequentemente visto como uma questão de segurança nacional.
É
precisamente aí que o diálogo se torna difícil. Os Estados Unidos não
conseguiram definir um conceito de segurança nacional suficientemente claro e
consensual para determinar o que ainda pode ser objeto de intercâmbio com a
China. Enquanto essa fronteira permanecer indefinida, é difícil vislumbrar uma
integração econômica realmente substancial entre os dois países.
·
Você acredita que a China e os Estados Unidos são
colocados em oposição de forma equivocada, já que, na sua visão, não existem
“dois povos mais semelhantes do que os estadunidenses e os chineses”. Por quê?
Os
chineses e os estadunidenses possuem um espírito empreendedor bastante
semelhante: são bons nos negócios e movidos por um dinamismo considerável.
Acima de tudo, eles se projetam no futuro com certo entusiasmo. Já os europeus
reservam seu otimismo apenas para o passado; têm dificuldade em imaginar um
futuro que seja verdadeiramente diferente daquilo que já vivenciaram.
Além
disso, eles geram menos riqueza e herdam, essencialmente, a riqueza das
gerações anteriores. Suas indústrias permanecem, em grande parte, voltadas para
o passado: buscam mais aperfeiçoar e valorizar produtos existentes do que
desenvolver as indústrias e tecnologias de que o mundo precisará amanhã. Essa é
uma diferença fundamental.
·
Apesar do interesse comum pelo futuro, a China e os
Estados Unidos continuam muito diferentes do ponto de vista político. O
primeiro é um Estado formado essencialmente por “engenheiros”, e o segundo, por
“pessoas formados em Direito”, segundo você. O que quer dizer com isso?
Até
pouco tempo atrás, todos os membros do Comitê Permanente do Politburo chinês –
o órgão supremo do Partido Comunista – eram engenheiros (em 2002, os nove
membros do Comitê Permanente do Politburo tinham diploma de engenharia). É uma
tradição muito soviética: diante de um problema, buscam primeiro construir uma
solução. Daí os investimentos maciços em energia solar, eólica e nuclear, mas
também em habitação, estradas e pontes.
O
problema é que eles também tendem a conceber a sociedade como um problema
matemático a ser resolvido. A política do filho único, assim como a política de
Covid zero, baseava-se em regras extremamente precisas que deixavam pouquíssimo
espaço para ambiguidades ou qualquer forma de liberdade. São, de certa forma,
engenheiros sociais.
Nos
Estados Unidos, ocorre quase o oposto. O país é profundamente impregnado pela
cultura jurídica. Dos treze primeiros presidentes estadunidenses, de Washington
a Lincoln, dez eram advogados. E muitos dos seus sucessores também estudaram
Direito. O reflexo do advogado é estabelecer limites e salvaguardas. Isso
permite evitar políticas tão absurdas quanto a do filho único, mas também pode
acabar travando tudo – tanto o que é bom quanto o que é ruim. O resultado é que
os Estados Unidos não constroem moradias, ferrovias ou capacidade de geração de
energia elétrica em quantidade suficiente.
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Será que essa tendência legalista pode atrasar o Vale do Silício na corrida
pela IA em benefício da China?
Não
acredito nisso. Os Estados Unidos dispõem de cerca de dez vezes mais capacidade
computacional dedicada à IA. É uma diferença considerável e, enquanto os
chineses não conseguirem se aproximar desse patamar, os Estados Unidos manterão
uma vantagem significativa.
No
entanto, a China possui três trunfos importantes. O primeiro é a eletricidade.
O país dispõe de capacidades de produção muito superiores e está construindo
atualmente cerca de 40 reatores nucleares, contra nenhum nos Estados Unidos.
Esse é um fator decisivo para o desenvolvimento da IA.
O
segundo trunfo são os talentos. Grande parte dos pesquisadores chineses da área
de IA trabalha hoje nos Estados Unidos, especialmente na Califórnia. Muitos
estudaram na China, e alguns ainda são cidadãos chineses. Se Trump endurecer as
condições de trabalho e promover cortes orçamentários, eles poderão decidir
partir ou até mesmo ser forçados a isso.
Por
fim, é possível que a China aposte mais nas aplicações industriais e de hardware
da IA (robôs, máquinas
industriais e veículos autônomos impulsionados pela IA), enquanto os
estadunidenses se concentrarão mais nos avanços dos modelos e algoritmos em si.
Talvez seja nesse campo que a China tenha assumido a liderança, embora ainda
seja difícil mensurar a extensão disso.
·
E quanto aos Estados Unidos? De que vantagens eles
dispõem na corrida pela IA?
O
principal trunfo dos Estados Unidos continua sendo o poder computacional. Eles
dispõem dos chips de maior desempenho – especialmente os da Nvidia – e de capital
considerável para financiar o desenvolvimento dessas tecnologias. Também se
beneficiam de um ambiente muito atraente para pesquisadores de todo o mundo,
incluindo pesquisadores chineses da área de IA. Os laboratórios estadunidenses
contam com recursos vultosos, apesar dos cortes orçamentários iniciados pela
Casa Branca: provavelmente conseguem oferecer a um pesquisador chinês uma
remuneração cinco ou dez vezes maior do que a que ele encontraria em outro
lugar... e fazer o mesmo com um pesquisador francês.
Além
disso, a censura nos Estados Unidos não é tão rigorosa quanto na China. Eu
mesmo pude constatar isso (em 2022, as autoridades de censura de Pequim
bloquearam o blog onde Dan Wang publicava anualmente um longo artigo, que tinha
muitos leitores, sobre a economia e as tecnologias chinesas – nota da
redação). Pergunto-me se parte da saída de pesquisadores estadunidenses
para outros países, inclusive a China, motivada pela política de Trump, não
seria apenas temporária. Se os democratas vencerem a eleição de 2028, quantos
desses professores correrão para voltar a ocupar cargos nos Estados Unidos?
·
A China poderia ultrapassar os Estados Unidos na IA até o
final do mandato de Trump? Segundo um relatório da Mozilla Foundation publicado
em meados de setembro, os modelos chineses de código aberto estariam apenas
quatro meses atrás dos sistemas estadunidenses mais avançados.
Se os
chineses estão relativamente próximos dos estadunidenses hoje, é principalmente
porque conseguem treinar seus próprios modelos utilizando sistemas
estadunidenses mais avançados. É a chamada “destilação”. É precisamente por
esse motivo que não vejo a China assumindo a liderança na disputa com os
Estados Unidos. Ela ainda depende excessivamente deles.
No
entanto, os Estados Unidos também podem dar um tiro no próprio pé. Se abrirem
mão de seus pesquisadores chineses, não desenvolverem suficientemente suas
capacidades energéticas ou permitirem a proliferação das oposições à instalação
de data centers, correm o risco de comprometer sua vantagem.
Os
chineses também têm suas próprias fragilidades. Sua economia enfrenta
dificuldades, e seu sistema político também pode ser fonte de tensões. Xi Jinping está prestes a
iniciar um novo mandato de cinco anos; se o concluir, terá permanecido no poder
por 20 anos. Ele já não é jovem. Dito isso, essas fragilidades não impedem a
China de mobilizar recursos consideráveis nos setores que considera
estratégicos.
·
Isso é particularmente verdadeiro no que diz respeito à
IA: o Partido Comunista planeja gastar o equivalente a 295 bilhões de dólares
nos próximos cinco anos para construir data centers. Vale lembrar também
que Pequim registrou quase 30 mil patentes relacionadas à IA generativa entre
2014 e 2024.
Os
chineses investem pesadamente em IA, mas a inserem em uma estratégia muito mais
ampla do que a dos Estados Unidos. Para eles, a questão não se limita aos
algoritmos: envolve também eletricidade, capacidade produtiva, data centers, robôs e, de forma
mais ampla, todo o aparato industrial necessário para transformar a IA em potência
econômica.
Essa é
uma diferença importante em relação aos Estados Unidos, que tendem mais a
tratar a IA como um fim em si mesma. No entanto, a meu ver, os algoritmos
representam apenas uma pequena parte da equação. A IA provou ser extremamente
poderosa, sem dúvida, mas seu valor dependerá também da capacidade de
implementá-la no mundo real.
·
Apesar da sua aparente cooperação – com a criação de um
“canal de comunicação bilateral” para administrar incidentes relacionados à IA
–, a China e os Estados Unidos continuam sendo concorrentes e buscam, cada um,
estruturar alianças para assegurar as cadeias de suprimento de IA: Pequim com a
WAICO, Washington com a Pax Silica. Estaríamos
presenciando uma nova forma, mais discreta, de Guerra Fria?
Até
certo ponto, sim. Observa-se claramente uma competição sistêmica entre a China
e os Estados Unidos: cada um busca fortalecer suas alianças e seu poder
econômico e militar, ao mesmo tempo em que demonstra as forças de seu próprio
sistema.
A
comparação com a Guerra Fria, no entanto, tem seus limites. A China e os
Estados Unidos permanecem profundamente interligados por suas trocas
comerciais, ao contrário da União Soviética e dos Estados Unidos durante a
segunda metade do século XX. Além disso, a sua rivalidade é menos ideológica:
Pequim não busca exportar seu sistema político pelo mundo, como a União
Soviética por vezes tentava fazer. Os Estados Unidos também parecem menos
engajados em um confronto ideológico dessa natureza.
·
Você escreve que a melhor maneira de evitar uma escalada
entre as duas potências é estimular a curiosidade mútua. O que quer dizer com
isso?
Acredito
que tanto os estadunidenses quanto os europeus ganhariam muito se visitassem
mais a China. Quase em toda parte, é uma experiência estimulante: tanto nas
aldeias quanto nas grandes cidades e megalópoles, como Xangai, descobre-se uma
sociedade extremamente viva e uma cultura muito dinâmica. Deveria haver mais
curiosidade em relação a esse grande país, profundamente marcado pelo Partido
Comunista. É verdade que parte da sua expressão criativa foi sufocada pela
política vigente, mas isso não impediu a sociedade chinesa de manter uma
energia notável.
Na
França, existe um desconhecimento bastante profundo sobre a China. Lembre-se
daquele programa (da LCI, nota da redação) em que os convidados foram
incapazes de citar o nome de qualquer chinês que não fosse Xi Jinping. Esse
trecho, que viralizou, é muito revelador desse desconhecimento generalizado.
O mesmo
vale para os Estados Unidos. Muitos europeus veem esse grande país apenas
através de Trump e do que ele representa. Eu mesmo me oponho a muitas das
transformações em curso no país, mas isso não deve nos fazer esquecer o
dinamismo que continua existindo aí. As pessoas trabalham, criam, empreendem e
seguem suas vidas sem que a política ocupe todo o espaço. Existe uma capacidade
de resistência que nem sempre é percebida a partir da Europa.
·
Em seu ensaio, você também afirma que a Europa está
ficando para trás em relação à indústria manufatureira chinesa e aos produtos
das gigantes tecnológicas estadunidenses. Estaria ela condenada a ser um
“mausoléu econômico”, para usar suas palavras?
Acredito
que aos europeus faltam poder e, sobretudo, peso econômico. Eles dispõem de um
imenso mercado, mas não de meios de pressão suficientes para fazer frente aos
Estados Unidos ou à China.
Esses
dois só respeitam o poder. Se você não o possui, nem estadunidenses nem
chineses lhe dão muita atenção. Os europeus precisam, portanto, recuperar uma
verdadeira consciência de seu poder e, acima de tudo, os meios para exercê-lo.
Isso
pode envolver recursos financeiros ou o controle de uma tecnologia ou de um
recurso estratégico – como os semicondutores para os Estados Unidos ou as
terras raras para a China. Pode ser também a capacidade de impor sanções
suficientemente fortes para alterar as estratégias de outros países.
·
A Europa não poderia constituir uma terceira via entre
Pequim e Washington no que diz respeito à IA, pautada pela desaceleração?
O que
falta à Europa, acima de tudo, é um poder econômico e industrial
suficientemente confiável para defender seus interesses. Isso fica
particularmente claro em relação à Rússia: se os europeus precisam contar
constantemente com os Estados Unidos para garantir sua segurança, sua autonomia
estratégica permanece limitada. E essa fragilidade também pesa em suas relações
com a China e os Estados Unidos. Se você não tem meios de exercer pressão, por
que seus interlocutores o ouviriam?
A
Europa pode, portanto, defender uma concepção diferente de IA e de sua
regulamentação. Mas, para que essa visão se torne uma verdadeira terceira via,
ela precisa se apoiar em capacidades reais. É preciso, antes de tudo, recuperar
o gosto pelo futuro e os meios para construir: empresas, infraestruturas,
energia e tecnologias. Caso contrário, ela continuará dependente dos Estados
Unidos para sua segurança e exposta à concorrência chinesa na indústria.
Fonte:
Entrevista com Dan Wang, para Emilie Echaroux, em Usbek & Rica -
tradução do Cepat, em IHU

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