José Luís
Fiori: o ciclo que se fecha na Ucrânia
Ao se completarem dois meses da nova
administração americana, o histrionismo de Donald Trump e a perplexidade dos
europeus criam uma impressão duplamente falsa com relação à Guerra da Ucrânia.
Por um lado, o presidente americano se comporta como se os EUA fossem o “país
ganhador”, exigindo uma “reparação de guerra” do país derrotado, a Ucrânia, que
foi seu grande aliado até anteontem. Por outro, os europeus, em estado de
pânico, atribuem à traição de Trump e à sua decisão de acabar com a guerra, a
responsabilidade por sua divisão e derrota eminente. Como se fosse possível
fazer, desfazer e refazer a história real através apenas da manipulação de
“narrativas” que são inventadas e repetidas incansavelmente pelas potências que
se acostumaram a controlar o “imaginário coletivo” do sistema mundial.
Na verdade, o que estamos assistindo é o
reconhecimento norte-americano de um fato consumado: a vitória da Rússia no
campo de batalha contra as tropas da Ucrânia, e contra os armamentos da OTAN,
mesmo que durem ainda a resistência e os ataques pontuais dos ucranianos. Neste
momento, os EUA estão exigindo que seus vassalos se rendam, na forma inicial de
um “cessar-fogo”, mas na verdade se trata de uma vitória russa sobre os
próprios EUA, que forneceram a maior parte do equipamento bélico, base
logística, apoio de inteligência e financiamento, que permitiram aos ucranianos
resistirem durante três anos, promovendo uma escalada militar que chegou às
portas de uma guerra atômica, no final do governo de Joe Biden.
Neste momento, a situação ainda está muito
confusa, mas mesmo assim já é possível reconstruir os caminhos e principais
passos que levaram a essa guerra. Uma história que começou em 1941, com a
assinatura da Carta do Atlântico, pelo presidente americano, Franklin Delano
Roosevelt, e pelo primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, em
Newfoundland, nas cercanias do Canadá. Carta Atlântica que se transformou na
“pedra fundamental” da “aliança estratégica” entre EUA e Grã-Bretanha (GB), que
foi vitoriosa na Segunda Guerra Mundial, e que foi em seguida sacramentada pelo
bombardeio atômico norte-americano das cidades japonesas de Hiroshima e
Nagasaki. Uma aliança inquebrantável que durou 80 anos e que esteve na origem
do projeto globalista de construção de um mundo unificado e tutelado pelos
anglo-saxões, seguindo as regras e valores da “civilização ocidental”.
Esse projeto anglo-saxônico mudou de rumo,
entretanto, depois do discurso de Winston Churchill, em Fulton, Missouri, EUA,
em março de 1946, quando o ex-primeiro-ministro britânico propôs aos seus
aliados norte-americanos a construção de uma barreira de contenção militar –
que ele chamou de “cortina de ferro” – separando o “mundo ocidental” da zona de
influência comunista da União Soviética. Uma política inglesa, de demonização e
confronto permanente com a Rússia, que foi formulada pela primeira vez logo
após o Congresso de Viena, em 1815, um século antes da Revolução Soviética. A
grande novidade desta proposta, portanto, foi o convencimento e mobilização do
governo norte-americano de Harry Truman a favor dessa estratégia que deu início
à Guerra Fria, em 1947, seguida pela formação de um bloco dos países do
Atlântico Norte, consagrado pela criação da OTAN, em 1949, e pela inauguração
da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, em 1951, embrião da União Europeia,
que viria a ser formalizada em 1993.
Quarenta anos depois, no momento da queda do
Muro de Berlim, em 1989, e da dissolução da União Soviética, em 1993, as duas
grandes potências anglo-saxãs voltaram ao seu projeto de 1941. Foi quando se
falou em “fim da história” e da vitória definitiva da democracia e do
capitalismo liberal e anglo-saxônico, sobretudo depois da arrasadora vitória
militar dos EUA na Guerra do Golfo, de 1991/2, quando os americanos expuseram
ao mundo sua nova tecnologia de guerra teledirigida, equivalente às bombas de
Hiroshima e Nagasaki, do ponto de vista do impacto sobre o sistema mundial.
A partir de então, os EUA se desfizeram do
seu compromisso com as Nações Unidas, e com as regras de funcionamento do seu
Conselho de Segurança, e transformaram a OTAN – progressivamente – no seu braço
armado de intervenção nos Balcãs, no Oriente Médio, na Ásia Central e Europa do
Leste”1. Primeiro foi a Bósnia, em 1995, e depois a Iugoslávia, em 1999, que
foi bombardeada pela OTAN sem a aprovação do Conselho de Segurança da ONU. E o
mesmo voltou a acontecer em 2003, quando EUA e Grã Bretanha invadiram e
destruíram o Iraque, apesar do veto da Assembleia Geral e do Conselho de
Segurança das Nações Unidas, e da oposição de Alemanha, França e de vários
outros aliados tradicionais dos anglo-saxões. Começaram ali as “guerras sem
fim” dos EUA, da GB e da OTAN no Grande Oriente Médio, e se estenderam até sua
e “retirada” do Afeganistão, em 30 de agosto de 2021.
E o mesmo aconteceu na Europa, onde a OTAN se
expandiu de forma contínua, multiplicando suas bases militares na direção da
Europa do Leste da fronteira ocidental da Rússia. Apesar da promessa do
secretário de Estado norte-americano James Baker ao primeiro-ministro russo
Mikhail Gorbachev, feita em 1991, logo após o fim da Guerra Fria, de que a OTAN
não avançaria na direção da Europa do Leste, em 1994, o presidente Bill Clinton
autorizou sua primeira expansão, e em 1999 a Otan começou sua “marcha para o
Leste”, com a incorporação de Hungria, Polônia e República Tcheca. E em 2004, a
OTAN incorporou Estônia, Lituânia, Letônia, Bulgária, Eslovênia e Eslováquia,
enquanto experimentava suas novas formas de intervenção através das chamadas
“revoluções coloridas” contra governos desfavoráveis aos interesses americanos
– como foi o caso da “revolução das rosas”, na Geórgia, em 2003; da “revolução
laranja” na Ucrânia em 2004; da “revolução das tulipas” no Quirguistão, em
2005.
Por fim, em abril de 2008, na cidade de
Bucareste, a OTAN anunciou seu xeque-mate, com a incorporação da Geórgia, e
sobretudo da Ucrânia, que Zbigniew Brzezinski (o grande geopolítico do Partido
Democrata norte-americano), considerava ser uma peça central da disputa dos EUA
com a Rússia, pelo controle da Europa do Leste e de todo o continente
eurasiano. Tão importante que Brzezinski chegou a propor que a Ucrânia fosse
conquistada pelos EUA e pela OTAN, até no máximo 20152 – o que acabou
acontecendo depois do golpe de Estado de 2014, que derrubou o governo eleito de
Viktor Yanukovych, considerado hostil pelos EUA e pela OTAN.
A Rússia protestou inutilmente contra esses
sucessivos avanços da OTAN sobre sua fronteira ocidental. E, em 2007, na
Conferência de Segurança de Munique, o presidente russo, Vladimir Putin,
advertiu pessoalmente as potências ocidentais de que a Rússia não toleraria os
avanços da OTAN na Geórgia e na Ucrânia. Sua advertência foi ignorada uma vez
mais e, no ano seguinte, a Rússia foi obrigada a fazer uma primeira intervenção
militar direta na República Autônoma da Ossétia do Sul, para impedir sua
incorporação à OTAN. E mais à frente, em 2015, voltou a intervir diretamente contra
o golpe de Estado apoiado pelos EUA e pela OTAN, ocupando e incorporando a
Crimeia ao território russo.
Por fim, em 15 de dezembro de 2021, a Rússia
entregou um memorando às autoridades americanas e da OTAN, e aos governantes da
União Europeia, propondo a interrupção da expansão da OTAN, o afastamento de
suas tropas das fronteiras russas e a desmilitarização da Ucrânia. Não houve
resposta a esse memorando e o silêncio das “potências ocidentais” foi o estopim
que deflagrou a invasão russa do território da Ucrânia, iniciando de fato uma
“proxy-war” entre Rússia e EUA.3
Três anos depois do início da guerra, já não
cabe dúvida de que a Rússia venceu no campo de batalha, mas também no campo da
competição tecnológico-militar com relação aos equipamentos fornecidos aos
ucranianos pelos EUA e pelos países da OTAN. Além disso, a Rússia também venceu
a guerra econômica contra as sanções que lhe foram impostas pelas potências
ocidentais, e sua economia vem crescendo sistematicamente à frente dos demais
países europeus.
Não há dúvida de que a vitória russa se
acelerou e consolidou nos dois últimos meses: i) com a saída dos EUA da guerra
e a ruptura do seu “casamento estratégico” com a Grã Bretanha; ii) com a
divisão interna da OTAN e a ameaça de saída dos EUA; iii) com a fragilização da
União Europeia, depois do seu afastamento dos EUA; iv) e finalmente, com o
desmonte do “bloco ocidental” e de sua hegemonia mundial exercida nos últimos
200 anos.
Como consequência, o mais provável é que as
negociações post-bellum entre Rússia e EUA se transformem no primeiro passo de
uma nova “ordem mundial multipolar” e “pós-europeia”, a mais importante de
todas as reivindicações e vitórias russas.
¨
Entre Oriente e
Ocidente, Kazan é o coração do multiculturalismo da Rússia
Conhecida
como a “terceira capital da Rússia”, Kazan tem um profundo passado histórico
que é fundamental na formação do Estado russo como o conhecemos hoje. Na
fronteira entre a Rússia ocidental e oriental, Kazan une história, multiculturalismo,
tradição e modernidade.
A cidade de Kazan é a primeira
parada da lendária rota Transiberiana. Apesar de não fazer parte do trajeto
original da maior ferrovia do mundo, a cidade é comumente considerada uma
parada obrigatória para quem atravessa o país de trem.
Em
entrevista ao Bem Viver, programa
do Brasil de Fato, o historiador do
período soviético e
guia de turismo da agência Estrela Vermelha, Rodrigo Ianhez, conta que no
momento de construção da transiberiana, Kazan não estava incluída entre as
cidades pelas quais a ferrovia passaria. No entanto, após um maior
desenvolvimento das ferrovias na Rússia, uma série de outras estradas de ferro
foram estabelecidas, inclusive essa conectando Moscou a Kazan. Assim, “Kazan
passou a ficar conectada posteriormente aos Urais e Ekaterinburgo, portanto
voltando para aquele traçado original da Transiberiana”, explica Ianhez.
“É
um mero detalhe técnico Kazan não ser parte daquela transiberiana original,
planejada, construída e finalizada no início do século XX. De Moscou a
Vladivostok são 9.288 quilômetros. Portanto, as pessoas que fazem esse trajeto
turístico da Transiberiana têm muitas opções das cidades onde parar. Elas não
são obrigadas a parar em cidade alguma. Cada um faz o seu roteiro. Inclusive há
aqueles que vão direto, sem fazer nenhuma parada. Mas, por Kazan ser uma cidade
com uma importância histórica muito grande, uma cidade muito bonita, uma região
rica da Rússia, uma região bastante próspera, Kazan acaba expressando isso. É
muito organizada, limpa, com vários monumentos históricos. Enfim, é uma das
cidades mais interessantes da Rússia”, completa o historiador.
E
é assim que a reportagem do Brasil de Fato embarca rumo à capital da
república do Tartaristão, utilizando o meio de transporte mais tradicional
entre os russos: o extenso sistema ferroviário nacional. Partindo de Moscou, se
percorre uma jornada de quase 12 horas até o destino.
·
Mais
de mil anos de história
A
chegada a Kazan ocorre ao amanhecer. Logo ao adentrar a cidade, os visitantes
se deparam com o Kremlin de Kazan, uma imponente fortaleza medieval que
simboliza momentos decisivos da história russa. Declarado Patrimônio Mundial da
Unesco em 2000, o monumento é um marco cultural e histórico, cuja construção se
deu a partir das ruínas de uma antiga fortificação dos búlgaros, que haviam
ocupado a região desde o século X. No século XV, com a ascensão do Canato de
Kazan, a cidade se tornou um importante centro político e comercial, e o
Kremlin foi fortalecido como uma cidadela de defesa.
Assim,
fundada há mais de mil anos, Kazan foi um importante centro do Canato Tártaro
durante séculos, até ser conquistada pelo czar Ivan, o Terrível, em 1552,
marcando um momento-chave na consolidação do Estado russo.
O
historiador Rodrigo Ianhez conta que, antes da conquista de Ivan, o Terrível,
Kazan era dominada pelos canatos tártaros, pelos remanescentes da horda de
ouro, que foi o Estado tártaro Mongol estabelecido após as invasões mongóis no
século XIII. “Então, a conquista de Kazan por Ivan, o Terrível, foi um
empreendimento muito longo. Ivan, o Terrível, se envolveu diretamente na
campanha dos russos para conquistar a cidade de Kazan, sendo um marco do
movimento em que a Rússia se liberta, digamos assim, do jugo tártaro mongol,
dos quase 240 anos que os russos ficaram sob influência direta dos clãs
tártaros mongóis”, afirma.
Esse
período histórico foi retratado no clássico filme Ivan, o Terrível,
de 1944, do cineasta soviético Serguei Eisenstein. A primeira parte da
obra conta justamente sobre a cerimônia de coroação de Ivan, o Terrível, como
czar russo, quando ele promete unir o Estado contra as ameaças externas,
especialmente dos tártaros de Kazan.
Já
no século XVIII, o reinado da Catarina, a Grande, em Kazan, contribuiu para a
promoção de uma maior liberdade religiosa no Império Russo. As comunidades
tártaras fazem uma petição para a construção de mesquitas, considerando que
Ivan, o Terrível, foi responsável pela destruição das mesquitas da cidade, e,
desde então, novas mesquitas não haviam sido construídas.
“Então,
a Catarina autoriza e são construídas as mesquitas que hoje estão em pé no
bairro histórico Tártaro de Kazan, as primeiras mesquitas da cidade sob domínio
russo. Então Kazan acaba sendo esse marco de encontro entre a religião ortodoxa
e a religião islâmica, entre os povos russos e os povos tártaros, e, de certa
maneira, entre uma Rússia mais ocidental e uma Rússia que olha mais para o
Oriente, para as minorias étnicas. Kazan nesse aspecto é uma mistura muito
grande”, explica Rodrigo Ianhez.
Hoje,
Kazan é um dos maiores exemplos de convivência entre diferentes culturas e
religiões na Rússia, onde ortodoxos, tártaros muçulmanos vivem lado a lado e
preservam as suas tradições.
E
essa tradição multicultural foi perpetuada até os tempos atuais. Um dos
principais símbolos do multiculturalismo de Kazan hoje está representado no
monumento que é o “Templo de todas as religiões”, criado em 1993 e considerado
um dos lugares mais ecumênicos do mundo. O projeto foi idealizado pelo
arquiteto e artista Yuldar Hanov, natural do Tartaristão, que após realizar
viagens ao Tibete e à Índia teve a ideia de combinar 16 religiões do mundo
inteiro em um só templo.
O
fato interessante é que o monumento não foi idealizado para ser um espaço
religioso. Não há cultos, missas ou altares. A ideia é que seja um espaço cultural
de aproximação de diferentes culturas e religiões do mundo inteiro, uma espécie
de exaltação à diversidade.
Outro
monumento que simboliza essa convivência de diferentes religiões e culturas é a
Mesquita Kul Sharif, uma das maiores da Rússia, que foi reconstruída dentro do
muro do Kremlin de Kazan. Nas dependências da histórica fortaleza da cidade, a
coexistência de instituições do islamismo e do cristianismo ortodoxo mostram a
importância de Kazan não apenas para a história da Rússia, mas também como um
ponto de união entre diferentes tradições do passado e do presente.
Fonte: Outras Palavras/Brasil de Fato

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