O
caso de amor gay por trás de crise na monarquia britânica no século 14
No
início de março, em Stratford-upon-Avon, na Inglaterra, a mundialmente famosa
Companhia Real de Shakespeare (RSC, na sigla em inglês) lançou uma nova
produção da peça teatral Edward II,
de Christopher Marlowe (1564-1593).
Esta
influente obra do século 16 sobre um monarca queer perseguido, apesar de
ter sido escrita há mais de 430 anos, mantém notável relevância até hoje.
Marlowe retrata um rei cuja autoridade e capacidade de governar é
definitivamente prejudicada pelo seu relacionamento com outro homem.
Atualmente,
os monarcas britânicos detêm apenas poder cerimonial, mas a homossexualidade
declarada na família real britânica permanece
extremamente rara.
Apenas
Lorde Ivar Mountbatten, primo em segundo grau do rei Charles 3º, que disputa no
momento o reality show americano The Traitors, é considerado "o
primeiro membro da realeza declaradamente gay".
A peça
de Marlowe dramatiza as dificuldades do rei Eduardo 2º da Inglaterra
(1284-1327), personagem histórico que reinou entre 1307 e 1327.
Ele
sucedeu seu pai, Eduardo 1º, e se casou um ano depois com a filha do rei da
França, Isabella (1295-1358). A intenção era tentar fortalecer as relações
entre os dois países.
A
rainha deu à luz quatro filhos de Eduardo 2º e se tornou uma figura notável de
pleno direito. Ela costuma ser chamada de "loba da França".
Mas, na
verdade, a peça de Marlowe se concentra no controverso relacionamento do rei
com seu "favorito", Piers Gaveston (c.1284-1312), conde da Cornualha
– e como este relacionamento gerou uma crise constitucional, da qual o rei
nunca conseguiu se recuperar.
O
dramaturgo não afirma, em nenhum ponto da obra, que os dois homens eram
amantes. Mas as entrelinhas queer na peça são pouco sutis.
Em uma
das cenas, depois que se reúne com seu favorito, Eduardo suplica para que ele
"não beije minha mão, [mas sim] me abrace, Gaveston, como faço com
você". Em outra, Isabella lamenta o fato de que "o rei não olha para
mim, mas se dedica ao amor de Gaveston".
Somente
um leitor deliberadamente obtuso do texto de Marlowe poderia ignorar as
insinuações de que aqueles dois homens eram mais do que simples amigos.
- Eduardo 2º era
gay?
Desde
que foi escrita, a peça de Marlowe ajudou a consolidar a discutível – mas não
totalmente enganosa – reputação de Eduardo 2º como "o rei gay".
Resumidamente,
nunca conseguiremos saber ao certo se Eduardo 2º teve um relacionamento amoroso
e/ou sexual com algum dos seus favoritos. Mas, quando a peça foi apresentada
pela primeira vez, em 1592, ela abriu o caminho para que os historiadores
pudessem discutir abertamente a homossexualidade do monarca.
"O
primeiro texto a acusar Eduardo de algum tipo de transgressão sexual foi
escrito mais ou menos na época em que Gaveston foi assassinado [1312]",
conta à BBC o historiador Kit Heyam, autor do livro The Reputation of Edward
II, 1305-1697 ("A reputação de Eduardo 2º, 1305-1697", em tradução
livre).
O texto
conta que, "no princípio do reinado de Eduardo, havia 'muita libertinagem
praticada habitualmente'", segundo o escritor.
No
linguajar da época, "libertinagem" costumava descrever qualquer tipo
de comportamento sexual "pecaminoso", segundo a moral da Igreja
Católica, que detinha então a autoridade religiosa na Inglaterra.
"O
texto parece sugerir que este comportamento, agora, iria terminar, com a morte
de Gaveston", explica Heyam, "mas ele não afirma que a transgressão
sexual, na verdade, era entre Gaveston e o rei."
Conforme
passavam os séculos após a morte de Eduardo 2º, os escritores corriam cada vez
menos riscos ao insinuar que Eduardo 2º pode ter sido sexualmente transgressor
– até que a invenção da imprensa, no século 15, liberou as insinuações.
"Os
escritores produziam textos sensacionalistas para torná-los comercialmente mais
atraentes", prossegue Heyam. "Por isso, eles começaram a afirmar que
Eduardo 2º definitivamente era transgressor sexual e, com certeza, por culpa
dos seus favoritos."
"Mas
Marlowe foi o primeiro a unir os pontos e declarar que Eduardo 2º realmente
dormia com eles."
O ator
e um dos diretores artísticos da RSC, Daniel Evans, interpreta Eduardo 2º na
nova produção. Ele acredita que a peça de Marlowe continua parecendo
"radical", em 2025.
O
diretor Daniel Raggett foi quem despertou seu interesse em revivê-la. Ele
apresentou uma questão hipotética "provocadora", que destaca a
duradoura relevância da peça.
"O
que aconteceria se o nosso rei atual, Charles 3º, dissesse de repente: 'Sei que
sou casado há algum tempo, mas, na verdade, gostaria de ter alguém chamado
Colin ao meu lado, não Camilla'?"
A
declaração talvez não causasse uma guerra civil, como ocorre com o
relacionamento de Eduardo com Gaveston na peça de Marlowe. Mas Evans se
pergunta como a "sociedade supostamente liberal e permissiva" de hoje
em dia aceitaria esta questão.
"A
homofobia está enraizada e ainda existe", explica ele, "e toda a
noção da família real britânica, sua linhagem e seus herdeiros, depende muito
de uma estrutura familiar heteronormativa."
Evans e
Raggett também foram surpreendidos pelo ressurgimento da peça no final do
século 20, indissociavelmente relacionado ao florescente movimento pelos
direitos LGBTQIA+.
O chefe
de pesquisa do teatro Shakespeare's Globe de Londres, Will Tosh, é o autor do
livro Straight Acting: The Many Queer Lives of William Shakespeare
("Atuação hétero: as muitas vidas queer de William Shakespeare", em
tradução livre).
Ele
afirma que a peça de Marlowe "não tem um histórico de apresentações
extensamente longo", fora da época em que foi escrita.
Tosh
indica que, nos séculos 18 e 19, ela essencialmente foi "para a
geladeira", já que a ideia de um monarca que tivesse um amante teria sido
execrada pelo público conservador das eras georgiana e vitoriana.
O
renascimento da peça na segunda metade do século 20 reflete um
"comportamento mais curioso e menos crítico em relação à intimidade
queer", segundo ele.
- Rompendo os
limites
Em
1969, dois anos depois da descriminalização da homossexualidade masculina na
Inglaterra e no País de Gales (mas 11 anos antes da mesma medida ser tomada na
Escócia), o ator Ian McKellen interpretou Eduardo 2º em uma produção da
Companhia de Teatro Prospect, em uma turnê pelo Reino Unido.
O ator
neozelandês James Laurenson (1940-2024) interpretou Gaveston e o beijo entre
ambos no palco causou controvérsias quando a produção chegou à capital
escocesa, Edimburgo.
"O
falecido vereador John Kidd ficou ofendido com esta exibição de afeição
masculina, particularmente porque ela teve lugar em um palco construído no
salão de reuniões da Igreja da Escócia", relembra McKellen no seu website.
Dois
policiais locais foram destacados para assistir à produção, mas, segundo
McKellen, eles "não viram problemas" com seu conteúdo e aquela breve
confusão "garantiu casas cheias durante a turnê".
A BBC
transmitiu a produção um ano depois e fez história com a exibição do primeiro
beijo entre pessoas do mesmo sexo na história da televisão britânica.
Em uma
entrevista de 2017, McKellen declarou que a produção da companhia Prospect
também causou profundos impactos entre "muitos, muitos americanos"
que assistiram à apresentação na rede pública americana PBS.
"Eles
viram dois homens se beijando pela primeira vez na vida e não conseguiam
acreditar, mas acabaram se tranquilizando com aquilo", segundo ele.
A peça
teve seu lugar consolidado no cânone queer pela sua adaptação para o cinema em
1991. A direção ficou a cargo do artista e ativista dos direitos LGBT Derek
Jarman (1942-1994).
O filme
apresenta uma mistura deliberadamente anacrônica de cenas, roupas e cenários
modernos e medievais. Ele recorre ao homoerotismo de Marlowe, reformulando a
história no contexto do movimento contemporâneo pelos direitos LGBTQIA+.
O ator
Andrew Tiernan interpreta Gaveston, que é torturado pelas suas transgressões,
enquanto Jarman mostra confrontos entre a polícia e ativistas do grupo de
direitos LGBT OutRage!.
Um ano
antes do filme de Jarman, a RSC encenou a peça de Marlowe, com Simon Russell
Beale no papel principal.
A
professora Angela K. Ahlgren, no seu ensaio de 2011 Performing Queer Edward II
in the 1990s ("Interpretando o queer Eduardo 2º nos anos 1990", em
tradução livre), defende que o filme de Jarman e a reapresentação da peça pela
RSC na mesma época "refletem noções queer que circulavam nos anos 1990,
pois eles encenam violência, desejo pelo mesmo sexo e referências a questões de
políticas gay contemporâneas".
Naquela
época, a epidemia de HIV/AIDS devastou a população de homens gay em todo o
mundo. E os ativistas do Reino Unido protestavam contra o Capítulo 28, uma lei
que proibia a suposta "promoção da homossexualidade" nas escolas e
conselhos locais.
A lei
foi criada em 1988, pelo governo conservador da então primeira-ministra
britânica Margaret Thatcher (1925-2013), após uma onda crescente de sentimento
antigay na imprensa do país.
- Fato vs. ficção
Ainda
assim, a peça de Marlowe nunca deverá ser considerada uma obra de cunho
histórico.
Para
Tosh, a "principal inovação dramática" do roteiro é transformar o
relacionamento entre o rei e Gaveston o "drama central" da vida de
Eduardo 2º, "comprimindo a linha do tempo".
Na
verdade, o rei cultivou relacionamentos com outros favoritos altamente
influentes, depois do assassinato de Gaveston, em 1312 – apenas no quinto ano
do seu reinado, que durou 19 anos. Mas Marlowe retrata sua ligação com Gaveston
como sendo, de longe, seu relacionamento emocionalmente mais significativo.
"Após
a morte de Gaveston na peça, Eduardo invoca sua memória para justificar todas
as suas ações", conta Tosh. "E, depois, quando Eduardo é preso e
maltratado, ele invoca novamente o nome de Gaveston como súplica de
salvação."
É claro
que a peça de Marlowe também nos convida a fazer sérias suposições sobre a
natureza do relacionamento entre os dois homens.
A
historiadora Kathryn Warner, autora do livro Edward II: The Unconventional King
("Eduardo 2º: o rei não convencional", em tradução livre), afirma que
nunca saberemos ao certo o que Eduardo 2º sentia em relação a Gaveston e seus
outros favoritos, já que o rei não manteve um diário, nem escreveu cartas
pessoais.
"Tudo
o que temos são as palavras de terceiros, que obviamente estão abertas para
interpretação", segundo ela.
Mas,
como ele foi pai de uma criança ilegítima com uma mulher desconhecida, a
sexualidade de Eduardo 2º, muito provavelmente, era mais complicada do que pode
sugerir sua reputação como "rei gay".
"Acho
que, em termos puramente físicos, provavelmente podemos chamá-lo mais de
bissexual do que de gay", afirma Warner. "Mas, emocionalmente, penso
que ele provavelmente foi gay, devido à sua enorme proximidade com seus
favoritos."
Esta
proximidade, com quase total certeza, foi responsável pela sua queda. Segundo
Heyam, o erro fundamental de Eduardo ao longo do seu reinado foi conceder poder
demais aos seus favoritos.
"Ele
não percebeu que ser rei da Inglaterra no século 14, em grande parte, é um
trabalho de gerente", afirmam eles. "Eduardo precisava agradar
diversos nobres poderosos, mas, quando concedeu a Gaveston o poder sobre eles,
o rei os deixou furiosos."
Depois
que Gaveston foi assassinado por um grupo de barões rivais em 1312, Eduardo 2º
cometeu o mesmo erro com Hugh Despenser, o Jovem (1286-1326), descrito por
Warner como "o último e mais poderoso" dos seus favoritos.
É
preciso observar que Despenser só é mencionado na peça de Marlowe como um
personagem relativamente pequeno, chamado Spencer. Ele é essencialmente um
substituto de Gaveston após a sua morte. Mas o Despenser da vida real teve
influência muito maior.
Em
1324, em meio às crescentes tensões com a França, ele começou a exercer essa
influência contra a rainha Isabella, devido às suas origens francesas.
Isabella
contra-atacou com o apoio do seu próprio favorito, Roger Mortimer (1287-1330),
o que levou à execução de Despenser, em 1325. Eduardo 2º foi forçado a abdicar
do trono no ano seguinte.
"Se
ele tivesse simplesmente mantido sua vida pública e privada em separado,
provavelmente, teria ficado bem", afirma Heyam.
Na peça
de Christopher Marlowe, o ex-soberano é morto por ordem de Mortimer, com um
atiçador de brasas quente no ânus.
Mas
Warner explica que a noção de que Eduardo 2º teria sido assassinado desta forma
é "quase com certeza um mito", que Marlowe não inventou, mas
certamente ajudou a "popularizar".
Mais de
430 anos depois, a imagem permanece chocante, com grosseiras implicações
homofóbicas. Mas, mesmo se a cena do atiçador for apócrifa, a peça ainda tem
muito a dizer sobre as consequências da intolerância.
Quando
Eduardo se queixa ao ser forçado a "deixar meu Gaveston", o conde de
Lancaster desaprova ironicamente, dizendo: "Diablo, que paixões levam você
a isso?" E o uso da palavra "diabo" em espanhol certamente não é
por acaso.
"Espero
que o público que assistir à peça pense profundamente no que acontece quando
você tenta proibir o amor e sublimar a forma natural de ser de uma
pessoa", explica Evans. "O ciclo decorrente de violência sem fim traz
algo que todos nós podemos aprender hoje em dia."
Fonte: BBC Culture
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