terça-feira, 25 de março de 2025

61 anos do Comício da Central: o último ato de Jango antes do golpe

Há 61 anos, em 13 de março de 1964, ocorria no Rio de Janeiro o Comício da Central (ou Comício das Reformas). A enorme manifestação popular visava demonstrar apoio às reformas de base propostas pelo presidente João Goulart, voltadas ao combate à concentração fundiária e redução da desigualdade social.

Reunindo cerca de 300 mil pessoas, o comício alarmou os setores conservadores, que reagiram incentivando o recrudescimento da articulação golpista. Poucas semanas depois, Goulart seria derrubado por um golpe militar.

  • Jango e a oposição golpista

Em agosto de 1961, menos de sete meses após sua posse como Presidente da República, Jânio Quadros renunciava ao cargo e inaugurava um período de grande agitação política no Brasil. À época, as eleições presidenciais não eram disputadas por chapas vinculadas, existindo votação separada para os cargos de presidente e vice-presidente.

O líder trabalhista João Goulart (vulgo Jango) havia sido reeleito vice-presidente no pleito de 1960, sendo, portanto, o sucessor legal de Quadros. Mas, ao contrário de Quadros, ferrenho anticomunista e defensor de pautas conservadoras, Goulart era herdeiro da tradição nacional-desenvolvimentista, possuindo vínculos com o movimento sindical e com a esquerda nacionalista.

Incomodada com a possibilidade de um presidente ligado à esquerda assumir a presidência, a cúpula dos militares tentou impedir sua posse, mas foi confrontada pela Campanha da Legalidade liderada por Leonel Brizola.

Vislumbrando o risco de guerra civil, o ex-presidente Juscelino Kubitschek costurou um meio termo – Goulart assumiria a presidência, mas teria seus poderes limitados pela mudança do regime de governo para o parlamentarismo. Goulart aceitou a condição e tomou posse em 8 de setembro de 1961.

A medida não bastou para acalmar os setores reacionários da sociedade. Incomodados com o discurso de Jango sobre a necessidade de combater privilégios e modernizar as estruturas sociais arcaicas, empresários, religiosos, parlamentares, imprensa e o oficialato militar se uniram em uma campanha de desestabilização do governo, auxiliados por think tanks ligados ao governo dos Estados Unidos, como o IBAD e o IPÊS.

Utilizando-se do fantasma da “ameaça comunista”, do discurso moralizante de combate à corrupção e de uma alegada “defesa da família e da liberdade”, o discurso antigovernista tornou-se gradualmente mais agressivo até assumir explicitamente seu intento golpista.

Não obstante, Goulart, mesmo limitado e sabotado pelo congresso, logrou aprovar projetos que lhe granjearam popularidade, tais como a Lei 4.090, que criou o 13º salário, e a Lei 4.130, que extinguiu a idade mínima para aposentadoria.

Em janeiro de 1963, Goulart convocou plebiscito para que a população decidisse sobre a forma de governo. A maioria esmagadora dos eleitores (85%) optou pelo presidencialismo, revestindo Goulart de plenos poderes executivos.

  • As Reformas de Base

Superada a tutela imposta pelos militares, Goulart começou a avançar sua agenda progressista. Em março de 1963, ele promulgou o Estatuto do Trabalhador Rural, regulando as relações de trabalho no campo.

No mesmo ano, Goulart elaborou, com a ajuda dos ministros San Tiago Dantas e Celso Furtado, o Plano Trienal — um projeto desenvolvimentista aliando controle de déficit público e estratégias de captação de recursos para financiar reformas estruturais, ditas “reformas de base”.

O projeto incluía seis reformas principais. A reforma agrária intencionava desapropriar latifúndios improdutivos situados às margens dos leitos rodoviários e ferroviários. A a reforma educacional previa a erradicação do analfabetismo por meio da adoção do método Paulo Freire e priorização do magistério. A reforma fiscal visava criar um sistema de tributação progressiva proporcional à renda e limitar a remessa de lucros para o exterior.

Havia ainda a reforma eleitoral, que estendia o direito de voto aos analfabetos e militares de baixa patente e legalizava a atuação do Partido Comunista Brasileiro (PCB); a reforma urbana, que previa o fornecimento de habitação condigna a todas a famílias; e a reforma bancária, que assegurava acesso ao crédito para pequenos produtores.

Goulart também propôs a nacionalização de setores estratégicos da economia, incluindo parte da indústria de base, produção de energia elétrica, refino de petróleo, companhias químicas e farmacêuticas.

As reformas propostas indignaram as elites e os militares, que instaram os congressistas a rejeitarem integralmente o Plano Trienal. Goulart tentou então costurar uma aliança parlamentar entre o seu Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Social Democrático (PSD) de Juscelino Kubitschek e cooptar apoio das esquerdas para uma estratégia de mobilização popular.

A aliança com o PSD seria breve, mas o líder trabalhista conseguiu o apoio de organizações como o Partido Comunista Brasileiro, o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) e a Frente de Mobilização Popular (FMP).

  • O comício

Como parte da estratégia de mobilização, Goulart propôs a organização de uma série de comícios em diferentes regiões do país, culminando com uma greve geral que seria decretada no dia 1º de maio de 1964, com o objetivo de pressionar o congresso a aprovar as reformas de base.

O maior e mais importante desses comícios foi realizado no Rio de Janeiro, no dia 13 de março de 1964, em frente à estação ferroviária Central do Brasil. O comício reuniu aproximadamente 300 mil pessoas, contando com a presença expressiva de sindicatos e organizações de esquerda, estudantes, movimentos sociais e militares de baixa patente.

No palanque principal estavam Leonel Brizola, deputado do PTB, Miguel Arraes, governador de Pernambuco, Darcy Ribeiro, ministro da Casa Civil e José Serra, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Brizola foi o mais aplaudido, fazendo um discurso inflamado em que exortava Goulart a abandonar a política de conciliação e instalar “uma Assembleia Constituinte com vistas à criação de um Congresso Popular”.

Já era noite quando Goulart subiu ao palanque acompanhado da esposa, Maria Thereza, e fez um discurso de improviso que durou mais de uma hora. Goulart criticou a “democracia antipovo” subordinada aos monopólios nacionais e internacionais, defendeu a revisão da Constituição de 1946 e a necessidade de aprovar as reformas agrária, tributária e eleitoral para pavimentar o caminho da emancipação econômica, do progresso e da justiça social no Brasil.

Durante o ato, Goulart anunciou que havia assinado dois decretos. O primeiro autorizava a desapropriação dos lotes de terra improdutivos lindeiros às ferrovias, rodovias e açudes federais e os direcionava para a reforma agrária. O segundo nacionalizava as refinarias particulares de petróleo.

No dia seguinte, Goulart assinaria um terceiro decreto, tabelando o preço dos aluguéis e imóveis e autorizando a desapropriação de imóveis vazios ou abandonados para fins de utilidade social.

A reação foi imediata. O histriônico Carlos Lacerda, governador da Guanabara, classificou o comício como “um ataque à Constituição e à honra do povo” e o discurso do presidente como “subversivo e provocativo”.

Menos de uma semana depois do ato, organizações reacionárias organizaram a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, contrapondo-se às reformas e clamando abertamente pela deposição de Goulart.

O general Humberto Castelo Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, enviou uma circular aos militares advertindo sobre os perigos do “comunismo”. Poucos dias depois, João Goulart seria deposto no golpe de Estado que instaurou a ditadura empresarial-militar que se prolongaria até meados dos anos oitenta no Brasil.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

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