Como
as deportações de Trump estão testando os limites da autoridade presidencial
A Casa
Branca também tem visado nas últimas semanas escritórios de advocacia,
acadêmicos e \instituições de ensino superior. Wheeler argumenta que, tomados
em conjunto, os vários esforços são uma tentativa de criar fatos no terreno que
apoiem a teoria executiva unitária do governo, “uma teoria
de extrema-direita de que o presidente detém o poder máximo e pode
fazer o que quiser”.
Como
candidato, Donald J. Trump não fez nenhum
esforço para obscurecer seus planos de uma vasta repressão a imigrantes ilegais
que vivem nos Estados Unidos. Mas o recente ataque de acadêmicos que estão
legalmente no país por seu governo e sua implantação de uma teoria jurídica
arcana para deportar centenas de homens venezuelanos para El
Salvador neste mês foram um choque para o sistema.
Isso
pode ser intencional, Charles Wheeler disse à revista America.
Ambas as ações representam esforços go governo para sondar os limites da
autoridade executiva, ele disse. Wheeler é advogado da Catholic Legal
Immigration Network [Rede imigratória legal católica], programa nacional
de advocacia e treinamento de advogados fundado por bispos dos EUA para
proteger os direitos e a dignidade humana dos imigrantes.
Ele observa
um exagero audacioso do governo que ele acredita que deveria preocupar todos os
cidadãos americanos. “Trump está flexionando seu poder e tentando forçar a
lei em áreas que não foram testadas antes”, disse Wheeler, “usando uma lei de
200 anos de uma forma que [ela] nunca foi feita para ser usada”.
“E o
desafio não é realmente para as pessoas afetadas, mas para o próprio Estado de
direito”.
“Obviamente,
não estamos sendo invadidos por uma potência estrangeira”, disse ele, a base
do Alien Enemies Act, aprovado em 1798,
que a Casa Branca invocou para deportar supostos membros de gangues. “Trump
joga fora essas teorias — cortando a cidadania por direito de nascença, usando
o Alien Enemies Act, etc. e algumas pessoas acham isso ousado e
corajoso. Outras pessoas acham isso simplesmente insano”.
Mas
"o que o governo Trump está fazendo", disse Wheeler, "é tentar
nos desviar da questão do estado de direito e focar nas próprias pessoas,
dizendo: 'Esses são criminosos; esses são membros de gangues, esses são escória
desprezível que vocês não querem nos Estados Unidos'. Eles estão tentando
desviar a atenção da lei e do procedimento reais".
A Casa
Branca também tem visado nas últimas semanas escritórios de advocacia,
acadêmicos e instituições de ensino superior. Wheeler argumenta que, tomados em
conjunto, os vários esforços são uma tentativa de criar fatos no terreno que
apoiem a teoria executiva unitária do governo, “uma teoria de extrema-direita de que o
presidente detém o poder máximo e pode fazer o que quiser”.
“Fizemos
uma revolução e desenvolvemos uma Constituição que procede da teoria de que o
rei não cria a lei, o povo a cria e o povo cumpre a lei”. Ele ressalta que
o presidente já tem “bastante poder discricionário sobre quem pode vir aqui e
quem não pode, e isso não está realmente sujeito a muitos desafios”.
Mas
"quando você chega à questão de cancelar um visto de não imigrante, então
fica um pouco mais obscuro". Os direitos de livre expressão e as
exigências do devido processo, de acordo com a Constituição americana,
aplicam-se a todas as "pessoas" nos Estados Unidos, não apenas
aos seus cidadãos nativos ou naturalizados.
O
esforço para deportar um pesquisador da Universidade de Georgetown casado com
uma palestino-americana se tornou o mais recente caso de alto perfil de
possível excesso executivo esta semana. Badar Khan Suri, que é estudante de pós-doutorado na
Universidade de Georgetown e cidadão da Índia, foi preso em 17 de março do
lado de fora de sua casa em Arlington, Virgínia.
Hassan Ahmad, advogado
de Suri, escreveu em um processo judicial que seu cliente foi alvo por
causa da "identidade de sua esposa como palestina e seu discurso
constitucionalmente protegido". Suri e sua esposa, Mapheze Saleh,
"há muito tempo são divulgados e difamados", afirmou o processo
judicial.
A
Universidade de Georgetown disse em uma declaração em 19 de março que o Suri é
um cidadão indiano que recebeu “devidamente um visto para entrar nos Estados
Unidos para continuar sua pesquisa de doutorado sobre a construção da paz no
Iraque e no Afeganistão”.
“Não
temos conhecimento de que ele esteja envolvido em qualquer atividade ilegal, e
não recebemos uma razão para sua detenção”, disse a escola. “Apoiamos os
direitos dos membros da nossa comunidade à investigação, deliberação e debate
livres e abertos, mesmo que as ideias subjacentes possam ser difíceis,
controversas ou questionáveis. Esperamos que o sistema legal julgue este caso
de forma justa”.
Suri
foi acusado de "espalhar propaganda política do Hamas e promover
antissemitismo nas redes sociais" e determinado a ser sujeito à deportação
pelo gabinete do secretário de Estado, disse a secretária assistente de
Segurança Interna, Tricia McLaughlin, em 19 de março em uma declaração divulgada
no X.
Em 15
de março, o Trump invocou o Alien Enemies Act pela primeira vez desde
a Segunda Guerra Mundial, usando a autoridade de guerra para deportar pessoas
supostamente associadas a uma gangue venezuelana, a Tren de Agua. A Casa
Branca não forneceu nenhuma evidência conectando os homens deportados à gangue,
nem o governo explicou quais padrões ela usou para determinar a afiliação à
gangue.
Em
declaração de 16 de março, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, chamou a gangue
venezuelana de “uma das gangues terroristas mais violentas e implacáveis do planeta Terra”.
“A TDA
é uma ameaça direta à segurança nacional dos Estados Unidos”, disse ela,
descrevendo a gangue transnacional como uma “organização terrorista
estrangeira”.
Em
termos do tratamento dos venezuelanos deportados, Wheeler falou: “Não há
nenhuma aparência de devido processo legal. Não sabemos quem são essas pessoas,
ou se, de fato, são membros de gangues”. Mas mesmo os membros de gangues, ele
disse, “têm o direito a proteções legais”.
Sob
procedimentos normais de imigração, de acordo com Wheeler, os homens deportados
deveriam ter tido a oportunidade de ter seus casos ouvidos e pedidos de asilo
feitos perante um juiz de imigração, e eles deveriam ter sido protegidos sob
a Convenção da
ONU Contra a Tortura e outras leis humanitárias. “Tudo isso é
garantido”, disse Wheeler, “e contorná-lo sob alguma teoria fictícia de que
você pode nomear essas pessoas como terroristas e, portanto, elas não têm
direitos é bastante extremo”.
A Casa
Branca atiçou ainda mais tensões constitucionais ao se recusar a responder a
uma ordem do tribunal federal para interromper os voos de deportação.
Somando-se à controvérsia estava a decisão do governo de não deportar os
supostos membros de gangue de volta ao seu país natal, mas para uma
prisão de alta segurança em El Salvador.
Anna Gallagher, diretora executiva
da Catholic Legal Immigration Network, disse em declaração divulgada em 17
de março: “Todos nós queremos comunidades seguras, mas isso é um abuso de poder
injusto e desnecessário”.
“Os Estados
Unidos não estão em guerra, e essa política sem dúvida prejudicará pessoas
inocentes ao negar-lhes os direitos legais básicos”, disse Gallagher.
O site localizador
de detentos Customs and Immigration Enforcement relata que
Suri está atualmente detido por oficiais de imigração no Alexandria
Staging Facility, na Louisiana. Em um processo judicial de 18 de
março, seus advogados estão buscando sua libertação imediata e a interrupção
dos procedimentos de
deportação.
“O governo expressou abertamente
sua intenção de usar a lei de imigração como arma para punir não cidadãos cujas
opiniões são consideradas críticas à política dos EUA no que se refere
a Israel”, escreveu o advogado de Suri. Ele acrescentou que a
detenção de Suri a mais de 500 quilômetros de distância de sua família e
advogado é “claramente pretendida como retaliação e punição pelo discurso
protegido do Sr. Suri”.
A lei
conhecida como Alien Enemies Act foi promulgada em 1798 em
meio a temores de que imigrantes — particularmente católicos
irlandeses — ficariam do lado da França em um potencial conflito
com os Estados Unidos, uma nação majoritariamente protestante. Ele deu ao presidente
autoridade para prender e deportar não cidadãos durante tempos
de conflito, ignorando os processos normais de remoção.
Antes
desta semana, a lei havia sido invocada apenas três vezes: durante
a Guerra de 1812, a Primeira Guerra
Mundial e,
mais recentemente, a Segunda Guerra Mundial, quando foi usada no infame
internamento em massa de pessoas de ascendência alemã, italiana e especialmente
japonesa.
De
acordo com a declaração da CLINIC, a lei historicamente “levou a sérios
abusos de direitos”, notando seu uso para deter residentes japoneses e
nipo-americanos durante a Segunda Guerra
Mundial.
Dois terços das 120.000 pessoas de ascendência japonesa reunidas em campos pelo
governo dos EUA sob a lei eram cidadãos americanos nativos.
O
presidente de El Salvador, Nayib Bukele, confirmou nas redes
sociais que 238 supostos membros do Tren de Aragua, junto com 23 membros
da gangue internacional MS-13, foram entregues ao sistema prisional
salvadorenho. Os homens não foram identificados, e seu status é
incerto.
Wheeler se
preocupa que a deportação em massa represente “uma passagem só de ida”. Não
está claro como os homens deportados podem argumentar sua inocência ou se
livrar do sistema prisional salvadorenho.
¨ “Imigrante não é
criminoso. EUA viraram o império do medo”, diz socióloga Sueli Cerqueira
Imigração,
migração e deportações sempre existiram e fazem parte da construção histórica
dos países, dos povos. O que raramente se vivenciou é esta “caçada” aos imigrantes em igrejas,
escolas, hospitais, trabalho e nas ruas, como vem acontecendo
nos EUA desde o dia 20 de janeiro, quando o republicano
de extrema-direita Donald Trump assumiu seu
segundo mandato de presidente.
Pior
ainda, agora, os imigrantes estão sendo tratados como criminosos de alta
periculosidade. “Essa ideia de os mandar para uma prisão militar de alta
segurança em Guantánamo, que surgiu por último, é terrível para a grande
maioria que são apenas trabalhadores. Além do mais, mesmo quem cometeu algum
crime tem direito a condições dignas”, observa Sueli Siqueira, socióloga com
ênfase em estudo sobre migração internacional.
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Confira a entrevista.
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Como
tem acompanhado as deportações e a forma como estão sendo feitas nos primeiros
dias do governo Trump?
Sueli
Siqueira - A deportação de imigrante sempre existiu
nos EUA, inclusive em números bem mais altos no governo Obama. O
que tem de diferente agora? É exatamente o discurso, a forma como as coisas
estão sendo feitas, uma propaganda política e ações de governo muito fortes e
interligadas. Trump prometeu na campanha guerra aos imigrantes,
colocando-os como o causador de todos os males, tanto sociais quanto
econômicos. Então ele transformou o imigrante no grande vilão, e os trata como
criminosos.
Assim
como a quase totalidade dos que buscam uma vida melhor no exterior, o imigrante brasileiro não é um criminoso. O
que falta a alguns é a documentação para trabalhar legalmente. Mas, isto não os
torna criminosos de alta periculosidade, que precisam ficar trancados e
amordaçados, como a gente viu nos voos de deportação.
Na
verdade, Trump está usando a população americana, vendendo uma
solução falsa, que não vai resolver os problemas sociais e econômicos. Pelo contrário, os
estrangeiros, geralmente, realizam a mão de obra mais simples que os nativos
sequer fazem, como faxinas, serviços na construção civil e em restaurantes.
Por
outro lado, os estrangeiros pouco usam serviços de saúde, só em casos
essenciais, já por receio até de serem presos e perseguidos. O que eles mais
usam são as igrejas, frequentam muitas entidades e comunidades criadas e
mantidas por eles lá fora.
Além de
trabalharem, consomem. E o interessante é que muitos ainda, com a expectativa
de conseguir documentação, pagam os impostos. Então, transformar esse
trabalhador em criminoso é algo realmente assustador, cria um império do medo.
·
A
política antimigratória de Trump, além e criminalizar, desumaniza e estigmatiza
os imigrantes?
Sueli
Siqueira - Então, esse discurso dele é de ódio. O grande problema é a
forma como tudo está sendo conduzido, tanto a manifestação como na ação. É
praticamente uma autorização para a xenofobia. Acho que essa é
principal diferença agora em relação às deportações, que sempre existiram,
inclusive no primeiro mandato de Trump. Isso estigmatiza de formal geral
os estrangeiros.
Fiz
algumas entrevistas com os brasileiros que estão lá. Relatam exatamente isso,
do nada, alguém passa por eles, e por perceber que são estrangeiros,
independente de saber se têm documentação ou não, escutam xingamentos, ofensas,
hostilidades.
·
O
republicano se elegeu com a promessa de deportar até um milhão de imigrantes
por ano. Os imigrantes ajudaram a construir os EUA, e qual deve ser o impacto
disso na economia americana?
Sueli
Siqueira – Conversei com um proprietário de restaurante americano depois
dos primeiros episódios, ele me disse que está fechado porque não tem
trabalhador nem cliente. Deste jeito, isso pode provocar logo uma forte crise
de inflação, porque vai faltar mão de obra.
Mas,
acima da quantidade e o impacto das deportações, há um claro desrespeito aos
direitos humanos, dos quais os EUA são signatários. O primeiro mandato de Trump nem foi o
período em que teve mais deportações, entretanto, houve reação dos organismos
internacionais em relação ao desrespeito às condições humanas na época, e ele
mudou a estratégia. Agora sequer a gente tem observado uma reação mais efetiva
das entidades externas, diante dos abusos e ofensiva. Esse freio precisa
funcionar, caso contrário, está se autorizando os absurdos cometidos.
Lógico
se alguém cometeu um crime tem que ser preso e pagar por isso. Mas, desta vez,
essa separação não está sendo feita, pelo contrário, crianças e famílias que
foram buscar uma vida melhor, estão todos sendo colocados no mesmo barco e
tratados como criminosos. Isso é cruel e, no fundo, só favorece a quem de fato
cometeu algum ilícito.
Essa
ideia de os mandar para uma prisão de alta segurança em Cuba, que surgiu
por último, é terrível para a grande maioria que são apenas trabalhadores. Além
do mais, mesmo quem cometeu algum crime tem direito a condições dignas.
·
Qual
é o perfil dos imigrantes?
Sueli
Siqueira - O imigrante brasileiro é um trabalhador, uma pessoa que vai com
o objetivo de trabalhar, que inicialmente projeta retornar à medida que as
coisas vão mudando, melhorando. E, muitas vezes, ele se integra a uma
comunidade brasileira nos EUA, em famílias transnacionais, ali começa a
mudar esse projeto e, ao final, não retornar mais.
Todavia,
nos últimos anos, houve uma mudança no perfil. As pessoas vendem tudo o que tem
aqui e vão para lá com o objetivo de permanecer e de criar os seus filhos, ter
uma vida em outro país. Os projetos vão mudando, mas são trabalhadores.
Por
outro lado, é curioso que o discurso de criminalização ganha ressonância. Há
poucos dias escutei de um brasileiro aqui: “ah, mas tem muitos criminosos lá,
inclusive pessoas do PCC”. Perguntei, mas de onde você tirou isso? Onde
você pegou esse dado? “Ah, eu ouvi falar”.
Ou
seja, esse discurso vai se transformando e ampliando, mesmo sem nenhuma base
nem dado. Então, é só pensar, por exemplo, esses que vieram agora, quando
alguém tem algum um crime no Brasil, a Polícia Federal é
informada e, ao descer, ele imediatamente é preso porque tem uma dívida com as
leis brasileiras.
Não
teve nenhum brasileiro nessa condição naquele voo, no dia 25 de janeiro, em que
aconteceram todos esses abusos e maus-tratos. Então, criminosos por quê? Eles
desobedeceram a uma norma do Estado americano, estavam lá sem a documentação
(Hoje cerca de 11 milhões de imigrantes estão
nestas condições nos EUA). Mas trabalhando, ganhando a vida.
·
O
republicano quer retirar o jus solis (direito de solo, que
garante ao indivíduo o direito à nacionalidade de onde nasceu) para acabar com
o "turismo de nascimento". Qual o efeito disso?
Sueli
Siqueira – Ele não tem poder de mudar a Constituição. Aquele
documento que assinou não tem efeito, precisa passar pelo Congresso. É uma
bravata, uma jogada política, por ora. Mais uma ação para aumentar o império do
medo.
A mesma
coisa vale para outras medidas, como tomar territórios e baixar a inflação,
isto não funciona por decreto, depende de uma série fatores internacionais,
inclusive. O único campo em que o presidente tem maior autonomia de agir de
inédito é a imigração, por isso todo esse apelo e extremismo. Além disso, tem
toda uma questão midiática internacional que ele está usando e aproveitando
politicamente.
·
As
políticas anti-imigração funcionam a longo prazo?
Sueli
Siqueira - Não se sustenta, principalmente se a economia voltar a crescer.
Quem vai fazer os serviços nos setores
de estética, hotelaria, alimentação, construção civil, se
não tiver mais os estrangeiros. Ou seja, quem vai dar conta desse trabalho
secundário, esse nicho de mercado.
Hoje há
uma baixa no crescimento da economia americana. Conheço imigrantes, que no
passado, ganhavam 25 a 30 dólares por hora de trabalho, agora caiu pela metade.
Quando a economia dos EUA voltar a
crescer, essa mão de obra vai ser fundamental. E não estou só falando
dos brasileiros, que nem são os em maior número, mas dos milhões de
imigrantes que há por lá.
·
Essa
política antimigratória de extrema-direita, usar o estrangeiro como bode
expiatório, tem ressonância também na Europa?
Sueli
Siqueira - É uma realidade ampla, sim, deste campo de
colocar os imigrantes como responsáveis por todos os males. A gente tem visto
isso na Europa também. Em Portugal, um país sempre muito amistoso, viu-se
agressões e ofensas a brasileiros no aeroporto.
Da
mesma forma na Irlanda e na Alemanha, onde teve casos de
hostilidade e manifestação de ódio contra os imigrantes, até chegando a
agressões físicas. Nunca houve isso dessa forma, é uma realidade construída e
provocada por este radicalismo de políticas de extrema-direita. Esses países
sempre foram acolhedores, agora nutrem esse sentimento de ódio contra os não
nativos.
·
O
Estado e o governo brasileiro estão preparados para receber os repatriados?
Sueli
Siqueira – De forma geral, diria que não. Mas há uma coisa apositiva que
agora se começa a pensar mais neste tema, a despeito da deportação sempre ter
existido. Precisam ter um centro de acolhimento dos deportados, assim como tem
para os imigrantes estrangeiros que vêm para cá.
Além
disso, é preciso estruturar uma política de assistência psicológica para essas
famílias, nos estados e municipais para onde elas vão viver no final. Conheço
pessoas que sequer puderam ir para casa pegar seus documentos, pertences mais
básicos. Outras tinham juntado dinheiro de dois anos de trabalho e guardado.
Tudo ficou para trás, porque foram atacadas quando estavam na igreja,
na escola, no hospital, no trabalho ou na rua.
Isso é
terrível, drástico. Elas precisam de uma política de apoio psicológico e material para
recomeçarem suas vidas. Então os prefeitos precisam de algum programa para
ajudar essas pessoas, até por que a migração sempre existiu e vai continuar a
existir. Agora há uma situação mais aguda apenas.
·
Como
avalia a reação e postura do presidente da Colômbia Gustavo Petro?
Sueli
Siqueira – Governos não têm como negar receber seus cidadãos, o que devem
é questionar e negociar a forma e as condições de fazer isso. Acho que o
governo brasileiro agiu muito bem diante da situação, de forma soberana.
Já o
governo colombiano acabou tendo uma reação mais enérgica, o que avalio positivo
porque teve uma grande repercussão internacional, mostrando altivez de um
governo latino-americano. Claro, questionando a condição desumana das
deportações. No final, recebeu os cidadãos como tem que ser.
Fonte:
Por Kevin Clarke, para America/IHU
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