terça-feira, 25 de março de 2025

Celso Amorim diz que Trump expôs a verdade 'nua e crua' dos interesses geopolíticos

O diplomata e ex-chanceler Celso Amorim, atual assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirmou que o mundo está atravessando uma das maiores transformações estruturais desde o fim da Segunda Guerra Mundial e que a ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos simboliza o colapso de uma era marcada pelo multilateralismo e expõe de "forma crua" os interesses geopolíticos das grandes potências. “Nós estamos vivendo, de certa maneira, a hora da verdade”, disse Amorim à coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo. 

“A chegada de Trump acabou com certa hipocrisia do multilateralismo”, destacou. Segundo Amorim, o presidente estadunidense abandonou qualquer verniz diplomático ao atuar “de forma deslavada” para defender os interesses exclusivos dos EUA. Esse movimento, diz, exige que países como o Brasil se reorganizem e encontrem novos caminhos diante da mudança de eixo global.

Amorim observa que os EUA, após o fim da Guerra Fria, operaram como uma potência quase inquestionável, recorrendo frequentemente a instituições como a ONU ou a Otan para legitimar sua influência. “Trump não quer saber dessas estruturas. Ele não esconde o autointeresse”, afirmou citando como exemplo a proposta do mandatário de adquirir a Groenlândia por seu potencial mineral. “É a verdade nua e crua. Ele não faz parecer que defende a Ucrânia porque defende a democracia no mundo, o que era discutível: os EUA defendiam a democracia quando interessava.”, acrescentou.

O ex-chanceler vê essa nova postura como parte de um realismo geopolítico que também impacta a Europa, historicamente dependente do “guarda-chuva moral, militar e econômico” dos americanos. “Quando de repente chega um presidente americano e diz ‘eu vou cuidar do meu interesse, vocês que se virem’, eles ficam totalmente perplexos”, disse Amorim.

Ao comentar a possibilidade de Trump aderir à narrativa bolsonarista de que o Brasil vive sob uma "ditadura judicial", Amorim minimizou ao observar que “Bolsonaro ficou pequeno diante das grandes questões do mundo”. Segundo ele, Trump respeita “quem é capaz de agir” e tende a desprezar figuras que “ficam lá querendo adular”, como o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski. “Trump disse que gosta do Putin. Pode até não gostar, mas respeita. O mesmo vale para Xi Jinping”, completou.

Sobre o papel do Brasil nesse cenário, Amorim defendeu uma postura pragmática, aliada a uma diplomacia ativa e independente. “Temos que aprender a viver nesse mundo multipolar. Saber jogar com alianças variáveis e nos relacionar com as superpotências de forma inteligente”, apontou. Para ele, o país tem trunfos importantes, como o prestígio internacional acumulado por seu histórico pacifista e sua liderança no Sul Global. “A China precisa do soft power que o Brasil tem. Nós temos credibilidade”, ressaltou.

Apesar das divergências políticas entre países da América do Sul, como Argentina e Venezuela, Amorim aposta na reconstrução da união regional. “Sempre digo que o primeiro mandato de Lula era um mundo de oportunidades. Agora, é um mundo de desafios. Mas acredito que, a médio prazo, a maioria dos países da América do Sul vai voltar a se unir.”

Ao abordar as tensões entre o Brasil e os EUA, especialmente diante da imposição de tarifas, o assessor defendeu a aplicação da reciprocidade como estratégia de defesa dos interesses nacionais. “Você não pode dar um tiro no pé, mas há áreas onde podemos reagir, como propriedade intelectual e remessa de lucros. Se o Brasil morder, eles pensam duas vezes”, afirmou.

Sobre o embate entre o Judiciário e as big techs, Amorim declarou apoio ao ministro Alexandre de Moraes. “Ele está fazendo um trabalho muito importante. As plataformas estão entendendo que o Brasil não vai abrir mão da soberania. Se quiserem atuar aqui, têm que seguir nossas regras, que não são arbitrárias”, disse, comparando a posição brasileira à da Europa.

Questionado se o futuro das relações internacionais será definido por uma nova divisão global entre Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin, Amorim não descartou a possibilidade, mas advertiu que “o nosso grande desafio é, nessa divisão do mundo, não ser colônia de ninguém”.

¨      "Brasil é Sul Global e um de seus desafios é não ser colônia de ninguém", diz Celso Amorim

O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é hoje uma liderança incontornável no cenário global e defendeu o posicionamento do Brasil como integrante do chamado Sul Global. Em entrevista publicada pela Folha de S. Paulo e repercutida pela Sputnik Brasil neste domingo (23), Amorim reforçou a autonomia da política externa brasileira e destacou: “Um dos grandes desafios do Brasil, atualmente, é não ser colônia de ninguém”.

Amorim confirmou que Lula realizará visitas oficiais à China e à Rússia em maio, onde se encontrará com os presidentes Xi Jinping e Vladimir Putin. O ex-chanceler fez questão de esclarecer que esse movimento diplomático não representa um confronto com os Estados Unidos, mas sim a expressão de uma postura soberana: “Não é que a gente quer brigar com os EUA, mas mostra que o Brasil não está subordinado e mostra que o Brasil é Sul Global”.

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Na entrevista, o diplomata abordou ainda o impacto da possível volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Para Amorim, a mudança na Casa Branca representaria uma guinada pragmática nas relações internacionais: “O atual governo Trump não esconde o autointeresse. A mediação para tentar chegar à uma solução de paz no conflito na Ucrânia não acontece porque o presidente norte-americano ‘é bonzinho’. Trump vai defender os interesses dos EUA de maneira deslavada”.

Segundo ele, essa mudança de postura revela uma nova dinâmica no sistema internacional, exigindo reorganização e adaptação por parte de outros atores. “O Sul Global vem se fortalecendo, já a Europa está desorientada”, afirmou. Amorim criticou a dependência europeia em relação aos EUA, especialmente na esfera militar: “Eles se acostumaram a viver sob o guarda-chuva americano moral, militar e econômico. Quando de repente chega um presidente americano e diz ‘eu vou cuidar do meu interesse, vocês que se virem’, eles ficam totalmente perplexos, impactados”.

O ex-chanceler ironizou também a narrativa de que a Rússia teria um “DNA expansionista”. “Quando eu vejo dizerem que a Rússia tem um DNA expansionista, eu penso: foi Napoleão que invadiu a Rússia, ou foi o contrário?”, provocou.

Ao comentar sobre o cenário político interno, Amorim disse que o ex-presidente Jair Bolsonaro “ficou pequeno diante das questões do mundo de hoje” e que “um governo de extrema-direita no Brasil era importante. Hoje é um pouco diferente”. No entanto, ele alertou para riscos persistentes: “Existe um perigo sobre temas como direitos humanos e liberdade de expressão com governos de direita no poder”.

Sobre a crescente atuação das big techs, Amorim defendeu a regulação do setor com base na soberania nacional: “Se quiserem atuar aqui, têm que ser de acordo com as nossas regras, que não são arbitrárias. São para todos, são para proteger os cidadãos”.

A entrevista reflete o alinhamento da política externa brasileira com uma visão multipolar do mundo, em que o país busca ocupar um papel de mediador autônomo e articulador entre diferentes blocos de poder, sem subordinação a potências tradicionais.

¨      Governo Lula vê risco de guerra comercial 'ampla e linear' dos EUA contra o Brasil

O governo brasileiro acompanha com crescente apreensão os sinais vindos de Washington sobre a nova política comercial do presidente Donald Trump. De acordo com reportagem publicada pela Folha de S. Paulo, autoridades do Palácio do Planalto consideram real o risco de um tarifaço abrangente e linear contra produtos brasileiros, que pode ser anunciado já em 2 de abril como parte de uma estratégia de tarifas recíprocas prometida por Trump.

A equipe do presidente Lula (PT) teme que o Brasil acabe atingido por um pacote tarifário mais amplo do que o inicialmente previsto. A preocupação vai além das taxas sobre aço e alumínio, que já foram implementadas em 12 de março, e da ameaça sobre o etanol. Está no radar do governo brasileiro a possibilidade de um ataque tarifário generalizado sobre praticamente toda a pauta exportadora do Brasil para os Estados Unidos — em um movimento considerado extremo e sem precedentes.

Trump e seus assessores indicam que o plano é estabelecer uma política comercial mais agressiva baseada em critérios de reciprocidade, o que, segundo análise do governo dos EUA, colocaria o Brasil em posição vulnerável. Em entrevista recente à Fox Business, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que cada país será avaliado com base em tarifas, barreiras não tarifárias, manipulação cambial, subsídios e direitos trabalhistas.

“No dia 2 de abril, nós vamos produzir uma lista das tarifas dos outros países e vamos dizer a eles: aqui está o que achamos sobre as suas tarifas, [sobre] barreiras não tarifárias, manipulação de câmbio, subsídios injustos e supressão de direitos trabalhistas. Se vocês pararem com isso, nós não vamos erguer a muralha tarifária. Caso contrário, vamos erguer a muralha tarifária para proteger nossa economia, nossos trabalhadores e nossa indústria”, declarou Bessent. “Cada país vai receber um número que, acreditamos, representa as suas tarifas. Então, para alguns países, poderia ser [uma tarifa] baixa. Para alguns, poderia ser bastante alta”, completou.

Apesar dos contatos bilaterais mantidos entre o Itamaraty e representantes norte-americanos, os sinais vindos da Casa Branca permanecem vagos e preocupantes. O etanol foi um dos temas centrais nas conversas diplomáticas — os EUA reclamam da tarifa brasileira de 18% sobre o produto, enquanto praticam uma alíquota de 2,5% para o combustível brasileiro. No entanto, fontes diplomáticas relatam que os norte-americanos evitam detalhar a extensão real das medidas em elaboração.

A imprensa americana, incluindo o Wall Street Journal, revelou que a administração Trump chegou a considerar a divisão dos países parceiros dos EUA em três faixas tarifárias, conforme o nível de protecionismo de cada um. Contudo, segundo o jornal, essa ideia foi abandonada em favor de uma abordagem caso a caso, em que cada país teria um “número” atribuído conforme suas barreiras comerciais, o que pode servir de base para aplicação de tarifas.

Para o governo Lula, o que está em jogo é o impacto potencial sobre um fluxo comercial de grande relevância. Dados da Amcham (Câmara Americana de Comércio para o Brasil) apontam que, em 2024, as exportações industriais brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 31,6 bilhões. O mercado norte-americano é o principal destino de produtos industriais do Brasil, com destaque para aeronaves e partes, além de maquinário, motores, químicos e itens metalúrgicos.

Dos dez principais produtos brasileiros vendidos aos EUA, oito pertencem à indústria de transformação — o que amplifica o temor de que uma política comercial mais dura afete diretamente a base da economia exportadora nacional.

Outro fator de tensão são as recentes investigações comerciais abertas por Trump, que podem culminar em novas tarifas sobre produtos como cobre e madeira, ambos relevantes na pauta exportadora brasileira.

O último relatório do USTR (Representante de Comércio dos EUA), ainda sob o governo Joe Biden, já apontava que o Brasil impõe tarifas “relativamente altas” sobre uma gama extensa de setores, com média de 11,1%. Esse histórico contribui para a percepção de que o Brasil pode ser enquadrado como parceiro comercial “protegido demais” e, por isso, sujeito a retaliações em nome da reciprocidade.

Diante da opacidade das informações e da postura combativa da equipe de Trump, o governo brasileiro trabalha com múltiplos cenários, todos considerados incertos e com potencial alto de impacto. Autoridades consultadas admitem que a estratégia norte-americana pode empurrar o Brasil para o centro de uma nova guerra comercial — e que a resposta brasileira dependerá da amplitude das medidas a serem reveladas nas próximas semanas.

¨      'Trump tomou conta de tudo, mas no momento certo vamos ter o nosso papel', diz Celso Amorim

O assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais e ex-chanceler Celso Amorim rejeita a tese de que o Brasil esteja ausente dos principais debates sobre o fim da guerra entre Ucrânia e Rússia. Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, o diplomata argumentou que a exclusão do país — e de outros com propostas de paz — se deve à reconfiguração provocada pela volta do protagonismo dos Estados Unidos com Donald Trump, e não a um esvaziamento da liderança internacional de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“A presença do Trump tomou conta de tudo com essas atitudes novas e inesperadas dele”, afirmou Amorim. “Não é só o Brasil [que parece ausente]. É o Brasil, a França, são todos os países que tinham um projeto de paz”, completou. Segundo ele, os EUA quebraram o gelo da negociação e empurraram outros atores para fora do tabuleiro diplomático.

Para Amorim, o diálogo entre Washington e Moscou — que, segundo ele, deve evoluir — exigirá futuramente a participação de outros países. "O Putin está lá conversando com o Trump. Não vamos dar uma de Woody Allen e dizer: "olha aqui, você tem que me ouvir também". Mas, na medida em que isso [o diálogo entre EUA, Rússia e Ucrânia] se desenvolva, acho que ele vão precisar de outros países, de mediadores. Vão ter que multilateralizar o processo, até mesmo para evitar os atritos naturais que existem entre Rússia e EUA. Deixa as coisas evoluírem. No momento adequado, nós vamos ter, sim, um papel", ressaltou.

A resposta também rebate críticas sobre uma possível retração do Brasil nos temas internacionais sob o terceiro mandato de Lula. Amorim usa como prova da vitalidade diplomática a viagem do presidente programada para maio, quando visitará a Rússia e a China e se reunirá com os presidentes Vladimir Putin e Xi Jinping.

“O presidente está indo para a Rússia, onde vai ter uma reunião bilateral com o Putin, e para a China, onde vai se encontrar com Xi Jinping. Está mostrando claramente que o Brasil não está subordinado”, afirmou. Para ele, a agenda reforça a atuação ativa do país no Sul Global e demonstra que o Brasil busca caminhos autônomos, sem confronto com os EUA, mas com opções estratégicas.

Questionado sobre rumores de que Lula teria sido aconselhado a “pisar no freio” nos temas internacionais, Amorim negou ter feito qualquer recomendação nesse sentido: “Não por mim. E acho que o presidente não se deixa orientar. Ele é dono da cabeça dele”, disse.

O assessor ainda reforçou a importância do multilateralismo diante de negociações bilaterais de grande escala, como a aproximação entre EUA e Rússia. “Nesta primeira etapa, Trump quebrou o gelo na busca da paz. Quando uma superpotência como os EUA adota uma posição diferente da de quase todos os países do chamado Ocidente, as pedras do jogo têm que se rearrumar”, concluiu.

 

Fonte: Brasil 247

 

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