segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Quem vencerá a corrida da IA: China ou EUA?

Dan Wang, que morou na China entre 2017 e 2023, extraiu nesses anos uma perspectiva singular sobre o aceleracionismo made in China, a visão de futuro do país e o modelo estadunidense com o qual rivaliza. É uma reflexão que ele desenvolve com rigor em seu novo ensaio, A todo vapor. Tecnologia e poder na China e a disputa com os Estados Unidos (Intrínseca).

“Whoever wins AI wins” (Quem vencer na IA, vence tudo). Foi com essas palavras que Donald Trump, em visita à Irlanda, resumiu sua doutrina sobre a inteligência artificial em meados de setembro. Em outras palavras: na corrida da IA, não há como tirar o pé do acelerador. Poucos dias antes, no entanto, Dario Amodei, chefe da Anthropic, havia defendido uma desaceleração no desenvolvimento dos modelos mais potentes (por questões de segurança). Essa cautela foi imediatamente descartada pelo presidente estadunidense, determinado a manter sua vantagem sobre a China.

Afinal, se há um campo de batalha onde a disputa pela IA já ocorre em velocidade máxima, é justamente aquele que opõe os Estados Unidos à China, ambos engajados em uma corrida de investimentos sem precedentes. Somente em 2025, os investimentos privados estadunidenses em IA atingiram 285 bilhões de dólares, segundo o mais recente relatório anual AI Index, da Universidade de Stanford.

Do lado chinês, o financiamento público é o que mais pesa na balança: ao todo, 184 bilhões de dólares em recursos públicos foram injetados em empresas especializadas em IA entre 2000 e 2023. Trata-se de uma batalha tecnológica de grande envergadura que, para Dan Wang, revela sobretudo o papel decisivo que essas duas superpotências pretendem desempenhar na construção do mundo de amanhã.

Pesquisador da Hoover Institution da Universidade de Stanford, o ensaísta – que nasceu na China, foi criado no Canadá e que passou um tempo nos Estados Unidos – lançou no início de setembro, pela editora Arpa, o livro La Chine à toute vitesse : La quête de la Chine pour façonner l’avenir (publicado no Brasil com o título A todo vapor: tecnologia e poder na China e a disputa com os Estados Unidos), na qual analisa detalhadamente as rivalidades entre as duas maiores potências do mundo.

Conversamos com ele por videoconferência logo após o encontro entre Xi Jinping e seu homólogo Donald Trump, em Washington. Foi uma oportunidade para abordar essa visita amplamente comentada e as questões em jogo na corrida pela IA entre as duas superpotências, bem como a margem de manobra que ainda resta à Europa nesse embate que já está redesenhando a economia global.

>>>> Eis a entrevista.

·        Xi Jinping visitou Donald Trump nesta semana [a visita se deu entre os dias 23 e 25 de setembro] para discutir uma trégua comercial, a guerra no Irã, Taiwan e a IA. Foi um encontro no qual o presidente estadunidense tratou seu homólogo chinês como igual, rompendo radicalmente com a postura de confronto que prevalecia até então. As relações sino-americanas estão mudando de natureza?

Não acredito que a desconfiança fundamental e a hostilidade entre os dois desaparecerão. Donald Trump continua sendo Donald Trump, e seu humor pode mudar muito, muito rapidamente. Tomemos o exemplo de Emmanuel Macron: sua relação com o presidente francês evoluiu bastante, oscilando entre períodos de alinhamento – ou até de camaradagem – e de distanciamento. Donald Trump tem o hábito de agir assim com praticamente todos os líderes mundiais. Mesmo que ele pareça dar grande importância a Xi Jinping durante uma importante visita de Estado, não há nada de imutável nisso.

·        Durante sua estadia na Casa Branca – a primeira em mais de 10 anos –, Xi Jinping defendeu uma “coexistência pacífica” entre as duas maiores potências do mundo, evitando mencionar a guerra comercial e diplomática que as divide. Em que áreas elas podem realmente dialogar?

Em muitos aspectos. Há cerca de 20 anos, o historiador Niall Ferguson cunhou o termo “Chimerica” para descrever a complementaridade entre a China e os Estados Unidos. Os Estados Unidos forneciam capital, pesquisa, desenvolvimento e marketing; a China, mão de obra abundante e capacidade produtiva considerável. Era uma parceria econômica particularmente eficaz, cujos efeitos ainda são visíveis hoje: a China continua fabricando a maior parte dos iPhones da Apple e dos carros elétricos da Tesla.

Mas a China não quer mais se contentar em ser a “fábrica do mundo”. Ela busca agora se posicionar em setores industriais de ponta, especialmente o de equipamentos industriais. Isso abre novas possibilidades de cooperação. Os Estados Unidos poderiam, por exemplo, incentivar as fabricantes chinesas de veículos elétricos a produzir em seu território, importar certos equipamentos chineses de ponta ou até mesmo utilizar tecnologias chinesas nos setores de energia solar e baterias para acelerar a eletrificação de sua indústria.

O problema é que esses setores estão hoje intrinsecamente ligados à questão dos dados. Nos Estados Unidos, sempre que um produto tem capacidade de transmitir dados – veículos conectados, smartphones ou até guindastes portuários –, ele é frequentemente visto como uma questão de segurança nacional.

É precisamente aí que o diálogo se torna difícil. Os Estados Unidos não conseguiram definir um conceito de segurança nacional suficientemente claro e consensual para determinar o que ainda pode ser objeto de intercâmbio com a China. Enquanto essa fronteira permanecer indefinida, é difícil vislumbrar uma integração econômica realmente substancial entre os dois países.

·        Você acredita que a China e os Estados Unidos são colocados em oposição de forma equivocada, já que, na sua visão, não existem “dois povos mais semelhantes do que os estadunidenses e os chineses”. Por quê?

Os chineses e os estadunidenses possuem um espírito empreendedor bastante semelhante: são bons nos negócios e movidos por um dinamismo considerável. Acima de tudo, eles se projetam no futuro com certo entusiasmo. Já os europeus reservam seu otimismo apenas para o passado; têm dificuldade em imaginar um futuro que seja verdadeiramente diferente daquilo que já vivenciaram.

Além disso, eles geram menos riqueza e herdam, essencialmente, a riqueza das gerações anteriores. Suas indústrias permanecem, em grande parte, voltadas para o passado: buscam mais aperfeiçoar e valorizar produtos existentes do que desenvolver as indústrias e tecnologias de que o mundo precisará amanhã. Essa é uma diferença fundamental.

·        Apesar do interesse comum pelo futuro, a China e os Estados Unidos continuam muito diferentes do ponto de vista político. O primeiro é um Estado formado essencialmente por “engenheiros”, e o segundo, por “pessoas formados em Direito”, segundo você. O que quer dizer com isso?

Até pouco tempo atrás, todos os membros do Comitê Permanente do Politburo chinês – o órgão supremo do Partido Comunista – eram engenheiros (em 2002, os nove membros do Comitê Permanente do Politburo tinham diploma de engenharia). É uma tradição muito soviética: diante de um problema, buscam primeiro construir uma solução. Daí os investimentos maciços em energia solar, eólica e nuclear, mas também em habitação, estradas e pontes.

O problema é que eles também tendem a conceber a sociedade como um problema matemático a ser resolvido. A política do filho único, assim como a política de Covid zero, baseava-se em regras extremamente precisas que deixavam pouquíssimo espaço para ambiguidades ou qualquer forma de liberdade. São, de certa forma, engenheiros sociais.

Nos Estados Unidos, ocorre quase o oposto. O país é profundamente impregnado pela cultura jurídica. Dos treze primeiros presidentes estadunidenses, de Washington a Lincoln, dez eram advogados. E muitos dos seus sucessores também estudaram Direito. O reflexo do advogado é estabelecer limites e salvaguardas. Isso permite evitar políticas tão absurdas quanto a do filho único, mas também pode acabar travando tudo – tanto o que é bom quanto o que é ruim. O resultado é que os Estados Unidos não constroem moradias, ferrovias ou capacidade de geração de energia elétrica em quantidade suficiente.

<><> Será que essa tendência legalista pode atrasar o Vale do Silício na corrida pela IA em benefício da China?

Não acredito nisso. Os Estados Unidos dispõem de cerca de dez vezes mais capacidade computacional dedicada à IA. É uma diferença considerável e, enquanto os chineses não conseguirem se aproximar desse patamar, os Estados Unidos manterão uma vantagem significativa.

No entanto, a China possui três trunfos importantes. O primeiro é a eletricidade. O país dispõe de capacidades de produção muito superiores e está construindo atualmente cerca de 40 reatores nucleares, contra nenhum nos Estados Unidos. Esse é um fator decisivo para o desenvolvimento da IA.

O segundo trunfo são os talentos. Grande parte dos pesquisadores chineses da área de IA trabalha hoje nos Estados Unidos, especialmente na Califórnia. Muitos estudaram na China, e alguns ainda são cidadãos chineses. Se Trump endurecer as condições de trabalho e promover cortes orçamentários, eles poderão decidir partir ou até mesmo ser forçados a isso.

Por fim, é possível que a China aposte mais nas aplicações industriais e de hardware da IA (robôs, máquinas industriais e veículos autônomos impulsionados pela IA), enquanto os estadunidenses se concentrarão mais nos avanços dos modelos e algoritmos em si. Talvez seja nesse campo que a China tenha assumido a liderança, embora ainda seja difícil mensurar a extensão disso.

·        E quanto aos Estados Unidos? De que vantagens eles dispõem na corrida pela IA?

O principal trunfo dos Estados Unidos continua sendo o poder computacional. Eles dispõem dos chips de maior desempenho – especialmente os da Nvidia – e de capital considerável para financiar o desenvolvimento dessas tecnologias. Também se beneficiam de um ambiente muito atraente para pesquisadores de todo o mundo, incluindo pesquisadores chineses da área de IA. Os laboratórios estadunidenses contam com recursos vultosos, apesar dos cortes orçamentários iniciados pela Casa Branca: provavelmente conseguem oferecer a um pesquisador chinês uma remuneração cinco ou dez vezes maior do que a que ele encontraria em outro lugar... e fazer o mesmo com um pesquisador francês.

Além disso, a censura nos Estados Unidos não é tão rigorosa quanto na China. Eu mesmo pude constatar isso (em 2022, as autoridades de censura de Pequim bloquearam o blog onde Dan Wang publicava anualmente um longo artigo, que tinha muitos leitores, sobre a economia e as tecnologias chinesas – nota da redação). Pergunto-me se parte da saída de pesquisadores estadunidenses para outros países, inclusive a China, motivada pela política de Trump, não seria apenas temporária. Se os democratas vencerem a eleição de 2028, quantos desses professores correrão para voltar a ocupar cargos nos Estados Unidos?

·        A China poderia ultrapassar os Estados Unidos na IA até o final do mandato de Trump? Segundo um relatório da Mozilla Foundation publicado em meados de setembro, os modelos chineses de código aberto estariam apenas quatro meses atrás dos sistemas estadunidenses mais avançados.

Se os chineses estão relativamente próximos dos estadunidenses hoje, é principalmente porque conseguem treinar seus próprios modelos utilizando sistemas estadunidenses mais avançados. É a chamada “destilação”. É precisamente por esse motivo que não vejo a China assumindo a liderança na disputa com os Estados Unidos. Ela ainda depende excessivamente deles.

No entanto, os Estados Unidos também podem dar um tiro no próprio pé. Se abrirem mão de seus pesquisadores chineses, não desenvolverem suficientemente suas capacidades energéticas ou permitirem a proliferação das oposições à instalação de data centers, correm o risco de comprometer sua vantagem.

Os chineses também têm suas próprias fragilidades. Sua economia enfrenta dificuldades, e seu sistema político também pode ser fonte de tensões. Xi Jinping está prestes a iniciar um novo mandato de cinco anos; se o concluir, terá permanecido no poder por 20 anos. Ele já não é jovem. Dito isso, essas fragilidades não impedem a China de mobilizar recursos consideráveis nos setores que considera estratégicos.

·        Isso é particularmente verdadeiro no que diz respeito à IA: o Partido Comunista planeja gastar o equivalente a 295 bilhões de dólares nos próximos cinco anos para construir data centers. Vale lembrar também que Pequim registrou quase 30 mil patentes relacionadas à IA generativa entre 2014 e 2024.

Os chineses investem pesadamente em IA, mas a inserem em uma estratégia muito mais ampla do que a dos Estados Unidos. Para eles, a questão não se limita aos algoritmos: envolve também eletricidade, capacidade produtiva, data centers, robôs e, de forma mais ampla, todo o aparato industrial necessário para transformar a IA em potência econômica.

Essa é uma diferença importante em relação aos Estados Unidos, que tendem mais a tratar a IA como um fim em si mesma. No entanto, a meu ver, os algoritmos representam apenas uma pequena parte da equação. A IA provou ser extremamente poderosa, sem dúvida, mas seu valor dependerá também da capacidade de implementá-la no mundo real.

·        Apesar da sua aparente cooperação – com a criação de um “canal de comunicação bilateral” para administrar incidentes relacionados à IA –, a China e os Estados Unidos continuam sendo concorrentes e buscam, cada um, estruturar alianças para assegurar as cadeias de suprimento de IA: Pequim com a WAICO, Washington com a Pax Silica. Estaríamos presenciando uma nova forma, mais discreta, de Guerra Fria?

Até certo ponto, sim. Observa-se claramente uma competição sistêmica entre a China e os Estados Unidos: cada um busca fortalecer suas alianças e seu poder econômico e militar, ao mesmo tempo em que demonstra as forças de seu próprio sistema.

A comparação com a Guerra Fria, no entanto, tem seus limites. A China e os Estados Unidos permanecem profundamente interligados por suas trocas comerciais, ao contrário da União Soviética e dos Estados Unidos durante a segunda metade do século XX. Além disso, a sua rivalidade é menos ideológica: Pequim não busca exportar seu sistema político pelo mundo, como a União Soviética por vezes tentava fazer. Os Estados Unidos também parecem menos engajados em um confronto ideológico dessa natureza.

·        Você escreve que a melhor maneira de evitar uma escalada entre as duas potências é estimular a curiosidade mútua. O que quer dizer com isso?

Acredito que tanto os estadunidenses quanto os europeus ganhariam muito se visitassem mais a China. Quase em toda parte, é uma experiência estimulante: tanto nas aldeias quanto nas grandes cidades e megalópoles, como Xangai, descobre-se uma sociedade extremamente viva e uma cultura muito dinâmica. Deveria haver mais curiosidade em relação a esse grande país, profundamente marcado pelo Partido Comunista. É verdade que parte da sua expressão criativa foi sufocada pela política vigente, mas isso não impediu a sociedade chinesa de manter uma energia notável.

Na França, existe um desconhecimento bastante profundo sobre a China. Lembre-se daquele programa (da LCI, nota da redação) em que os convidados foram incapazes de citar o nome de qualquer chinês que não fosse Xi Jinping. Esse trecho, que viralizou, é muito revelador desse desconhecimento generalizado.

O mesmo vale para os Estados Unidos. Muitos europeus veem esse grande país apenas através de Trump e do que ele representa. Eu mesmo me oponho a muitas das transformações em curso no país, mas isso não deve nos fazer esquecer o dinamismo que continua existindo aí. As pessoas trabalham, criam, empreendem e seguem suas vidas sem que a política ocupe todo o espaço. Existe uma capacidade de resistência que nem sempre é percebida a partir da Europa.

·        Em seu ensaio, você também afirma que a Europa está ficando para trás em relação à indústria manufatureira chinesa e aos produtos das gigantes tecnológicas estadunidenses. Estaria ela condenada a ser um “mausoléu econômico”, para usar suas palavras?

Acredito que aos europeus faltam poder e, sobretudo, peso econômico. Eles dispõem de um imenso mercado, mas não de meios de pressão suficientes para fazer frente aos Estados Unidos ou à China.

Esses dois só respeitam o poder. Se você não o possui, nem estadunidenses nem chineses lhe dão muita atenção. Os europeus precisam, portanto, recuperar uma verdadeira consciência de seu poder e, acima de tudo, os meios para exercê-lo.

Isso pode envolver recursos financeiros ou o controle de uma tecnologia ou de um recurso estratégico – como os semicondutores para os Estados Unidos ou as terras raras para a China. Pode ser também a capacidade de impor sanções suficientemente fortes para alterar as estratégias de outros países.

·        A Europa não poderia constituir uma terceira via entre Pequim e Washington no que diz respeito à IA, pautada pela desaceleração?

O que falta à Europa, acima de tudo, é um poder econômico e industrial suficientemente confiável para defender seus interesses. Isso fica particularmente claro em relação à Rússia: se os europeus precisam contar constantemente com os Estados Unidos para garantir sua segurança, sua autonomia estratégica permanece limitada. E essa fragilidade também pesa em suas relações com a China e os Estados Unidos. Se você não tem meios de exercer pressão, por que seus interlocutores o ouviriam?

A Europa pode, portanto, defender uma concepção diferente de IA e de sua regulamentação. Mas, para que essa visão se torne uma verdadeira terceira via, ela precisa se apoiar em capacidades reais. É preciso, antes de tudo, recuperar o gosto pelo futuro e os meios para construir: empresas, infraestruturas, energia e tecnologias. Caso contrário, ela continuará dependente dos Estados Unidos para sua segurança e exposta à concorrência chinesa na indústria.

 

Fonte: Entrevista com Dan Wang, para Emilie Echaroux, em Usbek & Rica - tradução  do Cepat, em IHU

 

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