Está
na hora de começar a tirar da cara deles aquele risinho cínico de nós
Nos
ataques do 8/1, o edifício-sede do Supremo Tribunal Federal foi o mais
destruído entre as sedes dos Três Poderes.
Em
resposta, a então presidenta do STF, Rosa Weber, disse pisando ainda sobre os
destroços que o tribunal estaria pronto para a abertura do ano judiciário
poucas semanas depois, no dia 1º de fevereiro de 2023. E assim foi, num esforço
para demonstrar força, resiliência, diante da tentativa de golpe de Estado.
Outro
esforço neste sentido veio um pouco mais tarde, com o lançamento pelo STF da
campanha Democracia Inabalada, que incluiu um documentário com o mesmo nome.
“A
gente se viu aqui com três mil, quatro mil pessoas chegando no Supremo Tribunal
Federal. E a gente viu que existia um treinamento e uma coordenação entre eles.
A gente tá falando de pessoas que tinham escudos para se proteger de
elastômero, que são balas de borracha, vários utilizando máscara contra gás,
que a gente utilizava gás contra eles, e diversas outras atitudes que eles
tomaram, de conhecimentos de certos locais do Supremo Tribunal Federal, que nos
fazem ter a certeza de que eles têm um treinamento diferenciado e que eles
vieram com planejamento feito para poder invadir as três casas dos poderes”,
disse no documentário o secretário de segurança do STF, Marcelo Schettino.
Também
no documentário, o diretor-geral do STF, Miguel Piazzi, contou que no 8/1,
quando os voluntários civis de Bolsonaro e do bolsogolpismo militar começaram a
atacar o STF, ele mandou um segurança correr até o anexo II do prédio do
Supremo para arrancar as placas de identificação dos gabinetes dos ministros,
“em razão de provável alvo do ministro x ou do ministro y”.
Sabemos
bem quem era o x, o y e o z.
Há – e
já havia ali – um ponto de convergência entre as percepções de golpistas e
democratas deste país: não fosse a presença de Alexandre de Moraes no STF,
dificilmente a reação ao golpismo, desde antes do 8/1, teria o mesmo nível de
vigor que ora desemboca no início do julgamento de Jair Bolsonaro e altos
comparsas, neste 25 de março de 2025, dia de começar a tirar da cara deles
aquele risinho cínico de nós.
(A
presença de Moraes no STF, ela mesma, é fruto direto de um golpe de Estado, o
que só reforça a conhecida tese do talento extraordinário do roteirista do
Brasil, Mas isso hoje é isso mesmo: só um parêntese).
“Tire
esse risinho da cara!”, fala grosso, grita um um assistente do promotor Richard
Scruggs, numa cena de tribunal do filme O informante, quando um
advogado das tabaqueiras – as embusteiras e assassinas tabaqueiras -, desdenha
da tentativa do Estado do Mississippi de levá-las ao tribunal.
A
ameaça de outra anistia ainda paira sobre o Brasil, mas nesta terça-feira,
daqui a pouco, as placas de identificação dos ministros estarão em seus devidos
lugares na tribuna da 1ª Turma do STF.
Hoje é
dia daquele risinho chorar.
¨
Fazer Bolsonaro réu é uma coisa,
desatar o nó de 2026 é outra coisa. Por Josias de Souza
Em
público, Bolsonaro declara-se inocente. Quando os refletores se apagam,
reconhece que sua presunção de inocência ficou gasta. Juridicamente, está
jurado de morte. Para se manter politicamente vivo, administra como estorvo um
espólio disputado por um herdeiro de espírito e outro de sangue.
“Não
vou passar o bastão para ninguém”, disse Bolsonaro para Tarcísio de Freitas, na
véspera de sua estreia no cadafalso do Supremo. Trama levar sua candidatura
fake até agosto de 2026, para entregar o bastão a Eduardo Bolsonaro, dois meses
antes da eleição, como fez Lula com Fernando Haddad em 2018.
PIOR
DO QUE NUNCA
No
Brasil, quem espera o pior costuma surpreender-se. O que vem é quase sempre
pior do que o esperado.
Num
julgamento com cheiro de história, o Supremo transformará Bolsonaro em réu.
Próximo das grades, o “mito” não deveria servir nem para guia de cegos. Mas os
devotos insistem em tratá-lo como guia dos povos.
Transformar
Bolsonaro em réu é uma coisa. Desatar o nó político de 2026 é outra coisa muito
distinta. Com o “mito” inelegível e preso, a direita teria a oportunidade de se
endireitar.
REFÉM
DE BOLSONARO
Tarcísio,
que se imaginava um conservador de bons modos, capaz de comer de garfo e faca,
apodrece como refém antes de amadurecer como opção.
Lula
viaja para o Japão com a comitiva apinhada de centrão e tem dificuldade para
dialogar com o eleitor de direita, sem o qual não teria obtido a pequena margem
de votos que lhe assegurou um terceiro mandato em 2022.
A
frente ampla virou farelo. Nesse ambiente, a próxima sucessão pode produzir
mais um vitorioso sem eleger um presidente.
¨
‘A outra anistia’. Por Hugo Souza
Nesta
terça-feira, 25, ou no máximo na quarta, o STF deve tornar réus por tentativa
de golpe de Estado os seguintes denunciados pelo Ministério Público: o
ex-capitão e ex-presidente Jair Bolsonaro; os três generais quatro estrelas
Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio; um tenente-coronel do Exército,
Mauro Cid; e um almirante de esquadra, Almir Garnier, além do ex-ministro da
Justiça Anderson Torres e do ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem, hoje
deputado federal.
Enquanto
viram réus no STF, contam votos no Congresso para o seu projeto de anistia,
esses verdadeiros filhotes da Lei de Anistia de 1979 e da sua
interpretação/aplicação que prevaleceu até agora. Um nova anistia que, se
aprovada, “será o 1º ato da retomada do país pela extrema-direita. Com ganas de
vingança”, como escreveu Janio de Freitas na semana
passada.
Nesta
véspera do início julgamento de Bolsonaro et caserna no Supremo, convém lembrar
de outra anistia, além da Lei 6.683/1979, também imbricada com o golpismo e os
golpistas atuais. “A outra anistia”. Este é o nome do nono capítulo do
livro Poder camuflado: os militares e a política, do fim da
ditadura à aliança com Bolsonaro (Companhia das Letras, 2022), do
jornalista Fabio Victor.
“Como
um capitão que por alguns anos foi considerado indigno da farda pela alta
oficialidade do Exército acabaria ungido como líder pelo mesmo grupo que o
deplorava?”, indaga Fabio Victor, referindo-se às turras entre Bolsonaro e
grão-milicos na década de 1980, especialmente com o ministro do Exército no
governo Sarney, o general Leônidas Pires Gonçalves, e principalmente após
Bolsonaro planejar uma campanha por aumento dos soldos na base de atentados
terroristas.
O livro
de Fabio Victor mostra que a “jornada rumo à anistia” de Bolsonaro se inicia
ainda nos anos 1990, quando o então major Paulo Chagas começa a buzinar nos
ouvidos do à época ministro do Exército, Zenildo Lucena, que as reivindicações
do deputado federal no Congresso iam ao encontro de desejos do generalato.
(Décadas
depois, em abril de 2018, em outra véspera de julgamento decisivo do STF – o do
habeas corpus de Lula – , o general da reserva Paulo Chagas disse que tinha “a
espada ao lado, a sela equipada, o cavalo trabalhado” quando o então comandante
do Exército, general Eduardo Villas Bôas, ameaçou publicamente o Supremo,
contra a liberdade de Lula).
Em
1998, no âmbito da sua “jornada ruma à anistia”, Bolsonaro foi a voz na Câmara
do generalato contrário à criação do Ministério da Defesa. Depois, já nos anos
2000, Bolsonaro vocalizou na Câmara a resistência dos militares a serem
incluídos na reforma da Previdência do governo Lula I.
“O
governo Lula – escreve Fabio Victor – chegou a considerar acabar com o regime
diferenciado de seguridade social para integrantes das Forças Armadas, mas,
ante a chiadeira dos fardados, recuou. Na tribuna, o capitão reformado
compartilhou com um colega parlamentar uma mudança de ventos:”
“Deputado
Professor Irapuan Teixeira, tive a honra de ser convidado, pelo comandante do
Exército, para entrega de espadins, na Academia Militar de Resende, onde estive
no sábado. Foi a 15ª solenidade consecutiva a que compareci. Na maioria das
vezes, não fui convidado por diversos motivos.”
O
comandante do Exército que convidou Bolsonaro para o espadim da Aman foi o
general Francisco Roberto de Albuquerque. O sucessor de Albuquerque, general
Enzo Peri, fez o mesmo. O sucessor de Peri, Villas Bôas, fez o que fez em 2018,
entrando de coturno no lawfare contra Lula a fim de tirar Lula
do páreo nas eleições daquele ano; a fim de abrir caminho para a eleição de
Bolsonaro e, para isso, contando com a ajuda do seu então chefe de gabinete,
general Tomás Paiva – atual chefe da Força -, para redigir a ameaça ao STF.
Quatro
anos antes, em 2014, foi justamente num espadim da Aman que Bolsonaro falou
pela primeira vez em público como candidato a presidente da República. Naquele
dia, ele prometeu “virar o país à direita”, em discurso feito aos cadetes nos
jardins da Aman, 22 anos depois de Bolsonaro estacionar um chevette azul na
frente do Portão Monumental da academia, indignado por ter sido impedido de
entrar, justamente em de espadim, e provocando a ira do então ministro do
Exército, Carlos Tinoco, que mandou guinchar dali a caranga.
O
“lançamento” da candidatura de Bolsonaro ao Palácio do Planalto dentro de uma
das mais importantes organizações militares do Exército, sem que fosse impedido
– muito menos punido -, aconteceu na esteira da atuação do deputado, ao longo
dos anos anteriores, contra a Comissão Nacional da Verdade – desde que Dilma
Rousseff designou os sete integrantes da CNV e Bolsonaro afirmou que uma
cafetina havia escolhido sete prostitutas para escrever sua biografia.
O
comandante da Aman no espadim de 2014 era o general Tomás Paiva, que anos mais
tarde viria a sugerir que Villas Bôas escrevesse “repúdio à impunidade” na
ameaça ao STF na véspera do julgamento do habeas corpus de Lula.
O
general Leônidas morreu no ano seguinte, 2015. Figura legendária entre os
militares, ele tinha feito as pazes com Bolsonaro, nos anos 2000, num
“movimento muito importante” (como ressalta Fabio Victor) daquela “jornada rumo
à anistia”. Quatro anos depois, em 2019, numa cerimônia em Brasília, um
recém-empossado presidente Bolsonaro disse assim a outro personagem mítico dos
milicos:
“General
Villas Boas, o que já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos
responsáveis por eu estar aqui”.
Fonte:
Come Ananás/UOL
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