terça-feira, 25 de março de 2025

Governo brasileiro avalia possível tarifaço dos EUA como ameaça ao comércio bilateral

O governo brasileiro monitora com atenção os sinais emitidos por Washington sobre uma possível mudança na política comercial dos Estados Unidos sob a liderança do presidente Donald Trump.

Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, integrantes do Palácio do Planalto consideram real a possibilidade de imposição de tarifas abrangentes a produtos brasileiros, medida que pode ser oficializada a partir de 2 de abril como parte de um pacote baseado no princípio de reciprocidade.

A avaliação no governo brasileiro é que o país pode ser atingido por um conjunto tarifário mais amplo do que o inicialmente previsto.

A preocupação vai além das tarifas já aplicadas ao aço e alumínio, em vigor desde 12 de março, e das negociações em torno do etanol.

A possibilidade de uma elevação tarifária sobre diversos itens da pauta exportadora brasileira para os Estados Unidos é tratada como um cenário relevante pelas autoridades.

O plano anunciado pela gestão Trump é baseado na ideia de que os Estados Unidos devem adotar uma política comercial mais agressiva, com foco na reciprocidade tarifária.

A proposta prevê a análise individualizada de cada parceiro comercial, com base em critérios como alíquotas, barreiras não tarifárias, práticas cambiais, subsídios e normas trabalhistas.

Em entrevista à emissora Fox Business, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, explicou o funcionamento da estratégia.

“No dia 2 de abril, nós vamos produzir uma lista das tarifas dos outros países e vamos dizer a eles: aqui está o que achamos sobre as suas tarifas, [sobre] barreiras não tarifárias, manipulação de câmbio, subsídios injustos e supressão de direitos trabalhistas. Se vocês pararem com isso, nós não vamos erguer a muralha tarifária. Caso contrário, vamos erguer a muralha tarifária para proteger nossa economia, nossos trabalhadores e nossa indústria”, afirmou.

“Cada país vai receber um número que, acreditamos, representa as suas tarifas. Então, para alguns países, poderia ser [uma tarifa] baixa. Para alguns, poderia ser bastante alta”, completou.

Apesar de contatos diplomáticos mantidos pelo Itamaraty com representantes do governo norte-americano, as informações repassadas até o momento são consideradas insuficientes para medir a real extensão das medidas em estudo. Segundo fontes diplomáticas, os interlocutores dos EUA têm evitado detalhar o alcance do pacote tarifário.

O etanol tem sido um dos principais pontos das conversas bilaterais. O governo norte-americano questiona a tarifa brasileira de 18% sobre o produto, enquanto aplica alíquota de 2,5% para o combustível importado do Brasil. Representantes brasileiros afirmam que não há indicação clara de quais setores serão diretamente impactados pelas possíveis novas medidas.

Relatos da imprensa norte-americana, incluindo o Wall Street Journal, indicaram que o governo Trump chegou a considerar a divisão dos parceiros comerciais em três faixas tarifárias, com base no grau de protecionismo adotado por cada país.

No entanto, essa proposta teria sido substituída por uma abordagem caso a caso, na qual cada país receberia uma classificação específica com base em critérios definidos pelo governo dos Estados Unidos.

No Brasil, a equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanha os desdobramentos com preocupação. A avaliação no Palácio do Planalto é de que uma escalada tarifária poderá afetar significativamente a balança comercial entre os dois países.

Segundo dados da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), as exportações industriais brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 31,6 bilhões em 2024.

O mercado norte-americano é o principal destino dos produtos industriais brasileiros, com destaque para aeronaves, peças, maquinário, motores, produtos químicos e bens metalúrgicos.

De acordo com a Amcham, oito dos dez principais itens exportados pertencem ao setor de indústria de transformação, o que amplia a preocupação sobre os possíveis impactos diretos na estrutura da economia exportadora brasileira.

Além disso, novas investigações comerciais conduzidas pelo governo norte-americano incluem setores como cobre e madeira, que também integram a pauta exportadora do Brasil.

O último relatório do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), publicado ainda durante a administração de Joe Biden, já apontava que o Brasil aplicava tarifas médias de 11,1% em diversos setores.

O histórico reforça a percepção de que o país pode ser enquadrado como parceiro comercial com alto grau de proteção, passível de retaliações no contexto de uma política comercial baseada na reciprocidade.

Diante da ausência de informações concretas e da postura adotada pela gestão Trump, o governo brasileiro trabalha com múltiplas hipóteses sobre a possível configuração do novo pacote tarifário. Interlocutores próximos ao Planalto afirmam que os impactos dependerão da abrangência das medidas a serem anunciadas nas próximas semanas.

A perspectiva de uma elevação generalizada de tarifas é tratada como uma possível origem de instabilidade no comércio bilateral.

A avaliação interna é que, caso se confirmem medidas de grande escala, o Brasil poderá ser inserido em uma nova dinâmica de disputas comerciais, cujos efeitos ainda são considerados incertos.

¨      Turbulências entre EUA e China beneficiam exportadores brasileiros (e pressionam preços)

O New York Times publicou, semana passada, uma reportagem típica dessa cultura paranoica da elite política de Washington.  .

A matéria dizia que o Pentágono havia convocado o bilionário Elon Musk para uma reunião, na qual seriam discutidos cenários de guerra entre EUA e China.

O presidente Donald Trump reagiu furiosamente, dizendo que se tratava de fake news. Musk compartilhou a postagem de Trump, mas fez um comentário que parecia confirmar a matéria, pois a sua irritação se concentrou no “vazamento” da informação.

Ainda na semana passada, o secretário de Estado Marco Rubio, havia criado outra confusão diplomática com a China.

Rubio declarou que os EUA estavam impondo sanções contra autoridades tailandesas, porque o governo deste país havia deportado pelo menos 40 chineses da etnia uigur, que estavam presos por lá. Segundo Rubio, os membros do grupo muçulmano seriam submetidos a “tortura, perseguição e desaparecimento” na China.

A acusação de Rubio constitui uma agressão tanto à Tailândia quanto à China, e os críticos logo identificaram o incrível cinismo da Casa Branca, pois os indivíduos haviam entrado ilegalmente na Tailândia e eram acusados de terrorismo.  Ou seja, ao mesmo tempo em que promove deportações em massa nos EUA, a Casa Branca quer impedir que a Tailândia deporte seus imigrantes chineses ilegais.

Além disso, a política de “contenção” da China, patrocinada pelos EUA, continua a escalar, com mais e mais empresas de tecnologia, do mundo inteiro, constrangidas pela Casa Branca a não venderem nada de avançado para o gigante asiático.

O presidente Donald Trump também determinou, como um de seus primeiros atos de governo, tarifas pesadíssimas contra produtos chineses que entram nos Estados Unidos. Os carros elétricos chineses estão hoje pagando tarifas de 100% para poderem ingressar nos EUA!

Essas agressões diplomáticas e comerciais, naturalmente, geram reações em Beijing, e os principais prejudicados são exportadores americanos cujos produtos podem ser substituídos facilmente por outros fornecedores. Soja e carnes, por exemplo.

Enquanto a exportação americana de soja para a China se mantém estagnada, e até mesmo em declínio, o Brasil vende cada vez mais esse produto para o gigante asiático.

Segundo o Comtrade, as vendas americanas de soja para a China caíram de 35 milhões de toneladas em 2020 para  27 milhões de toneladas em 2024, uma queda de 22%, ao passo que as do Brasil cresceram 20% no mesmo período.

Em 10 anos, as exportações brasileiras de soja para a China avançaram 122%, enquanto as americanas oscilaram positivamente em apenas 11%.

Aproveitando o embalo, vamos olhar para outros dados interessantes do comércio exterior entre Brasil e China.

Segundo o Comexstat, banco de dados online da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o Brasil iniciou o ano com um saldo negativo com a China de US$ 3,2 bilhões, no acumulado janeiro e fevereiro. Mas este déficit deriva de uma situação excepcional, que foram importações bilionárias de veículos e autopeças de carros elétricos chineses, nos últimos meses.

No acumulado de 12 meses, até fevereiro, ainda temos superávit de US$ 22,45 bilhões – que é bem menor que o registrado em no período anterior, de US$ 54,5 bilhões.

Essa queda no superávit com a China é explicada em parte pela queda nas exportações de soja, um fator que deve ser revertido nos próximos meses, em virtude tanto da supersafra brasileira quanto da relação comercial turbulenta entre EUA e o gigante da Ásia.

O aumento do nosso déficit comercial com a China na categoria de indústria de transformacão, todavia, é ainda mais importante. Nos últimos 12 meses, o saldo do Brasil com a China, nessa categoria foi negativo em US$ 49 bilhões, um recorde histórico.

Por fim, a corrente de comércio (que soma exportação e importação) do Brasil com China e Estados Unidos mostram um descolamento notável, com os valores trocados com a China chegando perto de US$ 160 bilhões nos últimos anos.  A corrente de comércio entre Brasil e EUA, por sua vez, até que cresceu razoavelmente nos últimos dois a três anos, saindo de um nível um pouco maior que US$ 60 bilhões para algo em torno de US$ 80 bilhões. Mas enquanto a corrente com os EUA avançou 72%, a com a China aumentou 170%!

Além de soja, ferro e petróleo, principais produtos brasileiros vendidos na China, aqueles cuja exportação para o gigante mais cresceram nos últimos 10 anos foram carnes e celulose. As exportações brasileiras de carnes para a China cresceram quase 1.400% em 10 anos, e essa demanda tão forte pode explicar, em parte, a persistente inflação de alguns alimentos no Brasil.

A exportação de celulose para China, por sua vez, registrou um recorde histórico em 2024, de US$ 4,6 bilhões, aumento de 21% sobre o ano anterior e de 170% em 10 anos. Apenas nos dois primeiros meses de 2025, o Brasil vendeu mais de US$ 800 milhões em celulose à China, alta de 35% sobre o ano anterior.

¨      Veja como a disputa entre China e EUA redefine impacto da Iniciativa Cinturão e Rota no cenário global

A Iniciativa Cinturão e Rota, principal projeto de infraestrutura internacional promovido pela China, voltou ao centro das discussões estratégicas diante da nova configuração da política externa dos Estados Unidos.

A orientação isolacionista adotada pelo governo do presidente Donald Trump tem sido apontada por analistas como um fator com potencial para alterar o equilíbrio geopolítico e favorecer a ampliação da influência chinesa em diversas regiões.

A política “América em primeiro lugar”, retomada após o retorno de Trump à presidência em janeiro, tem como um de seus primeiros alvos os projetos de conectividade global liderados por Pequim.

A ofensiva inclui medidas voltadas à contenção do avanço da presença econômica e diplomática chinesa em regiões consideradas estratégicas para Washington.

Entretanto, especialistas indicam que a redução do engajamento norte-americano nas estruturas multilaterais pode gerar efeitos contrários aos pretendidos, ao criar lacunas que favorecem a expansão da atuação chinesa.

Segundo essa leitura, ao se afastar das instâncias tradicionais da governança internacional, os Estados Unidos deixariam de exercer o papel de articuladores da ordem global e passariam a representar um elemento de instabilidade, com impactos sobre o sistema de cooperação estabelecido no pós-Segunda Guerra Mundial.

Analistas destacam que esse movimento pode provocar um cenário de competição aberta entre grandes potências, em que projetos como a Iniciativa Cinturão e Rota ganham novo impulso, em meio à redefinição de alianças e rotas de investimento.

A iniciativa chinesa, que abrange obras de infraestrutura, portos, ferrovias, estradas e corredores logísticos, tem sido o principal instrumento de projeção internacional do país nas últimas duas décadas.

Ainda assim, observadores alertam que, mesmo com o possível enfraquecimento do papel dos Estados Unidos, os interesses externos da China continuarão sujeitos a pressões e resistências, especialmente em regiões onde a influência norte-americana permanece significativa.

O Indo-Pacífico e a América Latina são apontados como áreas onde a presença chinesa enfrenta maior contestação, tanto por parte de governos locais quanto por meio de iniciativas coordenadas por Washington.

A ascensão da China no sistema internacional tem sido interpretada por autoridades norte-americanas, tanto do Partido Republicano quanto do Partido Democrata, como uma tentativa de modificar as regras da ordem existente.

Formuladores de políticas nos Estados Unidos acusam Pequim de buscar reestruturar normas globais a partir de sua agenda nacional e construir zonas de influência econômica e estratégica por meio de instrumentos como investimentos, parcerias bilaterais e acordos comerciais.

Essa visão tem sido compartilhada por aliados tradicionais dos Estados Unidos, que veem a expansão da Iniciativa Cinturão e Rota como parte de um esforço sistemático para ampliar o alcance global da China.

O projeto tem sido acompanhado por iniciativas paralelas, como o aumento da presença chinesa em instituições financeiras multilaterais e o fortalecimento de instrumentos como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB).

Desde o início de seu segundo mandato, Trump tem reiterado que conter o avanço da China é uma das prioridades da política externa norte-americana.

Entre as ações mencionadas estão a retomada do controle sobre ativos estratégicos, como o Canal do Panamá, e até mesmo propostas de aquisição territorial, como a já mencionada tentativa de negociação com a Dinamarca para adquirir a Groenlândia.

Essas iniciativas refletem a perspectiva do atual governo dos Estados Unidos de que o combate à influência chinesa deve ocorrer por meio de medidas diretas e ações unilaterais, em contraste com a abordagem multilateral adotada por administrações anteriores.

A retirada ou enfraquecimento da participação dos EUA em organismos internacionais tem sido acompanhada por uma estratégia de fortalecimento de mecanismos bilaterais, voltados à contenção da atuação de Pequim em setores como comércio, segurança e infraestrutura.

Diante desse cenário, analistas apontam que a competição entre Estados Unidos e China deve se intensificar nos próximos anos, com impactos diretos sobre os fluxos globais de investimento, logística e infraestrutura.

A capacidade de adaptação das economias emergentes e a reorganização das alianças políticas regionais serão fatores determinantes para o desdobramento desse processo.

A Iniciativa Cinturão e Rota, nesse contexto, permanece como um dos principais instrumentos geoeconômicos da China. Sua continuidade dependerá da capacidade do país em manter investimentos, assegurar parcerias e gerenciar os riscos associados à crescente contestação internacional de sua presença global.

 

Fonte: O Cafezinho

 

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