segunda-feira, 22 de julho de 2024

Mercadante: Avibras é estratégica e vai se recuperar

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, afirmou nesta sexta-feira (19) que a Avibras Indústria Aeroespacial é uma companhia estratégica de defesa nacional e que o governo está trabalhando para que não seja privatizada.

Ele conversou sobre o assunto com jornalistas após cerimônia de anúncio de investimento para Execução de Obras e Intervenções na Via Dutra e Rio-Santos, em São Paulo, que teve a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e várias autoridades políticas.

Mercadante explicou que o BNDES não é o único credor da empresa, que é a principal fabricante de sistemas pesados de defesa do Brasil e passa por recuperação judicial, embora seja um "credor importante". Entretanto, destacou que a Avibras é uma companhia estratégica de defesa nacional e deve permanecer assim:

"Se passar, se for transferida para uma empresa internacional, ela perde a condição de ser uma empresa nacional de defesa e perde uma série de benefícios que vêm dessa natureza […]. Ela tem que continuar sendo nacional, tem que ter a participação do Estado, pode ter parceiros privados, inclusive internacionais. Mas ela tem que continuar sob o controle nacional. É nessa direção que nós estamos trabalhando", disse ele a jornalistas após o evento.

O BNDES, afirmou ele, está bastante empenhado em resolver o mais rapidamente possível o problema "e ter, assim como a Embraer, que é um orgulho, ter uma companhia de defesa, que é muito importante, e que tenha um mercado muito promissor internacional".

O ministro da Fazenda adiantou que o governo está em "negociação intensa com o Ministério da Defesa" e há parceiros internacionais e nacionais que já mostraram interesse na empresa.

"Por isso que esse parceiro internacional, sem desnacionalizar a empresa, é importante para abrir esses mercados internacionais, que isso gera divisa, gera receita, gera crescimento para a empresa", argumentou. "Então, nós estamos, os bancos credores, buscando uma solução. Há um problema de gestão na empresa, de dificuldades. Ela precisa ter uma carteira de pedidos", explicou.

Mercadante frisou que para renegociar qualquer condição, a companhia deve ter perspectiva de receita e de entregas. "Isso passa por uma parceria com as Forças Armadas e de buscar uma mudança na governança da empresa. Na nossa avaliação, a Avibras vai se recuperar".

"Estamos dando prioridade porque os trabalhadores estão nessa expectativa, e a empresa, quando ela não está produzindo, ela vai gerando só passivo. Passivo fiscal, juros, folha de pagamento. Então, quanto mais credores, quanto mais rápido a gente resolver, melhor."

Há dois anos, o governo Lula tem feito negociações com a China para resgatar a Avibras que está há dois anos em recuperação judicial.

Na semana passada, o ministro da Defesa Nacional da China, Dong Jun, reuniu-se com o comandante do Exército Brasileiro, Tomás Ribeiro Paiva, que visitou a empresa chinesa Norinco, que negocia a participação na Avibras.

A Avibras despertou o interesse não só da China como da australiana DefendTex e uma dos Emirados Árabes Unidos.

O interesse chinês foi expresso em uma carta enviada ao governo brasileiro no dia 13 de junho, depois de uma desistência temporária da DefendTex anunciada pelo ministro da Defesa, José Múcio. Os executivos da companhia comunicaram o interesse chinês em adquirir 49% das ações da Avibras.

No entanto, sobre as negociações da Avibras, não se espera que o negócio seja fechado logo, em parte por envolver outros órgãos, como Itamaraty e o próprio Judiciário, além de Brasília já ter recebido um alerta dos norte-americanos sobre a transação com os chineses.

•        Boulos (PSOL) apresenta projeto de lei para que o governo federal compre a indústria bélica Avibras; entenda

A crise na Avibras já se arrasta há pelo menos uma década. Os funcionários estão há mais de dois anos sem trabalhar e sem receber salários. A Justiça homologou este ano a recuperação judicial solicitada pela empresa, que está em tratativas para ser vendida a um grupo australiano.

O Deputado Federal Guilherme Boulos (PSOL) apresentou, nesta quinta-feira (18), um projeto de lei na Câmara dos Deputados, para que o governo federal compre a indústria bélica Avibras.

De acordo com o projeto de lei, a desapropriação da Avibras tem como objetivo:

•        reforçar a posição estratégica da defesa do Brasil e a segurança nacional;

•        permitir a retomada de investimento dos projetos em andamento e de novos projetos;

•        garantir às forças armadas o abastecimento perene de insumos estratégicos à operação;

•        e possibilitar que a administração pública direcione investimentos para projetos essenciais à defesa do Brasil.

Com base no relatório da empresa, o deputado diz que “o governo federal poderia estabelecer um valor justo para desapropriação da Avibras por um valor próximo a R$ 2 bilhões”.

A proposta diz ainda que “a possibilidade de venda da Avibras a empresas estrangeiras pode prejudicar a segurança nacional e a defesa do Estado, bem como a autonomia e a indústria nacional”.

A crise na Avibras já se arrasta há pelo menos uma década. Os funcionários estão há mais de dois anos sem trabalhar e sem receber salários. A Justiça homologou este ano a recuperação judicial solicitada pela empresa, essa é uma das etapas necessárias para uma possível negociação.

No final de junho, a Avibras divulgou uma nota dizendo que segue em negociação para a venda da fábrica para a empresa australiana DefendTex,. O comunicado dizia que as companhias estão empenhadas em concluir o processo de aquisição e realizar o aporte de capital a partir do dia 30 de julho - leia mais abaixo.

Segundo a assessoria de imprensa da Câmara dos Deputados, a mesa diretora vai definir os próximos passos para a tramitação do projeto de lei, além de definir por quais comissões ele deverá ser avaliado e se vai passar por votação no plenário.

A Rede Vanguarda entrou em contato com a Avibras, mas a empresa disse que não vai se manifestar sobre o projeto de lei e nem sobre a negociação com a companhia australiana.

<><> Venda da Avibras

A Avibras emitiu um comunicado oficial no dia 28 de junho, no qual afirmou que continua em negociação para venda da empresa à DefendTex, companhia australiana.

No dia 13 de junho, o ministro a Defesa, José Múcio Monteiro, disse em uma evento que a empresa australiana havia desistido do negócio e que a indústria bélica brasileira havia recebido uma outra proposta.

No dia 28, porém, a Avibras informou que o contrato de investimento assinado com a DefendTex permanece em vigor.

"Ambas as empresas estão empenhadas em concluir o processo de aquisição (“closing” do contrato) e realizar o aporte de capital a partir do dia 30 de julho, visando a retomada das operações", disse a empresa brasileira.

Tudo começou em abril, quando a própria Avibras anunciou que tinha negociações em andamento para ser vendida à DefendTex. Segundo a empresa brasileira, as tratativas estavam avançadas.

<><> Recuperação judicial

Em 22 de março de 2022, a Avibras pediu recuperação judicial, alegando uma dívida de R$ 600 milhões. Em julho de 2023, credores aprovaram o plano de recuperação judicial da empresa.

A recuperação judicial serve para evitar que uma empresa em dificuldade financeira feche as portas. É um processo pelo qual a companhia endividada consegue um prazo para continuar operando enquanto negocia com seus credores, sob mediação da Justiça.

Fábrica da Avibras em Jacareí — Foto: Reprodução/TV Vanguarda

<><> Demissões e greve

A crise na Avibras se arrasta há alguns anos. Em 18 de março de 2022, a empresa demitiu cerca de 400 trabalhadores na fábrica em Jacareí. Na época, o Sindicato dos Metalúrgicos informou que não houve nenhum comunicado prévio ou tentativa de negociação sobre medidas para evitar as demissões, como adoção de um layoff (suspensão de contratos), por exemplo.

A fábrica alegou que teve de adotar "ações de reestruturação organizacional da empresa, mantendo as atividades essenciais para o cumprimento dos compromissos contratuais assumidos junto aos seus clientes". Ao mesmo tempo em que fez o corte, pediu à justiça a recuperação judicial alegando dívida de R$ 600 milhões.

A entidade recorreu à Justiça do Trabalho e conseguiu reverter o corte porque o juiz entendeu que não seria possível ter recuperação, se não havia força de trabalho na empresa.

Com a readmissão, a empresa colocou os funcionários em layoff. Os trabalhadores da Avibras de Jacareí entraram em greve, reivindicando a garantia de estabilidade para todos os funcionários, pagamento dos salários atrasados e também para que a empresa adote um sistema de trabalho rotativo, no qual os grupos se revezem entre o layoff e o trabalho na fábrica.

Trabalhadores da Avibras protestam contra atrasos de salário e estatização em trecho da Rodovia dos Tamoios — Foto: Divulgação

<><> A Avibras

A Avibras Aeroespacial é a maior indústria bélica do país e foi fundada em 1961 por engenheiros do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), de São José dos Campos (SP). Ela é uma das primeiras empresas nacionais a atender o setor aeroespacial.

A empresa desenvolve tecnologia para as áreas de Defesa e Civil. A organização foi uma das primeiras no Brasil a construir aeronaves, desenvolver e fabricar veículos espaciais para fins civis e militares.

Presente no mercado nacional e internacional, a empresa tem sede em Jacareí, no interior de São Paulo, e desenvolve diferentes motores foguetes para a Marinha do Brasil e para a Força Aérea Brasileira, além de produzir sistemas fixos ou móveis de C4ISTAR (Comando, Controle, Comunicação, Computação, Inteligência, Vigilância, Aquisição de Alvo e Reconhecimento) e Aeronave Remotamente Pilotada (ARP) - o Falcão.

 

•        Primeiro drone de combate do Brasil impulsiona a indústria de defesa do país, diz analista

O Brasil está perto de ter seu primeiro drone de combate. Produzido desde 2022 pela fabricante brasileira Xmobots, o drone de monitoramento Nauru 1000C terá sua primeira versão armada com dois mísseis.

Segundo o CEO da empresa, Giovani Amianti, a versão armada começou a ser desenvolvida em 2023. Os testes com o modelo estão previstos para começar em 2025. Se os testes forem bem-sucedidos, podem colocar o Brasil na vanguarda da produção de drones de combate.

João Gabriel Burmann, professor do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter) e pesquisador do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape), explicou em entrevista à Sputnik Brasil o que a fabricação do modelo armado significa para o desenvolvimento da indústria de defesa nacional e como aprimora o potencial defensivo do Exército Brasileiro.

Burmann afirma que a fabricação do Nauru 1000C pela Xmobots é um bom exemplo de uma companhia nacional que conseguiu desenvolver uma aeronave a partir de uma tecnologia autônoma e nacional de maneira inovadora e assimétrica.

"Ou seja, apostando não no topo da escala de desenvolvimento tecnológico, de inovação tecnológica, mas naquilo que ela [Xmobots] seria capaz de fazer, naquilo que ela já tem alguma expertise", afirma.

Ele diz considerar a notícia do modelo armado "um grande exemplo de que existe viabilidade para a produção nacional de armamentos, especialmente de sistemas de defesa que busquem incorporar inovações".

"Inovações que muitas vezes já são produzidas dentro da academia brasileira, tanto civil quanto militar, e que muitas vezes vão direto para o exterior — esses profissionais, porque não encontram um ecossistema melhor desenvolvido aqui dentro do país", argumenta.

Nesse contexto, ele afirma que a fabricação do Nauru 1000C e agora a criação do modelo armado "é um bom sinal de fortalecimento da indústria nacional".

"Isso também é um interesse renovado, é um interesse antigo já das Forças Armadas que nos últimos anos foi um pouco deixado de lado, mas que desde o último governo, desde o início agora deste último governo, do governo Lula 3, desde o ano passado, tem novamente tentado estimular o mercado de defesa nacional, seja de joint ventures, seja através do desenvolvimento de alguns produtos disruptivos, ou seja, de tecnologias disruptivas."

Ele diz esperar que o desenvolvimento desse novo drone de combate passe um sinal positivo para o resto da Base Industrial de Defesa [BID] do país, sobretudo em um momento em que se discute até quando e o quanto o governo brasileiro vai abrir mão do conhecimento da tecnologia que existe na Avibras, que ele afirma ser um "grande exemplo de uma indústria de defesa nacional privada", mas que "está com processo de falência declarado".

Questionado sobre quanto o Exército Brasileiro ganha em potencial defensivo com esse tipo de armamento, Burmann destaca que antes é importante ter em mente o quanto a nova tecnologia vai ser incorporada, em que tipo de unidade "e como isso se adéqua à própria doutrina de emprego de aeronaves remotamente tripuladas, no Brasil chamadas RPAS [SARP, em português: Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas]".

"Tem que ver como isso vai se adequar à doutrina dos RPAS brasileiros. Até onde eu sei não existe ainda uma doutrina pronta com relação ao emprego de RPAS de combate ou que possam empregar mísseis. Simplesmente pelo fato de que isso ainda não foi utilizado, não se aventava essa possibilidade", explica.

Ele afirma que, por ser um tipo de armamento leve e pequeno e pelo fato de o Brasil não estar envolvido em nenhum conflito armado, é possível que o Nauru 1000C seja empregado em ações de monitoramento e vigilância, como o patrulhamento das fronteiras do país.

"Então é incorporar esse tipo de sistema em regiões de fronteira. Além de toda a função principal do drone, que é a questão da vigilância, da coleta e transmissão de dados através de imagem, sem necessariamente a presença de um posto avançado, de um efetivo, de pessoas lá naquele lugar, ele tem esse fator de poder eventualmente realizar um disparo contra algum veículo que adentre as nossas fronteiras, que apresente alguma ameaça à nossa soberania. Isso muito provavelmente seria algum tipo de veículo carregando drogas ou utilizado pelo crime organizado."

Burmann enfatiza que ainda será preciso recorrer a parcerias internacionais para ampliar esse tipo de tecnologia.

"Eu acredito que no momento ainda é muito importante, ainda é extremamente importante, esse tipo de cooperação, essas joint ventures, ou então até mesmo a capacidade de adquirir sistemas ou componentes de sistemas para poder incorporar esses novos produtos. Nesse caso dos drones de combate, acho que o principal óbice para que o produto seja totalmente nacional é a questão dos mísseis.

O Brasil tem uma produção de mísseis embarcados, ou seja, mísseis disparados do ar, que até onde eu sei é muito pouca, senão inexistente."

Ele enfatiza que o míssil que será disparado do Nauru 1000C será produzido pela MBDA, "que é uma joint venture, um projeto multinacional europeu".

"E, nesse sentido, acho que ainda é necessário [parcerias], porque provavelmente é um míssil bastante pequeno, com uma aerodinâmica específica para poder ser equipado nesse drone."

Ele afirma que essa tecnologia, ao começar a ser operada no país, no futuro pode levar a indústria brasileira a ter a expertise necessária para desenvolver projetos próprios e fazer adaptações.

"Isso obviamente depende também das condições do contrato, se esse contrato vem com a possibilidade de transferência de tecnologia ou não. Mas geralmente o Brasil tem por hábito fazer contratos com cláusulas offset em que existe algum tipo de contrapartida, seja através da transferência de tecnologia ou a aquisição de algum produto nacional brasileiro. Então, no momento, ainda é necessário isso [parcerias], mas é um projeto, é o planejamento de parte da indústria conseguir ao longo do tempo incorporar essas tecnologias através de diversos mecanismos. Um deles é a transferência de tecnologia", conclui.

 

Fonte: Sputnik Brasil/g1/Jornal do Brasil

 

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