Como a economia virou um desafio para Lula a
um ano e meio das eleições
As mais
recentes pesquisas de opinião mostram o declínio da popularidade do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). São dados que vêm na esteira de fatores econômicos e
políticos desafiadores para o governo, a pouco mais de um ano e meio das
eleições de 2026.
Além da
disparada no preço dos alimentos — que elevou a insatisfação de grande fatia do
eleitorado —, especialistas ouvidos pelo g1 apontam falhas
na comunicação e problemas de estratégia entre os aspectos que ajudaram a
aumentar o sentimento negativo de parte da população.
A condução das contas públicas e a insatisfação do mercado financeiro também pesam
para o balanço final da avaliação de Lula. Nessa conta, entram a inflação, a consequente queda no
poder de compra dos brasileiros e os juros em níveis elevados, com a taxa Selic
hoje a 14,25%.
O
governo tem adotado medidas, como a de facilitar o acesso ao crédito e tentar conter a alta dos alimentos. Também apresentou
projeto para isentar do Imposto de Renda (IR) quem
ganha até R$ 5 mil por mês e conceder descontos àqueles que recebem até R$ 7
mil.
Os
esforços, no entanto, podem não surtir o efeito esperado no humor do
eleitorado, avaliam cientistas políticos.
As
ações podem não ser suficientes, de fato, para desafogar o bolso da população.
A análise é que os incentivos podem até trazer um alívio momentâneo, mas o
desafio será mitigar os impactos econômicos da elevação de gastos públicos.
·
A queda na popularidade
de Lula
A pesquisa Genial/Quaest divulgada
nesta quarta-feira (2) mostra que o governo do presidente Lula é
desaprovado por 56% dos brasileiros (em janeiro, eram 49%) e aprovado por 41%
(eram 47%). Essa é a maior rejeição do mandato.
Já a
última pesquisa Ipsos-Ipec, divulgada em 13
de março,
aponta que 41% dos brasileiros avaliam o atual governo Lula como ruim ou
péssimo, enquanto 27% o consideram ótimo ou bom. Foi a primeira vez neste
mandato que o instituto indicou avaliação negativa superior à positiva.
Entre
dezembro de 2024 e março deste ano, houve crescimento de 7 pontos entre os
insatisfeitos com a gestão petista. Veja no gráfico abaixo.
Um mês
antes, pesquisa Datafolha indicou que o presidente alcançou seu pior nível
de aprovação em todos os seus três mandatos (24%), além de uma reprovação
(41%) também recorde.
Conforme
o g1 mostrou na ocasião, 8 pontos podem justificar a queda na
popularidade de Lula,
incluindo a crise do PIX — que gerou uma onda de fake news sobre a
fiscalização do meio de transferência —, a disparada nos preços dos alimentos
e a atuação eficaz da oposição.
<><> Cenário atual e contexto
histórico ajudam a explicar baixa
- Comunicação
Diante
dos desgastes, o governo nomeou, em janeiro, Sidônio Palmeira como novo ministro
da Secretaria de Comunicação. Marqueteiro de Lula na campanha de
2022, ele assumiu após avaliação do Planalto de que a queda na popularidade
seria resultado, principalmente, de dificuldades na comunicação.
Sidônio
atualizou a linguagem das redes sociais de Lula e passou a apostar na
comparação da gestão do presidente com a de Jair Bolsonaro (PL), com o intuito de tentar convencer o eleitorado de que
o país está em um processo de melhora.
O novo
ministro tem atuado também para dar visibilidade a ações positivas do governo,
como as altas do Produto Interno Bruto (PIB) em 2023 e 2024, o aumento real do
salário mínimo, a geração de empregos e a baixa taxa de desemprego.
"Por
mais que a comunicação tenha se tornado mais efetiva, ainda não gerou resultado
nesses 3 meses da gestão de Sidônio", analisa Cristiano Noronha,
vice-presidente da Arko Advice.
Segundo
o cientista político, ainda há chances de que o governo consiga reverter a
situação. Isso irá depender de uma série de fatores, como ações que garantam
sensação de melhora no poder de compra da população.
- Inflação
e disparada dos alimentos
Em
2024, a inflação estourou o teto da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e fechou o ano a 4,83%. A meta era de 3% e
seria considerada cumprida se ficasse em um intervalo entre 1,5% e 4,5%.
Com
alta de 7,69%, o preço dos alimentos foi o que mais se destacou no
período. Itens básicos foram atingidos, como o café, que subiu quase 40%
no ano passado. Além disso, o subgrupo Alimentação no domicílio
avançou 8,23% no ano, com o aumento no preço da carne (20,8%) como
destaque.
O
aumento de preços afeta, em especial, os cidadãos de baixa renda. Diante disso,
Lula afirmou estar preocupado com a disparada dos alimentos, e disse que não descarta uma medida mais drástica
para conter os preços.
Recentemente,
o governo decidiu zerar o imposto de
importação sobre carne, café, milho e outros produtos para tentar reduzir a
inflação. A medida passou a valer em 14 de
março.
Para especialistas ouvidos pelo g1, no entanto, a
isenção deverá ter pouco impacto na inflação do Brasil, já que muitos dos
alimentos acompanham os preços internacionais e outros países também têm
enfrentado quebras de safra.
Para o
cientista político Carlos Melo, professor do Insper, mesmo que a inflação dos
alimentos tenha sido impactada por fatores globais e de safra, esse é o
principal causador do mau humor recente do eleitorado.
"Não
importa [para a população] se o ovo está mais caro por uma gripe aviária ou por
motivos de ordem internacional. Alimentação mais cara mexe com o bolso do
trabalhador, e isso atinge fortemente o humor das pessoas que precisam comer e
têm restrições orçamentárias", diz.
O
economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, destaca que, embora a
variação nos preços dos alimentos nos dois primeiros anos do governo Lula tenha
sido menor do que no mesmo período do governo Bolsonaro, a alta atual partiu de
um nível já bastante elevado.
"Dados
trimestrais do IPCA [inflação oficial do país] também mostram que, na base
anualizada, os preços estão mais altos agora no Nordeste, onde Lula tem um
eleitorado importante", diz. "Bahia e Sergipe tiveram variações muito
relevantes, o que ajuda a explicar em alguma medida essa perda de
popularidade."
- Disparada
do dólar
Além
dos problemas climáticos em 2024 — que prejudicaram a produção —, a disparada do dólar também foi
determinante para a alta dos alimentos. O real desvalorizado encarece itens
importados e torna a exportação mais atrativa para produtores locais. Isso
diminui a oferta no mercado interno e os preços sobem.
O
último salto do dólar ocorreu em novembro, em meio à reação do mercado
financeiro ao pacote de corte de gastos apresentado
pelo governo.
Mesmo com economia prevista de R$ 70 bilhões até 2026, o anúncio foi ofuscado
pela proposta para ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda — que
diminuiria a arrecadação do governo.
Além
disso, entrou na conta o efeito Donald Trump, que, eleito, já prometia a aplicação de
tarifas sobre produtos importados pelos Estados Unidos, aumentando o temor nos
mercados de que a inflação subiria em todos os países afetados.
A moeda
norte-americana disparou de R$ 5,67 em 6 de novembro para R$ 6,17 no
último pregão do ano, encerrando 2024 com uma alta acumulada de 27,35%.
- Insatisfação
do mercado financeiro
O
cenário refletiu também a insatisfação do mercado financeiro em relação à forma
como o governo conduz as contas públicas. Investidores esperam que o governo
corte gastos para gerar superávit primário (receita maior do que despesas) e,
assim, reduza a dívida bruta do país, hoje
em 75,3% do PIB.
O
mercado tem apontado, no entanto, para uma falta de medidas efetivas para o
controle das contas.
Levantamento
da Genial/Quaest divulgado em 19 de março indica que agentes do mercado financeiro
desaprovam a gestão de Lula. Segundo a pesquisa, Lula tem avaliação negativa de 88%
e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de 58%.
Os
receios do mercado financeiro se refletem no dólar — e, consequentemente, na
inflação e na taxa básica de juros, a Selic — da seguinte forma:
- Sem cortar
gastos, o país tem uma perspectiva menor de controle da dívida
pública;
- Um país mais
endividado tem uma probabilidade maior de não cumprir com seus
compromissos financeiros, e se torna mais arriscado;
- Um país mais
arriscado só se torna atrativo se pagar juros mais altos pelos
títulos;
- Com países mais
seguros pagando juros mais altos no exterior, o Brasil fica menos
atrativo;
- Se o Brasil está
pouco atrativo, os investidores tiram dólares do país, enfraquecendo
o real.
Para
Noronha, da Arko Advice, o mercado pode "não eleger" — ou seja, não
ser maioria no eleitorado —, mas suas reações acabam "azedando o
sentimento geral" da economia no país.
"O
mercado vê uma agenda de gastos do governo indo na contramão do que o Banco
Central precisa, que é frear a economia para reduzir a inflação", diz.
- Contexto
histórico — e capital político consumido
A
popularidade de Lula também está muito abaixo dos níveis registrados durante os
primeiros dois mandatos do presidente. Em 2010, na reta final de seu segundo
governo, a aprovação do petista chegou a 87%, conforme pesquisa Ibope publicada em
dezembro daquele ano.
"Do
período em que Lula teve essa popularidade tão recorde até agora, passamos por
alguns problemas, por exemplo, durante a gestão [da ex-presidente] Dilma
[Rousseff], com grandes questões políticas, fiscais e econômicas", lembra
Noronha, da Arko.
No
histórico, o cientista político destaca ainda o impeachment de Dilma e o
descontentamento da população, que resultou em uma série de protestos pelo
país, além da Operação Lava Jato e do escândalo do mensalão.
"Então,
isso abalou muito a imagem do PT e do Lula. Relembro essa história porque Lula
acabou perdendo e consumindo muito do capital político que ele construiu lá
atrás", acrescenta Noronha, destacando ser muito difícil recuperar essa
popularidade.
·
Medidas do governo vão
ajudar a melhorar avaliação do eleitor?
Três principais medidas foram adotadas
recentemente pelo governo na tentativa de melhorar a popularidade:
- A facilitação do
acesso ao crédito, com a criação de um consignado para
trabalhadores com carteira assinada do setor privado. Com o
FGTS como garantia, o governo prevê que a taxa de juros caia cerca de 40%,
quase a metade do que é cobrado atualmente.
- A isenção de
impostos de importação sobre alimentos como carnes, café, milho,
azeite, açúcar e outros, com o objetivo de reduzir os
preços.
- A isenção do
Imposto de Renda (IR), a partir de 2026, para quem ganha até R$ 5 mil por
mês, além de desconto parcial e regressivo (ou seja, que cai conforme a
renda aumenta) àqueles que recebem até R$ 7 mil. Essa era uma promessa de
campanha de Lula.
Segundo
especialistas ouvidos pelo g1, ainda é difícil prever se as medidas
vão se refletir na melhora da avaliação do governo ou, em última instância, em
votos em 2026.
Carlos Melo, do Insper, acredita que, até a
próxima eleição, Lula deverá anunciar novas medidas como a de isenção do IR e
do consignado CLT.
"São medidas que tentam pegar o público
de menor renda. E isso será o suficiente? É difícil dizer", afirma.
"As pessoas que não têm FGTS não são favorecidas. Quem não declara IR,
porque tem uma informalidade muito grande, também não será beneficiado."
"O governo, então, vai ter que encontrar
um meio de chegar a esse público também", acrescenta Melo, dizendo que
outro reflexo pode ser a elevação de juros, o que também leva à impopularidade.
"Por isso, o governo está em uma situação difícil."
Noronha, da Arko Advice, afirma que qualquer
medida para aumentar o poder de compra e a renda das pessoas tende a gerar
reflexos positivos na imagem do governo. "O ponto é: em um primeiro
momento, pode trazer um alívio. Mas, depois disso, podem vir as consequências
negativas."
"Ou seja, tende a aumentar o juro,
elevar o mau humor do mercado e influenciar o câmbio. E as pessoas sentem muito
o impacto disso", continua.
O economista André Galhardo, por outro lado,
vê as medidas como a isenção do IR e o consignado CLT como positivas.
"É claro que a questão fiscal é
importante e que precisamos, sim, nos preocupar com o equilíbrio das contas
públicas. Isso é inegociável e já está andando. No entanto, a isenção do IR
para quem ganha até R$ 5 mil vem em boa hora — ou até atrasada", diz,
reforçando a necessidade de um imposto progressivo, no qual o aumento da
cobrança acompanha o avanço da renda.
Para Galhardo, o consignado para
trabalhadores com carteira registrada também vem em um bom momento. "As
pessoas que precisam tomar empréstimo para quitar obrigações mais caras ou para
fazer um pequeno investimento tomariam crédito de qualquer jeito. Elas seguem
pagando taxas devastadoras."
·
Os desafios e o que
esperar para a reta final até 2026
Em 2022, Lula foi o primeiro brasileiro a
conquistar nas urnas um terceiro mandato presidencial. Ele ainda não
definiu se tentará reeleição em 2026, mas segue como o principal nome do PT e
da esquerda para a corrida ao Palácio do Planalto.
O cientista político Carlos Melo afirma que
quem ocupa a cadeira da Presidência costuma ter muito poder eleitoral, diante
da capacidade de movimentar recursos que os outros candidatos não têm. Mas
destaca que o governo teve que manter os gastos elevados no início do mandato,
o que acaba diminuindo a margem para a reta final, mais perto da eleição.
"Foi um momento muito complicado, depois
de uma pandemia, com aumento da desigualdade", diz.
"Além disso, o governo não fez ajustes
na racionalização da máquina pública e na melhora da qualidade dos
gastos. Então, não vai para os últimos dois anos de mandato, que é o
período eleitoral, com o caixa cheio."
André Galhardo, da Análise Econômica, afirma
que os gastos do governo também cresceram em meio à PEC da Transição e ao
pagamento de precatórios (dívidas decorrentes de decisões judiciais). "Os
gastos com o BPC também estão crescendo rapidamente. Isso é um problema que o
governo precisa resolver", diz.
Outro desafio é a taxa Selic, prevista para
chegar a 15% neste ano — o que compromete o crescimento econômico em 2026,
gerando uma dinâmica mais complicada em termos de receita do governo.
"Aí, claro, tem que bloquear,
contingenciar ou congelar gastos para cumprir o que está no disposto no
arcabouço fiscal [a regra para as contas públicas]", conclui Galhardo.
Fonte: g1