quarta-feira, 26 de março de 2025

Israel ataca hospital e continua matando em Gaza enquanto mantém ofensiva na Cisjordânia

Bombardeio aéreo israelense ao hospital Nasser, em Khan Younis, Gaza matou cinco pessoas no domingo (23/03) à noite, incluindo um líder político do Hamas e médicos. O grupo informou a morte de seu líder Ismail Barhoum, que estava no hospital se tratando de ferimentos sofridos no ataque anterior.

O Hamas confirmou também a morte de Salah al-Bardaweel, no sábado (22/03), em outro ataque a Khan Younis. Ambos eram membros do gabinete político, órgão decisório do Hamas composto por 19 líderes, dos quais 11 pereceram desde o início da ofensiva de Israel, no final de 2023.

No total, os taques israelenses vitimaram 45 palestinos em Gaza no domingo. A maioria dos mortos era civis, de acordo com a autoridade de saúde palestina. Houve bombardeios por todo o norte, centro e sul da faixa na manhã de domingo e outros à noite.

As tropas israelenses também emitiram novas ordens de evacuação a oeste da cidade de Rafah, na fronteira com o Egito. Homens, mulheres e crianças caminhavam no domingo por uma estrada de terra carregando seus pertences nos braços porque o uso de carros foi proibido. Nos últimos dias, as tropas sionistas atacaram vários automóveis matando civis. Também houve ordens para que as tropas anexassem áreas de Gaza.

·        Deslocamentos sob fogo

“É um deslocamento sob fogo. A situação é muito difícil. Há muitos feridos entre nós”, diz Mustafa Gaber, jornalista local que se desloca com a família atendendo às ordens de evacuação de Israel.

Após os bombardeios, as tropas sionistas cercaram o campo de refugiados de Tal al-Sultan, em Rafah. “Há muita ansiedade, especialmente dos pais. Podemos ouvir explosões massivas a maior parte do dia, disse Hisham Mhanna, porta-voz do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Gaza.

“Relatos de vítimas chegam a cada hora e os socorristas não conseguem chegar a todos os locais porque é perigoso ou porque eles não têm combustível suficiente. Não para: ordens de evacuação, explosões, hospitais cheios de vítimas e agora a escassez de alimentos”, acrescenta Mhanna em reportagem do The Guardian.

Indicando intensão de intensificar ainda mais a ofensiva, o exército sionista disse no domingo que uma de suas divisões que atuou contra o Hezbollah no Líbano estava se preparando para ir para Gaza. Desde que Israel rompeu unilateralmente o cessar-fogo, na terça-feira (18/03) passada, mais de 600 palestinos foram mortos em Gaza, um terço deles crianças. Desde dezembro de 2023, o número total de mortos nas agressões do exército sionista superam os 50 mil, sem contar os que continuam sob os escombros e as vítimas indiretas da guerra.

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·        Desnutrição aumenta

Ao mesmo tempo, médicos e trabalhadores humanitários alertam que a desnutrição cresce em Gaza após mais de três semanas de bloqueio israelense total à entrada de suprimentos. Organizações de ajuda humanitária disseram que estavam reduzindo a distribuição de comida para as cozinhas comunitárias que alimentam cerca de um milhão de pessoas. Muitas das vítimas são crianças pequenas.

“Em algum momento, simplesmente ficaremos sem suprimentos e as coisas ficarão desesperadoras”, disse um funcionário da Organização das Nações Unidas (ONU) que trabalha em Gaza.

Seis das 23 padarias operadas pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU já deixaram de funcionar por falta de gás e as demais tinham estoque de farinha para mais seis dias. “É evidente que as pessoas estão abaixo do peso. A população é muito jovem e as crianças precisam de alimentos nutritivos”, disse Khamis Elessi, médico da Cidade de Gaza.

“As pessoas estão desnutridas. Posso ver que minhas incisões cirúrgicas não estão cicatrizando vem”, disse Feroze Sidhwa, médico norte-americano qeue é voluntário em Gaza

·        44 mil deslocados na Cisjordânia

Ao mesmo tempo, as forças israelenses realizaram vários ataques à Cisjordânia ocupada durante a noite de domingo, incluindo as cidades de Silat al-Harithiya, Qalqilya e Qatanna, além das aldeias de Shuqba e al-Mughayyir, perto de Ramallah, segundo informou a agência Wafa.

As ofensivas de Israel contra a Cisjordânia se intensificadas desde 21 de janeiro sobretudo nos campos de refugiados de Jenin, Tulkarem e Nur Shams. Segundo os Médicos Sem Fronteiras (MSF), dezenas de palestinos foram mortos e 44 mil deslocados de suas casas na Cisjordânia nos últimos dois meses.

Repetindo o que ocorreu em Gaza, o exército israelense vem destruindo as casas e infraestrutura das áreas desocupadas para que os deslocados não possam retornar e para preparar o terreno para novos colonos. Este final de semana a prefeitura de Jenin denunciou que Israel ordenou a demolição de mais 66 edifícios que englobam cerca de 300 residências.

“As pessoas não conseguem retornar para suas casas porque as forças israelenses bloquearam o acesso aos campos, destruindo casas e infraestrutura”, disse o diretor de operações dos MSF, Brice de la Vingne. “Israel deve parar com isso e a resposta humanitária precisa ser ampliada”.

Os MSF descreveram a situação dos deslocados como “extremamente precária”. “As pessoas estão sem abrigo adequado, sem serviços essenciais ou acesso a cuidados de saúde”. Segundo a organização, a escala da destruição dos campos e de deslocamentos forçados “não era vista há décadas na Cisjordânia ocupada”.

·        ONG israelita denuncia colonos ilegais protegidos pelo exército

Embora concentrada nos três campos de refugiados, os ataques israelenses na Cisjordânia não se restringem a essas áreas. Em várias regiões desse território palestino ocupado, aumentam as ocupações ilegais de propriedades palestinas por colonos israelenses, com apoio do exército.

Em Tel Rumeida, em Hebron, colonos israelenses tomaram a casa de uma família quando eles saíram para fazer a quebra do jejum do Ramadã. Quando a família voltou, soldados israelenses os impediram de se aproximar da casa e a polícia se recusou a registar uma reclamação.

Os colonos alegam que compraram a casa, mas os palestinos negam. O caso, apenas um exemplo em meio a centenas, foi denunciado pelo grupo de direitos humanos israelense Peace Now.

“É hora de parar com o absurdo de que um punhado de colonos messiânicos determinem a política externa e de segurança de um país inteiro”, disse o Peace Now. “O governo é responsável e pode e deve evacuar os colonos imediatamente.”

¨      UE diz que Israel deve responder a ataques de ‘modo proporcional’

A alta representante da União Europeia para a Política Externa, Kaja Kallas, declarou nesta segunda-feira (24/03) que embora Israel “tenha o direito de se defender contra ataques terroristas”, suas forças “têm que responder de modo proporcional”.

Segundo a representante europeia, o governo de Benjamin Netanyahu “tem o direito de se defender contra ataques terroristas vindos do Hamas, dos Houthis ou do Hezbollah, mas as ações militares devem ser proporcionais”, além disso, “os ataques israelenses na Síria e no Líbano correm o risco de provocar uma nova escalada” de violência.

A declaração de Kallas ocorreu ao lado do ministro das Relações Exteriores israelense, Gideon Saar, que a recebeu durante uma visita a Jerusalém para discutir os confrontos na região.

“Somos testemunhas de uma escalada perigosa, que cria uma incerteza insustentável para os reféns [israelenses] e suas famílias, ao mesmo tempo que gera horror e morte entre os palestinos”, disse Kallas sobre o fim da trégua entre Hamas e Israel, que voltou a atacar a Faixa de Gaza na última semana após dois meses de cessar-fogo e já deixou centenas de mortos.

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Para Kallas, é fundamental que as negociações para um cessar-fogo retornem à região, já que um acordo “é o único modo viável de acabar com o sofrimento de todos os lados”.

“A UE acolhe de modo favorável o plano do Egito para a reconstrução de Gaza. O bloco também não vê nenhum papel para o Hamas no novo governo palestino”, reforçou a europeia.

Já Saar, que afirmou “ser natural” que seu país espere receber apoio da UE nos conflitos em curso contra o “terrorismo islâmico”.

“Irã, Houthis, Hamas e Hezbollah nos atacam porque somos vizinhos. Mas não se iludam, a guerra é contra a civilização ocidental, contra seus valores e estilo de vida”, disse o ministro, acrescentando que os israelenses “ainda não decidiram se irão impor um governo militar em Gaza”.

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·        Israel rebate papa

Além das declarações de Saar, Israel respondeu também nesta segunda-feira (24/03) às críticas do papa Francisco à retomada dos bombardeios na Faixa de Gaza e assegurou que os ataques buscam “reduzir ao mínimo os danos aos civis”.

“A operação israelense é conduzida em plena conformidade com o direito internacional. Enquanto o Hamas atinge civis deliberadamente, Israel adota medidas extraordinárias para reduzir ao mínimo os danos a civis”, diz uma nota divulgada pela embaixada do país na Santa Sé.

Apesar da afirmação de Tel Aviv, a Organização das Nações Unidas já revelou que mais de 70% das vítimas em Gaza são mulheres e crianças. Além disso, Israel desrespeita a ordenação da Convenção de Genocídio, a qual faz parte, para que evite atos de limpeza étnica do povo palestino em meio a sua guerra contra o Hamas.

No texto de seu Angelus, tradição oração católica, do último domingo (23/03), o Papa se disse “entristecido” com o “recomeço dos intensos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, com tantos mortos e feridos”, e pediu “coragem para retomar o diálogo” em prol da libertação dos reféns e de um cessar-fogo definitivo.

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“Na Faixa de Gaza, a situação humanitária é novamente muito grave e exige um empenho urgente das partes beligerantes e da comunidade internacional”, afirmou Francisco.

Já Israel culpou a falta de progressos nas negociações para a soltura dos reféns pela retomada do conflito e acusou o Hamas de ter utilizado a trégua que vigorou no enclave por dois meses para “reconstruir seu arsenal militar”. “59 reféns ainda são mantidos em Gaza em condições desumanas e sofrendo abusos físicos e psicológicos. O Estado de Israel acredita que seja seu dever moral e ético trazê-los para casa”, acrescenta a nota da embaixada na Santa Sé.

“Israel continua determinado a alcançar seus objetivos: garantir a libertação de todos os reféns, desmantelar as capacidades de governo e militares do Hamas e remover a ameaça terrorista da Faixa de Gaza para impedir outro 7 de outubro”, conclui o comunicado.

¨      Israel cria agência para expulsar a população de Gaza, onde o número de mortos já ultrapassa 50 mil

Neste domingo, dia em que o número de mortos nos ataques israelenses em Gaza no último ano e meio ultrapassou 50.000, segundo as autoridades locais, o governo israelense delineou o que pretende ser o quadro jurídico e administrativo para executar seu plano de deportação dos habitantes da Faixa de Gaza. Uma operação de limpeza étnica, de acordo com o direito internacional. Isso foi aprovado no início da manhã pelo gabinete de segurança, que toma as principais decisões relacionadas à guerra. Enquanto isso, centenas de moradores de Gaza continuam morrendo como parte da nova ofensiva desencadeada desde que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu ordenou inesperadamente a ruptura do cessar-fogo de janeiro com o Hamas na terça-feira.

Entre os mortos nas últimas horas está um importante líder da milícia islâmica, Salah al-Bardaweel, 66, de acordo com o Hamas — e posteriormente confirmado por Israel — que detalha que ele morreu junto com sua esposa sob bombas na cidade de Khan Yunis, no sul do país. Ele era considerado uma figura histórica no grupo e um homem próximo do principal líder do movimento, Yahia Sinwar, que morreu em combate em outubro passado.

Por sugestão do ministro da Defesa, Israel Katz, o gabinete de Netanyahu aprovou uma proposta para estabelecer uma nova agência dentro do ministério para tentar fazer com que os palestinos deixem Gaza, de acordo com uma declaração publicada pela mídia local. Apesar de todos os argumentos contrários, Katz sustenta que esta é uma iniciativa dentro do direito israelense e internacional. O objetivo, segundo o texto, é “preparar e permitir a passagem segura e controlada dos moradores de Gaza para sua saída voluntária para terceiros países”. Isso inclui “proteger seus movimentos, estabelecer rotas de movimento, controlar pedestres em travessias designadas na Faixa de Gaza e coordenar o fornecimento de infraestrutura que permitirá a passagem por terra, mar e ar para os países de destino”. O responsável por esta operação será anunciado por Katz em breve, acrescentou a mídia israelense, citando a mesma fonte.

Além da ilegalidade desta operação e da ampla rejeição internacional à expulsão dos habitantes de Gaza, o governo israelense ainda não encontrou países de destino para essas centenas de milhares de cidadãos. Ele tentou isso primeiro com a Jordânia e o Egito, e depois com o Sudão, a Somália e a autoproclamada república da Somalilândia. O governo também não dá detalhes sobre como realizará essas expulsões, disfarçadas sob o eufemismo de saídas voluntárias do território.

O plano de deportação representa outra estratégia de pressão que se junta à militar. De qualquer forma, muito poucos, dentro e fora de Israel, veem essa “limpeza” do enclave palestino, lar de 2,3 milhões de pessoas, como viável, apesar de ter sido amplamente discutida e defendida pelo próprio Netanyahu e pelo principal responsável pela iniciativa, o presidente dos EUA, Donald Trump.

De fato, Katz observou que o que foi aprovado pelo gabinete de segurança neste domingo é feito “de acordo com a visão do Presidente dos Estados Unidos” e para “permitir que qualquer morador de Gaza que queira se mudar para um terceiro estado o faça”. O líder republicano chegou a afirmar, logo após assumir o cargo em janeiro, que sua intenção é esvaziar Gaza, para que Washington assuma o controle da Faixa e reabilite o território de 365 quilômetros quadrados em algo como um paraíso turístico às margens do Mediterrâneo.

Enquanto isso, a operação terrestre do exército israelense está se expandindo, já atingindo o norte, o centro e o sul da Faixa, com os países mediadores (Catar, Egito e Estados Unidos) incapazes de impor negociações à máquina de guerra e sem nenhuma ação da comunidade internacional. Nas últimas horas, os militares estenderam sua presença para a cidade de Beit Hanun, no norte, vizinha de Beit Lahia, que já estava ocupada esta semana, na tentativa, segundo porta-vozes militares, de impedir ameaças e ataques vindos dali ao território israelense. As tropas de ocupação também continuam operando no corredor Netzarim, que divide o enclave em dois, e na cidade mais ao sul, Rafah.

Essas são áreas que Israel abandonou desde que o cessar-fogo acordado com o Hamas em 19 de janeiro entrou em vigor. Agora, juntamente com os bombardeios aéreos e o avanço da infantaria e dos tanques, o poder militar também está ordenando movimentações forçadas da população diariamente. Neste domingo, foram feitas ameaças contra moradores do bairro de Tel Sultan, em Rafah, que as tropas afirmam estar cercado como parte de uma campanha que eles chamam de “antiterrorista”.

Em meio a essa violência, o número de mortos em Gaza devido aos ataques das forças de ocupação israelenses chegou a 50.021, e o número de feridos agora é de 113.274, de acordo com o Ministério da Saúde palestino. Esses são os números do massacre desde o início da guerra em 7 de outubro de 2023, com a morte de cerca de 1.200 pessoas em território israelense liderada pelo Hamas. Segundo as autoridades locais, há milhares de vítimas que ainda não foram adicionadas à lista porque são pessoas declaradas desaparecidas até que seus corpos sejam recuperados dos escombros ou seu paradeiro seja esclarecido.

·        As pressões das ruas contra Netanyahu

Em Israel, as manifestações continuam sendo realizadas, atraindo dezenas de milhares de pessoas, especialmente em Tel Aviv e Jerusalém, para exigir o fim da guerra, um acordo com o Hamas para libertar os 59 reféns (vivos ou mortos) que ainda estão detidos na Faixa de Gaza e o fim do que eles consideram uma tendência antidemocrática da coalizão de extrema direita.

A violação do cessar-fogo, a tentativa de culpar o Hamas pela nova escalada, o bloqueio de três semanas de ajuda humanitária à Faixa de Gaza e a intenção de legalizar o plano de deportação de moradores de Gaza com assistência dos EUA refletem a nova abordagem de Netanyahu ao conflito. Ele está tentando agradar a ala mais radical de seu gabinete para manter sua posição. Ele faz isso alimentando a guerra regional enquanto é perseguido em várias frentes dentro de seu próprio país.

O primeiro-ministro, em uma ação sem precedentes, agora está pressionando para se livrar do procurador-geral, Gali Baharav-Miara. Os ministros votaram para removê-la do cargo neste domingo, mas a Suprema Corte agora pode contestar essa decisão. Manifestantes marchando pelo centro de Jerusalém hoje se opõem à sua demissão, considerando-a parte da tendência antidemocrática de Israel de Netanyahu. Esta semana, o presidente liderou a votação para remover outro alto funcionário, o chefe do serviço de inteligência interna (Shin Bet), Ronen Bar, que está investigando um suposto caso de corrupção relacionado a pagamentos do Catar pela comitiva de Netanyahu. A demissão de Bar, sem precedentes na história do país, foi temporariamente suspensa pelo Supremo Tribunal Federal. Anteriormente, o primeiro-ministro havia afastado com sucesso dois outros altos funcionários que ele também considerava um obstáculo: o ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, e o chefe das forças armadas, Herzi Halevi.

O desperdício da trégua ordenada por Netanyahu foi recebido com ataques ao longo da semana pelo Hamas, pela milícia xiita libanesa Hezbollah e pelos guerrilheiros Houthis do Iêmen. Na quarta tentativa de atingir território israelense nos últimos dias, os rebeldes iemenitas lançaram novamente um míssil neste domingo, que o exército afirma ter interceptado sem causar vítimas ou danos. Isso não impediu que os alarmes soassem novamente em diferentes regiões de Israel, lembrando à população que, após um período de relativa calma que durou quase dois meses, os tentáculos de uma guerra regional estão se espalhando novamente.

 

Fonte: Opera Mundi/El País / IHU

 

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