quarta-feira, 26 de março de 2025

Está na hora de começar a tirar da cara deles aquele risinho cínico de nós

Nos ataques do 8/1, o edifício-sede do Supremo Tribunal Federal foi o mais destruído entre as sedes dos Três Poderes.

Em resposta, a então presidenta do STF, Rosa Weber, disse pisando ainda sobre os destroços que o tribunal estaria pronto para a abertura do ano judiciário poucas semanas depois, no dia 1º de fevereiro de 2023. E assim foi, num esforço para demonstrar força, resiliência, diante da tentativa de golpe de Estado.

Outro esforço neste sentido veio um pouco mais tarde, com o lançamento pelo STF da campanha Democracia Inabalada, que incluiu um documentário com o mesmo nome.

“A gente se viu aqui com três mil, quatro mil pessoas chegando no Supremo Tribunal Federal. E a gente viu que existia um treinamento e uma coordenação entre eles. A gente tá falando de pessoas que tinham escudos para se proteger de elastômero, que são balas de borracha, vários utilizando máscara contra gás, que a gente utilizava gás contra eles, e diversas outras atitudes que eles tomaram, de conhecimentos de certos locais do Supremo Tribunal Federal, que nos fazem ter a certeza de que eles têm um treinamento diferenciado e que eles vieram com planejamento feito para poder invadir as três casas dos poderes”, disse no documentário o secretário de segurança do STF, Marcelo Schettino.

Também no documentário, o diretor-geral do STF, Miguel Piazzi, contou que no 8/1, quando os voluntários civis de Bolsonaro e do bolsogolpismo militar começaram a atacar o STF, ele mandou um segurança correr até o anexo II do prédio do Supremo para arrancar as placas de identificação dos gabinetes dos ministros, “em razão de provável alvo do ministro x ou do ministro y”.

Sabemos bem quem era o x, o y e o z.

Há – e já havia ali – um ponto de convergência entre as percepções de golpistas e democratas deste país: não fosse a presença de Alexandre de Moraes no STF, dificilmente a reação ao golpismo, desde antes do 8/1, teria o mesmo nível de vigor que ora desemboca no início do julgamento de Jair Bolsonaro e altos comparsas, neste 25 de março de 2025, dia de começar a tirar da cara deles aquele risinho cínico de nós.

(A presença de Moraes no STF, ela mesma, é fruto direto de um golpe de Estado, o que só reforça a conhecida tese do talento extraordinário do roteirista do Brasil, Mas isso hoje é isso mesmo: só um parêntese).

“Tire esse risinho da cara!”, fala grosso, grita um um assistente do promotor Richard Scruggs, numa cena de tribunal do filme O informante, quando um advogado das tabaqueiras – as embusteiras e assassinas tabaqueiras -, desdenha da tentativa do Estado do Mississippi de levá-las ao tribunal.

A ameaça de outra anistia ainda paira sobre o Brasil, mas nesta terça-feira, daqui a pouco, as placas de identificação dos ministros estarão em seus devidos lugares na tribuna da 1ª Turma do STF.

Hoje é dia daquele risinho chorar.

¨      Fazer Bolsonaro réu é uma coisa, desatar o nó de 2026 é outra coisa. Por Josias de Souza

Em público, Bolsonaro declara-se inocente. Quando os refletores se apagam, reconhece que sua presunção de inocência ficou gasta. Juridicamente, está jurado de morte. Para se manter politicamente vivo, administra como estorvo um espólio disputado por um herdeiro de espírito e outro de sangue.

“Não vou passar o bastão para ninguém”, disse Bolsonaro para Tarcísio de Freitas, na véspera de sua estreia no cadafalso do Supremo. Trama levar sua candidatura fake até agosto de 2026, para entregar o bastão a Eduardo Bolsonaro, dois meses antes da eleição, como fez Lula com Fernando Haddad em 2018.

PIOR DO QUE NUNCA 

No Brasil, quem espera o pior costuma surpreender-se. O que vem é quase sempre pior do que o esperado.

Num julgamento com cheiro de história, o Supremo transformará Bolsonaro em réu. Próximo das grades, o “mito” não deveria servir nem para guia de cegos. Mas os devotos insistem em tratá-lo como guia dos povos.

Transformar Bolsonaro em réu é uma coisa. Desatar o nó político de 2026 é outra coisa muito distinta. Com o “mito” inelegível e preso, a direita teria a oportunidade de se endireitar.

REFÉM DE BOLSONARO 

Tarcísio, que se imaginava um conservador de bons modos, capaz de comer de garfo e faca, apodrece como refém antes de amadurecer como opção.

Lula viaja para o Japão com a comitiva apinhada de centrão e tem dificuldade para dialogar com o eleitor de direita, sem o qual não teria obtido a pequena margem de votos que lhe assegurou um terceiro mandato em 2022.

A frente ampla virou farelo. Nesse ambiente, a próxima sucessão pode produzir mais um vitorioso sem eleger um presidente.

¨      ‘A outra anistia’. Por Hugo Souza

Nesta terça-feira, 25, ou no máximo na quarta, o STF deve tornar réus por tentativa de golpe de Estado os seguintes denunciados pelo Ministério Público: o ex-capitão e ex-presidente Jair Bolsonaro; os três generais quatro estrelas Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio; um tenente-coronel do Exército, Mauro Cid; e um almirante de esquadra, Almir Garnier, além do ex-ministro da Justiça Anderson Torres e do ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem, hoje deputado federal.

Enquanto viram réus no STF, contam votos no Congresso para o seu projeto de anistia, esses verdadeiros filhotes da Lei de Anistia de 1979 e da sua interpretação/aplicação que prevaleceu até agora. Um nova anistia que, se aprovada, “será o 1º ato da retomada do país pela extrema-direita. Com ganas de vingança”, como escreveu Janio de Freitas na semana passada.

Nesta véspera do início julgamento de Bolsonaro et caserna no Supremo, convém lembrar de outra anistia, além da Lei 6.683/1979, também imbricada com o golpismo e os golpistas atuais. “A outra anistia”. Este é o nome do nono capítulo do livro  Poder camuflado: os militares e a política, do fim da ditadura à aliança com Bolsonaro (Companhia das Letras, 2022), do jornalista Fabio Victor.

“Como um capitão que por alguns anos foi considerado indigno da farda pela alta oficialidade do Exército acabaria ungido como líder pelo mesmo grupo que o deplorava?”, indaga Fabio Victor, referindo-se às turras entre Bolsonaro e grão-milicos na década de 1980, especialmente com o ministro do Exército no governo Sarney, o general Leônidas Pires Gonçalves, e principalmente após Bolsonaro planejar uma campanha por aumento dos soldos na base de atentados terroristas.

O livro de Fabio Victor mostra que a “jornada rumo à anistia” de Bolsonaro se inicia ainda nos anos 1990, quando o então major Paulo Chagas começa a buzinar nos ouvidos do à época ministro do Exército, Zenildo Lucena, que as reivindicações do deputado federal no Congresso iam ao encontro de desejos do generalato.

(Décadas depois, em abril de 2018, em outra véspera de julgamento decisivo do STF – o do habeas corpus de Lula – , o general da reserva Paulo Chagas disse que tinha “a espada ao lado, a sela equipada, o cavalo trabalhado” quando o então comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, ameaçou publicamente o Supremo, contra a liberdade de Lula).

Em 1998, no âmbito da sua “jornada ruma à anistia”, Bolsonaro foi a voz na Câmara do generalato contrário à criação do Ministério da Defesa. Depois, já nos anos 2000, Bolsonaro vocalizou na Câmara a resistência dos militares a serem incluídos na reforma da Previdência do governo Lula I.

“O governo Lula – escreve Fabio Victor – chegou a considerar acabar com o regime diferenciado de seguridade social para integrantes das Forças Armadas, mas, ante a chiadeira dos fardados, recuou. Na tribuna, o capitão reformado compartilhou com um colega parlamentar uma mudança de ventos:”

“Deputado Professor Irapuan Teixeira, tive a honra de ser convidado, pelo comandante do Exército, para entrega de espadins, na Academia Militar de Resende, onde estive no sábado. Foi a 15ª solenidade consecutiva a que compareci. Na maioria das vezes, não fui convidado por diversos motivos.”

O comandante do Exército que convidou Bolsonaro para o espadim da Aman foi o general Francisco Roberto de Albuquerque. O sucessor de Albuquerque, general Enzo Peri, fez o mesmo. O sucessor de Peri, Villas Bôas, fez o que fez em 2018, entrando de coturno no lawfare contra Lula a fim de tirar Lula do páreo nas eleições daquele ano; a fim de abrir caminho para a eleição de Bolsonaro e, para isso, contando com a ajuda do seu então chefe de gabinete, general Tomás Paiva – atual chefe da Força -, para redigir a ameaça ao STF.

Quatro anos antes, em 2014, foi justamente num espadim da Aman que Bolsonaro falou pela primeira vez em público como candidato a presidente da República. Naquele dia, ele prometeu “virar o país à direita”, em discurso feito aos cadetes nos jardins da Aman, 22 anos depois de Bolsonaro estacionar um chevette azul na frente do Portão Monumental da academia, indignado por ter sido impedido de entrar, justamente em de espadim, e provocando a ira do então ministro do Exército, Carlos Tinoco, que mandou guinchar dali a caranga.

O “lançamento” da candidatura de Bolsonaro ao Palácio do Planalto dentro de uma das mais importantes organizações militares do Exército, sem que fosse impedido – muito menos punido -, aconteceu na esteira da atuação do deputado, ao longo dos anos anteriores, contra a Comissão Nacional da Verdade – desde que Dilma Rousseff designou os sete integrantes da CNV e Bolsonaro afirmou que uma cafetina havia escolhido sete prostitutas para escrever sua biografia.

O comandante da Aman no espadim de 2014 era o general Tomás Paiva, que anos mais tarde viria a sugerir que Villas Bôas escrevesse “repúdio à impunidade” na ameaça ao STF na véspera do julgamento do habeas corpus de Lula.

O general Leônidas morreu no ano seguinte, 2015. Figura legendária entre os militares, ele tinha feito as pazes com Bolsonaro, nos anos 2000, num “movimento muito importante” (como ressalta Fabio Victor) daquela “jornada rumo à anistia”. Quatro anos depois, em 2019, numa cerimônia em Brasília, um recém-empossado presidente Bolsonaro disse assim a outro personagem mítico dos milicos:

“General Villas Boas, o que já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”.

 

Fonte: Come Ananás/UOL

 

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