Imperador
do Japão visitou Brasil três vezes e tocou com orquestra sinfônica de São Paulo
O
imperador Naruhito, entronado no Japão em 2019, esteve no Brasil
três vezes, onde visitou várias cidades e se engajou em atividades culturais,
numa demonstração da importância do país para a Casa Imperial japonesa.
Naruhito
recebeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nesta
segunda-feira (24/3) no Palácio Imperial em Tóquio, onde ambos se reuniram em
um encontro reservado.
O
presidente brasileiro escolheu a Ásia como destino de sua primeira viagem
internacional de longa distância após complicações do acidente doméstico que
sofreu em outubro.
Lula
desembarcou em Tóquio com dois itens principais na pauta de comércio: o pleito
de longa data para que o Japão libere a compra de carne bovina e suína do
Brasil e o avanço nas discussões de um acordo entre Mercosul e Japão.
O Japão
é parceiro de longa data (130 anos) do Brasil. Com a viagem — que também inclui
uma parada no Vietnã — o governo brasileiro destaca suas relações que vão além
das duas maiores potências — Estados Unidos e China —, em um momento turbulento
da política global.
A
recepção de Lula em Tóquio é no raro formato de visita de Estado — a última que
o Japão havia promovido foi para Donald Trump, em 2019.
A
visita de Estado ao Japão inclui honrarias que não costumam acontecer em outras
visitas, como um banquete de recepção pelo imperador e a imperatriz, e a apresentação
da família imperial ao chefe de Estado.
Além do
encontro com o Imperador Naruhito e a Imperatriz Masako no Palácio Imperial,
Lula tem reunião com o primeiro-ministro do Japão, Shigeru Ishiba, no Palácio
Akasaka e participação no Fórum Empresarial Brasil-Japão, entre outros
compromissos.
- Laços com o
Brasil
Em seu
livro Kizuna (Laços, em português), o advogado e
tradutor-intérprete Masato Ninomiya mostra a relação profunda que existe entre
a família imperial e o Brasil. Esses laços teriam começado há quase um século,
com a doação em dinheiro feita pelo imperador Showa (avô do atual imperador)
para a construção do Hospital Santa Cruz, na capital paulista.
A
importância do Brasil na agenda da Casa Imperial é visível. As primeiras
visitas oficiais ao exterior dos três filhos dos imperadores eméritos Akihito e
Michiko foram ao país.
Naruhito,
por exemplo, esteve três vezes. Em 1982, quando tinha 22 anos, ele passou por
São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Paraná, Bahia e Amazonas, e chegou a se
apresentar — tocando viola — com a Orquestra Sinfônica Jovem Municipal na
capital paulista, tocando choros de Ernesto Nazaré e Villa-Lobos.
O
imperador retornou 26 anos depois como príncipe herdeiro, e no ano passado foi
novamente para participar do 8º Fórum Mundial da Água. Seu irmão, o príncipe
herdeiro Akishino, visitou o Brasil em 1988 e a irmã mais nova, princesa
Sayako, em 1995.
Masato
Ninomiya esteve em quase todos esses momentos servindo como intérprete da
nobreza. Antes de atender os filhos, ele foi chamado pela Presidência da
República para acompanhar a visita do imperador emérito Akihito (na época
príncipe herdeiro) ao Brasil em 1978. "Desde então, passei a desfrutar da
deferência de Suas Altezas que me convidavam de vez em quando para audiências
privadas", afirma. Isso ocorria quando eles queriam tomar conhecimento das
novidades que ocorriam no Brasil ou do paradeiro de algum imigrante com quem
haviam se encontrado em alguma ocasião.
A
proximidade com a família imperial levou Ninomiya e sua esposa Sônia Regina a
traduzirem poemas do casal, além de algumas das obras escritas pela imperatriz
Michiko e por outros membros da família. O livro do imperador Naruhito
relatando os dois anos passados como estudante na Inglaterra também ganhou a
versão em português, com o título Junto ao Rio Tâmisa.
- Nos passos do
pai
Naruhito,
de 65 anos, tornou-se o 126º imperador do Japão no dia 1º de maio de 2019,
inaugurando a nova era Reiwa. Em seu primeiro discurso no trono, ele prometeu
ter em mente "o caminho trilhado pelos imperadores do passado" e
disse que prosseguirá na defesa do pacifismo.
De
acordo com a atual Constituição do Japão em vigor desde 1947, o imperador
passou de "divindade viva" a "símbolo do Estado e da unidade do
povo", exercendo basicamente funções cerimoniais.
Mesmo
octogenários e com problemas de saúde, os imperadores eméritos visitaram vários
abrigos com vítimas do terremoto e tsunami de 2011, e permaneceram longo tempo
ajoelhados para ficar na mesma altura das pessoas com quem conversavam. Essas
cenas tornaram o casal mais popular do que já era.
No caso
da atual imperatriz Masako, 61, a admiração é por seu histórico e suas
habilidades, porém ela não ficou imune à pressão dos tradicionalistas que
cobravam um filho homem. O casal só tem uma filha, Aiko.
Em
2004, Masako foi diagnosticada com exaustão por estresse e continua fazendo
tratamento até hoje. A agenda de atividades é administrada por uma equipe
médica para não causar fadiga ou estresse. Ela diz estar totalmente focada em
servir ao povo. O sinal de que sua saúde está melhorando é a aparição mais
frequente em eventos.
Fluente
em cinco idiomas estrangeiros (inglês, francês, alemão, russo e espanhol) e
formada em economia pela Universidade Harvard, a imperatriz Masako teve uma
promissora carreira diplomática até aceitar se casar com Naruhito, que a
cortejou durante seis anos.
Ambos
têm muitos pontos em comum, como a paixão por música e gosto por esporte, em
especial o tênis. Ela também aprecia o esqui e ele, o montanhismo.
O
casamento, em 1993, trouxe promessa de renovação na família imperial, com a
nova princesa plebeia sendo inclusive comparada à falecida princesa Diana. Mas
conforme os anos se passavam, aumentou a pressão para que desse à luz um menino
aumentava. Em dezembro de 1999, a imperatriz sofreu um aborto espontâneo, o que
fez o imperador Naruhito pedir à imprensa para respeitar a privacidade do
casal. Em 2001, nasceu a princesa Aiko.
Sem
qualquer sinal da chegada de um herdeiro homem, em 2005 um comitê governamental
recomendou a mudança na Lei de Sucessão Imperial para garantir a possibilidade
de uma mulher assumir o Trono do Crisântemo.
O
anúncio do nascimento do sobrinho do imperador Naruhito em 2006 foi um alívio e
levou à paralisação do debate sobre sucessão feminina. O príncipe Hisahito, de
13 anos, foi o primeiro filho do sexo masculino nascido na família imperial do
Japão desde o seu pai, o príncipe herdeiro Akishino, em 1965.
O peso
do fardo de perpetuar a família imperial japonesa já é sentido pelo pequeno
príncipe. Em 2016, ele e sua mãe sofreram um acidente de carro (sem ferimentos)
que teve grande repercussão na imprensa, assim como ocorreu em 2019, alguns
dias antes da abdicação do imperador emérito Akihito. Um homem teria invadido a
escola onde estuda o príncipe Hisahito e deixado duas facas de cozinha na sala
de aula.
¨ A época em que o
imperador japonês era mais venerado no Brasil do que no Japão
Quando
as rádios do Japão começaram a
transmitir um discurso do imperador Hirohito em 1º de janeiro de 1946, a
derrota do país na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) estava
prestes a ganhar uma dimensão espiritual.
"Os
laços que nos unem a vós, nossos súditos, não são o resultado da mitologia ou
de lendas. Não se baseiam jamais no conceito de que o imperador é deus ou
qualquer outra divindade viva", disse o monarca.
A
declaração, uma imposição dos vencedores do conflito, marcava o fim do período
em que o Estado japonês encarou o culto ao imperador como parte de sua religião
oficial. Encerrava-se um ciclo iniciado em 1868, quando o imperador Meiji
unificou o Japão e impôs a crença de que sua família descendia de Amaterasu,
deusa xintoísta do sol.
Não
bastasse terem perdido três milhões de pessoas na guerra, os japoneses
subitamente perderam um deus.
O
discurso do imperador, porém, não teve o mesmo impacto entre compatriotas que
viviam do outro lado do mundo, no Brasil — e que hoje formam a maior população
de origem japonesa fora do Japão, com cerca de 1,5 milhão de integrantes.
Com
pouco acesso a notícias em japonês e em sua maioria moradores de áreas rurais,
muitos imigrantes se recusaram a acreditar que o Japão havia perdido a guerra e
continuaram a tratar Hirohito como uma divindade vários anos após o conflito.
Mais do
que isso: japoneses que contestassem essa versão podiam ser perseguidos ou
mortos por grupos radicais.
"Entre
famílias de imigrantes japoneses no Brasil se nota mais respeito pela figura do
imperador do que entre as famílias no Japão hoje", diz à BBC News Brasil
Ricardo Mário Gonçalves, professor de Religião e Pensamento Japonês da USP.
Gonçalves
diz que, em casas de imigrantes da primeira geração (os chamados
"issei"), era comum encontrar fotografias de membros da família
imperial. "O tradicionalismo ficou mais vivo aqui, ao passo que o choque
da derrota na guerra acabou por eliminá-lo da mentalidade do povo japonês, a
não ser em setores ligados à extrema direita nacionalista", afirma o
professor.
O
monarca japonês hoje não tem poder político, embora exerça uma diplomacia
imperial e seja visto como um representante do povo japonês no exterior.
Segundo Gonçalves, a maioria dos japoneses vê o imperador como uma figura
folclórica, e não religiosa — ainda que o trono siga associado ao xintoísmo.
Todos
os anos, por exemplo, o imperador cultiva arroz nos jardins de seu palácio num
ritual que busca garantir fertilidade aos solos de todo o Japão. E sacerdotes
xintoístas têm papel central nos ritos de entronização.
- Deuses e forças
sobre-humanas
Considerada
a principal religião originária do Japão, o xintoísmo remonta à pré-história do
país. Xintô quer dizer "caminho dos kami", termo que costuma ser
traduzido como "deuses", mas também pode se referir a poderes ou
forças sobre-humanas, como ventos, tempestades, montanhas ou árvores com poder
sagrado.
Mortos
também podem ser considerados "kami". No passado, conta Gonçalves,
muitos políticos ilustres que morriam eram divinizados por seus próprios
adversários, que temiam ser amaldiçoados pelos espíritos inimigos.
Hoje o
xintoísmo sobrevive no Japão mesclado a outras religiões e práticas. "É
difícil falar em seguidores do xintoísmo ou do budismo, porque os japoneses
conservam as crenças muito misturadas", diz o professor.
"Tudo
que diz respeito à fecundidade, ao nascimento, ao crescimento e à prosperidade
é considerado da alçada dos kami, venerados nos santuários xintoístas, enquanto
tudo que envolve morte, funeral e homenagens póstumas está na alçada do
budismo."
Uma das
cerimônias xintoístas ligadas à fertilidade que geram mais curiosidade no
Ocidente é o Festival do Falo de Aço, no qual homens vestidos como mulheres
carregam esculturas de pênis gigantes pelas ruas de Kawasaki, no primeiro
domingo de abril.
- Xintoísmo de
estado
Embora
hoje convivam em relativa harmonia, o xintoísmo e o budismo já travaram
embates. Nos séculos 13 e 14, autoridades japonesas começaram a sistematizar
doutrinas xintoístas para tentar frear o avanço do budismo, visto como uma
influência estrangeira indesejável.
Até
que, na Era Meiji (1867-1912), surgiu o "xintoísmo de estado" — uma
"construção totalmente artificial promovida por líderes modernizantes que
pretendiam criar uma ideologia nacionalista para unir o povo em torno de
símbolos que representassem o novo Japão", segundo Gonçalves.
O
xintoísmo de estado chegou ao Brasil com os imigrantes japoneses, que começaram
a aportar no país em 1908 para trabalhar em fazendas de café e núcleos rurais.
Traziam incutido um forte nacionalismo, associado ao culto ao imperador e a um
senso de origem comum.
"O
Estado japonês não foi transplantado para o Brasil, mas os trabalhadores
migrantes japoneses (dekasegi) no Brasil, educados em escolas do início
do século 20, mantiveram a religiosidade do xintô imperial mesmo depois da
Segunda Guerra Mundial", diz Rafael Shoji, PhD em Ciência da Religião pela
Universidade Leibniz de Hannover (Alemanha), em artigo no Japanese
Journal of Religious Studies, em 2008.
Essa
religiosidade se expressava principalmente por uma veneração difusa de
Hirohito, já que, até a década de 1930, os imigrantes só haviam construído dois
santuários xintoístas no Brasil: um em Promissão (SP) e outro em Bastos (SP).
Em
compensação, templos budistas da comunidade exibiam retratos do imperador e
tabuletas com os nomes de seus antecessores — práticas exigidas no Japão
pré-guerra que cruzaram os mares. O nacionalismo também era cultivado nas
escolas erguidas pelos imigrantes. Lá os jovens aprendiam o
"yamato-damashii" — literalmente o "espírito japonês", ou
modo de ser do povo.
- Brasil declara
guerra ao Eixo
Em
1942, porém, o Brasil entrou na Segunda Guerra, e as escolas japonesas foram
fechadas. Os imigrantes nipônicos se tornaram alvo de uma série de ações
repressivas: tiveram depósitos bancários congelados, seus jornais deixaram de
circular e foram até proibidos de falar sua língua em público.
Foi
nesse contexto que um grupo de imigrantes fundou o Shindo Renmei (Liga do
Caminho dos Súditos). Liderada por Junji Kikawa, coronel que havia lutado na
guerra Russo-Japonesa (1904-1905), a organização buscava reforçar o vínculo
entre os imigrantes e o império do Japão, garantindo a transmissão dos valores
nipônicos aos descendentes nascidos no Brasil.
O grupo
encarava sua presença no Brasil como temporária. A comunidade deveria,
portanto, preservar sua coesão e cultura para suavizar a mudança de volta ao
Japão ou sua instalação definitiva em colônias japonesas no Pacífico.
No livro Corações
Sujos, que trata da história do Shindo Renmei, o escritor Fernando Morais
diz que a entidade chegou a ter 100 mil doadores e 60 mil simpatizantes no
Brasil. Os números, atribuídos a documentos da polícia, equivalem a metade da
comunidade japonesa no país à época.
Entre
1946 e 1947, a organização perseguiu imigrantes que tentavam esclarecer os
compatriotas sobre a derrota do Japão na guerra, chamados de
"makegumi" (derrotistas). O grupo matou 23 pessoas e feriu cerca de
150 em atentados em São Paulo e no Paraná.
Os
integrantes do Shindo Renmei divulgavam que o Japão havia ganhado a guerra,
fraudando cartas e documentos que comprovariam essa versão.
- 'Meio balde de
sangue'
Em
2018, a imigrante Aiko Higuchi descreveu à
BBC News Brasil o
ataque do Shindo Renmei que matou seu pai, Ikuta Mizobe, na época gerente da
cooperativa agrícola em Bastos (SP).
"Meu
pai tinha saído para dar uma olhada nas orquídeas e fechar o portão, que meu
irmão mais novo sempre deixava aberto", disse Aiko. "Então ele foi ao
banheiro, atrás da casa. Dois homens estavam escondidos. Quando ele estava
fechando a porta, eles atiraram. Minha mãe ouviu os tiros e saiu, e viu dois
homens fugindo no cavalo."
"Mamãe
falou depois: nunca imaginou que tinha tanto sangue no corpo", diz Aiko,
misturando japonês e português. "Ela limpou meio balde de sangue."
Segundo
dados citados em "Corações Sujos", 31.380 imigrantes japoneses foram
presos por suspeitas de conexão com o Shindo Renmei, e 14 cumpriram pena por
homicídio.
Para
identificar simpatizantes da organização, policiais costumavam exigir que eles
pisassem no retrato do imperador ou na bandeira japonesa. A prática, conhecida
entre os japoneses como "fumie", era considerada mais humilhante do
que torturas físicas. Quem se recusava a pisar nas figuras se tornava suspeito
automaticamente.
- Curandeirismo e
práticas mágicas
O
nacionalismo entre imigrantes japoneses esfriou conforme as novas gerações se
tornaram cada vez mais integradas ao Brasil.
Masato
Ninomiya, professor de Direito Internacional da USP nascido no Japão, diz à BBC
que famílias nipônicas no Brasil hoje veem o imperador como um personagem
simbólico, sem qualquer poder espiritual.
Ele diz
que alguns templos e organizações xintoístas sobrevivem no país, mas perderam o
laço com o monarca e se voltaram principalmente a rituais ligados ao nascimento
e envelhecimento.
Há,
ainda, grupos formados por japoneses de tendência xintoísta que se dedicam ao
curandeirismo e a práticas mágicas, incorporando elementos do universo
religioso brasileiro, como o espiritismo e a umbanda.
Ninomiya
diz que a sobrevida que o xintoísmo imperial teve no Brasil vários anos após o
fim da Segunda Guerra gera curiosidade entre os japoneses.
Ele
cita uma emissora de TV japonesa que, em 1972, levou ao Japão uma família de
imigrantes nipônicos que vivia no Brasil e ainda acreditava, quase três décadas
depois da guerra, que os japoneses haviam vencido o conflito.
"Os
jornalistas mostraram cidades que tinham sido bombardeadas e foram
reconstruídas, mostraram as ferrovias, as estradas — o Japão moderno que havia
surgido no lugar do país arrasado", conta o professor.
"Depois
de rodar o país, eles perguntaram à família se ainda acreditavam que o Japão
havia vencido a guerra. O pai respondeu que era óbvio que sim, afinal, se o
Japão tivesse perdido a guerra, eles não estariam vendo toda aquela
prosperidade."
"Ali
os jornalistas perceberam que não adiantava insistir, que aquela visão não era
racional. Era uma questão de fé, de crença", afirma.
Fonte:
BBC News Brasil
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