Drama das crianças exiladas durante a
ditadura militar é contado em livro
O Oscar
que premiou o filme ‘Ainda Estou Aqui’, somado ao número redondo dos 40 anos do
início da redemocratização, colocou novamente em perspectiva os horrores
provocados pela Ditadura Civil-Militar, que durou de 1964 a 1985 no país.
O
regime foi responsável por inúmeros ataques aos direitos humanos. Um dos
aspectos cruéis desse período foi obrigar crianças, filhos de militantes
políticos, a viverem longe do Brasil.
É o que
narra o livro “Crianças e exílio: memórias de infâncias marcadas pela ditadura
militar” (Carta Editora 2025), lançado na terça-feira (18). A obra reúne
depoimentos inéditos de 46 pessoas que passaram por este trauma na infância,
vivendo em países como Cuba, Chile, Guiné Bissau, Uruguai, entre outros.
Para a
professora universitária Nadejda Marques, autora e organizadora da obra, “o
livro serve para desmistificar e desromantizar a ideia do exílio”. Nadejda saiu
exilada do Brasil para o Chile, em 1973, quando tinha apenas 15 meses.
Com o
golpe militar no Chile, que alçou Augusto Pinochet à Presidência do país, ela
precisou de uma nova guinada na vida. Foi refugiada política na Suécia e, logo
depois, se mudou para Cuba. A professora só voltaria para o Brasil em 1979, com
a aprovação da Anistia ampla, geral e
irrestrita. “O exílio foi uma punição, uma violência contra as crianças e suas
famílias”, completa.
A ideia
do livro partiu da professora de matemática Helena Dória. Durante encontros
do Projeto Clínicas do Testemunho, Helena começou a procurar crianças que
também tinham sido forçadas ao exílio. “Encontrando essas crianças daquele
tempo, surgiu a ideia de reuni-las em um livro. Há filmes e documentários, há
uma produção literária robusta, mas do ponto de vista de adultos. Em outubro de
2023 criamos o grupo ‘Crianças e Exílio'”, comenta.
“Começamos
um processo de resgate de memórias. Conseguimos encontrar 67 pessoas, das quais
46 conseguiram escrever para o livro. Os colegas que não conseguiram
escrever é porque a experiência ainda é muito traumática.”, complementa
Nadejda. “Podemos dizer que as histórias são uma amostra. Há ainda muitas e
muitas histórias ainda por serem contadas”, finaliza.
- Ditadura me fez
estrangeira
Helena
Dória teve que deixar o Brasil no natal de 1972. “Minha mãe disse ‘Papai Noel
sabe que vamos para o Chile. Ele mandou os presentes para lá. Convenceu-nos.”
O pai
de Helena, Antônio Lucas de Oliveira, havia sido preso em agosto de 1971. Desde
então, sua casa passou a ser vigiada: “Na rua, sempre carros estacionados; na
praça em frente, sempre namorados nos bancos e homens fazendo exercícios
físicos”, relata.
Mas a
estadia no Chile durou pouco tempo. Em 1974, Helena e sua família se mudaram
para Cuba, onde viveram por mais 4 anos. Em 1980, mesmo com a Anistia no
Brasil, seus pais não se sentiam seguros em voltar para a terra natal. Se
inscreveram no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e foram
trabalhar na Guiné-Bissau.
“Na
Guiné-Bissau, o Brasil ficou mais perto. Chegavam revistas, livros e
convivíamos com brasileiros não exiladas, que contavam sobre a vida no Brasil.
No entanto, viver em Bissau foi a parte mais difícil do exílio. Foi solidão”,
recorda Helena. O período no país africano durou apenas 3 anos.
De
volta ao Brasil, Helena recorda que retomou o convívio com a família. “Como era
e é bom chamar alguém de tio, tia, prima, vó, vô. Perdemos nossa avó e avô
maternos quando estávamos fora, mas conseguimos conviver um pouco com os
paternos. Aprendi partes da história, da geografia, da literatura de meu
próprio país para o vestibular. Continuo tendo que esforçar-me para saber
mais.”
Mesmo
de volta à terra natal, a década no exílio marcou para sempre a vida de Helena,
que passou a se sentir estrangeira em seu país. “O sentir-se diferente é
permanente. O não criar raízes nos lugares me caracteriza. O exílio me
constitui. É um modo de viver difícil. Eu me exilo no meu próprio país, na
minha pátria.”, reflete.
- Infância
“esquecida para sempre”
Marcia
Curi Vaz Galvão não nasceu no Brasil. Filha do exilado Araken Vaz Galvão,
considerado “desertor” pelo exército brasileiro, e da uruguaia Gladys Celina
Curi Bermudez, Márcia nasceu em Montevidéu em 1971. Mesmo assim, ela não fugiu
da sina do exílio.
Na
obra, ela narra: “Logo após seu nascimento, quando você tinha apenas 1 ano e 3
meses, numa madrugada fria de junho em Montevideo, militares foram no nosso
apartamento e decidiram que a nossa mãe tinha que ir morar com eles por um
tempo. Depois disso, nossa mãe foi embora com os militares e só voltou alguns
anos mais tarde. Era o início de um inverno que duraria quase 4 anos”.
Gladys
Celina foi presa por participar de reuniões do movimento de guerrilheiros
“Libertación Nacional Tupamaros” contra a ditadura uruguaia. Com 5 anos, foi
exilada de seu país natal e, junto com sua mãe, foi morar na Espanha. Depois
viveu na Suécia e na França. Chegou ao Brasil só em 1979.
Recordar
as memórias do exílio não foi uma tarefa fácil.”Muitas pessoas contam belas
anedotas de suas infâncias, com uma riqueza de informações invejável, detalham
aquela travessura memorável que ainda hoje faz rir boa parte da família. Esse
tipo de experiência não encontra eco em mim. Pensar sobre esse emaranhado de
desmemórias tem me feito considerar que essa velha infância teceu, a finas
tramas, uma espécie de “para sempre”. Assim como os “Felizes para sempre” que
ancoram os finais, minha infância foi, também, “esquecida para sempre”, lamenta
Marcia.
Hoje,
ela é atriz, professora de teatro e membra-fundadora do Grupo Filhos e Netos por Memória,
Verdade e Justiça.
Mesmo
com os traumas de recordar dos momentos, ela ressalta a importância de resgatar
as memórias para que a história não se repita. “A crueldade daquele período de
horror que assolou Nuestra América, nas décadas de 1960, 1970 e 1980 colhe
frutos até hoje justamente pelo silenciamento, pelo medo que parece um
bicho-papão incansável a perambular por nosso imaginário e pela raiva que
marcou muitos de nós, crianças exiladas de suas infâncias e por negar a
História tal qual ela aconteceu,” finaliza.
- “Nunca quis
voltar ao Brasil”
No
Brasil da ditadura, Denise Oliveira Lucena não pôde ir à escola. Ela e seu
irmão gêmeo, Adilson Oliveira Lucena, tiveram sua infância roubada pelos
militares.
“Nossa
infância foi relativamente tranquila até o Golpe de 64. Nossa mãe sempre nos
ensinou em casa, pois fomos forçados à clandestinidade e isso nos impediu que
frequentássemos a escola.[…] Em 1970, nosso pai foi brutalmente assassinado
pela polícia da cidade. Senti muito medo e pensei que todos morreríamos alí.”,
narra Denise.
Logo em
seguida, a mãe de Denise, Damaris Oliveira Lucena, foi detida e levada pela
OBAN (Operação Bandeirante). Ela e seu irmão foram transferidos para o juizado
de menores, onde ficaram separados e tratados como terroristas. “Um certo dia,
o capitão Mauricio Lopes foi nos buscar e nos levou no local onde minha mãe
estava presa. Ela ficou tão assustada que gritava como uma louca pensando que
seríamos torturados na frente dela. […] Fomos escoltados por um exército de
policiais até o aeroporto onde rumamos para o México e depois para Cuba.”
A
família chegou na ilha de Fidel Castro quando Denise tinha 10 anos. “Minha mãe
foi hospitalizada, pois tinha sido muito torturada e precisou ser tratada para
poder voltar à vida normal.”
Foi só
em Cuba que ela e o irmão passaram a poder frequentar a escola.
“Era
muito divertido estar com pessoas da nossa idade e tentar esquecer os fatos
dolorosos do Brasil. Passeávamos, já que Havana era um lugar muito tranquilo.
Adorava o ambiente estudantil, embora não fosse uma estudante dedicada”,
recorda Denise.
“Nunca
quis voltar ao Brasil. Não tinha afinidade com o país e muito menos com os
parentes. Hoje tenho 63 anos e posso afirmar com toda certeza que os dez anos
que estivemos em Cuba foram os mais felizes da minha vida. Eu precisava de tudo
o que recebi para poder seguir em frente e voltar renovada”.
Fonte: Por Laura Kotscho, em ICL Notícia
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