quinta-feira, 27 de março de 2025

5 fatos sobre governo Trump revelados por falha de segurança militar em grupo de mensagens

Os Estados Unidos ainda estão digerindo uma grave falha de segurança ocorrida no centro do governo Donald Trump.

Trata-se da história de como um jornalista – Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic – foi adicionado a um grupo de mensagens da plataforma Signal que, aparentemente, incluía o vice-presidente americano, J.D. Vance, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, e o Conselheiro de Segurança Nacional, Mike Waltz.

O tema que estava sendo discutido era o ataque dos Estados Unidos aos houthis, o grupo iemenita apoiado pelo Irã.

Goldberg declarou ter observado planos militares secretos para os ataques, incluindo envios de armas, alvos e horários, duas horas antes que caíssem as bombas.

Mas, resumidamente, quais são as principais revelações do ocorrido?

1 - Vance questiona ideias de Trump

Goldberg relatou que a conta com o nome J.D. Vance escreveu, sobre a ação militar: "Acho que estamos cometendo um erro."

O vice-presidente declarou que o ataque às forças houthis que enfrentam navios no Canal de Suez atende mais aos interesses europeus do que aos Estados Unidos, já que a Europa detém o maior tráfego comercial pelo canal.

Vance destacou que seu chefe talvez não tivesse conhecimento de como as ações americanas poderiam ajudar a Europa.

"Não tenho certeza de que o presidente sabe como isso é inconsistente com sua mensagem sobre a Europa no momento", disse Vance. "Existe ainda o risco de vermos um pico de moderado a grave dos preços do petróleo."

O vice-presidente prosseguiu, segundo Goldberg, afirmando que ele apoiaria o consenso, mas preferiria atrasar o ataque em um mês.

Goldberg contou na sua reportagem que o porta-voz do vice-presidente enviou a ele uma declaração posterior, destacando que Trump e Vance haviam mantido "conversas subsequentes sobre este assunto e estão em completo acordo".

Desde que chegou ao poder, Trump vem censurando seus aliados europeus da Otan.

O presidente americano os forçou a aumentar seus gastos com a defesa e insiste frequentemente que a Europa precisa assumir a responsabilidade pela proteção dos seus interesses.

2 - Culpa da Europa 'parasita'

Os argumentos a favor do ataque militar contra os houthis e por que os Estados Unidos poderiam – e deveriam – entrar em ação não convenceram J.D. Vance.

O vice-presidente disse ao secretário da Defesa: "Se você acha que devemos fazer, vamos lá. Eu só odeio socorrer a Europa outra vez."

Hegseth respondeu: "Compartilho totalmente seu repúdio pelo parasitismo europeu. É PATÉTICO."

Um membro do grupo, identificado apenas como "SM", sugeriu que, após o ataque, os Estados Unidos deveriam "deixar claro para o Egito e a Europa o que esperamos em troca".

"Se a Europa não nos compensar, o que acontece?", perguntou ele. "Se os Estados Unidos restaurarem com sucesso a liberdade de navegação, com grandes custos, é preciso ter algum ganho econômico adicional extraído em resposta."

3 - Depois do ataque: emojis e orações

Goldberg indica que o chefe de Segurança Nacional dos Estados Unidos postou três emojis após o ataque: "um soco, uma bandeira americana e fogo".

O enviado especial americano para o Oriente Médio, Steve Witkoff, respondeu com cinco emojis, segundo Goldberg: "duas mãos rezando, um dos bíceps flexionado e duas bandeiras americanas".

Já o secretário de Estado, Marco Rubio, e a chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, enviaram mensagens de apoio, segundo o jornalista.

"Farei uma oração pela vitória", declarou Vance, durante as atualizações sobre os ataques. E dois outros membros acrescentaram emojis de oração, segundo Goldberg.

4 - O controle da mensagem: a culpa é de Biden

Sobre as preocupações de Vance de que a ação pudesse ser considerada contrária às mensagens de Trump sobre a Europa, o secretário da Defesa dos Estados Unidos escreveu:

"VP: Entendo suas preocupações – e apoio totalmente que você as levante com POTUS [Trump]. Considerações importantes, a maioria delas difíceis de saber como irão se desenrolar (economia, paz na Ucrânia, Gaza etc.)."

"Acho que transmitir a mensagem será difícil, não importa o que aconteça – ninguém sabe quem são os houthis – e é por isso que precisaríamos nos concentrar em: (1) Biden fracassou e (2) o Irã financiou."

O governo Trump vem frequentemente culpando Joe Biden por ter sido leniente demais com o Irã.

5 - Waltz em destaque

Goldberg afirmou que recebeu um convite não solicitado na plataforma de mensagens Signal no dia 11 de março, de uma conta identificada como sendo de Michael Waltz. E foi adicionado ao grupo de bate-papo sobre o Iêmen dois dias depois.

O presidente não fazia parte deste grupo, mas sim os colaboradores mais próximos de Trump. Inicialmente, Goldberg achou que o grupo fosse falso, mas logo percebeu que era real.

Essa questão aumenta a pressão sobre Waltz, como conselheiro de Segurança Nacional. Deputados e senadores democratas pedem uma investigação urgente.

Questionado sobre o incidente na segunda-feira, Trump respondeu que não sabia de nada, mas defendeu Waltz. E o secretário da Defesa, Pete Hegseth, também declarou que nenhum segredo foi revelado.

"Ninguém estava divulgando planos de guerra", disse Hegseth aos jornalistas.

¨      Bate-papo em grupo de mensagens comercial confirma inexperiência de círculo íntimo de Trump

inadvertida inclusão de um jornalista em um grupo de mensagens de integrantes da cúpula do governo Trump sobre a defesa nacional dos Estados Unidos confirma os maiores temores em relação à inexperiência do círculo íntimo que cerca o presidente para tratar de assuntos ultrassensíveis.

Soa como piada pronta o fato de Jeffrey Goldberg, o prestigiado editor-chefe da revista Atlantic, ter sido convidado pelo conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Mike Waltz, para integrar o grupo que discutia o ataque militar aos houthis, no Iêmen. E também a forma como ele valida a operação militar com um trio de emojis.

A falha desconcertante de segurança poderia violar a Lei de Espionagem, que estabelece as normas para o tratamento de informações confidenciais. O vazamento deixa dúvidas se esta forma de comunicação não seria recorrente entre altos funcionários do governo.

Em vez de se debruçar sobre as suas consequências, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, ex-âncora da Fox News que ocupa o mais alto cargo de segurança do país, responsável por operações militares e 3,5 milhões de pessoas entre ativos e reservistas, optou por atacar o jornalista como mentiroso e “vendedor de lixo”.

Toda a conversa ocorreu pelo aplicativo comercial de mensagens Signal, que é proibido para hospedar assuntos tão confidenciais, como a divulgação de planos de guerra.

Envolveu o vice-presidente, J.D. Vance, o secretário de Estado, Marco Rubio, a diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, o diretor da CIA, John Ratfcliffe, entre uma dezena de participantes.

Editor da revista 'The Atlantic' publica prints de mensagens que recebeu por engano do vice-presidente dos EUA, JD Vance, e do secretário de Defesa, Pete Hegseth — Foto: Reprodução

O desleixo por informações confidenciais já foi demonstrado antes. Ao deixar o cargo, o presidente Donald Trump levou para a sua casa, na Flórida, pacotes com documentos de Defesa nacional e resistiu às tentativas do governo de recuperá-los. Foi indiciado por isso, mas o processo acabou arquivado após a vitória eleitoral do republicano, no ano passado.

Em seu programa na Fox News, Hegseth costumava desancar o governo Biden pela forma como tratava informações secretas.

Boa parte dos participantes do bate-papo do Signal já condenou, anteriormente, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, por ter usado o email privado para se comunicar com assessores.

"Se fosse qualquer outra pessoa que não Hillary Clinton, ela estaria na prisão agora mesmo", afirmou Hegseth em 2016. “Ninguém está acima da lei. Nem mesmo Hillary Clinton, embora ela pense que está”, ponderou o então congressista Rubio, no mesmo ano na Fox News.

Jeffrey Goldberg permaneceu incógnito durante o bate-papo fora dos canais seguros do governo. Identificado pelas iniciais JG, contou que ninguém percebeu ou o procurou quando saiu do grupo, após confirmar que o bombardeio aos houthis realmente ocorreu, duas horas depois da conversa.

Graças a ele, informações ultrassecretas sobre pacotes de armas e a natureza do bombardeio foram preservadas. Ao contrário dos demais interlocutores, que agiram na base do improviso, o jornalista parecia estar consciente do peso do material que tinha em mãos.

¨      Conselheiro de Segurança dos EUA é pressionado a deixar cargo após vazamento de bate-papo com planos de guerra

O Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Michael Waltz, está sendo alvo de pressões para deixar o cargo após o compartilhamento de informações militares secretas para um jornalista em um grupo de bate-papo.

O editor-chefe da revista "The Atlantic", Jeffrey Goldberg, foi acidentalmente incluído pelo conselheiro Waltz em grupo que reunia alto escalão do governo de Donald Trump e teve acesso a detalhes sigilosos de estratégia militar dos EUA. O caso foi revelado na segunda-feira (24).

Em entrevista à NBC News nesta terça-feira (25), o presidente Donald Trump descartou o caso como “vazamento” e minimizou a responsabilidade de Waltz: “Foi a única falha em dois meses, e acabou não sendo uma falha séria". Ainda segundo o presidente, o conselheiro "aprendeu uma lição".

No grupo, os principais membros do gabinete, como o Secretário de Defesa, Pete Hegseth, divulgaram detalhes de ofensivas contra os Houthis, no Iêmen, duas horas antes de as tropas americanas lançarem os ataques.

É improvável, no entanto, que as declarações de Trump sobre Waltz acalmem os críticos do presidente, que avaliam o caso como uma violação séria da segurança nacional. Eles alertam que o governo executou um plano de guerra em um aplicativo de mensagens sem ao menos saber quem estava entre os convidados no grupo de conversa.

Democratas na Câmara e no Senado pedem uma investigação urgente sobre o caso, e autoridades defendem a saída do conselheiro do cargo. Nesta terça-feira, senadores dos EUA fizeram fila para questionar os principais oficiais de inteligência de Trump sobre o caso durante uma audiência.

O líder da minoria da Câmara dos EUA, Hakeem Jeffries, afirmou que se os republicanos da Câmara realmente levam a sério a manutenção da segurança dos Estados Unidos "eles devem se juntar aos democratas em uma investigação rápida, séria e substancial sobre essa violação inaceitável e irresponsável da segurança nacional".

<><> Quem fazia parte do chat no grupo?

Segundo o editor-chefe da revista, havia 18 membros no grupo. Além de Waltz, a conversa incluía mensagens de:

  • Alguém identificado como MAR, que Goldberg presumiu ser o Secretário de Estado Marco Antonio Rubio.
  • Um usuário identificado como JD Vance, vice-presidente dos EUA.
  • Alguém chamado TG, que Goldberg presumiu ser a Diretora de Inteligência Nacional dos EUA, Tulsi Gabbard.
  • Uma conta com o nome Scott B, provavelmente o Secretário do Tesouro, Scott Bessent, "ou alguém falsificando sua identidade", escreveu Goldberg.
  • Um usuário chamado Pete Hegseth, o secretário de Defesa dos EUA.
  • Alguém chamado John Ratcliffe, presumivelmente o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA).
  • Outro usuário chamado Brian. Goldberg não mencionou quem ele presumiu que fosse. Brian Hughes é o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, enquanto Brian McCormack é o chefe de gabinete de Waltz. Não está claro se seria algum dos dois.
  • Alguém identificado como “SM”, que Goldberg presumiu ser o Conselheiro de Segurança Interna, Stephen Miller.
  • Um indivíduo identificado como Joe Kent, nome do indicado de Trump para comandar o Centro Nacional de Contraterrorismo.

<><> O que Goldberg fez após ser adicionado?

Editor da revista 'The Atlantic' publica prints de mensagens que recebeu por engano do vice-presidente dos EUA, JD Vance, e do secretário de Defesa, Pete Hegseth — Foto: Reprodução

No dia 11 de março, Goldberg recebeu uma solicitação do aplicativo de mensagens “Signal” de um usuário identificado como Michael Waltz. A rede social oferece criptografia de ponta a ponta e é usada por pessoas que buscam mais privacidade.

Após ser adicionado, Goldberg teve dúvidas sobre se o grupo era real. Até aquele momento, o jornalista achava que a Casa Branca usaria um canal mais seguro para compartilhar informações sensíveis.

Ele só acreditou na veracidade das mensagens dias depois, com o início dos ataques lançados de porta-aviões americanos sobre alvos houthis que foram debatidos no grupo.

Depois que percebeu que o bate-papo era real, ele se retirou e começou a escrever a história “para expor a violação de segurança”.

Goldberg também enviou uma mensagem para Waltz na rede social Signal, além de um e-mail para várias autoridades dos EUA, com perguntas sobre se o grupo era real e se as autoridades sabiam que ele estava incluído.

<><> Isso poderia ser uma violação da Lei de Espionagem?

Os advogados de segurança nacional entrevistados pela “The Atlantic” defendem que Waltz pode ter violado a Lei de Espionagem americana. A lei federal, promulgada pela primeira vez em 1917, criminaliza quem transmite informações sensíveis e põe em risco as operações das forças armadas dos EUA.

Os especialistas apontam ainda que a legislação do governo americano impede que temas do tipo sejam tratados em aplicativos de mensagens, e que os textos — sejam eles sigilosos ou não — não poderiam ser apagados, como aconteceu no grupo coordenado por Waltz.

Os advogados alertam que informações confidenciais e sigilosas não devem ser compartilhadas em aplicativos comerciais de celular, e números desconhecidos — como o de Goldberg — não devem ser incluídos. O jornalista não tem a autorização de segurança necessária para visualizar informações secretas.

 

Fonte: BBC News/g1

 

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