sexta-feira, 4 de abril de 2025

Como a economia virou um desafio para Lula a um ano e meio das eleições

As mais recentes pesquisas de opinião mostram o declínio da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). São dados que vêm na esteira de fatores econômicos e políticos desafiadores para o governo, a pouco mais de um ano e meio das eleições de 2026.

Além da disparada no preço dos alimentos — que elevou a insatisfação de grande fatia do eleitorado —, especialistas ouvidos pelo g1 apontam falhas na comunicação e problemas de estratégia entre os aspectos que ajudaram a aumentar o sentimento negativo de parte da população.

condução das contas públicas e a insatisfação do mercado financeiro também pesam para o balanço final da avaliação de Lula. Nessa conta, entram a inflação, a consequente queda no poder de compra dos brasileiros e os juros em níveis elevados, com a taxa Selic hoje a 14,25%.

O governo tem adotado medidas, como a de facilitar o acesso ao crédito e tentar conter a alta dos alimentos. Também apresentou projeto para isentar do Imposto de Renda (IR) quem ganha até R$ 5 mil por mês e conceder descontos àqueles que recebem até R$ 7 mil.

Os esforços, no entanto, podem não surtir o efeito esperado no humor do eleitorado, avaliam cientistas políticos.

As ações podem não ser suficientes, de fato, para desafogar o bolso da população. A análise é que os incentivos podem até trazer um alívio momentâneo, mas o desafio será mitigar os impactos econômicos da elevação de gastos públicos.

·        A queda na popularidade de Lula

pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (2) mostra que o governo do presidente Lula é desaprovado por 56% dos brasileiros (em janeiro, eram 49%) e aprovado por 41% (eram 47%). Essa é a maior rejeição do mandato. 

Já a última pesquisa Ipsos-Ipec, divulgada em 13 de março, aponta que 41% dos brasileiros avaliam o atual governo Lula como ruim ou péssimo, enquanto 27% o consideram ótimo ou bom. Foi a primeira vez neste mandato que o instituto indicou avaliação negativa superior à positiva.

Entre dezembro de 2024 e março deste ano, houve crescimento de 7 pontos entre os insatisfeitos com a gestão petista. Veja no gráfico abaixo.

Um mês antes, pesquisa Datafolha indicou que o presidente alcançou seu pior nível de aprovação em todos os seus três mandatos (24%), além de uma reprovação (41%) também recorde.

Conforme o g1 mostrou na ocasião, 8 pontos podem justificar a queda na popularidade de Lula, incluindo a crise do PIX — que gerou uma onda de fake news sobre a fiscalização do meio de transferência —, a disparada nos preços dos alimentos e a atuação eficaz da oposição.

<><> Cenário atual e contexto histórico ajudam a explicar baixa

  • Comunicação

Diante dos desgastes, o governo nomeou, em janeiro, Sidônio Palmeira como novo ministro da Secretaria de Comunicação. Marqueteiro de Lula na campanha de 2022, ele assumiu após avaliação do Planalto de que a queda na popularidade seria resultado, principalmente, de dificuldades na comunicação.

Sidônio atualizou a linguagem das redes sociais de Lula e passou a apostar na comparação da gestão do presidente com a de Jair Bolsonaro (PL), com o intuito de tentar convencer o eleitorado de que o país está em um processo de melhora.

O novo ministro tem atuado também para dar visibilidade a ações positivas do governo, como as altas do Produto Interno Bruto (PIB) em 2023 e 2024, o aumento real do salário mínimo, a geração de empregos e a baixa taxa de desemprego.

"Por mais que a comunicação tenha se tornado mais efetiva, ainda não gerou resultado nesses 3 meses da gestão de Sidônio", analisa Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice.

Segundo o cientista político, ainda há chances de que o governo consiga reverter a situação. Isso irá depender de uma série de fatores, como ações que garantam sensação de melhora no poder de compra da população.

  • Inflação e disparada dos alimentos

Em 2024, a inflação estourou o teto da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e fechou o ano a 4,83%. A meta era de 3% e seria considerada cumprida se ficasse em um intervalo entre 1,5% e 4,5%.

Com alta de 7,69%, o preço dos alimentos foi o que mais se destacou no período. Itens básicos foram atingidos, como o café, que subiu quase 40% no ano passado. Além disso, o subgrupo Alimentação no domicílio avançou 8,23% no ano, com o aumento no preço da carne (20,8%) como destaque.

O aumento de preços afeta, em especial, os cidadãos de baixa renda. Diante disso, Lula afirmou estar preocupado com a disparada dos alimentos, e disse que não descarta uma medida mais drástica para conter os preços.

Recentemente, o governo decidiu zerar o imposto de importação sobre carne, café, milho e outros produtos para tentar reduzir a inflação. A medida passou a valer em 14 de março.

Para especialistas ouvidos pelo g1, no entanto, a isenção deverá ter pouco impacto na inflação do Brasil, já que muitos dos alimentos acompanham os preços internacionais e outros países também têm enfrentado quebras de safra.

Para o cientista político Carlos Melo, professor do Insper, mesmo que a inflação dos alimentos tenha sido impactada por fatores globais e de safra, esse é o principal causador do mau humor recente do eleitorado.

"Não importa [para a população] se o ovo está mais caro por uma gripe aviária ou por motivos de ordem internacional. Alimentação mais cara mexe com o bolso do trabalhador, e isso atinge fortemente o humor das pessoas que precisam comer e têm restrições orçamentárias", diz.

O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, destaca que, embora a variação nos preços dos alimentos nos dois primeiros anos do governo Lula tenha sido menor do que no mesmo período do governo Bolsonaro, a alta atual partiu de um nível já bastante elevado.

"Dados trimestrais do IPCA [inflação oficial do país] também mostram que, na base anualizada, os preços estão mais altos agora no Nordeste, onde Lula tem um eleitorado importante", diz. "Bahia e Sergipe tiveram variações muito relevantes, o que ajuda a explicar em alguma medida essa perda de popularidade."

  • Disparada do dólar

Além dos problemas climáticos em 2024 — que prejudicaram a produção —, a disparada do dólar também foi determinante para a alta dos alimentos. O real desvalorizado encarece itens importados e torna a exportação mais atrativa para produtores locais. Isso diminui a oferta no mercado interno e os preços sobem.

O último salto do dólar ocorreu em novembro, em meio à reação do mercado financeiro ao pacote de corte de gastos apresentado pelo governo. Mesmo com economia prevista de R$ 70 bilhões até 2026, o anúncio foi ofuscado pela proposta para ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda — que diminuiria a arrecadação do governo.

Além disso, entrou na conta o efeito Donald Trump, que, eleito, já prometia a aplicação de tarifas sobre produtos importados pelos Estados Unidos, aumentando o temor nos mercados de que a inflação subiria em todos os países afetados.

A moeda norte-americana disparou de R$ 5,67 em 6 de novembro para R$ 6,17 no último pregão do ano, encerrando 2024 com uma alta acumulada de 27,35%.

  • Insatisfação do mercado financeiro

O cenário refletiu também a insatisfação do mercado financeiro em relação à forma como o governo conduz as contas públicas. Investidores esperam que o governo corte gastos para gerar superávit primário (receita maior do que despesas) e, assim, reduza a dívida bruta do país, hoje em 75,3% do PIB.

O mercado tem apontado, no entanto, para uma falta de medidas efetivas para o controle das contas.

Levantamento da Genial/Quaest divulgado em 19 de março indica que agentes do mercado financeiro desaprovam a gestão de Lula. Segundo a pesquisa, Lula tem avaliação negativa de 88% e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de 58%.

Os receios do mercado financeiro se refletem no dólar — e, consequentemente, na inflação e na taxa básica de juros, a Selic — da seguinte forma:

  • Sem cortar gastos, o país tem uma perspectiva menor de controle da dívida pública;
  • Um país mais endividado tem uma probabilidade maior de não cumprir com seus compromissos financeiros, e se torna mais arriscado;
  • Um país mais arriscado só se torna atrativo se pagar juros mais altos pelos títulos;
  • Com países mais seguros pagando juros mais altos no exterior, o Brasil fica menos atrativo;
  • Se o Brasil está pouco atrativo, os investidores tiram dólares do país, enfraquecendo o real.

Para Noronha, da Arko Advice, o mercado pode "não eleger" — ou seja, não ser maioria no eleitorado —, mas suas reações acabam "azedando o sentimento geral" da economia no país.

"O mercado vê uma agenda de gastos do governo indo na contramão do que o Banco Central precisa, que é frear a economia para reduzir a inflação", diz.

  • Contexto histórico — e capital político consumido

A popularidade de Lula também está muito abaixo dos níveis registrados durante os primeiros dois mandatos do presidente. Em 2010, na reta final de seu segundo governo, a aprovação do petista chegou a 87%, conforme pesquisa Ibope publicada em dezembro daquele ano.

"Do período em que Lula teve essa popularidade tão recorde até agora, passamos por alguns problemas, por exemplo, durante a gestão [da ex-presidente] Dilma [Rousseff], com grandes questões políticas, fiscais e econômicas", lembra Noronha, da Arko.

No histórico, o cientista político destaca ainda o impeachment de Dilma e o descontentamento da população, que resultou em uma série de protestos pelo país, além da Operação Lava Jato e do escândalo do mensalão.

"Então, isso abalou muito a imagem do PT e do Lula. Relembro essa história porque Lula acabou perdendo e consumindo muito do capital político que ele construiu lá atrás", acrescenta Noronha, destacando ser muito difícil recuperar essa popularidade.

·        Medidas do governo vão ajudar a melhorar avaliação do eleitor?

Três principais medidas foram adotadas recentemente pelo governo na tentativa de melhorar a popularidade:

  • A facilitação do acesso ao crédito, com a criação de um consignado para trabalhadores com carteira assinada do setor privado. Com o FGTS como garantia, o governo prevê que a taxa de juros caia cerca de 40%, quase a metade do que é cobrado atualmente.
  • A isenção de impostos de importação sobre alimentos como carnes, café, milho, azeite, açúcar e outros, com o objetivo de reduzir os preços.
  • A isenção do Imposto de Renda (IR), a partir de 2026, para quem ganha até R$ 5 mil por mês, além de desconto parcial e regressivo (ou seja, que cai conforme a renda aumenta) àqueles que recebem até R$ 7 mil. Essa era uma promessa de campanha de Lula.

Segundo especialistas ouvidos pelo g1, ainda é difícil prever se as medidas vão se refletir na melhora da avaliação do governo ou, em última instância, em votos em 2026.

Carlos Melo, do Insper, acredita que, até a próxima eleição, Lula deverá anunciar novas medidas como a de isenção do IR e do consignado CLT.

"São medidas que tentam pegar o público de menor renda. E isso será o suficiente? É difícil dizer", afirma. "As pessoas que não têm FGTS não são favorecidas. Quem não declara IR, porque tem uma informalidade muito grande, também não será beneficiado."

"O governo, então, vai ter que encontrar um meio de chegar a esse público também", acrescenta Melo, dizendo que outro reflexo pode ser a elevação de juros, o que também leva à impopularidade. "Por isso, o governo está em uma situação difícil."

Noronha, da Arko Advice, afirma que qualquer medida para aumentar o poder de compra e a renda das pessoas tende a gerar reflexos positivos na imagem do governo. "O ponto é: em um primeiro momento, pode trazer um alívio. Mas, depois disso, podem vir as consequências negativas."

"Ou seja, tende a aumentar o juro, elevar o mau humor do mercado e influenciar o câmbio. E as pessoas sentem muito o impacto disso", continua.

O economista André Galhardo, por outro lado, vê as medidas como a isenção do IR e o consignado CLT como positivas.

"É claro que a questão fiscal é importante e que precisamos, sim, nos preocupar com o equilíbrio das contas públicas. Isso é inegociável e já está andando. No entanto, a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil vem em boa hora — ou até atrasada", diz, reforçando a necessidade de um imposto progressivo, no qual o aumento da cobrança acompanha o avanço da renda.

Para Galhardo, o consignado para trabalhadores com carteira registrada também vem em um bom momento. "As pessoas que precisam tomar empréstimo para quitar obrigações mais caras ou para fazer um pequeno investimento tomariam crédito de qualquer jeito. Elas seguem pagando taxas devastadoras."

·        Os desafios e o que esperar para a reta final até 2026

Em 2022, Lula foi o primeiro brasileiro a conquistar nas urnas um terceiro mandato presidencial. Ele ainda não definiu se tentará reeleição em 2026, mas segue como o principal nome do PT e da esquerda para a corrida ao Palácio do Planalto.

O cientista político Carlos Melo afirma que quem ocupa a cadeira da Presidência costuma ter muito poder eleitoral, diante da capacidade de movimentar recursos que os outros candidatos não têm. Mas destaca que o governo teve que manter os gastos elevados no início do mandato, o que acaba diminuindo a margem para a reta final, mais perto da eleição.

"Foi um momento muito complicado, depois de uma pandemia, com aumento da desigualdade", diz.

"Além disso, o governo não fez ajustes na racionalização da máquina pública e na melhora da qualidade dos gastos. Então, não vai para os últimos dois anos de mandato, que é o período eleitoral, com o caixa cheio."

André Galhardo, da Análise Econômica, afirma que os gastos do governo também cresceram em meio à PEC da Transição e ao pagamento de precatórios (dívidas decorrentes de decisões judiciais). "Os gastos com o BPC também estão crescendo rapidamente. Isso é um problema que o governo precisa resolver", diz.

Outro desafio é a taxa Selic, prevista para chegar a 15% neste ano — o que compromete o crescimento econômico em 2026, gerando uma dinâmica mais complicada em termos de receita do governo.

"Aí, claro, tem que bloquear, contingenciar ou congelar gastos para cumprir o que está no disposto no arcabouço fiscal [a regra para as contas públicas]", conclui Galhardo.

 

Fonte: g1 

Vale a pena ser honesto no Brasil?

Era para ser um almoço em família como qualquer outro. Mas, lá pelas tantas, Gilberto Braga (1945-2021) quase se engasgou com a comida ao ouvir um comentário do irmão: "Tio Darcy poderia estar rico", comentou Ronaldo, se referindo ao irmão de sua mãe, Yedda, que trabalhava como delegado na Polícia Federal. "Nunca trouxe uma garrafa de uísque", queixou-se. Passado o susto, Gilberto resolveu tomar a palavra: "Você acha que alguém não pode ser honesto e ganhar dinheiro?". Como sua pergunta ficou sem resposta, ele insistiu: "Não vale a pena ser honesto no Brasil?"

A cena acima é descrita na biografia Gilberto Braga – O Balzac da Globo, escrita pelos jornalistas Artur Xexéo (1951-2021) e Maurício Stycer. "Pela primeira vez em sua carreira, Gilberto Braga definiu o tema de uma novela antes mesmo de ter uma história para contar", explicam os autores no livro. "Uma novela sobre ética, determinada a responder: ‘Vale a pena ser honesto num país onde todo mundo é desonesto?'".

No mesmo dia do tal almoço em família, Gilberto Braga começou a escrever a sinopse daquela que seria uma de suas novelas de maior audiência: Vale Tudo. Exibida entre 16 de maio de 1988 e 6 de janeiro de 1989, fez tanto sucesso que, no aniversário de 60 anos da TV Globo, ganha uma nova versão, assinada por Manuela Dias, autora da novela Amor de Mãe e da série Justiça, entre outras produções.

"Não acho, de forma alguma, que o Brasil seja um país onde ‘todo mundo é desonesto'. Pelo contrário. Acho que o brasileiro é majoritariamente honesto e trabalhador", defende Manuela Dias, que assistiu à versão original quando tinha 11 anos e, ainda hoje, não se esquece de algumas cenas memoráveis, como aquela em que Raquel (interpretada por Regina Duarte) rasga o vestido de noiva da filha, Maria de Fátima (papel de Glória Pires). "Sou do time que acha que vale muito a pena ser honesto, tanto no Brasil quanto em qualquer lugar. Caráter é o que você faz quando não tem ninguém olhando", diz, citando uma frase atribuída ao filósofo Epicuro.

  • Salve-se quem puder

Mas Gilberto Braga não foi o primeiro a se questionar: "Vale a pena ser honesto? ". Segundo o economista Eduardo Giannetti, essa pergunta é feita desde Platão, na Grécia Antiga. No segundo livro de A República, o filósofo grego relata a fábula de um camponês que, certo dia, encontra o anel da invisibilidade. "Quem continuaria honesto se pudesse ficar invisível? ", indaga o autor de O Anel de Giges.

"Sócrates, então, tenta mostrar que, sim, vale a pena ser honesto mesmo em uma situação de total impunidade", afirma Giannetti. No caso de Vale Tudo, o economista pondera que, desde 1989, o caráter do brasileiro não mudou – o que mudou, e muito, foi a situação do país. "A derrocada do Cruzado e a volta da inflação tornavam todos os valores do sistema econômico brasileiro muito arbitrários e imprevisíveis", explica o economista. "Havia uma insegurança generalizada em relação ao futuro do país. O que predominava era a lei da selva: o salve-se quem puder."

Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), Giannetti ressalta que a sociedade brasileira só conseguiu respirar aliviada em 1994 quando foi instituído o Plano Real. Mesmo assim, duas características ainda dificultam nossa adesão às normas de convivência: o individualismo exacerbado, quando se pensa muito em si mesmo e pouco, ou quase nada, no outro, e a miopia temporal, quando se privilegia o agora em detrimento do depois.

"O trânsito brasileiro talvez seja a melhor ilustração do nosso individualismo", observa Giannetti. "É como dizia aquele antigo comercial de TV: o negócio é levar vantagem em tudo", recorda, citando o anúncio do cigarro Vila Rica, apresentado pelo ex-jogador Gerson. Já a miopia temporal, explica, é o primado do presente em relação ao futuro. "As pessoas agem muito tendo em vista o imediato. Tudo que requer sacrifício momentâneo para obtenção de benefícios futuros é complicado no Brasil. Isso compromete todo e qualquer planejamento a longo prazo", adverte.

  • Faça a coisa certa

A exemplo de Giannetti, o filósofo Clóvis de Barros Filho, a historiadora Mary Del Priore e o antropólogo Roberto Da Matta também são convidados a responder a pergunta que, lá atrás, tanto inquietou Gilberto Braga: "Vale a pena ser honesto no Brasil? ".

Coautor do livro Ética e Vergonha na Cara!, ao lado do educador Mário Sérgio Cortella, Barros Filho responde que sim, vale a pena. E acrescenta: em qualquer tempo e lugar. "Não se trata de compensação. Mas, de fazer a coisa certa", afirma.

Indagado sobre se ética e honestidade são sinônimos, explica que não. Ética, ensina o "explicador", como ele gosta de ser chamado, é a arte da convivência. Já a honestidade, entre outros atributos, é uma referência de conduta. Para quem deseja viver em harmonia, ele dá uma dica: seja honesto! "A honestidade está para a ética assim como a aritmética está para a matemática", compara.

Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Mary Del Priore afirma que a desonestidade é uma característica que, há séculos, percorre o Brasil de alto a baixo. "Desde o período colonial, os interesses privados sempre se sobrepuseram aos interesses públicos", lamenta. "O ditado ‘Mateus, primeiro os meus' era regra."

A autora da coleção Histórias da Gente Brasileira afirma que, se tivesse que enumerar alguns trambiqueiros dos períodos colonial, imperial e republicano, a lista seria enorme. Mas, há, também, exemplos de probidade, e o melhor deles é Dom Pedro 2°. "Nunca quis um tostão dos cofres públicos", enfatiza. "Morreu pobre e no exílio".

Quanto à pergunta de Gilberto Braga, ela diz que continua atualíssima. E que, em todos os grupos sociais, avançamos pouco desde 1988. "Somos os únicos desonestos? Não. O atual presidente dos Estados Unidos dá o maior exemplo: responde a processos por enriquecimento ilícito, compra de favores, fraude eleitoral... Quer mais?"

  • "Vale a pena, mas é difícil"

Uma resposta desconcertante é a do antropólogo Roberto Da Matta. "Vale a pena, mas é difícil", diz. "Ser honesto é tão difícil quanto não mentir. Se você vive em sociedade, é impossível", acrescenta. Da Matta é autor de uma crônica intitulada História de Pedro Honorato, o Político Honesto.

Filho de mãe rezadeira e pai lavrador, Pedro Honorato, quando garoto, prometeu a Deus ser honesto. E procurou cumprir sua promessa. Adulto, candidatou-se a prefeito. Foi eleito. De cara, demitiu duas funcionárias que não trabalhavam: a sobrinha de um senador e a amante do ex-prefeito. Logo, começou a colecionar desafetos. Um dia, negou um pedido à própria mulher. Foi a gota d'água.

"No fim, o pobre coitado não tinha onde morar. Foi expulso de casa porque não quis nomear o cunhado como secretário. Na rua da amargura, pergunta para si mesmo: o que fiz de errado?", observa o antropólogo. "Tem um axioma que explica o Brasil: tenho coragem para fazer tudo, menos para negar o pedido de um amigo."

  • Que fim levou?

O compositor Nilo Romero e o ator Reginaldo Faria participaram da versão original de Vale Tudo. O primeiro é coautor de Brasil, tema de abertura da novela, ao lado de Cazuza (1958-1990) e George Israel. O segundo deu vida ao empresário Marco Aurélio – aquele que, a bordo de seu jatinho, dá uma "banana" para o telespectador.

Nilo Romero conta que Brasil foi criada por encomenda: não para Vale Tudo, mas para Rádio Pirata (1987), longa de Lael Rodrigues (1951-1989). Na hora de compor a música, ele e Israel misturaram samba e rock. Em seguida, mandaram uma fita cassete para Cazuza. "A versão dele chegou a tocar nas rádios, mas o insucesso do filme fez parecer que sua trajetória como hit terminaria rapidamente", avalia.

Nisso, Gilberto Braga assistiu ao show de Gal Costa e resolveu usar a versão dela como tema de abertura. "Brasil foi escolhida na sexta-feira anterior à estreia. A música foi gravada no sábado, Gal Costa colocou a voz no domingo e a novela estreou na segunda", conta Romero.

Quando recebeu o convite do diretor Dennis Carvalho para interpretar o mau-caráter Marco Aurélio, Reginaldo Faria pensou: "Vou apanhar na rua". Braço direito de Odete Roitman (papel de Beatriz Segall), desviava dinheiro da companhia aérea TCA, onde era diretor, para sua conta bancária. Ao longo da novela, porém, não levou uma "guarda-chuvada" sequer.

"Por incrível que pareça, Marco Aurélio não foi odiado pelo público. Eu era aplaudido por onde andava. O público se identificava com ele e, se pudesse, daria uma ‘banana' em seu lugar. Não para o Brasil, mas para quem afundou o Brasil", reflete o ator.

Que fim levou Marco Aurélio? Quem arrisca um palpite é Ana Paula Guimarães, autora do livro O Brasil Mostra Sua Cara – Vale Tudo, A Telenovela Que Escancarou a Elite e a Corrupção Brasileira: "Acho improvável que ele tenha se regenerado. É mais provável que tenha voltado ao Brasil e se candidatado a um cargo público nas próximas eleições. Isso, infelizmente, é muito Brasil!".

 

Fonte: DW Brasil

 

Dissecar a ansiedade para entendê-la: É como uma embriaguez de oxigênio, diz psicólogo

O psicólogo Baltasar Rodero oferece em La ansiedad del esquimal um guia informativo que busca fornecer ferramentas para enfrentar, com mais conhecimento, o que acontece em nosso corpo quando essa emoção se manifesta com uma intensidade, duração e repetição que afetam a vida diária.

Dissecar a ansiedade em uma sociedade que a “predispõe”. O psicólogo Baltasar Rodero (Santander, 1977) colocou essa emoção – que, quando intensa, repetitiva e duradoura, pode levar a um transtorno – sob o microscópio em La ansiedad del esquimal (Arpa Editores). O resultado é um guia informativo, com uma linguagem simples, para entender o que acontece em nosso corpo e ter mais ferramentas para enfrentar os sintomas físicos. Parte de uma premissa interessante: o que nos causa mais sofrimento não são tanto as sensações ligadas aos ataques de pânico – a manifestação mais extrema da ansiedade –, mas sim o desconhecimento sobre o que está acontecendo. O medo, por exemplo, de sufocar ou de ter um ataque cardíaco.

<><> Eis a entrevista. 

  • Para começar pelo mais básico, o que é a ansiedade? Sentir isso é sempre um transtorno?

A ansiedade realmente é uma emoção e, se está em nós, está nas nossas células e no nosso DNA, é porque tem uma função adaptativa. Ninguém me perguntou na consulta que seu objetivo é eliminar a tristeza, mas sim a depressão, que é uma resposta exagerada dessa emoção em termos de intensidade. No entanto, algumas pessoas vêm com a ideia de que a ansiedade é algo completamente antinatural e buscam eliminá-la. Assim como a alegria, a tristeza, a raiva ou o nojo, a ansiedade faz parte de nós e é bom que seja assim. Por exemplo, como não estou acostumado a falar com a imprensa, me sinto ansioso. Se eu fizer mais entrevistas, provavelmente deixarei de sentir isso.

Em geral, essa emoção aparece quando detectamos uma potencial ameaça e busca nos fornecer os meios necessários para enfrentá-la da melhor maneira. Pode surgir em momentos variados, dependendo de onde colocamos a atenção, como fazer uma publicação nas redes sociais e perceber que ninguém deu 'curtir'.

  • Onde está a linha para considerá-lo um transtorno?

Como acontece com qualquer transtorno, o distúrbio significa que causa um deterioramento significativo no nosso dia a dia, por ser uma resposta excessivamente intensa, frequente e duradoura. Como a dor, que significa que pode haver uma infecção ou algo quebrado. Nesse caso, quando a ansiedade se apresenta, é necessário perguntar por que. No livro, cito alguns exemplos de estudantes com um perfil de muita autoexigência, que acabam tendo dificuldades para levar uma vida normal (para ir à escola ou até mesmo sair de casa), e é necessário diminuir o ritmo, porque o que se pretende não é possível.

  • É comum pensar que, quando temos um ataque de ansiedade, estamos nos afogando ou vamos ter um ataque cardíaco. Realmente há risco de que isso aconteça?

Eu digo aos meus pacientes que qualquer pessoa pode ter um ataque de pânico, que é a manifestação mais intensa da ansiedade. Agora, se soubermos interpretar o que está acontecendo e entendermos por que temos todos esses sintomas, vamos evitar sofrimento. Às vezes, o que explica a origem do problema é justamente essa má interpretação. É a ideia que dá título ao livro: se um esquimó vier a essas latitudes e pegar uma gripe, ele ficará muito assustado porque não a conhece. No entanto, nossa sociedade já está acostumada com esses sintomas. Então, o cerne da questão não é tanto o que acontece, mas a interpretação do que está acontecendo. O cérebro ama, acima de tudo, segurança, certeza e rotina. Quando algo interno desconhecido acontece e pode ser uma ameaça, é natural pensar que é algo ruim e que deve-se buscar uma solução.

  • E o que acontece em nosso corpo, então, quando temos um ataque de ansiedade?

O síndrome de hiperventilação é muito frequente, por exemplo, em ataques de pânico. Quando se detecta uma ameaça, meu sistema nervoso simpático entra em ação com adrenalina, e isso requer muita gasolina. Ou seja, oxigênio, e começamos a palpitar. Quando inalamos muito desse gás, muda a proporção entre oxigênio e dióxido de carbono, e isso nos faz sentir estranhos. É como se estivéssemos embriagados de oxigênio e, como acontece com o etanol quando bebemos álcool, vamos ver as coisas de uma maneira alterada. É desconfortável e desagradável, mas não perigoso. Por isso recomendamos, como já vimos em séries americanas, respirar em um saco ou respirar sobre nossas mãos fechadas para restabelecer o equilíbrio químico. Isso permite que respiremos o próprio dióxido de carbono que estamos expelindo.

  • Estar superativados de esta manera não é prejudicial para a saúde orgânica?

Os estressores são de tipos muito diferentes: não é o mesmo um estudante que está muito nervoso por causa de uma prova do que uma pessoa que está passando por um luto devido a uma separação sentimental ou a um falecimento. Podem ser mais ou menos intensos, mas normalmente têm um começo e um fim. O que é ruim para nossa saúde é o que é conhecido como estressor crônico, um estressor que dura dois, três, quatro anos. Por exemplo, estar sobrecarregado no trabalho por muito tempo porque deveriam ser cinco pessoas e há três. Nosso organismo está bem preparado para responder a estressores pontuais de dias, semanas ou meses, mas não para estar permanentemente ativo, mesmo que em uma intensidade mais baixa, por muito tempo. Isso é nocivo e pode acabar alterando o sistema imunológico.

  • O cérebro, diz ele, pode se reescrever e acabar respondendo de maneira neutra a estímulos que gravamos como perigosos (embora nem sempre o sejam). Como é feita essa reescrita?

Para substituir uma experiência traumática, é necessário um conjunto de experiências, digamos, neutras, nas quais não aconteça nada. Com a condução, isso fica muito claro: pessoas que dirigem há 20 anos e, em um dia, sofrem um acidente de trânsito. Provavelmente, essa pessoa, quando voltar a pegar o carro após três meses, ficará nervosa, porque sua mente não ficará nas duas décadas em que não aconteceu nada, mas na última experiência. Na última vez em que entrou no carro, quase não sobreviveu. À medida que continuar dirigindo e tudo estiver bem, o medo vai diminuir, e aqui será pouco importante se fizermos isso com ou sem medicação. O cérebro vai se modificar de qualquer maneira. O que não funciona é tomar medicação e não dirigir. Aí estamos no mesmo lugar, porque não estamos ensinando ao cérebro que dirigir não é tão perigoso quanto pensava.

  • Ele sugere exercícios para acelerar o coração ou hiperventilar, até mesmo apertar a garganta, para emular sintomas típicos de ataques de pânico. Alguns podem pensar que isso é um pouco masoquista, não?

Eu comparo com o fisioterapeuta. Quando temos uma torção ou lesão, muitas vezes recebemos uma massagem dolorosa, saímos, pagamos e nos dizem que é bom que você vá para casa e continue fazendo esses outros exercícios. E as pessoas aceitam porque está cientificamente provado que são bons para melhorar a médio ou longo prazo. Essa é a chave. Como seres humanos, buscamos o curto prazo, mas problemas complexos não têm soluções simples. Esses exercícios, como girar, permitem que nosso cérebro reapenda. Façamos essa reescrita da qual falávamos. Só é possível mudar assim, com a experiência. Então, inevitavelmente, o tratamento passa por ensinar ao cérebro que essas sensações que ele interpretou como ameaçadoras não são. Mas claro, é necessário passar por isso para recuperar a autonomia e ficar melhor.

  • Existem traços de personalidade que predisponham mais ao sofrimento de problemas de ansiedade?

Existem alguns traços ou formas de ser que convivem mais com problemas de ansiedade. Um deles é o perfeccionismo, a autoexigência, a competitividade. Acontece em pessoas que buscam padrões irrealizáveis e estão destinadas a sofrer bastante. Também ocorre com traços de neuroticismo, ou seja, perfis emocionalmente mais instáveis, mais impulsivos, mais anárquicos. Para quem o medo está muito presente, também costuma ser um problema, pois leva a ser pouco assertivo, a ter dificuldade para impor limites, a dizer não. Isso também está relacionado com a alta amabilidade, quando há relações de muita bondade e generosidade de um lado, e isso, por não ser equilibrado, de algum modo suga a energia. Penso, por exemplo, em mulheres que cuidam, que preparam comida para toda a família.

Vincular os transtornos de ansiedade com a maneira como os indivíduos são não pode ser considerado um pouco reducionista? Ou seja, desvincular as pessoas de seu contexto para explicar os problemas de saúde mental.

No livro, dou espaço às variáveis de contexto. O fator do contexto atual em que vivemos predispõe muita ansiedade. Há alguns anos, tudo estava mais estabelecido: você nascia em um lugar, os papéis eram mais definidos, não costumava mudar de lugar. A vida era menos sedentária, mais social, nos alimentávamos melhor. Não estou falando em termos de se era mais feliz ou menos, mas de ansiedade. A sociedade que nos cerca é tão exigente e tão competitiva, tem essa pressão constante pela produtividade que nos leva ao limite e nos faz potencialmente ter problemas de ansiedade. Precisamos nos formar mais, viajar mais, ter mais experiências. Estamos permanentemente sobreestimulados por notificações que nos fazem correr com medo de perder algo. Há também uma ansiedade financeira ou econômica: uma pessoa, para se desenvolver, precisa de uma infraestrutura mínima. São todas circunstâncias que predispõem as pessoas a estarem insatisfeitas ou frustradas, e esse estado é um caldo de cultivo para a ansiedade ou para a má saúde mental de um modo geral.

  • Diria então que a sociedade atual é um gatilho para problemas de ansiedade?

Mais do que um gatilho, é um fator predisponente, no qual o gatilho pode ser não ter sido escolhido para essa vaga de emprego ou ter tido uma discussão com o chefe. Em qualquer caso, esses problemas geralmente são desencadeados pela mistura de pelo menos duas variáveis: personalidade e contexto.

Existem estudos que confirmam que os transtornos de ansiedade aumentaram nos últimos anos e, na Espanha, somos líderes no consumo de benzodiazepinas. Ao mesmo tempo, a estrutura da saúde pública para oferecer psicoterapia é escassa.

Isso não pode ser entendido. Se queremos que uma intervenção seja o mais eficaz possível, ela também deveria ser o mais precoce possível, porque quanto mais experiências acumuladas, mais difícil será lidar com isso. Por outro lado, também entendo os médicos e médicas de família que prescrevem medicação quando chega um paciente com ataques de ansiedade que o impedem de levar uma vida normal. Se a pessoa não trabalhar essas sensações, quando parar de tomar a medicação, elas voltarão a aparecer.

“Nossa mente não é nossa amiga nem seu principal objetivo é nos fazer felizes”, diz no livro.

Tendemos a interpretar as coisas que nos acontecem com a informação do meio, e no meio nos falam de uma certa "felicidade", de que há solução para tudo, de que devemos sempre estar bem. Vemos títulos sugestivos como "o segredo da felicidade" ou "como fazer para que coisas boas aconteçam com você" e podemos nos deixar seduzir. Mas, no fundo, estamos buscando coisas que não são possíveis e isso gera mais insatisfação e mais frustração. Entendo que essa pessoa colocou o título para vender livros, mas nossa finalidade como seres vivos não é ser felizes, e sim a sobrevivência. Embora seja verdade que, no nosso contexto, as ameaças sejam singulares e configuradas pela sociedade.

 

Fonte: Entrevista para  Sofía Pérez Mendoza, no El Diario

 

As armas do Brasil contra tarifas de Trump: 'Retaliar seria suicídio'

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia como reagir à nova tarifa de importação imposta pela gestão de Donald Trump ao Brasil.

Com a medida, todas as exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos serão taxadas em 10% a partir de sábado (5/4).

O Brasil não foi o único alvo: a gestão Trump elevou tarifas sobre diversos países, com a promessa controversa de que isso trará mais fábricas e empregos para seu país.

Segundo especialistas em comércio exterior, o Brasil tem uma "arma poderosa" na mesa para pressionar por uma negociação: ameaçar os EUA com retaliações na área de propriedade intelectual, como quebra de patentes e suspensão de royalties pagos a empresas americanas.

Essa possibilidade acaba de ser autorizada com a aprovação de uma nova lei no Congresso, ampliando os instrumentos de reação do país a barreiras comerciais consideradas injustas.

A ideia é que essa nova legislação permita ao Brasil adotar retaliações sem necessidade de prévia autorização da Organização Mundial do Comércio (OMC) — órgão que está quase paralisado.

No caso dos Estados Unidos, a medida sobre propriedade intelectual poderia atingir produtos farmacêuticos e da indústria cultural, como filmes, por exemplo.

Especialistas ressaltam, porém, que o ideal é o Brasil não retaliar de fato os EUA, pois isso poderia gerar novas ações americanos contra o país, desatando uma grave guerra comercial.

"A retaliação sobre propriedade intelectual só deveria ser usada como um elemento a mais para reforçar o poder de barganha do Brasil numa eventual negociação com os Estados Unidos", nota o coordenador do Centro de Estudos de Negócios Globais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Lucas Ferraz.

"É um instrumento que deve ser utilizado com muita cautela, em casos extremos. Do ponto de vista bilateral, eu não vejo como o Brasil retaliar e ir para o tête-à-tête com os Estados Unidos. Seria um suicídio econômico e político", reforça.

A estratégia de ameaçar os EUA com ações sobre propriedade intelectual seria similar ao que o Brasil fez em 2009, quando foi autorizado pela Organização Mundial do Comércio a retaliar os Estados Unidos por causa dos subsídios que o país dava à produção de algodão.

O Brasil conseguiu provar na OMC, após anos de disputa, que o subsídio americano contrariava as regras de comércio internacional e prejudicava de forma desleal as exportações brasileiras de algodão.

No entanto, embora o Brasil tenha recebido autorização para retaliar os Estados Unidos, o país não aplicou as medidas e usou essa "arma" para negociar um acordo com a Casa Branca.

"O que aconteceu em 2009 é que o Brasil foi autorizado a fazer a retaliação cruzada [sobre outros produtos] e aí ameaçou retaliar em propriedade intelectual. Isso envolve um monte de coisa, de filme a direitos autorais, mas o que interessa mesmo [na relação entre Brasil e EUA], inclusive de pagamento de royalties, é a questão das patentes de farmacêuticas", recorda também Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil e hoje consultor na área.

"O Brasil ameaçou, os Estados Unidos negociaram, e o Brasil não chegou a aplicar a medida. Mas é uma arma poderosa como instrumento de negociação", reforça.

Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China.

Em nota após o anúncio de Trump, o governo brasileiro lamentou a medida e lembrou que os EUA acumulam saldos positivos nas trocas comerciais com o Brasil — US$ 43 bilhões na soma dos últimos dez anos, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

O rombo, porém, tem recuado. No último ano, o saldo ficou positivo para os americanos em cerca de US$ 300 milhões apenas, com o país de Trump comprando US$ 40,4 bilhões em produtos do Brasil (12% das exportações brasileiras) e vendendo US$ 40,7 bilhões para cá (15,5% das importações do Brasil).

A gestão Lula enfatizou na nota a intenção de negociar com a Casa Branca, mas cita como possíveis medidas recorrer à Organização Mundial do Comércio e aplicar a nova lei aprovada no Congresso.

"Ao mesmo tempo em que se mantém aberto ao aprofundamento do diálogo estabelecido ao longo das últimas semanas com o governo norte-americano para reverter as medidas anunciadas e contrarrestar seus efeitos nocivos o quanto antes, o governo brasileiro avalia todas as possibilidades de ação para assegurar a reciprocidade no comércio bilateral", diz o comunicado.

A tarifa de 10% imposta aos produtos brasileiros ficou abaixo da aplicada a outros países, que também foram alvo do tarifaço trumpista, como China (34%), Índia (26%), Japão (24%) e União Europeia (20%).

A justificativa do republicano é que esses países cobram taxas de importação altas dos EUA e devem ser tratados com reciprocidade.

"Isso quer dizer que, o que fazem conosco, faremos como eles", disse o republicano.

Apesar das promessas de Trump, críticos do aumento das tarifas dizem que a medida vai encarecer a produção americana e provocar uma guerra comercial global.

<><> Outras 'armas' podem se virar contra o Brasil

Além da retaliação sobre propriedade intelectual, a lei aprovada no Congresso prevê outros mecanismos de reação, como a ampliação de taxas de importação ou restrições às quantidades importadas de países que adotarem barreiras comerciais contra o Brasil.

No entanto, os especialistas explicam que não é interessante para o Brasil simplesmente elevar as tarifas de importação contra os Estados Unidos porque isso encareceria produtos que compramos dos americanos, impulsionando a inflação.

Além disso, boa parte do que o país compra dos EUA são insumos usados pela indústria brasileira, o que encareceria a produção nacional, diminuindo sua competitividade.

"Grande parte da importação dos Estados Unidos é justamente de insumos para a indústria brasileira. São produtos farmacêuticos, são partes, peças, equipamentos. Ou seja, subir a tarifa acaba prejudicando a própria indústria brasileira. O Brasil tem muita dificuldade em retaliar [subindo essas tarifas]", destaca Welber Barral.

Para Lucas Ferraz, da FGV, um caminho possível é o Brasil articular uma reação com mais países.

"Ou o Brasil busca a via diplomática diretamente [com os EUA], ou o Brasil se alinha a outros países para tentar minimamente aumentar o seu poder de barganha numa negociação bilateral com Estados Unidos e, eventualmente, até tentar algum tipo de pressão maior", disse, citando México, Canadá e União Europeia como possíveis aliados.

Antes do anúncio da tarifa de 10% imposta a todos os produtos brasileiros, o principal impacto da gestão Trump para o Brasil veio da aplicação de uma taxa de 25% sobre todas as importações americanas de aço e alumínio, que estão em vigor desde 12 de março.

A medida é importante porque produtos derivados de ferro e aço são o segundo item brasileiro mais exportado para os EUA, tendo somado US$ 2,8 bilhões em vendas em 2024, ficando apenas atrás de petróleo (US$ 5,8 bilhões).

<><> O Brasil, de fato, cobra tarifas maiores dos EUA?

Estatísticas de comércio exterior apontam que, de fato, o Brasil cobra, em média, tarifas de importação maiores sobre os produtos americanos do que o contrário.

Por outro lado, os itens com maior volume de importação têm tarifas menores ou mesmo zeradas.

De acordo com o governo brasileiro, entram no país sem pagar imposto produtos oriundos dos EUA como aeronaves e suas partes, petróleo bruto e gás natural.

Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) a partir de dados do Banco Mundial, a tarifa média simples aplicada pelo Brasil às importações dos EUA foi de 11,3% em 2022 (dado mais recente disponível).

Ou seja, era mais que cinco vezes a tarifa média simples cobrada dos EUA sobre as importações brasileiras (2,2%).

Já quando se calcula uma média ponderada pelo volume das importações, a taxa brasileira continua maior, mas a diferença cai.

Isso ocorre porque a tarifa média paga pelos exportadores, na prática, é menor, já que produtos com maior volume de importação dos dois lados têm tarifas mais baixas ou mesmo zeradas.

Considerando essa tarifa efetiva, o Brasil cobrou em média 4,7% sobre importações vindas dos EUA em 2022, informa a nota do FGV Ibre, a partir de dados do Banco Mundial.

Por outro lado, diz o documento, produtos brasileiros sofreram taxação efetiva média de 1,3% ao entrarem no mercado americano.

O governo brasileiro, por sua vez, diz que a tarifa média cobrada pelo Brasil de produtos dos EUA seria ainda menor, de 2,7%.

"No geral, é importante destacar que 74% das exportações dos EUA para o Brasil entram sem tributação, graças a vários regimes alfandegários e linhas tarifárias isentas de impostos", argumentou o Itamaraty em um documento protocolado em uma consulta pública do governo americano sobre as mudanças de política tarifária, antes do anúncio das novas taxas de importação.

"Por exemplo, o Brasil aplica um imposto de importação zero sobre produtos-chave dos EUA, como petróleo, aeronaves, peças de aeronaves, gás natural e carvão. A tarifa média ponderada efetiva coletada é de apenas 2,73%, significativamente menor do que a tarifa nominal média do Brasil de 11%", dizia ainda o documento.

Um relatório sobre o tema publicado pelo departamento econômico do Bradesco em fevereiro estimou qual seria o efeito caso o governo Trump decidisse igualar todas as tarifas de importação cobradas do Brasil com as que o país cobra de produtos dos EUA — ou seja, elevar sua tarifa média para 11,3%.

"Nesse exercício, encontramos uma redução de cerca de US$ 2,0 bilhões nas exportações (5% do total embarcado)", diz o relatório.

O impacto poderia ser reduzido em caso de nova desvalorização do real.

"Em um exercício hipotético, a depreciação equivalente do real, necessária para compensar essa perda, seria da ordem de 1,5%, com um impacto potencial estimado ligeiramente inferior a 0,1 ponto percentual no IPCA [índice de inflação], como resposta direta à depreciação cambial", afirma o banco.

¨      Brasil está entre países com menor tarifa imposta

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que seu país vai impor uma tarifa de 10% sobre todas as importações para os EUA — com taxas ainda maiores para nações que têm barreiras comerciais maiores contra os americanos.

Economistas dizem que a medida, que entra em vigor no sábado (5/4), é um ponto de virada no comércio global.

A União Europeia descreveu as medidas como um "grande golpe para a economia mundial". A China promete retaliação e a Austrália respondeu que "este não é o ato de um amigo".

O Brasil não está na lista de países mais afetados pelas maiores tarifas — e terá seus produtos exportados para os EUA taxados em 10%, a tarifa mínima estabelecida por Trump.

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Outros países que serão taxados em 10% incluem: Reino Unido, Singapura, Austrália, Nova Zelândia, Turquia, Colômbia, Argentina, El Salvador, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.

Já outros países e regiões — alguns considerados aliados próximos dos EUA — sofrerão com tarifas maiores: países da União Europeia (tarifa de 20%), China: (54%), Vietnã (46%), Tailândia (36%), Japão (24%), Camboja (49%), África do Sul (30%) e Taiwan (32%).

A pergunta que todos se fazem agora é: qual será a reação dos demais países contra Trump e os americanos? Haverá retaliação contra os EUA — com imposição de novas tarifas? Ou os países evitarão escalar tensões comerciais?

<><> Brasil e a tarifa de 10%

O governo brasileiro não informou se irá ou não retaliar os norte-americanos.

Em nota divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), o governo brasileiro disse que "lamenta a decisão tomada pelo governo norte-americano", que se mantém aberto ao diálogo, mas que avalia "todas as possibilidades de ação", inclusive recorrer à Organização Mundial de Comércio (OMC).

No anúncio, Trump disse que os percentuais cobrados do Brasil seriam próximos aos que o país cobraria de produtos importados norte-americanos.

A economista do banco BTG Pactual, Iana Ferrão, analisou o anúncio a pedido da BBC News Brasil e disse como as tarifas deverão afetar o Brasil.

"Todos os produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos estarão sujeitos a uma tarifa adicional de 10%, exceto nos casos em que já se aplicam tarifas específicas mais altas, como no caso do aço e do alumínio, tarifados em 25%", disse a economista.

O diretor-executivo para as Américas da Eurasia Group, Christopher Garman, destaca que o Brasil acabou ficando entre os países menos impactados pelas tarifas anunciadas por Trump.

"Nós esperávamos um impacto entre 10% e 25%. Ao final, o Brasil saiu menos impactado que outros países, como os da Ásia", disse Garman à BBC News Brasil.

Ele afirmou que os setores que mais devem ser impactados pelas tarifas norte-americanas são o petrolífero, o de produtos semimanufaturados, celulose e de partes de avião.

Essa também é a análise de Iana Ferrão. Segundo ela, entre os setores mais afetados estão o de semimanufaturados de ferro e aço, aeronaves, materiais de construção, etanol, madeira e seus derivados e petróleo. A economista disse que setores como o de commodities agrícolas e mineração não deverão sofrer grandes impactos por não dependerem tanto do mercado norte-americano.

nos EUA e no resto do mundo, com choque de preços para consumidores americanos

Segundo documento divulgado pela Casa Branca logo após o anúncio, as tarifas divulgadas não deverão se sobrepor àquelas que já foram impostas sobre outros produtos anteriormente, como à do aço e a do alumínio, taxados em 25% em março e que também afetaram produtos brasileiros.

Enquanto o Brasil foi taxado, em média, em 10%, países asiáticos sofreram taxações muito maiores.

Mas, para alguns países, como Japão e Vietnã, Trump anunciou que irá cobrar "aproximadamente metade" do que eles cobram dos EUA.

"As tarifas não serão totalmente recíprocas. Eu poderia ter feito isso, sim, mas teria sido difícil para muitos países", disse Trump.

O presidente também confirmou o início da cobrança de uma tarifa de 25% sobre todos os carros estrangeiros a partir de 0h de quinta-feira (3/4), uma taxa que deve afetar principalmente o México.

<><> O que acontece agora?

Os mercados já começaram a reagir às tarifas de Trump nesta quinta-feira (3/4).

As bolsas de ações em Londres, Paris e Berlim caíram fortemente na abertura. O FTSE 100 e o Cac 40 caíram cerca de 1,4% e 1,7%, mas o índice Dax da Alemanha levou o maior golpe, caindo mais de 2%.

O comércio alemão é visto como especialmente vulnerável às tarifas.

Na Europa, que terá tarifas de 20% contra seus produtos importados pelos EUA, líderes reagiram.

Ainda não houve retaliação imediata, mas diversos políticos anunciaram reuniões nos próximos dias para avaliar suas reações.

A chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que as novas importações de impostos causariam consequências "terríveis" para milhões de pessoas ao redor do mundo.

Ela disse que não existe um caminho claro para enfrentar o que ela chamou de caos e complexidade que as novas tarifas de Trump desencadeariam em todo o mundo.

Mas a Comissão prometeu proteger os negócios da UE — alguns dos quais serão mais duramente atingidos do que outros: como a indústria automobilística da Alemanha, os bens de luxo da Itália e os produtores de vinho e champanhe da França.

O presidente da França, Emmanuel Macron, convocou uma reunião de emergência de líderes empresariais franceses para esta quinta-feira.

Como o maior mercado único do mundo, a UE pode causar danos aos EUA — mirando bens e serviços, incluindo "big techs", como Apple e Meta com contramedidas.

Mas líderes europeus têm dito que seu objetivo não é aumentar as tensões com os EUA — e sim persuadir Trump a negociar.

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, disse que, embora considerasse as tarifas de Trump erradas, tudo seria feito para tentar chegar a um acordo com os EUA.

Já o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, pediu calma a todos os líderes. O Reino Unido está em um processo de negociação de um tratado comercial com os EUA, depois que o país deixou a União Europeia.

O Reino Unido está entre os países que — como o Brasil — terão tarifas de 10% nos seus produtos importados pelos EUA. Esse é o menor patamar anunciado por Trump.

Starmer não confirmou nem descartou retaliações britânicas — e disse que "nada está fora de questão" quando se trata de como o Reino Unido pode responder às tarifas de Donald Trump.

"Hoje marca uma nova etapa em nossa preparação. Temos uma série de alavancas à nossa disposição e continuaremos nosso trabalho com empresas em todo o país para discutir sua avaliação das opções."

Ele também diz que "nossa intenção continua sendo garantir um acordo".

Starmer diz que estamos vivendo em um mundo em mudança e "devemos enfrentar esse desafio".

"Ninguém ganha em uma guerra comercial, isso não é do nosso interesse nacional", disse o primeiro-ministro.

Diversos líderes mundiais falaram sobre a necessidade de dialogar e negociar com os EUA.

O ministro da Economia da Alemanha, Jorg Kukies, disse à BBC: "Ninguém com quem falei fechou a porta para negociações [com Trump] após o anúncio."

O primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, disse que seu governo negociará com os EUA sobre tarifas "se tiver a oportunidade de fazê-lo".

O primeiro-ministro da Tailândia, Paetongtarn Shinawatra, disse que está disposto a enviar autoridades para conversar com os EUA. "Acho que ainda podemos negociar."

O primeiro-ministro do Vietnã, Phạm Minh Chính, disse que está criando uma força-tarefa para lidar com as tarifas dos EUA.

O ministro da economia da Espanha disse que o país quer chegar a uma "situação negociada com os EUA sobre tarifas".

A presidência da África do Sul disse que as novas tarifas dos EUA "afirmam a urgência de negociar um novo acordo comercial bilateral e mutuamente benéfico com Washington".

Economistas alertam que esse choque de tarifas promovido por Trump será repassado aos consumidores americanos, podendo provocar um grande aumento nos preços e uma recessão nos EUA e no resto do planeta.

 

Fonte: BBC News Brasil