quinta-feira, 27 de março de 2025

Enquanto muitos demonizam, em terreiro a busca é evoluir pelo amor

Aos olhos da filha de santo Mariane Lopes, o terreiro de axé é mais do que as coisas que ficam no imaginário de quem faz questão de expor o preconceito religioso disfarçado de opinião. Ali, ela compartilha momentos da vida com os irmãos de fé. Na lente da sua câmera, as polêmicas macumbas ganharam protagonismo e a palavra Ifé (amor) pôde ser traduzida.

Danças, velas, oferendas, guias e a própria palavra "pai de santo" são imagens já atribuídas às religiões de matrizes africanas, mas a vida em um terreiro de candomblé ainda é desconhecida e se constrói além dos rituais.

A ideia de retratar o cotidiano ali surgiu quando Mariane conheceu a casa, mas a vontade bateu mais forte quando o local participou de um edital da Fundação Palmares e o vídeo produzido ganhou a competição.

Inspirada por pessoas que fazem parte da rotina, as cenas da limpeza do axé e preparação dos banhos viraram documentário que leva o nome da casa Ilè Asé Efunsola Àjagúnà, localizada no bairro Seminário, em Campo Grande. O conteúdo será exibido no Campão Cultural.

Segundo a produtora, o objetivo é  tirar o foco dos grande rituais e mostrar que a coletividade, família e o amor são pilares da religião e fazem parte do dia a dia do axé.

Tem muitos momentos importantes em uma casa de santo, mas eu aproveitei e quis narrar o viés da macumba, o que é macumba mesmo? É um ogã tocando atabaque, uma ekedy fazendo comida para orixá, limpando uma cozinha, um irmão fazendo um banho de folhas. Todas essas ações do cotidiano são meios de se fazer macumba. Antes mesmo de qualquer coisa somos uma família que busca evolução por meio do amor”.

Mariane acha que o recorte é apenas uma pequena parte do que é a religião e a casa de santo. Entre os momentos retardados estão também a alimentação em grupo chamada de ajeum. É nessa ocasião que os filhos de santo falam sobre a vida, brincam e comentam sobre coisas banais, como preço dos produtos no mercado, por exemplo.

“Somos uma família que vive candomblé para sí e muito além dos rituais. Tenho amor e respeito pela minha casa, meu pai de santo e meus irmãos. Aqui não se tem uma fala de perfeição não, somos o que somos e procuramos evolução por amor não pela dor ou culpa. O filme não trará nitidamente o que fazemos ou como somos mas alguns momentos”.

Mariane usa a  palavra beleza para descrever a relação com o candomblé e explica que estar no caminho é evolutivo, grandioso e bom para quem se propõe a viver a ancestralidade e todo o simbolismo dentro de um ilê. Além disso, ela pontua que o espaço é mais que um lugar de crença pois também significa resistir.

“É um caminho bonito e muito evolutivo. Ter uma casa de candomblé em pé é a mesma reparação que se ter um quilombo em pé.  Que as narrativas não sejam apagadas, que os territórios afrodiasporacos [pessoas que descendem de africanos que foram forçados a migrar para outros países] permaneçam de pé em nosso país e no Mato Grosso do Sul”.

A produtora, que se classifica como multiartista, se enxerga como uma contadora de histórias e se posiciona como uma narradora de tradições. Ela acrescenta que o filme será exibido no dia 04 às 18h no MIS (Museu da Imagem e Som),  no terceiro andar do prédio da Fundação de Cultura, localizada na Avenida. Fernando Corrêa da Costa.

¨      Advogada criminalista de Salvador comparece em audiências de branco, com ojá e contregum: "Não posso ir sem"

A advogada criminalista Lalesca Moreira compartilhou nas redes sociais nesta semana comentários em suas publicações com mensagens preconceituosas em relação às suas vestimentas dentro de júris e audiências públicas. "Baiana do Acarajé" e "lençol na cabeça" são algumas dessas frases.

"Desde que fiz minha inicialização no Candomblé, preciso ficar um ano vestindo branco e com a cabeça coberta, além de usar um contregum e a umbigueira. Não posso sair de casa sem", explica ela sobre o processo de "fazer santo" da sua vertente, a unzo mean dandalunda, uma casa de candomblé de Angola, com raiz Tombensi.

Lalesca contou ao Terra que o uso dos itens de sua religião não são impeditivos e, por lei, não podem ser proibidos em nenhum espaço, inclusive em ambientes jurídicos.

"Nunca fui impedida em fórum, mas já tive problema em delegacias. Questionaram se eu era realmente advogada", conta.

Ela explica que o preconceito sobre as religiões de matriz africana é frequente e repetido diversas vezes em todo o país e que a sociedade é ensinada que essas culturas são "do mal".

"Em qualquer lugar do país eu vou passar por isso. Se em Salvador, que é a capital mais negra fora da África, eu sofro com isso", desabafa.

Para Lalesca, o ideal é que os religiosos de matriz africana possam interagir em ambientes sem serem julgados pelos seus adereços, peças e costumes.

Ela explica que acredita ter perdido alguns contratos e oportunidades de trabalho por conta da sua religião, mas que não abre mão de ser quem é.

"Eu sento na mesa para fechar contratos e eu sou uma advogada criminalista. Eu sou boa de resolver problemas, se quiser venha até mim e eu resolvo", diz.

Após o período de inicialização, que deve se encerrar em meados de julho deste ano, Lalesca explica que ainda continuará usando seus adereços sempre que necessário, principalmente o Ojá na cabeça às sextas feiras: "Em respeito a Oxalá".

"As delegacias de todo o país estão aptas a receber denúncias e boletins de ocorrência sobre casos de intolerância religiosa. Se você ou alguém for vítima, denuncie, utilize os canais da Polícia para combater esse crime", pede Lalesca.

¨      Líder religioso denuncia ataque com spray de pimenta durante celebração em terreiro de umbanda em Bauru

O líder religioso de um terreiro de umbanda registrou um boletim de ocorrência na manhã deste domingo (23) após um suposto ato de intolerância religiosa ocorrido na noite de sábado (22), no bairro Madureira, em Bauru (SP).

Segundo o registro da ocorrência, por volta das 21h30, durante uma celebração religiosa, a vizinha da casa onde ocorre a celebração teria lançado spray de pimenta contra os frequentadores do local através do muro e pela porta de entrada do espaço.

Ao g1, Kauê de Oliveira Galhardo contou que no local havia crianças de colo, idosos e pessoas autistas, que, inclusive, precisaram passar por atendimento médico após o ocorrido. Além disso, segundo ele, todas as pessoas que participavam da celebração tiveram que deixar a área.

O líder religioso relatou que as celebrações foram transferidas para o local há cerca de um mês e que vêm sofrendo retaliações da vizinha desde que começaram.

"Ela falou que o cheiro da nossa defumação, que é um ritual que a gente faz antes de começar a gira, entrava na casa dela e fedia a casa dela e que se ela escutasse qualquer barulho de atabaque ou qualquer coisa do tipo, ela iria chamar a polícia, porque o marido dela é policial", conta.

Uma frequentadora gravou o momento em que o local precisou ser evacuado.

Kauê também apresentou ao g1 um alvará de funcionamento do centro religioso em seu nome, afirmando que o local está apto a receber celebrações religiosas. O documento é assinado pela Federação Afro-Brasileira de Magias Ocultas (Flamb).

<><> Denúncia de perturbação de sossego

O g1 entrou em contato também com a vizinha do terreiro, que não quis se identificar. Por telefone, ela afirmou que o incômodo com as atividades do centro religioso está relacionado à perturbação de sossego, por conta do barulho alto.

A vizinha também contou que, no sábado (22), registrou outro boletim de ocorrência por perturbação de sossego e que há um abaixo-assinado entre os moradores que concordam com sua posição.

Ainda ao g1, a mulher negou as acusações e disse que, em nenhum momento, jogou qualquer tipo de substância contra o local e que seu muro tem mais de três metros de altura.

No registro da ocorrência inicial, Kauê afirma que acredita que se trata de intolerância religiosa, uma vez que, também ao lado da casa da vizinha, há uma igreja evangélica sobre a qual ela nunca se manifestou a respeito do barulho provocado.

 

Fonte: Campo Grande News/g1

 

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