quarta-feira, 26 de março de 2025

20 anos da ‘Revolução das Tulipas’ no Quirguistão e seus reflexos contemporâneos

Com o súbito desaparecimento da União Soviética em 1991, as clivagens sociais do Quirguistão passaram a exercer um papel fundamental na definição de seus processos sociopolíticos. Isso porque, assim como em outras ex-repúblicas soviéticas, a população recorreu a distintas tradições para a formulação de uma nova identidade nacional, diante da anomia e da crise daquele período. Particularmente, a busca por esta identidade comum no caso quirguiz envolveu a complexa relação entre o norte — industrializado e urbano — e o Sul — agrário e rural — do país.

Tratando-se de regiões que também coexistiram de maneiras divergentes na história da Ásia Central, entre populações de origem nômade altaica e sedentária muçulmana, o fortalecimento das elites locais tornou-se essencial para os ditames da ordem doméstica no Quirguistão contemporâneo, ao tempo em que o povo quirguiz passou a valorizar a origem de seus representantes políticos em meio ao resgate de diferentes discursos identitários pós-1991.

Porém, assim que foram realizadas as primeiras presidenciais de 1990, o que parecia caminhar para um regime pluralista rapidamente se transformou em instabilidade. Durante os últimos 33 anos, tal configuração aliou-se à frágeis “promessas democráticas” e à recorrência de protestos inflamados, transformando Bishkek e outras cidades importantes do país em palcos propícios para o cerco à prédios públicos e derrubadas de governo.

  • Quirguistão, o país das revoluções 

Askar Akayev foi o primeiro presidente eleito do Quirguistão, comandando o país de 1990 a 2005. Originário da região norte, Akayev permaneceu no cargo sem grandes controvérsias em 1995 e 2000, ano em que seu governo passou a ser alvo de denúncias de fraudes e corrupção. As medidas impopulares do presidente, especialmente no Sul, como a prorrogação de mandatos via referendo, a perseguição de opositores políticos e a ocorrência de nepotismo em sua administração, culminaram na derrubada do governo em 2005. Naquele momento, figuras da oposição foram proibidas de participar do pleito legislativo, incluindo a nortista Roza Otunbayeva, que disputava vaga no Parlamento pelo mesmo distrito que a filha de Akayev.

Escândalos envolvendo a falsificação dos resultados da eleição logo tomaram proporções nacionais e, sob o “estandarte” da democracia, não demorou para que manifestantes vestidos de amarelo fossem às ruas pedir a renúncia do presidente. Dentre os responsáveis pelo levante, posteriormente batizado de “Revolução das Tulipas” — pois ocorreu no período de floração das tulipas amarelas no país —, estava o movimento juvenil KelKel, oficialmente aliado ao partido de Otunbayeva, o Ata-Zhurt. O desfecho do episódio, que contou também com o apoio de agentes locais de segurança, sobretudo da região sul, envolveu a fuga e o exílio de Akayev na Rússia, a libertação de opositores condenados por supostos crimes de corrupção, como Fellix Kulov, e a formação de um governo interino liderado por Kurmanbek Bakiyev, um ex-primeiro-ministro sulista.

Assim que o Comitê Eleitoral validou os resultados do pleito de março e que o novo Parlamento confirmou a liderança de Bakiyev até a organização de uma próxima eleição presidencial, Akayev assinou sua renúncia em troca de segurança. Porém, a distribuição de poder entre as elites locais, que garantiu a acomodação de interesses antes das presidenciais extraordinárias daquele ano e que concedeu à Otunbayeva o Ministério das Relações Exteriores, e à Kulov o cargo de Primeiro-Ministro, não se sustentou por muito tempo. Novas mudanças constitucionais foram adotadas em 2007 e os casos de corrupção e nepotismo do então eleito governo Bakiyev passaram a ocorrer longe das manchetes internacionais. Alguns desses casos envolvendo o superfaturamento de contratos da base aérea de Manas, cedida aos Estados Unidos (EUA) para a campanha militar no Afeganistão desde 2001.

Todavia, a redução do PIB e dos recursos provenientes de remessas e empréstimos exteriores, causada pelos efeitos da crise financeira de 2008, descortinam, mais uma vez, as fragilidades do Quirguistão. Bakiyev, que havia conseguido a reeleição em 2009, acolheu uma controversa política tarifária, que pressionou a alta dos preços de energia e, consequentemente, alimentou novos protestos que se intensificaram no início de 2010. Sob as ordens de Zhanybek Bakiyev, irmão do presidente e então chefe das forças de segurança, houve intensa perseguição política e uma violenta repressão contra manifestantes, causando dezenas de mortes e acelerando a queda do regime. Muito mais sangrenta que a revolução de 2005, a revolta de 2010 também foi inflada pela “demanda democrática” e, rapidamente, se espalhou pelo país. Bakiyev fugiu para o Cazaquistão, de onde escreveu sua carta de renúncia, e, depois, para a Belarus, onde permanece exilado até hoje.

Depois disso, algumas reformas para a redução dos poderes presidenciais foram implementadas, mas a estabilidade do país só foi alcançada com a eleição de Almazbek Atambayev em 2011. Atambayev, um opositor nortista e ex-primeiro-ministro, havia integrado o turbulento governo de transição chefiado por Otunbayeva, logo após a queda de Bakiyev — período em que ocorreu o trágico conflito étnico entre quirguiz e uzbeques no sul do país. No entanto, com um discurso conciliador, ele se tornou o único presidente a concluir o mandato no Quirguistão, permanecendo no ofício até 2017. Naquele ano, foi sucedido de forma limpa por seu aliado, o sulista Sooronbay Jeenbekov, numa retomada democrática que seguiu o nível legislativo e as eleições para o Parlamento de 2015.

Porém, a distribuição de poder não permaneceu imune aos conflitos regionais. Jeenbekov foi incapaz de dar continuidade ao pacto nacional bem-sucedido firmado por seu antecessor, entre as elites do norte e do sul, o que abriu caminho para as instabilidades de 2020, agravadas pela crise econômica da pandemia de Covid-19 e pelo arrefecimento de inimizades dentro do governo — o próprio Atambayev havia sido preso em 2019 por suposto envolvimento em esquemas de corrupção. Foi questão de tempo para que, tal como em 2005 e 2010, supostas fraudes nas eleições parlamentares daquele ano se tornassem pretexto para uma nova onda de protestos em massa.

Atambayev foi solto durante a ocasião, entretanto, foi o nortista Sadyr Japarov quem rapidamente assumiu a liderança das manifestações. Japarov, que era ex-assessor de Bakiyev e estava detido desde 2017 por tentativas de desestabilizar a ordem pública, naquela altura havia se tornado uma figura influente do cenário político quirguiz, e logo foi nomeado primeiro-ministro. Após ascender ao cargo, negociou com Jeenbekov os termos da renúncia presidencial e organizou uma espécie de “concertação” em torno das lideranças do norte e do sul do país, concedendo ao ex-líder imunidade e a inviolabilidade de seus direitos políticos. Japarov tornou-se presidente interino até 2021, ano em que foram realizadas novas eleições e que ele assumiu definitivamente o cargo no Quirguistão.

  • De quantas ‘coincidências’ são feitas os ‘padrões’?

É correto afirmar que o fator desestabilizador desses episódios no Quirguistão não apenas possui relação com as dinâmicas sociopolíticas do norte e do sul, como também está condicionado à repressão policial e à corrupção sistêmica em suas estruturas de poder. Porém, embora possuam uma base social bem definida, tanto a “Revolução das Tulipas” como as revoltas subsequentes, podem ser analisadas como parte de um movimento altamente padronizado. As chamadas “Revoluções Coloridas”, interpretadas por alguns como componentes da “Terceira Onda de Democratização”, tiveram início na desintegração da Iugoslávia e seguiram um roteiro muito semelhante em países pós-soviéticos, como nos casos da Geórgia e da Ucrânia, e nas tentativas frustradas no Azerbaijão, Moldávia, Armênia, Belarus e, mais recentemente, Cazaquistão e Uzbequistão.

São inúmeras as “coincidências” encontradas, e a cartilha envolve um conjunto de características recorrentes: Estados enfraquecidos por crises políticas e econômicas; regiões autônomas, separatistas ou clivagens territoriais latentes — Abkházia, Ossétia do Sul, Donbass, Nagorno-Karabakh, Transnístria, Caracalpaquistão, etc; e a rápida incorporação desses problemas à narrativa midiática e aos discursos pré-fabricados sobre “democratização”, “combate à corrupção” e liberalização do mercado doméstico para o capital internacional. Além disso, do ponto de vista geográfico, essas revoluções parecem ter como alvos territórios bem definidos, lugares de importância estratégica que exercem influência sobre dinâmicas regionais mais amplas.

O próprio Quirguistão não detém abundância de recursos naturais e, durante a era soviética, figurava entre as repúblicas mais pobres da União. No entanto, sua posição geográfica lhe confere uma importância significativa: ao sul, estende-se pelo Vale de Fergana, uma das áreas mais férteis e, politicamente, voláteis da Ásia Central, compartilhada com o Tadjiquistão e o Uzbequistão; ademais, o país faz uma longa fronteira com o Cazaquistão ao norte e com o território muçulmano de Xinjiang ao leste, uma província sensível para Pequim. Em outras palavras, o Estado quirguiz é um ativo essencial para qualquer plano que busque utilizar o Islã político como ferramenta para promover mudanças de regime no local. A presença militar russa também reforça tal relevância geopolítica, incluindo a base aérea de Kant — um ponto estratégico em meio às rotas de acesso ao Afeganistão.

Além de integrar o bloco militar da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), formado por ex-repúblicas soviéticas, o Estado quirguiz também faz parte da União Econômica Eurasiática (UEE), ambas instituições russas, e está no centro de megaprojetos de infraestrutura da Belt and Road Initiative. Isso significa que, além do fator securitário, a eficiência de sua alfândega influencia diretamente a qualidade e o fluxo de mercadorias comercializadas entre os países-membros da UEE com a China e suas transações comerciais com a União Europeia; ou seja, a estabilidade política interna no pequeno Quirguistão possui implicações que vão além da Ásia Central, afetando o equilíbrio de poder em toda a Eurásia.

Diante dessa conjuntura, não surpreende que, coincidentemente ou não, a “Revolução das Tulipas” de 2005 tenha sido rapidamente amplificada por veículos midiáticos ligados ao Ocidente, como a Azzatyq e por suas organizações fiadoras, como a Freedom House. As denúncias de irregularidades eleitorais no país ainda receberam respaldo de entidades como a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), o Parlamento Europeu e os EUA, sob a justificativa de “defesa dos valores democráticos liberais”. Naquele momento, o Quirguistão já havia perdido grande parte de sua base industrial, o que levou Akayev a implementar uma série de reformas que ampliaram a presença de organizações estrangeiras no país em troca de empréstimos internacionais.

Como resultado, as ONGs não apenas se estabeleceram na república, assumindo funções que o Estado não conseguia suprir, como também passaram a moldar a opinião pública aos seus próprios interesses. Um exemplo claro desse processo pode ser observado com o movimento KelKel, cujos ativistas receberam treinamento de membros do Otpor e do Kmara, grupos insurgentes nas revoluções da Sérvia e da Geórgia. Ademais, alguns participantes dos levantes quirguizes já haviam adquirido experiência prévia nos protestos ucranianos anos antes, o que conferiu um senso de know-how ao movimento, permitindo uma maior coordenação e mobilidade em suas atividades no decorrer de 2010 e 2020.

Ainda assim, é importante salientar que tal modus operandi não impediu o abandono de antigos aliados ocidentais pelo caminho — talvez, mais uma característica “padrão” desses eventos. Foi o que ocorreu com Akayev em 2005, mesmo após ter concedido aos estadunidenses a permanência na base de Manas, em 2001. O mesmo destino amargo aguardava Bakiyev em 2010, logo após ter anunciado, em um encontro com o presidente russo Dmitry Medvedev em 2009, a intenção de expulsar as tropas norte-americanas do país — algo que efetivamente seria implementado apenas na Administração Atambayev, anos mais tarde —. Portanto, a escolha da Casa Branca em apoiar, por duas vezes, Otunbayeva, incluindo um governo interino desastroso, também não foi surpreendente, já que a figura dela aproximava-se dos interesses de Washington no local.

  • 20 anos depois, o que esperar daqui em diante?

As mudanças no comando do Quirguistão não trouxeram a tão sonhada democracia ao país. Pelo contrário, os eventos de 2020 apenas sublinharam a fragilidade do Estado perante às ingerências internacionais e à força centrífuga de suas elites políticas, as mesmas que negociaram o destino de Akayev, em 2005, e de Bakiyev, em 2010. No entanto, as últimas revoltas também trouxeram uma mudança significativa em relação aos levantes do início do milênio, nos permitindo refletir sobre o legado da “Revolução das Tulipas” 20 anos depois.

Diferente dos movimentos anteriores, impulsionadas por slogans de democratização, os acontecimentos de 2020 refletiram a crescente demanda popular por um governo centralizado e uma “liderança forte”. Nesse contexto, Sadyr Japarov parece ter percebido tal demanda junto às elites locais. O novo presidente emergiu como uma figura proeminente, adotando uma retórica populista e nacionalista, marcada pelo tradicionalismo e por um discurso que ressoa nos setores conservadores da sociedade quirguiz. Em 2021, um referendo aprovou mudanças constitucionais que ampliaram significativamente seus poderes e estenderam o mandato do chefe de Estado, reforçando um modelo de governança baseado em medidas autoritárias.

Ao passo em que as denúncias de perseguição a opositores crescem, Japarov está ciente que, ao desestabilizar o Quirguistão, um novo cataclisma poderia irradiar-se regionalmente, comprometendo a integração eurasiática, os projetos chineses e as posições russas no local. Ele também conhece os riscos do envolvimento com o Ocidente e sabe que, embora estivessem “pré-definidas” as condições para as Revoluções que ocorreram no país, foram agentes externos que desempenharam o papel crucial de instabilidade, ao financiar grupos que aguardavam pacientes pela tomada do poder. Portanto, sua ascensão à presidência não apenas reconfigurou o cenário político interno, mas também possuiu implicações construtivas para o fortalecimento das relações com o Uzbequistão e o Tadjiquistão, e para o equilíbrio entre China, Rússia, e em menor escala, EUA. Porém, apesar do apoio estratégico desses atores, as crescentes pressões domésticas levantam dúvidas sobre o futuro da estabilidade nacional. Com eleições presidenciais previstas para 2027, permanece a incerteza sobre a continuidade desse modelo ou a possibilidade de novos e intensos desdobramentos no Quirguistão.

 

Fonte: Por Guilherme Geremias da Conceição, em Le Monde

 

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