Big
Pharma:
Trump enfrentará a China?
O que
se conhece hoje sob o nome de Big Pharma é um processo de
ajuste político, econômico, tecnológico e produtivo da indústria farmacêutica
ocorrido a partir da década de 1990, nascido nos EUA e exportado para outros
países grandes produtores de medicamentos localizados no Hemisfério Norte.
Mesmo empresas cuja matriz está em outro país, mas que negociam suas ações na Bolsa
de Nova York.
A
transformação da indústria farmacêutica em Big Pharma tem seu
determinante essencial no aprofundamento do processo de financeirização das
relações econômicas mundiais operado sob a liderança dos EUA, em particular a
partir da instituição do unilateralismo, após a derrocada da União Soviética.
A Big Pharma é integralmente financeirizada. Além disso,
também contribuiu de modo significativo para o desenvolvimento da Big
Pharma o processo de harmonização global do regime de propriedade
intelectual liderado pelos EUA e que culminou na criação da Organização Mundial
do Comércio (OMC) em 1995. A Big Pharma foi uma das principais
beneficiárias dessa harmonização.
Dentre
todas as intervenções que Trump vem realizando internamente, para o tema deste
texto destacam-se as que afetam as políticas de ciência, tecnologia e inovação
e também pela regulação do mercado de medicamentos e outros produtos
industriais de saúde. São elas a Food and Drug Administration (FDA),
o National Institutes of Health (NIH) e uma agência criada
recentemente (2022) nos marcos do NIH, embora independente, a Advanced
Research Projects Agency for Health (ARPA-H). É com elas que a Big
Pharma interage, direta e permanentemente com a FDA e algo mais
indiretamente com as demais.
Vale
ainda mencionar outra agência cuja relevância está menos na sua relação com a
indústria farmacêutica, mas que é relevante no plano da política de Trump com o
sistema ONU e, em particular com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Trata-se
do Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC). O tratamento dado por Trump
à OMS tem como um de seus argumentos o suposto fato de que ela, além de
incompetente e gastadora, está atualmente governada pela China, o que é falso.
Pelo contrário, a OMS é cada vez mais governada pelas doações governamentais
voluntárias dos EUA (além da contribuição prevista estatutariamente) e da
filantropia predominantemente norte americana. E, no plano político, há muitos
anos as empresas da Big Pharma detêm grande poder político nos
colegiados da OMS, em particular nos debates sobre propriedade intelectual.
Uma
expressão atual desse poder está na discussão de um Acordo Mundial Sobre
Pandemias, quase inteiramente paralisado pela resistência da Big Pharma quanto
a itens relacionados à propriedade intelectual e ao compartilhamento de
informações e de amostras de patógenos. Outra questão bem atual é a dúvida
sobre a participação do CDC no fórum técnico internacional que anualmente
discute a escolha de quais cepas de vírus devem constar da vacina sazonal
contra a gripe. Esta decisão é compartilhada pela OMS para todos os países que
fabricam a vacina. Essas ações de Trump junto ao CDC têm levantado em todo o
mundo um temor do impacto que podem vir a causar, particularmente nos países de
renda baixa do Sul Global.
As
agências de fomento científico e tecnológico ampliaram grandemente suas
relações com a Big Pharma a partir da revolução biotecnológica
que vem se desenvolvendo desde os anos 1980. A partir da inauguração de uma
visão da pesquisa científica que foi chamada de pesquisa translacional, boa
parte das aquisições científicas no campo biomédico foi se tornando cada vez
mais funcional e, atualmente, essencial para a indústria farmacêutica. O
movimento que gerou a noção de pesquisa translacional nasceu no NIH, pela
descoberta feita pela própria agência de que a quantidade de recursos
financeiros destinados por ela aos grupos de pesquisa não estava se traduzindo
em lançamento de novos produtos no mercado pela indústria.
A ideia
de uma pesquisa translacional estimulou mudanças no entendimento sobre o papel
das universidades, cada vez mais se afastando do modelo de ‘universidades de
pesquisa’, nascido nos EUA, e abraçando o rótulo de ‘universidades
empreendedoras’, com uma proliferação de microempresas (startups), cujo
destino é serem compradas pela Big Pharma sempre que um
produto promissor desenvolvido por elas obtém um registro no FDA.
Pelo
lado da indústria, foi necessária uma adequação de seus processos de
desenvolvimento e produção no sentido de absorverem uma nova rota tecnológica
que se afastava totalmente do mundo da química fina – a rota biotecnológica.
Isso foi conseguido com a absorção, pela Big Pharma, de grande
parte da indústria de vacinas, processo hoje já consolidado. Atualmente, as
principais produtoras mundiais de vacinas pertencem a ela. Além da absorção
dessa nova rota, as farmacêuticas operaram uma série de modificações em sua
operação, todas elas com o objetivo de diminuir risco e aumentar receitas
financeiras.
Nesse
cenário, até este momento, Trump tem atuado quase exclusivamente na ponta da
pesquisa. Diretamente nas agências de fomento, seja fazendo bullying com
a pauta ESG (Environmental, Social and Governance, ou “Ambiental, Social e de
Governança”) e as ‘enxugando’ violentamente em termos de recursos humanos, como
parte da política de Estado mínimo, sob a capa de melhorar sua eficiência.
Ainda não se sabe qual o impacto essa política terá no orçamento do NIH no ano
que vem. Atualmente, ele vale cerca de 40 bilhões de dólares. Importante notar
que ainda no governo Biden, com o apoio dos dois partidos, começou a ser
discutida no Congresso uma reforma do NIH que, na minha leitura, destinava-se a
reorientar a agência em face da disputa geopolítica com a China e que, a contar
com os termos da epígrafe que abre este texto, tende a ser ainda mais
radicalizada neste governo Trump.
No que
se refere ao ARPA-H, cujo orçamento é muito pequeno quando comparado ao do NIH
(cerca de 1,5 bilhão de dólares) não há muita informação, exceto a troca de
seus executivos. Aqui, vale um breve comentário sobre essa família de agências
que trata de ‘projetos avançados’ (defesa, energia e saúde). Elas foram criadas
para apoiar projetos mais diretamente relacionados aos interesses do Estado
norte-americano, havendo grande inclinação para tecnologias duais entre os
projetos que apoiam.
Os
interesses da Big Pharma nos Estados Unidos são defendidos
pela Pharmaceutical Research and Manufacturers of America (PhRMA)
que reúne não apenas as empresas cuja matriz é norte-americana. Em 24 de
fevereiro passado, representantes dessa organização se reuniram formalmente
pela primeira vez com Trump e dentre suas principais reivindicações estavam a
revogação da ‘Lei de Redução da Inflação (IRA)’ que permite uma redução de
preços de alguns medicamentos muito utilizados e a atenuação das medidas
antitruste, ambas estabelecidas pelo governo Biden.
Além
disso, reivindicaram ajustes no funcionamento (menos burocracia) e em algumas
regras do FDA, como um aumento do período de exclusividade de mercado para
medicamentos para doenças raras e contra alguns tipos de câncer. De acordo com
o registro da imprensa, além de não se comprometer com elas, Trump advertiu que
aplicará tarifas aumentadas de importação a menos que as empresas tragam suas
unidades produtivas de volta aos EUA, após duas décadas de investimentos no
exterior, primeiro na Índia e depois na China, realizadas na busca por mão de
obra mais barata e benefícios fiscais.
A
corrente de comércio de medicamentos entre a China e os EUA vem aumentando
consistentemente nos últimos anos tendo os EUA um pequeno superavit comercial.
No lado das importações pelos EUA, representa em valor um percentual
relativamente pequeno do total das importações de medicamentos (cerca de 6%).
Entretanto, em termos de volume de produtos importados respondem por um
percentual bem maior. Estima-se que cerca de metade dos medicamentos genéricos
no mercado norte americano vem da Índia e da China e, atualmente, a maior parte
dos medicamentos exportados pela Índia foram fabricados total ou parcialmente
na China.
Há
vários anos o governo federal nos EUA manifesta preocupação com a relação entre
as estratégias da Big Pharma e o atendimento das necessidades
de medicamentos pela população. Essas estratégias são voltadas para obter o
máximo de receitas financeiras e, portanto, cada vez mais se desinteressam em
investir em medicamentos que fornecem menos receitas, mas são de importância crucial para a
população.
Ilustra isso saber que cerca 90% do mercado de medicamentos nos EUA, quando
medido em unidades farmacêuticas (não em valor), é composto por medicamentos
genéricos. Esta situação, que vem se desenvolvendo há vários anos, levou a que
o mercado americano desses medicamentos se voltasse, primeiro para a Índia e,
mais tarde, para a China. Na relação do governo Trump com a China no campo dos
medicamentos, esta é a equação a ser enfrentada.
A
proposta de Trump, que não tem sido apenas para a indústria farmacêutica, é a
estratégia de ‘reshoring’, isto é, fazer com que as manufaturas norte
americanas sediadas na China voltem aos EUA, sob pena de arcarem com tarifas de
importação. Foi isso que Trump falou aos representantes da Big Pharma na
reunião que tiveram no final de fevereiro. Mas o fato é que essa estratégia,
além de lenta, fará com que os preços dos medicamentos aumentem
substancialmente. Difícil imaginar uma solução para esse problema.
Mas o
problema não está localizado apenas nessa fatia do mercado que se preocupa com
o acesso de milhões de pessoas aos medicamentos. Em setembro de 2024 (governo
Biden), foi aprovada nos EUA uma Lei de Biossegurança, que mira essencialmente
em biotecnologia e nas relações entre pequenas empresas norte-americanas ‘de
ponta’ – startups e algumas um pouco maiores – com empresas
chinesas. Neste caso, o alvo não são os medicamentos para milhões, mas é o
coração da Big Pharma. Medicamentos biológicos, muito caros e, a
maioria deles, destinados a doenças raras, alguns tipos de cânceres e
imunoterapias.
A lei
proíbe que empresas norte americanas que recebem fundos ou que possuem
contratos com o governo façam negócios com um conjunto de empresas
biotecnológicas chinesas consideradas suspeitas. Por exemplo, grants do
NIH, do ARPA-H e contratos diretos com ministérios federais. Segundo a lei, o
encerramento dessas relações deve acontecer até 2032. Não será surpresa se
Trump revise a lei para antecipar este limite de tempo. Para dar uma ideia do
envolvimento das empresas norte americanas com chinesas, 60 delas declararam
colaborações com apenas uma das chinesas na lista das proibidas.
O
mercado mundial de medicamentos (em valor) tem os EUA como seu principal ator,
com mais de 40% desse mercado. Além disso, com a exceção das tecnologias de
defesa e das TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação), é o segmento
industrial mais intensivo em P&D no mundo. Impossível que Trump não dedique
a ele uma parte importante de suas preocupações. E a disputa com a China está
no centro da nova geopolítica norte americana. No entanto, como tentei mostrar
neste texto, as conexões entre a Big Pharma e a indústria
chinesa tornaram-se intensas e complexas nos último dez ou pouco mais anos.
Desenrolar este novelo não será nem simples nem fácil.
Fonte:
Por Reinaldo Guimarães, em Outra Saúde
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