Em nome do petróleo: 22 anos da invasão
norte-americana ao Iraque
Há 22 anos, em 20 de março de 2003, tinha
início a Guerra do Iraque. Tributário da chamada “Guerra ao Terror”, lançada
por George W. Bush após os atentados de 11 de setembro de 2001, o conflito teve
como pretexto a alegação falsa de que o governo iraquiano estaria desenvolvendo
armas de destruição em massa.
O controle das reservas de petróleo
iraquianas e o reforço da supremacia norte-americana no Oriente Médio,
entretanto, foram as motivações primordiais da guerra, que se prolongou por
nove anos e deixou um saldo estimado em mais de um milhão de mortos.
- A
Guerra do Golfo
O Iraque é dono da quinta maior reserva de
petróleo do mundo, estimada em aproximadamente 143 bilhões de barris, bem como
da 12ª maior reserva de gás natural, superior a 3.800 quilômetros cúbicos.
Essas ricas reservas energéticas motivaram diversas disputas políticas ao longo
do século 20.
Após a ascensão do partido Baath ao poder em
1968 e a adoção de um programa nacionalista, as reservas energéticas iraquianas
foram estatizadas, frustrando os interesses econômicos das grandes petroleiras
europeias e norte-americanas e acirrando os litígios no âmbito da Organização
dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), fundada para fazer frente à
manipulação de preços praticada pelo cartel das petroleiras ocidentais.
Em agosto de 1990, os desentendimentos acerca
das cotas de exportação de petróleo da OPEP evoluíram para um conflito militar
entre Iraque, presidido por Saddam Hussein, e o Kuwait, governado pelo emir
Jaber III.
A invasão do Kuwait pelas tropas iraquianas
provocou a imediata resposta das potências ocidentais, dando início à Guerra do
Golfo.
Sob a liderança dos Estados Unidos, então
governado por George H. W. Bush, pai do quase homônimo George W. Bush, as
potências ocidentais lançaram a “Operação Tempestade no Deserto” — uma violenta
campanha de bombardeios e incursões terrestres que forçou o Iraque a recuar.
Embora tenha durado pouco tempo, a Guerra do
Golfo teve efeitos devastadores sobre a população civil e a infraestrutura do
Iraque. Os Estados Unidos impuseram sanções extremamente severas contra o país,
incluindo um embargo econômico que provocou escassez de comida e remédios,
matando mais de 500 mil crianças.
Submetido à tutela financeira internacional,
o Iraque também foi impedido de exercer a soberania sobre seu próprio
território, em função das zonas de exclusão aérea impostas por Estados Unidos,
Reino Unido e França. O país sofreu uma série de bombardeios e ataques aéreos
perpetrados pelas potências ocidentais ao longo da década de 1990, justificados
por alegados descumprimentos das resoluções da ONU.
Apesar das inúmeras tentativas de sufocar o
governo iraquiano e encorajar a dissidência interna, Saddam Hussein permaneceu
no governo — e as reservas de petróleo continuaram nacionalizadas.
- O
11 de setembro e a “Guerra ao Terror”
Nos Estados Unidos, representantes da
imprensa e do complexo militar industrial passaram a defender abertamente uma
intervenção para derrubar Saddam Hussein.
O think tank “Projeto para o Novo Século
Americano”, dedicado a “promover a liderança global dos Estados Unidos e
notabilizado pela enorme influência que exerceria sobre o gabinete de George W.
Bush, publicou uma carta aberta instando o governo e os congressistas
norte-americanos a atacarem o Iraque, resultando na aprovação da Lei de
Libertação do Iraque em 1998.
Por fim, os atentados terroristas de 11 de
setembro de 2001 deram ao Pentágono a oportunidade para impor uma estratégia
global de consolidação de interesses geopolíticos e econômicos sob a roupagem
de uma campanha militar contra o “terrorismo”.
Em outubro de 2001, os Estados Unidos
invadiram o Afeganistão alegando a necessidade de capturar Osama bin Laden e os
líderes da Al-Qaeda. Ao mesmo tempo, a Casa Branca subiu o tom contra o Iraque,
acusando o governo de Saddam Hussein de estar fabricando armas de destruição em
massa.
Embora as inspeções da ONU não tenham
encontrado nenhum vestígio de tais armas, a imprensa norte-americana iniciou
uma campanha incisiva de demonização do governo iraquiano e de incitação ao
medo, chegando a afirmar, sem qualquer base, que o Iraque poderia atacar os
Estados Unidos com armas químicas e biológicas.
Colin Powell, então secretário de Estado da
Casa Branca, liderou uma ofensiva diplomática contra o Iraque no Conselho de
Segurança da ONU, ao passo que o vice-presidente Dick Cheney, ex-CEO da
petroleira Halliburton, e o secretário de Defesa Donald Rumsfeld iniciaram um
programa secreto para neutralizar e marginalizar especialistas e autoridades
que contestassem as alegações sobre armas de destruição em massa e o potencial
bélico do Iraque.
- A
invasão ao Iraque
Em outubro de 2002, o Congresso dos Estados
Unidos autorizou o uso das Forças Armadas contra o Iraque, mesmo sem o aval do
Conselho de Segurança da ONU. A decisão contou com apoio expressivo das
companhias do setor petroleiro e do complexo militar industrial.
Intitulada “Operação Libertação do Iraque”, a
guerra teve início em 20 de março de 2003 com o bombardeio violento dos bairros
residenciais de Bagdá e ataques devastadores com mísseis de cruzeiro.
A coalização que participou do ataque era
composta por soldados dos Estados Unidos, Reino Unido, Dinamarca, Austrália e
Polônia. Mais de 180.000 soldados atuaram na invasão — 98% dos quais
norte-americanos e britânicos.
O ataque foi tão devastador e generalizado
que as defesas iraquianas entraram em colapso após três semanas. Em 9 de abril,
Bagdá já havia sido tomada pelas forças invasoras.
As tropas norte-americanas cometeram inúmeros
crimes de guerra durante a invasão, incluindo o bombardeio de bairros
residenciais e instalações civis, o uso de fósforo branco, tortura, estupro de
mulheres e crianças e inúmeras chacinas (massacres de Haditha, Ishaqi,
Hamadiya, Mahmudiya, Mukaradib, etc.).
Uma pesquisa feita em 2007 pela Opinion
Research Business estimou que a Guerra do Iraque já havia matado mais de 1,2
milhão de civis até então. Um outro levantamento divulgado em 2023 pela Brown
University estima que a Guerra ao Terror conduzida pelos Estados Unidos deixou
mais de 4,5 milhões de mortos desde os ataques de 11 de setembro.
Milhares de civis iraquianos presos pelas
patrulhas de soldados norte-americanos foram submetidos a torturas brutais na
prisão de Abu Ghraib. A Cruz Vermelha estima que mais de 90% dos iraquianos
presos em Abu Ghraib eram inocentes.
A guerra também teve um custo devastador para
o patrimônio artístico, histórico e arqueológico do Iraque — um dos mais ricos
do mundo. Pilhagens e saques ocorreram de forma generalizada. Estimativas do
próprio Pentágono apontam que mais de 250 mil toneladas de materiais foram
pilhadas durante o conflito.
Capturado por soldados norte-americanos,
Saddam Hussein foi entregue às facções políticas rivais, sendo posteriormente
enforcado. Com a morte de Saddam, o Iraque entrou em um estado de anomia
política e mergulhou em uma violenta guerra civil. As disputas entre milícias,
grupos insurgentes, facções rivais e organizações fundamentalistas seguem
fazendo vítimas até hoje.
- Ao
vencedor, o petróleo
Se a vida dos iraquianos virou um inferno, as
petroleiras ocidentais ganharam o paraíso. As enormes reservas de petróleo do
Iraque finalmente foram privatizadas e agora geram lucros bilionários para
empresas como ExxonMobil, Chevron, British Petroleum, Shell e Halliburton.
O governo norte-americano tenta ainda hoje
tergiversar em resposta às acusações de que matou mais de um milhão de
iraquianos para poder entregar o petróleo do país ao controle privado, mas até
alguns altos burocratas já admitiram os interesses por trás do conflito.
O general John Abizaid, ex-chefe do Comando
de Operações Militares do Exército dos Estados Unidos no Iraque, foi um dos
mais categóricos: “é claro que a guerra é por causa do petróleo. Nós realmente
não temos como negar isso”, afirmou o militar durante uma palestra na Stanford
University.
Alan Greenspan, ex-presidente do Federal
Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos, escreveu em sua biografia que se
sentia “triste por ser politicamente inconveniente reconhecer o que todo mundo
sabe: a Guerra do Iraque foi em grande parte motivada por petróleo”.
O senador e ex-secretário de defesa do
governo norte-americano, Chuck Hagel, disse o mesmo em 2007, durante um evento
na Universidade Católica da América: “as pessoas dizem que não estamos lutando
por petróleo. É claro que estamos. (…) A guerra é só sobre petróleo”,
assegurou.
Se não bastasse tudo isso, há a confirmação
de Kenneth Derr, ex-CEO da petroleira Chevron, que ainda em 1998 relatou a uma
plateia de executivos de São Francisco: “o Iraque possui imensas reservas de
petróleo e gás natural. Eu adoraria que a Chevron pudesse acessá-las”.
Antes mesmo do início da guerra, ainda em
fevereiro de 2002, o Departamento de Estado dos Estados Unidos já havia montado
uma comissão para decidir o “futuro do Iraque”, chegando à conclusão de que “o
petróleo do Iraque deve ser aberto para as petroleiras internacionais o mais
rápido possível após a guerra”.
A produção de petróleo do Iraque já cresceu
mais de 50% desde 2008. Mais de 80% do petróleo extraído é exportado, grande
parte para os Estados Unidos e seus aliados europeus.
Enquanto isso, os donos do petróleo, os
cidadãos iraquianos, não tem acesso sequer ao básico para suprir as demandas
internas. Algo escandaloso, mas que passa como secundário para uma população
que tem hoje como maior preocupação não morrer nas lutas entre facções
políticas e atentados terroristas que viraram rotina no país.
Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi
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