terça-feira, 25 de março de 2025

Em nome do petróleo: 22 anos da invasão norte-americana ao Iraque

Há 22 anos, em 20 de março de 2003, tinha início a Guerra do Iraque. Tributário da chamada “Guerra ao Terror”, lançada por George W. Bush após os atentados de 11 de setembro de 2001, o conflito teve como pretexto a alegação falsa de que o governo iraquiano estaria desenvolvendo armas de destruição em massa.

O controle das reservas de petróleo iraquianas e o reforço da supremacia norte-americana no Oriente Médio, entretanto, foram as motivações primordiais da guerra, que se prolongou por nove anos e deixou um saldo estimado em mais de um milhão de mortos.

  • A Guerra do Golfo

O Iraque é dono da quinta maior reserva de petróleo do mundo, estimada em aproximadamente 143 bilhões de barris, bem como da 12ª maior reserva de gás natural, superior a 3.800 quilômetros cúbicos. Essas ricas reservas energéticas motivaram diversas disputas políticas ao longo do século 20.

Após a ascensão do partido Baath ao poder em 1968 e a adoção de um programa nacionalista, as reservas energéticas iraquianas foram estatizadas, frustrando os interesses econômicos das grandes petroleiras europeias e norte-americanas e acirrando os litígios no âmbito da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), fundada para fazer frente à manipulação de preços praticada pelo cartel das petroleiras ocidentais.

Em agosto de 1990, os desentendimentos acerca das cotas de exportação de petróleo da OPEP evoluíram para um conflito militar entre Iraque, presidido por Saddam Hussein, e o Kuwait, governado pelo emir Jaber III.

A invasão do Kuwait pelas tropas iraquianas provocou a imediata resposta das potências ocidentais, dando início à Guerra do Golfo.

Sob a liderança dos Estados Unidos, então governado por George H. W. Bush, pai do quase homônimo George W. Bush, as potências ocidentais lançaram a “Operação Tempestade no Deserto” — uma violenta campanha de bombardeios e incursões terrestres que forçou o Iraque a recuar.

Embora tenha durado pouco tempo, a Guerra do Golfo teve efeitos devastadores sobre a população civil e a infraestrutura do Iraque. Os Estados Unidos impuseram sanções extremamente severas contra o país, incluindo um embargo econômico que provocou escassez de comida e remédios, matando mais de 500 mil crianças.

Submetido à tutela financeira internacional, o Iraque também foi impedido de exercer a soberania sobre seu próprio território, em função das zonas de exclusão aérea impostas por Estados Unidos, Reino Unido e França. O país sofreu uma série de bombardeios e ataques aéreos perpetrados pelas potências ocidentais ao longo da década de 1990, justificados por alegados descumprimentos das resoluções da ONU.

Apesar das inúmeras tentativas de sufocar o governo iraquiano e encorajar a dissidência interna, Saddam Hussein permaneceu no governo — e as reservas de petróleo continuaram nacionalizadas.

  • O 11 de setembro e a “Guerra ao Terror”

Nos Estados Unidos, representantes da imprensa e do complexo militar industrial passaram a defender abertamente uma intervenção para derrubar Saddam Hussein.

O think tank “Projeto para o Novo Século Americano”, dedicado a “promover a liderança global dos Estados Unidos e notabilizado pela enorme influência que exerceria sobre o gabinete de George W. Bush, publicou uma carta aberta instando o governo e os congressistas norte-americanos a atacarem o Iraque, resultando na aprovação da Lei de Libertação do Iraque em 1998.

Por fim, os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 deram ao Pentágono a oportunidade para impor uma estratégia global de consolidação de interesses geopolíticos e econômicos sob a roupagem de uma campanha militar contra o “terrorismo”.

Em outubro de 2001, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão alegando a necessidade de capturar Osama bin Laden e os líderes da Al-Qaeda. Ao mesmo tempo, a Casa Branca subiu o tom contra o Iraque, acusando o governo de Saddam Hussein de estar fabricando armas de destruição em massa.

Embora as inspeções da ONU não tenham encontrado nenhum vestígio de tais armas, a imprensa norte-americana iniciou uma campanha incisiva de demonização do governo iraquiano e de incitação ao medo, chegando a afirmar, sem qualquer base, que o Iraque poderia atacar os Estados Unidos com armas químicas e biológicas.

Colin Powell, então secretário de Estado da Casa Branca, liderou uma ofensiva diplomática contra o Iraque no Conselho de Segurança da ONU, ao passo que o vice-presidente Dick Cheney, ex-CEO da petroleira Halliburton, e o secretário de Defesa Donald Rumsfeld iniciaram um programa secreto para neutralizar e marginalizar especialistas e autoridades que contestassem as alegações sobre armas de destruição em massa e o potencial bélico do Iraque.

  • A invasão ao Iraque

Em outubro de 2002, o Congresso dos Estados Unidos autorizou o uso das Forças Armadas contra o Iraque, mesmo sem o aval do Conselho de Segurança da ONU. A decisão contou com apoio expressivo das companhias do setor petroleiro e do complexo militar industrial.

Intitulada “Operação Libertação do Iraque”, a guerra teve início em 20 de março de 2003 com o bombardeio violento dos bairros residenciais de Bagdá e ataques devastadores com mísseis de cruzeiro.

A coalização que participou do ataque era composta por soldados dos Estados Unidos, Reino Unido, Dinamarca, Austrália e Polônia. Mais de 180.000 soldados atuaram na invasão — 98% dos quais norte-americanos e britânicos.

O ataque foi tão devastador e generalizado que as defesas iraquianas entraram em colapso após três semanas. Em 9 de abril, Bagdá já havia sido tomada pelas forças invasoras.

As tropas norte-americanas cometeram inúmeros crimes de guerra durante a invasão, incluindo o bombardeio de bairros residenciais e instalações civis, o uso de fósforo branco, tortura, estupro de mulheres e crianças e inúmeras chacinas (massacres de Haditha, Ishaqi, Hamadiya, Mahmudiya, Mukaradib, etc.).

Uma pesquisa feita em 2007 pela Opinion Research Business estimou que a Guerra do Iraque já havia matado mais de 1,2 milhão de civis até então. Um outro levantamento divulgado em 2023 pela Brown University estima que a Guerra ao Terror conduzida pelos Estados Unidos deixou mais de 4,5 milhões de mortos desde os ataques de 11 de setembro.

Milhares de civis iraquianos presos pelas patrulhas de soldados norte-americanos foram submetidos a torturas brutais na prisão de Abu Ghraib. A Cruz Vermelha estima que mais de 90% dos iraquianos presos em Abu Ghraib eram inocentes.

A guerra também teve um custo devastador para o patrimônio artístico, histórico e arqueológico do Iraque — um dos mais ricos do mundo. Pilhagens e saques ocorreram de forma generalizada. Estimativas do próprio Pentágono apontam que mais de 250 mil toneladas de materiais foram pilhadas durante o conflito.

Capturado por soldados norte-americanos, Saddam Hussein foi entregue às facções políticas rivais, sendo posteriormente enforcado. Com a morte de Saddam, o Iraque entrou em um estado de anomia política e mergulhou em uma violenta guerra civil. As disputas entre milícias, grupos insurgentes, facções rivais e organizações fundamentalistas seguem fazendo vítimas até hoje.

  • Ao vencedor, o petróleo

Se a vida dos iraquianos virou um inferno, as petroleiras ocidentais ganharam o paraíso. As enormes reservas de petróleo do Iraque finalmente foram privatizadas e agora geram lucros bilionários para empresas como ExxonMobil, Chevron, British Petroleum, Shell e Halliburton.

O governo norte-americano tenta ainda hoje tergiversar em resposta às acusações de que matou mais de um milhão de iraquianos para poder entregar o petróleo do país ao controle privado, mas até alguns altos burocratas já admitiram os interesses por trás do conflito.

O general John Abizaid, ex-chefe do Comando de Operações Militares do Exército dos Estados Unidos no Iraque, foi um dos mais categóricos: “é claro que a guerra é por causa do petróleo. Nós realmente não temos como negar isso”, afirmou o militar durante uma palestra na Stanford University.

Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos, escreveu em sua biografia que se sentia “triste por ser politicamente inconveniente reconhecer o que todo mundo sabe: a Guerra do Iraque foi em grande parte motivada por petróleo”.

O senador e ex-secretário de defesa do governo norte-americano, Chuck Hagel, disse o mesmo em 2007, durante um evento na Universidade Católica da América: “as pessoas dizem que não estamos lutando por petróleo. É claro que estamos. (…) A guerra é só sobre petróleo”, assegurou.

Se não bastasse tudo isso, há a confirmação de Kenneth Derr, ex-CEO da petroleira Chevron, que ainda em 1998 relatou a uma plateia de executivos de São Francisco: “o Iraque possui imensas reservas de petróleo e gás natural. Eu adoraria que a Chevron pudesse acessá-las”.

Antes mesmo do início da guerra, ainda em fevereiro de 2002, o Departamento de Estado dos Estados Unidos já havia montado uma comissão para decidir o “futuro do Iraque”, chegando à conclusão de que “o petróleo do Iraque deve ser aberto para as petroleiras internacionais o mais rápido possível após a guerra”.

A produção de petróleo do Iraque já cresceu mais de 50% desde 2008. Mais de 80% do petróleo extraído é exportado, grande parte para os Estados Unidos e seus aliados europeus.

Enquanto isso, os donos do petróleo, os cidadãos iraquianos, não tem acesso sequer ao básico para suprir as demandas internas. Algo escandaloso, mas que passa como secundário para uma população que tem hoje como maior preocupação não morrer nas lutas entre facções políticas e atentados terroristas que viraram rotina no país.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

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