terça-feira, 9 de junho de 2026

Elisabeth Lopes: O déjà vu da vassalagem do clã bolsonarista

Nas últimas semanas, o Brasil tem assistido à reincidência de um déjà vu de sabotagem nacional promovido pelo clã Bolsonaro, resultante de pedidos ao governo trumpista de ingerências nos assuntos brasileiros. Movidos pela obsessão mesquinha por ganhos pessoais, os irmãos comportam-se como os mais vis traidores da pátria, reles mercadores da nossa dignidade. Para esses falsos patriotas, o projeto de assalto ao poder justifica qualquer baixeza, inclusive o ato de rifar e alienar o que uma nação e seu povo, que se prezam, têm de mais precioso: a soberania nacional e a altivez de jamais se curvar diante de outro país.

Na semana passada, em um movimento para desviar o foco de seu envolvimento umbilical com o ex-banqueiro malfeitor Daniel Vorcaro, o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu a Washington a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Sob a justificativa hipócrita do combate ao crime, os filhos do ex-presidente condenado pela tentativa de golpe de Estado convidaram o lobo para o galinheiro ao chancelarem esse pretexto, abrindo as portas para que o imperialismo americano legitime intervenções diretas no território nacional, ataque nossa soberania, prejudique instituições financeiras e sabote a cooperação policial autônoma. É a síntese perfeita do “complexo de vira-lata” em sua versão mais perigosa, o sacrifício da segurança e da independência do Brasil no âmbito do oportunismo familiar com fins eleitoreiros.

Nesta semana, após a investigação comercial da Seção 301, por razões meramente políticas, os EUA sinalizaram uma proposta de 25% de sobretaxa sobre produtos brasileiros, sob a justificativa de práticas cerceadoras ao comércio estadunidense, com vinte menções ao Pix, entre outros questionamentos que não se sustentam na atual conjuntura do Brasil. O cronograma dessa investida prevê um período de consultas públicas até o início de julho, com a data-limite de 15 de julho de 2026 para que os EUA tomem a decisão final sobre a aplicação ou não da tarifa.

No dia seguinte, como se não bastasse a sobretaxa de 25%, a arrogância estadunidense anunciou um novo tarifaço de 12,5%, cinicamente camuflado sob alegações de combate ao trabalho forçado na produção brasileira. Na análise de negociadores, o que o império promove é um massacre comercial cumulativo. A junção das duas penalidades joga uma barreira alfandegária asfixiante de 37,5% contra as exportações do Brasil.

Flávio Bolsonaro tenta se descolar do anúncio dessas propostas de tarifaço; no entanto, resta impossível para qualquer bom entendedor engolir os argumentos falaciosos do senador de que não tem nada a ver, sobretudo depois da postagem de Trump sobre o efusivo encontro com Flávio, publicada em rede social no mesmo dia do golpe de novas taxações. Trump escreveu: “Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca, um jovem inteligente que ama muito o seu país”.

Numa esperada virada de chave, Trump explicita, sem a falsa máscara de “química” com Lula, que tipo de governante brasileiro prefere que seja eleito em outubro: um jovem capacho do imperialismo, um traidor da pátria que jamais amou seu país, que age unicamente para defender seus mesquinhos interesses individuais e familiares. Um jovem, nem tanto, que, ao longo de sua vida, nunca trabalhou como os verdadeiros patriotas brasileiros, que acordam cedo, pegam condução lotada para, horas depois, chegarem ao local de trabalho, submetidos a uma massacrante escala 6x1; um sujeito supostamente esperto, embora plenamente incapaz de dirigir um país.

Sem nenhuma sombra de dúvida, Flávio Bolsonaro é o candidato ideal de Trump para presidir o Brasil a partir de janeiro de 2027. O jovem sujeito improdutivo que se tornou político pelo parasitismo do “Cê é fi de quem?” (frase da camiseta usada por Flávio em um evento em Minas Gerais) e que continuou ineficaz desde 2003, quando se elegeu deputado estadual, até os dias de hoje como senador; um indivíduo que coleciona amizades íntimas com criminosos milicianos e parlamentares ligados ao crime organizado; um lacaio que trata como irmão um ex-banqueiro acusado de se apropriar de recursos públicos e apontado como protagonista de um dos maiores escândalos financeiros do país, cuja proximidade entre ambos se tornou ainda mais controversa após o recebimento de uma vultosa quantia de Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai, fato cercado por crescentes suspeitas de irregularidades, desvios obscuros e questionamentos sobre a aplicação do montante para além do custeio da produção cinematográfica.

Essa vocação entreguista e vassala atinge o ápice do ridículo na patética carta enviada por Flávio Bolsonaro ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, após a repercussão do tarifaço. Em um misto de delírio e bajulação rasteira, o senador incapaz de formular um projeto de governo e já se oferecendo como futura marionete presidencial chegou ao desplante de prometer entregar sua equipe de transição, de bandeja, aos interesses da Casa Branca. Ao apelar pelo recuo na proposta de tarifas a Rubio, enquanto argumenta um cenário caótico da economia brasileira, ele demonstra sua total inaptidão para ser presidente. Sua promessa de submeter o destino do Brasil à tutela americana demonstra sua rendição prévia e subserviente e que, se pudesse, rifaria a soberania nacional em troca de uma foto de aprovação na Casa Branca.

A bizarrice da família se acentua quando Eduardo Bolsonaro sai em defesa do Zelle, o sistema de transferências dos EUA, sugerindo que o Brasil abandone o Pix para adotar o modelo americano. Acontece que o Zelle é uma ferramenta privada, cara e fragmentada, absolutamente inferior. O Pix, por sua vez, humilha o concorrente norte-americano em eficiência e alcance, por ser um bem público regulado pelo Banco Central, por oferecer liquidação imediata em segundos e com custo zero para o cidadão, além de possuir uma segurança institucional que o mercado privado americano jamais conseguirá replicar.

Não é surpresa que o imperialismo em tensionamento, diante de sua superação hegemônica mundial pela China, almeje um político rasteiro no cargo de presidente do Brasil, em vez de um estadista como o presidente Lula, que não se curva e não negocia, em hipótese nenhuma, a soberania do país. Com toda a certeza, um líder dessa estirpe não é bem-vindo pelos EUA. Um governante que intimida a onipotência americana por meio de sua projeção internacional na defesa de uma nova ordem mundial, um presidente reconhecido mundialmente que ousa anunciar sua ida à Cúpula do G7 na França, com a missão explícita de costurar uma reação multilateral à ofensiva protecionista de Donald Trump e restabelecer o equilíbrio global frente ao arbítrio de Washington, sem sombra de dúvida, assusta pela coragem e determinação.

Esse embate constante nos fóruns globais reflete a perda de controle da Casa Branca sobre as estruturas de poder que antes dominava com facilidade. Exemplo categórico disso é que o ataque ao Pix se tornou, na avaliação estadunidense, um problema geopolítico e comercial para os Estados Unidos, justamente por ter minimizado o monopólio das maiores empresas de pagamento do mundo. Relatórios do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) já vinham apontando a ferramenta brasileira como uma suposta “barreira comercial” sob o argumento falacioso de que o Banco Central do Brasil atua de forma injusta por ser, ao mesmo tempo, o regulador do mercado e o operador do Pix, prejudicando empresas norte-americanas como Visa, Mastercard e as Big Techs apoiadoras do Make America Great Again de Trump. Na realidade, o que incomoda o governo americano é a perda de bilhões de dólares em taxas de intermediação e o avanço de modalidades como o Pix Parcelado, que ameaçam diretamente o império dos cartões de crédito tradicionais. Além do mais, uma escalada do Pix internacional também abre caminhos alternativos ao domínio global do dólar e esvazia a dependência do sistema SWIFT.

Esse sistema revolucionário não nasceu do dia para a noite; ele começou a ser pensado em 2016 pelo corpo técnico do Banco Central do Brasil e foi lançado em novembro de 2020 com o objetivo de modernizar o Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), a partir de uma infraestrutura pública aberta e gratuita para pessoas físicas. É preciso desmistificar a narrativa falsa de que o Pix foi uma criação do governo Bolsonaro, ao contrário do que afirmam postagens enganosas de seus filhos nas redes sociais. Na verdade, na véspera do lançamento da ferramenta, o próprio ex-presidente demonstrou desconhecer o projeto ao ser questionado por um apoiador, respondendo que ainda iria se informar com o presidente do Banco Central.

Para os brasileiros, o Pix significou uma das maiores ferramentas de inclusão financeira e digital da história, permitindo que milhões de pessoas saíssem da informalidade e que pequenos comerciantes e vendedores ambulantes passassem a receber o dinheiro de suas vendas na hora, sem ficar reféns dos prazos de 30 dias e das taxas abusivas das maquininhas de cartão. Ao transformar o celular na principal carteira do país e virar sinônimo de praticidade no cotidiano, o Pix provou que o Brasil pode liderar a vanguarda tecnológica financeira mundial, e a reação protecionista americana com menções diretas ao Pix é a prova definitiva de que a soberania digital brasileira mexeu com os interesses dos EUA.

O sucesso do Pix no Brasil transformou o país em uma vitrine de tecnologia financeira. O receio dos Estados Unidos não é apenas perder mercado em território brasileiro, mas sim que o modelo de infraestrutura pública e gratuita se espalhe por outros países, ameaçando o monopólio dos cartões de crédito e das remessas internacionais em outras regiões. Países da Ásia, América Latina e África querem adotar o sistema de pagamento instantâneo a exemplo do Pix.

Em reação ao anúncio da proposta dessa sobretaxa de 25% contra os produtos nacionais, o governo brasileiro emitiu uma nota oficial manifestando profunda indignação contra essa nova investida dos EUA. A nota sinaliza que, a pretexto de punir supostas práticas desleais e mirando inclusive infraestruturas soberanas como o Pix, o governo estadunidense impõe uma violência econômica infundada contra um parceiro com quem acumula um superávit. Refere ainda que a retaliação é politicamente motivada e sabotada internamente pela extrema-direita bolsonarista, que atua como linha de apoio estrangeira contra a própria pátria. Enquanto o Brasil garante tarifa zero para 76% das importações norte-americanas (incluindo petróleo e gás), Washington responde sufocando as exportações brasileiras, que já atingiram o menor patamar histórico de participação, forçando o país a acionar sua Lei de Reciprocidade para defender sua soberania e proteger os empregos nacionais.

Nesse horizonte de prepotência, os Estados Unidos entram com carga estridente na campanha eleitoral contra o presidente Lula. O coadjuvante ativo dessa ofensiva é Marco Rubio, cuja atuação revela uma psique comprometida e neurotizada em relação à sua própria latinidade. Cubano de origem, Rubio é uma figura complexada e frustrada, mas movida por uma ambição desmedida, o desejo de suceder a Donald Trump, que, num passado recente, o ridicularizou publicamente. Para provar sua lealdade ao império, Rubio projeta seu auto-ódio contra os governos progressistas da América Latina. O ápice desse ressentimento materializou-se nesta terça-feira (2), em audiência no Senado americano, quando ele rejeitou abertamente os vizinhos do sul e afirmou que o Brasil não integra o grupo de nações amigáveis aos interesses estadunidenses no hemisfério ocidental, contrariando a histórica relação amigável entre o Brasil e os EUA, que perdura há mais de duzentos anos.

A ojeriza do “tal Rubio”, como Lula acertadamente o chamou ao se referir a Marco Rubio, aplicou, não por acaso, a sua costumeira diretriz ideológica na escolha do novo embaixador dos EUA no Brasil, Daniel Perez. Recém-indicado por Donald Trump, Perez é presidente da Câmara da Flórida e, assim como Rubio, um filho de imigrantes cubanos que ascendeu na ala mais radical do Partido Republicano. O diplomata chega a Brasília sob o apadrinhamento direto de Marco Rubio, consolidando uma política de trincheira na América Latina. Juntos, padrinho e afilhado operam o mesmo mecanismo psicológico de negação. Utilizam sua ascendência latina não como ponte diplomática, mas como escudo ideológico para perseguir governos progressistas e enquadrar o hemisfério ocidental aos interesses da Casa Branca.

Vale ressaltar que os interesses americanos no Brasil vão além do Pix e alcançam setores altamente estratégicos. O Brasil é visto pelos EUA como um ponto estratégico de abastecimento para sua transição energética e segurança tecnológica. Esse interesse se traduz na extração e controle de minerais críticos para a indústria de defesa americana, no uso do território para tecnologia de satélites e no aproveitamento da matriz energética limpa do país para sustentar a infraestrutura de seus data centers. Esse intuito de exploração de recursos não vem sozinho; ele exige uma estrutura de força militar e alinhamento político para se consolidar no continente. O jornalista Jamil Chade, em publicação na revista CartaCapital, revela, inclusive, a articulação do “Escudo das Américas”, uma aliança moldada nos termos da OTAN, mas sob o controle irrestrito dos EUA. Segundo a análise de Chade, o tratado visa impor a supremacia de Washington por meio da militarização e da dependência regional, já atraindo cerca de dez nações, entre as quais Argentina, Chile, Paraguai e Panamá. Nesse contexto geopolítico, a ascensão de Flávio Bolsonaro à Presidência representaria o encaixe perfeito para os planos de subordinação defendidos pelo poder americano.

Diante de tudo isso, não resta dúvida de que a subserviência do clã Bolsonaro e de seus aliados vem sendo amplamente rechaçada nas redes sociais. Em um certeiro tiro no pé, os movimentos dessa família nociva ao país acabaram se convertendo num bom cabo eleitoral em favor do presidente Lula. Por outro lado, como previsível, os pré-candidatos da direita alinhada ao bolsonarismo, Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), ignorando deliberadamente o papel entreguista de Flávio Bolsonaro na crise, transformaram a ameaça do tarifaço em plataforma eleitoral, jogando a culpa do ataque imperialista nas costas da política externa do Planalto.

Ao final, o que se vê é mais um capítulo do déjà vu da vassalagem bolsonarista. Resta saber se, nas urnas de outubro, a teimosia de uma parte inacreditável de brasileiros optará por abandonar de vez essa tonalidade política obscura marcada pelo entreguismo, pela dependência externa e pela traição aos interesses nacionais.

¨      Entre Trump e a soberania brasileira. Por José Antonio da Silva Filho

O debate sobre soberania nacional ultrapassou os limites das academias, dos círculos diplomáticos e dos espaços tradicionais da política. Hoje, ele ocupa as mesas das famílias, os locais de trabalho e até os bares espalhados pelo país. A ação dos filhos de Bolsonaro, aliada aos interesses trumpistas, fez com que cada cidadão, à sua maneira e dentro de suas referências culturais, passasse a refletir sobre o futuro do Brasil como nação livre, independente e capaz de decidir seus próprios destinos.

Há quem, tomando como referência experiências recentes de outros países latino-americanos, especialmente a Venezuela, chegue a cogitar a hipótese de uma intervenção externa liderada pelos Estados Unidos. Não parece ser esse o cenário mais provável. O Brasil não é uma república periférica sem relevância internacional. Trata-se da maior economia da América Latina e de uma das principais economias do planeta. No entanto, isso não significa que esteja fora do radar dos interesses estratégicos das grandes potências.

Dois fatores tornam o Brasil particularmente atraente para os Estados Unidos: a extraordinária riqueza de seu subsolo e sua posição geopolítica privilegiada. O país possui vastas reservas de petróleo, minerais estratégicos e terras raras, recursos essenciais para a nova economia digital e para a corrida tecnológica global. Além disso, ocupa posição central em um continente dotado de imensas riquezas naturais e crescente importância geopolítica.

É justamente nesse ponto que reside a principal preocupação. Para qualquer potência global, influenciar politicamente um país com essas características representa uma vantagem estratégica significativa. Um governo alinhado a interesses externos, politicamente dócil e ideologicamente afinado com os interesses dos Estados Unidos, facilitaria o acesso a recursos naturais e ampliaria a capacidade de influência sobre toda a América Latina. Não se trata de uma novidade histórica. Durante séculos, no período da colonização, o continente latino-americano forneceu riquezas que contribuíram decisivamente para o desenvolvimento econômico das potências europeias. Em diferentes formas, a disputa pelos recursos estratégicos da região sempre esteve presente.

Isso não significa, a meu ver, que veremos tanques cruzando fronteiras ou tropas desembarcando em território brasileiro. No século XXI, as formas de pressão são outras — mais discretas, sofisticadas e, muitas vezes, mais eficazes. Elas se manifestam por meio de instrumentos econômicos, financeiros, diplomáticos, jurídicos e tecnológicos. Taxações comerciais, barreiras econômicas, sanções e mecanismos de pressão política passaram a desempenhar o papel que, em outros tempos, era exercido pela força militar. A própria utilização extraterritorial de legislações norte-americanas, como a chamada Lei Magnitsky, ilustra como o poder econômico e jurídico pode ser empregado como instrumento de influência internacional.

Nesse contexto, medidas recentes, como a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas por autoridades estrangeiras, inserem-se em uma dinâmica mais ampla de ampliação de instrumentos de pressão e intervenção indireta. São movimentos que, para muitos analistas, podem ser interpretados como atos preparatórios dentro de uma estratégia geopolítica mais abrangente.

Mas talvez o elemento mais relevante dessa nova realidade seja o poder acumulado pelas Big Techs. Se informação sempre foi sinônimo de poder, nunca na história da humanidade um conjunto tão reduzido de empresas concentrou tamanha quantidade de dados sobre bilhões de pessoas. Essas corporações conhecem hábitos de consumo, preferências culturais, inclinações ideológicas, padrões de comportamento, medos, desejos e até potenciais capacidades de liderança dos indivíduos.

O domínio dos algoritmos e da inteligência artificial transformou os dados em um dos ativos mais valiosos da economia contemporânea. E daí surge uma questão fundamental: existe poder econômico verdadeiramente dissociado do poder político?

A história demonstra que não. Grandes interesses econômicos inevitavelmente procuram influenciar decisões políticas. Quando governos defendem determinados modelos regulatórios, questionam sistemas de pagamento ou disputam o controle de recursos estratégicos, frequentemente estão também defendendo interesses econômicos específicos. Na atual disputa global por petróleo, minerais críticos, terras raras, infraestrutura digital e inteligência artificial, economia e política tornaram-se praticamente indissociáveis.

Por isso, as próximas eleições brasileiras não serão observadas apenas pelos brasileiros. O futuro da maior economia da América Latina interessa a governos, corporações, investidores e centros de poder espalhados pelo mundo. Seria ingenuidade acreditar que atores econômicos globais permanecerão neutros diante de uma disputa capaz de influenciar o acesso a recursos estratégicos e a orientação política de um país com as dimensões e a relevância do Brasil.

Nada será como antes. A disputa pelo poder já não ocorre apenas nos parlamentos, nos partidos ou nas urnas. Ela também se desenvolve nos mercados financeiros, nos fluxos de dados, nas plataformas digitais e nas estruturas globais de informação. Defender a soberania nacional, neste novo contexto histórico, significa compreender que independência política, autonomia tecnológica e controle sobre riquezas estratégicas tornaram-se dimensões inseparáveis de um mesmo desafio.

Por consequência, dificilmente esses atores permanecerão neutros diante da disputa eleitoral vindoura. Utilizarão todos os instrumentos de influência de que dispõem para defender interesses econômicos, políticos e estratégicos considerados fundamentais para seus projetos globais. Afinal, o que está em jogo não é apenas o resultado de uma eleição, mas a orientação política da maior e mais importante economia da América Latina.

Portanto, a escolha que os brasileiros farão nas próximas eleições será decisiva para o futuro do país. Estamos diante de uma verdadeira bifurcação histórica. De um lado, apresenta-se um projeto político alinhado à agenda da direita internacional liderada por Donald Trump e suas concepções econômicas, que defendem uma maior integração subordinada à sua obsessão ideológica. De outro, encontra-se a perspectiva de um projeto comprometido com a soberania nacional, a autonomia decisória do Estado brasileiro e a utilização estratégica de nossas riquezas naturais em favor do desenvolvimento econômico e social do próprio país.

Mais do que uma simples disputa eleitoral, trata-se de uma escolha entre diferentes concepções de nação. Está em jogo a capacidade de o Brasil preservar sua independência, fortalecer suas instituições democráticas, ampliar direitos fundamentais e aprofundar conquistas civilizatórias que tenham como horizonte a dignidade e o desenvolvimento integral da pessoa humana.

Em um mundo marcado pela disputa geopolítica, pelo poder das grandes corporações tecnológicas e pela crescente influência dos interesses econômicos globais sobre a política, a defesa da soberania nacional deixa de ser apenas uma questão diplomática para se tornar um imperativo democrático. O Brasil do futuro dependerá, em grande medida, da capacidade de seu povo escolher, de forma livre e consciente, o caminho que deseja trilhar. E não se esqueçam: depois de outubro, nada será como antes.

 

Fonte: Brasil 247

 

Desistorização do tempo: ausência de perspectiva histórica, desesperança de um novo futuro

Enfrenta-se, hoje, um processo de desistorização [ato ou efeito de retirar algo do seu contexto histórico] do tempo. Nessa crise da passagem da modernidade para a pós-modernidade surge a dificuldade de consolidar valores como, por exemplo, a ética. Não existe projeção, prospecção, estratégia, sem a concepção do tempo como história. Esta é seguramente uma das melhores heranças recebidas pelo Ocidente. Sofre agora o risco de descaracterizar-se. Os gregos imaginavam um tempo cíclico — as coisas acontecem e se repetem — e comungavam a ideia do destino implacável — algo anterior e superior a mim traça os rumos de minha vida; e esse poder é inelutável.

Foram os persas os primeiros a perceber o tempo como história. E os hebreus nos transmitiram, através do Primeiro Testamento, essa ideia-forte de que tempo é história. Entre os grandes pilares da cultura contemporânea, abraçaram o tempo como história três judeus: Jesus, Marx e Freud. Jesus (1) (Vide meu Jesus Militante – o evangelho de Marcos e o projeto político do Reino de Deus. Petrópolis, Vozes, 2024) via o tempo histórico como construção do Reino de Deus, e traçou um arco entre o princípio, o Paraíso, e o fim, a escatologia, o Apocalipse. Graças a essa herança judaica, a visão cristã imprime historicidade ao tempo. Marx ensinou a compreender melhor os vários modos de produção ao resgatar suas histórias. E Freud, ao mapear os desequilíbrios de uma pessoa, recupera a trajetória dela, inclusive garimpando-lhe os porões do inconsciente.

Quando se percebe o tempo como história, tem-se o varal onde pendurar valores. A vida ganha sentido. E este é o bem maior que todos procuram: um sentido que dê razão à existência e, assim, nos faça felizes.

Para o professor Milton Santos, o nosso projeto de sociedade está, hoje, ancorado em bens finitos, quando deveria ancorar-se em bens infinitos. Se os bens são finitos e o desejo infinito, a antinomia causa frustração para quem centra neles a razão de seu existir. Centrado em bens finitos, o desejo não encontra satisfação. E acrescento à luz da teologia: o apetite do desejo é infinito porque tem gula de Deus.

Os bens da dignidade, da ética, da liberdade são infinitos, como a paz e o amor. Sem valor de mercado. Não podem ser adquiridos na esquina. Contudo, tentam nos vender simulacros. A publicidade sabe que todos buscam a felicidade. Sem poder oferecê-la, tenta convencer-nos ser o resultado da soma de prazeres. O projeto de vida baseia-se no ter e não no ser.

Cessada a percepção do tempo como história, falta o fio de prumo dos valores e, portanto, corre-se o risco de perda de sentido. Na dinâmica do pensamento único, impõe-se a ideia de que esse modelo de sociedade capitalista neoliberal é o ideal.  O que resulta dessa perspectiva? A perenização do presente: quer nos convencer que daqui a 200 ou 500 anos haverá shopping center, mercado, Bolsa de Valores, competitividade, porque ninguém ousa imaginar algo diferente. Quando muito, haverá inovações científicas e tecnológicas.

Ora, quem conhece a história sabe que Alexandre Magno sonhou com a expansão perene de seu império. Os césares romanos ambicionaram o mesmo. A Igreja, no período medieval, acreditou haver chegado ao Reino de Deus na Terra. Hitler ousou chamar o seu projeto de Terceiro Reich, o reino definitivo da sua conquista, e deu no que deu… Stalin enveredou pela mesma senda na União Soviética. Eis uma grande asneira: a pretensão de perenizar um momento histórico.

O que preocupa em nosso momento histórico é não haver uma proposta, consistente e convincente, contraposta ao modelo neoliberal. Somos seres visceralmente vocacionados ao sonho. Somos o único animal que não pode deixar de sonhar, devido à nossa incompletude e à nossa liberdade. Uma vaca encontra-se na sua plenitude bovina, feliz; o cachorro na sua plenitude canina, precisa só de ração diária, um carinho, e fala consigo ao nos fitar: “Coitados, eles têm de fazer reuniões, discutir política, consumir notícias, enfrentar problemas familiares”. A samambaia necessita de muito pouco para ser feliz: sombra e água fresca.

Nós não. Marcados pela carência, a nossa completude só se realiza no sonho, no amor ou na mística. O sonho pode ser um projeto político, um objetivo profissional, uma vocação artística. Vocacionados à transcendência, não nos bastamos.

A perda da dimensão histórica do tempo ameaça o verdadeiro caráter da cultura. Quanto mais consciência e densidade espiritual uma pessoa tem, menos consumista tende a ser. Porém, cada vez mais a cultura é atrelada ao consumismo. Perde o valor como fator de humanização para virar mero entretenimento. Há uma máquina publicitária desinteressada em formar cidadãos, e sim consumidores. A ponto de se estender isso à infância.

Vivemos, pois, em uma situação em que a vida volta a ter dimensão cíclica, não histórica, o que torna difícil estender o varal para dependurar os valores. O sonho como utopia ou projeto passa a ser quase anomalia. “Você tem de aceitar essa sociedade tal como ela se apresenta”, insiste o pensamento único.

A perenização do presente induz à síndrome da juventude eterna. Já que o presente é perenizado, também a nossa existência deve ser. Malha-se o corpo, mas não o espírito. Hoje, ficar velho é falta de educação; engordar então, nem se fala…

Minha geração — a dos idos de 1968 — vive agora em desconforto. Tantos sonhos e sacrifícios, cantos e passeatas, e o olhar altivo do Che iluminando nossos ideais, para resultar em filhos que se drogam, detestam política e, de academias, só conhecem as de exercícios físicos. Para alguns, o culto do corpo compensa a atrofia do cérebro. Queríamos mudar o mundo e criar o homem e a mulher novos; lutamos pelo fim da ditadura e fomos às ruas em festa pelo advento da democracia; derrubamos Collor como corrupto, repudiamos Bolsonaro como aspirante a ditador e, no entanto, o Haiti é aqui e Gaza fica ali na esquina, nenhum preso pelo massacre do Carandiru; não nascem flores à porta da Candelária, e sangram corações em Vigário Geral, nos complexos da Penha e do Alemão e Eldorado dos Carajás. E tantas vítimas de balas “perdidas”…

A morte da modernidade merece missa de sétimo dia? Não seria estranho que os jornais publicassem este anúncio fúnebre: “Os senhores Derrida, Lyotard, Deleuze, Baudrillard, Vattimo e Lipovetsky convidam para o féretro de Descartes, Locke, Kant, Hegel e Marx”. Os pais da modernidade nos deixaram de herança a confiança nas possibilidades da razão e nos ensinaram a situar o sujeito humano no centro do pensamento e a acreditar que a razão sem dogmas e donos construiria uma sociedade livre e justa. E nós, estudantes militantes da rua Maria Antônia, em São Paulo, ou do restaurante Calabouço, no Rio, soberbos filhos diletos da razão moderna, nos abrigamos confortavelmente em sistemas unitários, concepções totalizantes e ideologias sagradas, crentes de que a filosofia nos redimiria dos males deste mundo, cujo futuro era mera questão de geometria política.

Foram Baudelaire e Gautier que, em 1864, falaram pela primeira vez em pós-modernidade. Aferrados à razão, não nos demos conta de que é “a imperfeição da inteligência” (Tomás de Aquino). Pouco afeitos ao delírio e à poesia, não prestamos atenção à crítica romântica da modernidade — Byron, Rimbaud, Burckhardt, Nietzsche e Jarry. Agora, olhamos em volta e o que vemos? As ruínas do Muro de Berlim, a Estátua da Liberdade tendo o mesmo efeito no planeta que o Cristo do Corcovado na vida cristã dos cariocas, o desencanto com a política, a ascensão da direita, o ceticismo frente aos valores. Somos invadidos pela incerteza, a consciência fragmentária, o sincretismo do olhar, a disseminação, a ruptura e a dispersão. O evento soa mais importante que a história, e o detalhe sobrepuja a fundamentação.

Não há doutrina especulativa que resista diante do massacre de sem-tetos, da impunidade dos assassinos de sem-terras. Hegel equivocou-se. Nem todo real é racional e vice-versa. Trabalhadores lutaram pela derrubada do socialismo no Leste europeu e pela eleição de Trump em 2024; EUA, Reino Unido, França e Alemanha, outrora pátrias de exilados, restringem a entrada de refugiados estrangeiros. As democracias funcionam para as elites e o povo não se manifesta.

O pós-moderno aparece na moda, na estética, no estilo de vida. É a cultura de evasão da realidade. De fato, não estamos satisfeitos com a miséria circundante, a filha gasta mais em canetas emagrecedoras do que em livros, e causa profunda decepção saber que no Brasil a impunidade é mais forte que a lei. Ainda assim, relutamos frente à decisão de nos engajar para promover mudanças. Recuamos do social ao privado e, rasgadas antigas bandeiras, nossos ideais transformam-se em gravatas estampadas. Como canta Belchior, “Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais.” Já não há esperança de um futuro muito diferente. Muitos consideram anacrônico propagar a tese da conquista de uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.

Agora predominam o efêmero, o individual, o subjetivo e o estético. Resta-nos captar fragmentos do real e aceitar que o saber é uma construção coletiva. Nosso processo de conhecimento se caracteriza pela indeterminação, pela descontinuidade e pelo pluralismo. A desconfiança da razão nos impele ao esotérico, ao espiritualismo de efeito imediato, ao hedonismo consumista, em progressiva americanização de hábitos e costumes. Estamos em pleno naufrágio ou, como predisse Heidegger, caminhamos por veredas perdidas.

Esse momento de sombras e impasses deixa o vácuo que também na vida social é imediatamente preenchido por forças adversas. Não haveria narcotraficantes se não houvesse viciados com seus corações esburacados pela ausência de afeto, de perspectivas, de realização profissional, e com suas mentes atrofiadas pela falta de qualidade no ensino, de livros acessíveis ao bolso e de educação artística. Mas quando o governo de um país sonega verbas necessárias à Educação, paga mal aos professores, não exige que a TV — uma concessão pública — contribua para elevar o nível cultural da população, como estranhar que em uma geração deserdada não sejam nítidos os limites entre polícia e bandido, corrupto e profissional realizado, direito à vida e risco de morte?

Sem o resgate da ética, da cidadania e das esperanças libertárias, e do Estado-síndico dos interesses da maioria, não haverá justiça, exceto aquela que o mais forte faz com as próprias mãos, ainda que a redigir leis discricionárias.

 

Fonte: Por Frei Betto, em Diálogos do Sul Global

 

Saúde mental no trabalho: como desatar os nós no SUS

Embora a saúde mental relacionada ao trabalho esteja cada vez mais no centro do debate público, o desenvolvimento de políticas e práticas para garantir o bem-estar do trabalhador ainda é pouco discutido no Brasil. Essa lacuna se manifesta tanto na dificuldade em identificar e confirmar o nexo entre as condições laborais e os transtornos que afetam a vida das pessoas, quanto na forma como os usuários do sistema de saúde e previdenciários são acolhidos.

A série Diálogos sobre o SUS, organizada pelo Instituto Walter Leser (IWL) da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), abordou essa questão e sua urgência no contexto atual. Renata Paparelli, especialista em Saúde do Trabalhador pelo CEREST/SP e doutora em Psicologia Social e do Trabalho pela USP, falou sobre a transformação histórica da discussão sobre o adoecimento relacionado ao trabalho. “O padrão de desgaste à saúde da classe trabalhadora se transformou brutalmente. Hoje, observamos transtornos mentais relacionados ao trabalho em todos os lugares”, apontou. Para ela, esse cenário coloca um grande desafio que articula cuidado, fiscalização e vigilância, dimensões que precisam dialogar diante de um sofrimento psíquico pelo qual o trabalho é fator determinante.

Paparelli destacou um ponto que, embora pareça óbvio, é frequentemente ignorado na prática: que toda a população adulta é trabalhadora e já é atendida pelo SUS. “A questão é como se faz”, advertiu, por conta das especificidades do sofrimento psíquico. Um dos pontos centrais nesse campo é o estabelecimento da relação causal entre o adoecimento e o trabalho, tanto no plano previdenciário quanto na afirmação de direitos e, sobretudo, no campo terapêutico. “É enlouquecedor para o indivíduo adoecer, perceber a relação com o trabalho e ter essa conexão negada ou minimizada pelos profissionais de saúde”, pontuou.

A pesquisadora da Fundacentro Maria Maeno, também integrante do IWL da FESPSP, destacou que o SUS carrega no próprio DNA a relação entre saúde e trabalho. “O SUS nasceu com essa premissa; contudo, percebe-se que a rede tem dificuldade em incorporar a dimensão do trabalho como determinante do adoecimento”, avaliou.

<><> O trabalhador perdido na rede

Rose Inamine, da Divisão de Vigilância em Saúde do Trabalhador do CEREST/SP, apresentou dados sobre as notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho no estado. “Especificamente sobre os transtornos mentais relacionados ao trabalho, a responsabilidade também recai sobre os CERESTs. Contudo, a cobertura de municípios notificantes é muito baixa: apenas 14% dos 645 municípios paulistas (90 municípios) realizaram notificações nesse período, sendo a maioria sedes de CERESTs. Isso evidencia um longo caminho a percorrer.”

A questão do acolhimento permeou todo o debate. “Como é que cada um de nós gostaria de ser acolhido pelo SUS?”, questionou Maria Maeno. “A população trabalhadora não precisa conhecer em detalhes a estrutura da rede. Quando tem uma urgência, ela sabe que tem que ir no pronto-socorro, mas quando a pessoa enfrenta um problema como depressão e suspeita de relação com o trabalho, quem ela deve procurar?”, exemplificou. “Quem não possui convênio recorre ao SUS. E mesmo quem tem convênio raramente encontra um profissional que estabeleça essa relação entre o sofrimento e o trabalho. Portanto, a responsabilidade recai sobre o SUS.”

A pesquisadora da Fundacentro explicou que, para o atendimento funcionar, é necessário que, em qualquer ponto da rede, a pessoa possa encontrar escuta e orientação. “O que é prejudicial é o ‘zigue-zague’ de encaminhamentos sem acolhimento efetivo. O trabalhador que busca o SUS não pode encontrar uma negativa. Deve ser acolhido, ouvido e devidamente direcionado.”

A professora Andréia de Conto Garbin, psicóloga e docente da FSP-USP, articulou o tema da saúde mental do trabalhador na rede pública a um princípio estrutural do sistema. “O princípio organizativo do SUS não pode ser priorizado em detrimento do doutrinário. O princípio doutrinário é a universalidade, a integralidade, a equidade. São esses os princípios”, frisou. A regionalização, a organização municipal e toda a rede, por mais complexa e necessária que seja, precisam se organizar a partir dos princípios doutrinários, e não o contrário, defendeu.

<><> Formação, diagnóstico e o descompasso entre as redes

Segundo as participantes do debate, existe outro nó crítico, a formação e a falta de contato dos profissionais com o tema em seus cursos. “A gente não tem formação específica nas universidades para isso, são raras as que abordam a saúde mental relacionada ao trabalho”, contou Renata Paparelli, acrescentando que sua experiência mais significativa veio do próprio CEREST.

Ela descreve um descompasso: de um lado, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) construiu uma prática orientada pela luta antimanicomial, que desconstruiu a centralidade do diagnóstico e do CID. De outro, o campo da saúde mental e trabalho depende, em larga medida, do reconhecimento formal do adoecimento para que o sofrimento do trabalhador não seja tratado como “frescura, falta de força de vontade ou algo que vai passar com fé”. Quando a equipe de saúde do trabalhador chega a um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) com a necessidade de notificar, instala-se o que ela chamou de “uma torre de Babel”, pois as lógicas institucionais não dialogam.

A saída proposta passa pela criação de espaços que promovam debates entre profissionais das duas redes, permitindo dialogar sobre o nexo sem abrir mão da perspectiva antimanicomial e afirmar o reconhecimento do sofrimento sem reproduzir a lógica manicomial do diagnóstico como fim em si mesmo.

<><> SUS e produtivismo

O produtivismo, lógica que impõe o viés quantitativo e o “empresariamento” da administração pública, foi identificado no debate como um dos principais obstáculos ao cuidado. Andreia Garbin relatou uma conversa com trabalhadores da saúde de São Paulo sobre metas. “Já incorporamos metas, mas o que se discute é como isso torna inviável o cuidado. Como quantificar o tempo necessário para um atendimento a uma crise em saúde mental?”, questionou. Trata-se de uma pergunta sem resposta numérica simples, pois a métrica adotada ignora a complexidade do atendimento. “Nessa configuração que desconsidera a variabilidade, o cuidado em sua dimensão integral torna-se inviável.”

A isso soma-se o “trabalho impedido”, que também afeta a saúde mental dos trabalhadores do SUS. “Aquilo que deveria fazer, para o qual me formei e que motivou minha entrada no serviço público, não posso realizar”, ilustra a professora. Essa impossibilidade é, por si só, uma grande causa de sofrimento. “Qual o sentido dessa avaliação de desempenho, dessa avaliação de meta? O quanto isso fere a dignidade? A pessoa dedicou-se integralmente, mas não conseguiu satisfazer uma meta estipulada unilateralmente”, completou Maria Maeno.

Renata Paparelli ilustrou essa tensão com um exemplo concreto de supervisão em Unidade Básica de Saúde (UBS). Um agente comunitário de saúde que desejava realizar seu trabalho de forma adequada, entrando nas casas, criando vínculos, fazendo visitas domiciliares com tempo e presença, era obrigado a atender demandas alheias e preencher inúmeras planilhas. “Em vez de realizar seu trabalho, ele se limita a perguntar ‘boa tarde, o senhor está tomando remédio? Estou’, e preenche as planilhas. Ele sabe que não fez seu trabalho”, explicou. “Se pensarmos em políticas de gestão de pessoas, há um ponto maravilhoso: as pessoas querem trabalhar. O problema é que não conseguem.”

Assim, o debate retorna ao seu ponto de partida, já que os trabalhadores da saúde também adoecem e sentem o que sentem as pessoas que atendem. “Todos somos gente, temos subjetividade e trabalhamos”, afirmou Paparelli. “Esse sentir pode ser utilizado a favor da população atendida. Não há trabalhador da saúde que não compreenda a saúde do trabalhador, pois todos somos trabalhadores. Basta olhar para si e para o que dói no próprio trabalho para então olhar para o outro e compreender sua dor.”

 

Fonte: Por Glauco Faria, em Outra Saúde


Trump vira peça-chave no tabuleiro da corrida eleitoral brasileira

A quatro meses da eleição presidencial, pelo menos quatro grandes temas despontam como centrais para a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os candidatos de oposição: a relação entre Brasil e Estados Unidos após o novo tarifaço anunciado por Washington; a segurança pública e o avanço das facções criminosas, tema em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também tentou interferir recentemente; a economia em meio às discussões sobre a crise fiscal; e a condição das mulheres.

Para especialistas, a intersecção desses assuntos pode ser decisiva para a formação do voto nos próximos meses. O impacto das medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos abriu uma frente inédita de debate eleitoral. O episódio anunciado na semana passada colocou a política externa no centro da campanha e passou a ser explorado por ambos os campos políticos.

O cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), destaca que fatores externos podem influenciar diretamente o processo eleitoral brasileiro. "Pela primeira vez em muitos anos, a disputa presidencial corre o risco de ser influenciada de maneira significativa por uma decisão tomada fora do país. Donald Trump surge como uma das variáveis mais imprevisíveis do processo eleitoral brasileiro."

<><> Crime organizado

A expansão das organizações criminosas e a crescente percepção de insegurança também devem protagonizar o embate eleitoral. o cientista político Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, avalia que a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas internacionais pelos Estados Unidos fortaleceu o discurso oposicionista em defesa de medidas mais duras de combate ao crime.

Já Medeiros observa que o tema historicamente beneficia candidaturas conservadoras. "A expansão das facções criminosas e o aumento da percepção de insegurança criam um ambiente propício para discursos mais duros e punitivistas. É um tema que historicamente favorece a direita e coloca governos de esquerda na defensiva". Para o economista e professor da UnB César Bergo, a segurança tende a permanecer como uma pauta transversal, envolvendo desde o combate ao crime organizado até o debate sobre fronteiras, milícias e ambiente digital.

Em meio às interferências do presidente Donald Trump, os presidenciáveis Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (PSD-GO) se encontraram na última terça-feira, durante a abertura da 21ª edição da Megaleite, em Belo Horizonte (MG), e defenderam a união da direita contra o PT para impedir a reeleição de Lula em outubro.

Dias antes, Flávio havia agradecido a decisão de Washington. No documento enviado ao secretário de Estado Marco Rubio, ele afirmou que a medida dos EUA foi recebida com entusiasmo pela maioria da população brasileira, embora, segundo ele, não tenha agradado ao atual governo federal.

"A esmagadora maioria do povo brasileiro celebrou essa medida, ainda que ela não tenha agradado ao nosso governo atual. Trata-se de um passo decisivo para proteger cidadãos honestos em todo o nosso hemisfério", escreveu, sem mostrar dados que embasassem as afirmações.

Já o líder petista declarou estar "muito triste" com a decisão dos EUA. Ele destacou que o PCC e o CV são de fato "terroristas para as comunidades brasileiras", mas "não são os terroristas que o Trump quer". "Ele quer o Osama Bin Laden de não sei das quantas, e nós queremos os terroristas brasileiros que estão lá", emendou durante o anúncio de investimentos da Petrobras em Sergipe na última semana.

Com nova equipe na Esplanada, Lula fez na quarta-feira a primeira reunião ministerial após a decisão dos EUA. No encontro, o petista cobrou maior alinhamento entre os auxiliares e pediu que divulguem ações de outras pastas e não só das próprias, visando o quarto mandato. Na ocasião, também rebateu as declarações feitas por Flávio sobre segurança pública, relações com os Estados Unidos e a atuação do governo federal no combate ao crime organizado.

Caiado, ex-governador de Goiás, afirmou, por sua vez, que, se eleito, enviará ao Congresso Nacional uma proposta para identificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Segundo o político, a mudança na tipificação jurídica tem como objetivo permitir o emprego das Forças Armadas no combate direto a grupos como o Comando Vermelho e o PCC.

<><> Economia

No campo econômico, a disputa opõe duas leituras distintas sobre o papel do Estado na recuperação da atividade econômica. Enquanto o governo aposta em medidas de estímulo ao crédito e ao consumo, a oposição insiste na necessidade de maior rigor fiscal e controle dos gastos públicos.

César Bergo aponta que governo e oposição enfrentam dificuldades para convencer o eleitorado sobre a capacidade de resolver os problemas fiscais do país. "Nenhum dos dois mostra eficiência nesse cenário. Ambos tentam alinhar o discurso com uma gestão mais responsável, mas o eleitor vai avaliar quem apresentar uma proposta mais convincente."

Segundo o ex-governador de Minas Romeu Zema, caso seja eleito presidente, seu governo terá foco na economia, na segurança pública e na descentralização do poder de decisão de Brasília, promessa feita por todos os candidatos até o momento e que representa uma constante reclamação dos prefeitos.

Bergo observa, ainda, que a ausência de uma terceira via competitiva reforça a dinâmica polarizada. "De um lado, você tem um discurso mais social, com presença mais vigorosa do Estado na economia, políticas assistenciais e multilateralismo. Do outro, a busca pelo liberalismo, redução do Estado, empreendedorismo e uma diplomacia mais voltada para os Estados Unidos", resume.

Segundo Coimbra, o Planalto busca impulsionar a economia por meio de subsídios e incentivos financeiros, enquanto adversários defendem uma agenda mais austera diante das pressões fiscais. Medeiros pondera que o resultado eleitoral dependerá, sim, dos indicadores oficiais, mas não tanto quanto da percepção cotidiana dos brasileiros. "O eleitor vai ser impactado menos pelos indicadores macroeconômicos e mais pelos preços dos supermercados, da conta de luz e do orçamento doméstico."

<><> Mulheres

Nesse contexto, a campanha tende a se concentrar em temas capazes de influenciar diretamente o cotidiano dos eleitores, especialmente custo de vida, segurança e emprego. Murilo Medeiros enfatiza que "no centro dessa disputa está o custo de vida das famílias, que será o indicador fiel da balança capaz de impactar o humor do eleitorado e, principalmente, os rumos do voto feminino."

Área decisiva, o eleitorado feminino aparece como um dos segmentos mais estratégicos da campanha. Na avaliação do analista Márcio Coimbra, o governo tenta associar pautas trabalhistas e sociais à melhoria das condições de vida das mulheres, especialmente entre trabalhadoras de baixa renda. "O Planalto encontrou um forte vetor de contra-ataque ao pautar a condição das mulheres por meio do apelo popular pela aprovação do fim da escala 6x1, conectando o tema à jornada dupla feminina e à defesa dos direitos sociais", afirma.

Murilo Medeiros lembra que a rejeição feminina teve papel decisivo nas eleições anteriores e pode novamente influenciar o resultado. "A rejeição feminina costuma ser um indicador central nas eleições presidenciais. Se Lula conseguir recuperar parte das eleitoras de baixa renda e das periferias, amplia suas chances de vitória. Se a oposição reduzir a vantagem petista entre as mulheres, o cenário eleitoral se torna muito mais competitivo."

<><> Visões distintas sobre o papel do Estado

A polarização política volta a dominar o cenário nacional. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca a reeleição defendendo um modelo de desenvolvimento baseado na ampliação dos investimentos públicos, fortalecimento dos programas sociais e atuação internacional voltada ao multilateralismo. Do outro, os principais nomes da oposição apostam em uma agenda de austeridade fiscal — uma política econômica de contenção de gastos e equilíbrio das contas públicas —, redução do tamanho do Estado, privatizações e aproximação mais estreita com os Estados Unidos.

Para analistas, a campanha caminha para um embate que ultrapassa a disputa tradicional de propostas e se transforma em uma escolha entre visões distintas sobre o papel do Estado, a condução da economia e as prioridades do país. "As divergências estruturais entre o presidente Lula e os candidatos de oposição delineiam um debate que vai muito além da tradicional disputa de propostas, consolidando-se em visões de Estado colidentes", afirma o cientista político Márcio Coimbra, CEO da Casa Política.

Segundo Coimbra, o campo governista sustenta a centralidade do investimento público e das políticas sociais como instrumentos de desenvolvimento, enquanto a oposição, representada por lideranças conservadoras e de centro-direita, aposta em um discurso de choque de gestão, responsabilidade fiscal e liberalização econômica.

O cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), avalia que o pleito de outubro tende a ser apertado. "A disputa promete ser acirrada e definida por margens estreitas", diz. Na avaliação dele, cada lado possui temas nos quais encontra maior capacidade de mobilização eleitoral. "Lula encontra terreno favorável quando monopoliza o debate em torno da soberania nacional e do confronto com Trump. A oposição, por sua vez, ganha força popular quando a pauta é segurança pública e criminalidade."

<><> Jogo de empurra

Segundo Márcio Coimbra, a oposição utiliza as sanções norte-americanas para apresentar o governo como internacionalmente isolado, enquanto o Planalto tenta transformar o episódio em uma discussão sobre soberania nacional. "O embate sobre o tarifaço e a relação Brasil-EUA atuam como o estopim de uma crise de percepção internacional. Enquanto a oposição usa as sanções para carimbar o governo como ideologicamente isolado e ineficaz, o Planalto tenta reverter o golpe adotando um tom de soberania ferida contra o protecionismo americano", explica.

O petista pediu novamente, na última semana, que o Senado Federal aprove a proposta de emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública (PEC 18/2025). O texto foi aprovado em dois turnos pela Câmara dos Deputados em março de 2026 e, atualmente, tramita na Casa revisora. Assim que a emenda for aprovada e promulgada, o presidente pretende criar um Ministério da Segurança Pública específico para coordenar as ações. 

¨      O pix e o tormento mental dos bolsonaristas. Por Jair de Souza

É impossível negar a realidade visível: o pix se tornou um enorme tormento para a cúpula dirigente da extrema direita bolsonarista. Contudo, antes de explicar os motivos que estão por trás do atual pânico que acomete os bolsonaristas, convém fazer uma breve retrospectiva sobre o surgimento deste inovador sistema de pagamentos e sua evolução até os dias atuais.

Sua origem se remonta ao ano 2013, quando, em pleno governo de Dilma Rousseff, os técnicos do Banco Central começaram a desenvolver estudos para um projeto que visava agilizar os processos de compensações financeiras em nosso país.

As equipes técnicas do Banco Central continuaram avançando em seu trabalho mesmo após o golpe parlamentar que destituiu Dilma Rousseff e instalou Michel Temer na presidência. Em 2020, já no governo dirigido por Jair Bolsonaro, o pix entrou oficialmente em função e passou a ser adotado em todo nosso sistema bancário.

A dúvida colocada é saber a qual governante atribuir o mérito pela criação do pix, visto que sua projeção teve início no exercício de Dilma, avançou no período da usurpação de Temer e se efetivou na administração Bolsonaro. Em resposta, poderíamos dizer que a todos eles, e a nenhum deles. É que todo o trabalho sempre partiu e foi feito de forma autônoma pelas próprias equipes técnicas do Banco Central, sem nenhuma participação direta dos governantes de turno. A estes, resta o mérito de não haver colocado entraves que inviabilizassem a concretização do projeto.

Se, até pouco tempo atrás, os bolsonaristas queriam de todas as maneiras serem reconhecidos como os criadores do pix, agora isto lhes está tirando o sono. A razão para tal é mais ou menos simples de entender. O pix veio a representar um golpe muito forte contra os interesses dos mega oligopólios financeiros dos Estados Unidos, como Visa e Mastercard. Isto se deve a que, com o significativo crescimento da preferência do público brasileiro pelo uso do pix em todas as suas transações, os grupos financeiros gringos estão deixando de ganhar centenas de bilhões de reais.

E por que isto incomodaria aos bolsonaristas? Bem, o motivo também não é de difícil compreensão. Basta que tenhamos sempre em mente que o bolsonarismo é um movimento de extrema direita que foi criado sob a tutela absoluta de seus mentores estadunidenses. Então, como quem comanda a luta das corporações gringas contra o pix é seu principal orientador político a nível mundial, aquele a quem todos os bolsonaristas veneram como a expressão máxima a ser seguida e obedecida, ou seja, Donald Trump, aí, o bolsonarismo entrou em paranoia.

Como continuar querendo ganhar pontos junto ao povo brasileiro como os criadores do pix, se isto causa terror ao grande líder que eles prometeram seguir sem pestanejar? Este é o grande dilema que está transtornando a mente dos próceres do bolsonarismo.

Se, de fato, almejassem fazer valer suas reivindicações junto ao povo brasileiro de que são os verdadeiros arquitetos e criadores do pix, deveriam estar na linha de frente daqueles que estão gritando: “Trump, tire suas patas de nosso pix”. Mas, agir assim seria equivalente a cometer suicídio, posto que a razão de ser do bolsonarismo é zelar pela preservação dos grandes lucros do imperialismo gringo no Brasil.

Portanto, como havíamos dito no início, estamos em um momento de grandes tormentos mentais para todos os que comandam as hostes do mais entreguista e submisso movimento político que o imperialismo tem em nosso país. Aos que desejam analisar a situação dentro de parâmetros do humanismo e da condescendência cabe levar em conta o grande sofrimento mental pelo qual eles estão passando.

¨      Brasil quer convencer EUA de que acordo seria melhor que taxar em 25%

O governo brasileiro está buscando um acordo tarifário com os Estados Unidos (EUA) que seja capaz de evitar que a Casa Branca adote a recomendação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), que sugeriu a imposição de tarifa adicional de 25% sobre parte das importações oriundas do Brasil.

O governo avalia que é possível, apesar de difícil, chegar a um acordo tarifário que seja mais vantajoso, para ambos os países, do que a sobretaxa de 25% sugerida pelo USTR. Isso porque, entre outros motivos, os EUA têm superávit comercial com o Brasil.

A recomendação da USTR, tornada pública na última semana, é resultado de uma investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. O argumento usado é que o Brasil teria práticas “desleais” nas relações comerciais, o que incluiu ataques contra o Pix para favorecer empresas de pagamento estadunidenses.

O Brasil rebateu que os argumentos não são legítimos e que a decisão parte de uma tentativa de ingerência em assuntos internos, além de expressar o protecionismo comercial unilateral de Washington.

O governo vem questionando as tarifas adicionais dos EUA com o argumento de que a tarifa média aplicada pelo Brasil sobre as importações dos EUA é de 2,7%, o que não justificaria o argumento de que as empresas norte-americanas seriam prejudicadas no acesso ao mercado brasileiro.

<><> Novo prazo

O Brasil agora trabalha com o prazo de 15 de julho para fechar um acordo tarifário. Essa foi a data fixada pela USTR para uma definição sobre o tema. Tal prazo ainda poderia, em tese, ser prorrogado.

Com isso, os negociadores brasileiros esperam ter mais tempo para um acordo, uma vez que o prazo inicial estipulado após a reunião entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em Washington, no mês passado, foi de 30 dias que terminam neste domingo (7).

<><> Dificuldades das negociações

Entre as dificuldades da negociação, está o fato de os EUA estarem envolvidos em várias outras negociações tarifárias ao redor do mundo, além do conflito bélico que lidera no Oriente Médio contra o Irã.

Enquanto isso, o governo brasileiro avalia a conveniência de um novo encontro de Trump e Lula. Existe a possibilidade de os dois se encontrarem no G7, na França, entre os dias 15 a 17 de junho. Porém, não há ainda confirmação de um encontro bilateral.

Outra dificuldade para negociar com os EUA é que os norte-americanos costumam ter demandas muito amplas, o que abarcaria diversas reinvindicações em diferentes áreas.

Porém, por enquanto, o Brasil busca um acordo especificamente sobre questões tarifárias e comerciais, sem outras pautas que poderiam interessar os norte-americanos, como terras raras. Ao mesmo tempo, o governo afirma que o Pix não entra em qualquer negociação com Washington.

<><> A tarifa de 12,5%

Por outro lado, a taxação adicional de 10% ou 12,5% imposta a 60 países sob o argumento de que essas nações não combateriam, de forma eficiente, o trabalho análogo à escravidão é vista pelo governo brasileira como feita para não ser negociada.

Como é uma taxação imposta a boa parte do planeta, ela teria mais o objetivo de recompor, sob novas bases legais e argumentativas, o tarifaço anterior derrubado pela Suprema Corte de Justiça dos EUA.

A nova taxa afeta, além do Brasil, os aliados históricos de Washington, como Japão, União Europeia, Canadá e Índia, além da Argentina, presidida por Javier Milei, que tem se posicionado sempre ao lado de Donald Trump nas questões internacionais.

 

Fonte: Correio Braziliense/ICL Notícias

 

A Venezuela precisa de uma nova “luta de libertação”

O presidente dos EUA, Donald Trump, reiterou recentemente que está “considerando seriamente tornar a Venezuela o 51º estado”. A declaração surge poucos meses após o ataque militar dos EUA ao país sul-americano e o sequestro de seu presidente, Nicolás Maduro. A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, respondeu afirmando que seu país “não é uma colônia” e que o presidente Trump “sabe que temos trabalhado em uma agenda diplomática de cooperação”. Mas para Elías Jaua, ex-vice-presidente de Hugo Chávez, a Venezuela de hoje é um país “militarmente ocupado”, além de “sujeito à tutela coercitiva” e a uma “administração neocolonial” dos EUA. Nesta entrevista, originalmente publicada em inglês no LINKS International Journal of Socialist Renewal, ele afirmou que o Estado venezuelano deveria denunciar esse “grave ato de agressão”.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Após o ataque imperialista de 3 de janeiro, você se referiu à situação na Venezuela como uma “ocupação militar”. Poderia explicar o porquê?

ELÍAS JAUA - Baseio essa afirmação em declarações oficiais tanto do governo venezuelano quanto de Donald Trump e Marco Rubio. O governo dos Estados Unidos declarou que, sob a ameaça de destruição em massa da infraestrutura e da liderança na Venezuela, aceitou o plano proposto por Trump. Portanto, sem dúvida alguma, existe uma ameaça pública de um ataque militar em larga escala, o que implica coerção militar. Isso também explica o que aconteceu posteriormente.

·        Qual é o plano de Trump para a Venezuela?

EJ - O fato mais visível, conforme declarado por Trump e seus assessores, é que a comercialização da produção de petróleo venezuelana está em suas mãos e que a receita da venda desse produto vai para um fundo administrado pelo Departamento do Tesouro, liberando alguns recursos para o funcionamento do Estado venezuelano.

Isso dispensa maiores explicações para compreender a gravidade da situação em que um país, uma nação, um Estado, tem de aceitar que sua principal fonte de renda seja administrada por outro país. Isso nada mais é do que tutela coercitiva e administração neocolonial de um governo sobre outro, sistema que vem sendo implementado na Venezuela. Em seguida, suas intenções se intensificaram, passando a incluir ouro e outros minerais estratégicos. E a política externa da Venezuela tem sido condicionada a questões como a solidariedade com Cuba, Irã e Palestina. O que o governo dos EUA está fazendo com a Venezuela é um ato de agressão gravíssimo e está fora dos limites de qualquer estrutura de direito internacional. Deveria gerar séria preocupação na comunidade internacional que um país esteja sendo submetido às condições impostas à Venezuela.

·        Recentemente, você escreveu que a “incapacidade ou falta de vontade de gerir o conflito político de forma nacional e democrática” abriu caminho para essa interferência estrangeira. Que fatores internos ajudam a explicar o que aconteceu em 3 de janeiro?

EJ - Bem, é um longo caminho até 3 de janeiro de 2026, mas podemos resumi-lo da seguinte forma. Desde o início da Revolução Bolivariana, um setor da oposição optou por recorrer à interferência estrangeira para tentar interromper o processo democrático revolucionário iniciado em 1998 com a vitória eleitoral do Comandante Hugo Chávez. A partir de 2001-2002 [quando a oposição lançou uma tentativa de golpe em abril de 2002 e, em seguida, organizou uma greve de petroleiros em dezembro de 2002 e janeiro de 2003], a presença de um agente externo foi introduzida no conflito político nacional, que marcou a história por mais de 20 anos. E o conflito se agravou com o falecimento do Comandante Chávez, dada a crença equivocada, na época, de que sua morte havia enfraquecido os alicerces da Revolução Bolivariana e que poderiam resolver rapidamente a questão derrubando o presidente Nicolás Maduro, eleito em 2013. Portanto, em 2014, testemunhamos a chamada “Saída” [uma onda de protestos violentos entre janeiro e fevereiro daquele ano], que foi uma estratégia insurrecional para derrubar o governo. Em seguida, diante do fracasso dessa estratégia, passamos à participação aberta do governo dos EUA como ator na política interna. Isso ocorreu quando o governo do presidente Barack Obama declarou a Venezuela uma ameaça “incomum e extraordinária”.

·        O que mudou especificamente?

EJ - Acredito que foi aqui que o controle do que chamo de gestão nacional do conflito se perdeu, pois, apesar de toda a interferência estrangeira ocorrida desde 2002, pelo menos até 2013, o conflito poderia ter sido administrado democraticamente e entre atores nacionais. Em 2004, ele foi resolvido por meio de um acordo político entre o chavismo e todos os setores da oposição. Isso permitiu um longo período de estabilidade política e, naturalmente, crescimento econômico, redução da pobreza e diminuição da desigualdade. Tudo isso ocorreu após 2004, depois do referendo revogatório, uma solução constitucional venezuelana que, em última análise, reafirmou a presidência de Chávez. Mas, a partir de 2014-2015, o conflito ultrapassou o âmbito da gestão política nacional, e os EUA começaram a intervir diretamente nas tentativas de resolução política dentro do país, condicionando esses acordos e sabotando-os. Eu fazia parte da equipe de negociação na República Dominicana, onde estávamos prestes a assinar um acordo com a oposição para as eleições de 2018, mas ele foi cancelado por instruções dos Estados Unidos. Depois veio o governo Trump e o estabelecimento e reconhecimento do governo paralelo de Juan Guaidó.

·        Qual foi a resposta do governo Maduro?

EJ - É precisamente nesse ponto que o governo nacional tenta estabelecer um diálogo direto — que irá construir e alcançar — com o governo dos EUA. A partir daí, a negociação deixa de ser nacional, e tanto a oposição (que solicitou, incentivou e abriu as portas para a intervenção estrangeira) quanto o governo (que apenas deseja reconhecer os EUA como seu interlocutor) fazem com que a gestão nacional do conflito se perca. A partir de então, a situação se desenrolou e chegou ao 3 de janeiro, com a grave consequência de um ataque militar traiçoeiro e a subsequente ocupação e controle da Venezuela pelo governo dos EUA. Além do controle econômico e da administração ilegal e arbitrária de nossos recursos, podemos agora afirmar que decisões fundamentais sobre o cenário político na Venezuela não estão sendo tomadas ou resolvidas dentro da própria Venezuela. Todos os atores políticos, ou pelo menos a maioria deles, estão agora de olho na Casa Branca para ver o que ela decide, quando convocará eleições e quem apoiará como candidato. A principal responsabilidade pela atual situação política reside no fato de termos permitido que a direção, a regulação e a contenção do conflito escapassem das mãos dos venezuelanos, especialmente nos últimos 10 anos. Isso facilitou a entrada do governo dos EUA para atingir seus objetivos: reservar recursos energéticos e minerais para si e esmagar a resistência popular, em sua busca por se reposicionar como potência hegemônica.

·        Qual é o estado de espírito da população após 3 de janeiro?

EJ - Existem diversos sentimentos. Em relação ao sequestro do presidente Nicolás Maduro, algumas pessoas condenam o fato e se mostram emocionalmente abaladas pelo ocorrido; enquanto outras o celebram e se identificam com os eventos. Este é um nível. Mas então surge a questão da percepção em relação à agressão militar, à tutela que está apenas começando e que gera angústia, dor, a sensação de que estamos perdendo nossa República. As pessoas não compreendem totalmente nossa relação com os Estados Unidos, mas a realidade diária demonstra que ela nada mais é do que uma tutela por outro Estado. Isso gera um sentimento de vergonha, que se intensifica a cada dia. Mas há também outro nível, um sentimento de expectativa, de que a situação econômica e social do país vai melhorar. Naqueles primeiros dias, em meio à confusão, à dor, aos que comemoravam, aos que condenavam, o sentimento subjacente era: “Vejam, tudo vai melhorar”. Já nos imaginávamos em prosperidade econômica. Era assim porque este é um povo que foi submetido, especialmente após a morte de Chávez, a uma agressão sistemática que minou todo o sistema de direitos sociais, participação política e esperança de construir algo diferente. No cerne de todos os sentimentos expressos por ambos os lados em relação ao país e ao governo, está o desejo de que a situação melhore. Mas a realidade é que não houve mudanças significativas. Quatro meses se passaram e podemos afirmar que a situação econômica diária das famílias venezuelanas é pior do que era antes de 3 de janeiro de 2026.

·        Apesar de muita conversa sobre uma possível mudança de regime, Trump manteve o governo no poder. Por que você acha que isso aconteceu?

EJ - Acho que isso decorre, antes de mais nada, de uma questão de política interna dos EUA. Trump joga muito bem com a vinculação da política interna e internacional, a chamada abordagem interméstica. Uma parte fundamental de sua plataforma era que os EUA não deveriam mais promover mudanças de regime em outros países. Portanto, o que ele conseguiu com o governo em Caracas se encaixou perfeitamente em sua retórica e em suas promessas de campanha. É por isso que ele tentou repetir a mesma estratégia no Irã: assassinar o aiatolá e manter a liderança iraniana no poder, chegar a um entendimento com eles e alegar que não houve mudança de regime. Acho que essa era a intenção. Em segundo lugar, havia a necessidade de estabilidade política e o reconhecimento de que a oposição venezuelana não possuía a liderança, a força e a autoridade necessárias para garantir essa estabilidade política a curto prazo. Isso era especialmente importante porque o ataque à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores devem ser entendidos como um prelúdio para um ataque ao Irã. Trump acreditava que, controlando as reservas de petróleo da Venezuela, os EUA poderiam se aventurar em uma guerra com o Irã sem que o fechamento do Estreito de Ormuz causasse danos à segurança energética, doméstica pelo menos. No entanto, ele desconsiderou em sua avaliação os danos causados ​​pelas sanções impostas à capacidade produtiva da indústria petrolífera nacional, cuja recuperação total levará pelo menos quatro anos, segundo especialistas, caso todas as sanções sejam suspensas e haja investimentos bilionários, o que não está previsto no momento. Acredito que essa seja, em parte, a explicação para o reconhecimento da sucessão constitucional que ocorre temporariamente, conforme previsto na Constituição, e para o estabelecimento, sob coerção e ameaça, de uma relação de tutela com o atual governo da Venezuela.

·        Há claramente opiniões divergentes sobre o novo governo da presidente interina Delcy Rodríguez. Na sua opinião, como podemos caracterizar o atual governo e suas ações?

EJ - O governo atual deve ser caracterizado e suas ações compreendidas a partir do fato de ser um governo submetido à coerção militar e cujos recursos nacionais são administrados por um governo estrangeiro. Essa é a realidade. Agora, o conjunto de políticas, especialmente as relativas ao petróleo e à mineração, representa, sem dúvida, um retrocesso em comparação com os ganhos e conquistas em termos de soberania que a Venezuela havia alcançado ao longo de quase 100 anos, e que haviam sido particularmente consolidados e ampliados durante o governo do Comandante Chávez. A Lei dos Hidrocarbonetos, por exemplo, após sua reforma poucos dias depois do ataque militar, é uma lei que estabelece que o controle operacional de todo o processo de produção de petróleo, da extração à comercialização, pode ser transferido. Isso é um retrocesso que nos coloca em uma situação semelhante à da década de 1930. Existem questões muito sérias, como a eliminação dos royalties do petróleo; agora pode haver uma concessão petrolífera em que a concessionária não paga um único centavo em royalties ao proprietário do recurso, que é a nação venezuelana. Esses são alguns dos elementos que representam sérios retrocessos para a soberania petrolífera da Venezuela, entre outros.

·        Mas, dada a situação, será que o governo poderia fazer algo diferente? E, em caso afirmativo, o que seria?

EJ - Sinceramente, sou muito cauteloso ao dar conselhos ao governo ou especular sobre o que ele deveria ou não fazer. Já trabalhei no governo e sei que, quando se está no poder, você tem acesso a informações que não são públicas, a dados mais precisos, o que te obriga a tomar certas decisões. Só posso dizer que a decisão de 3 de janeiro, de não responder ao ataque militar, parece-me ter sido a decisão correta na época para evitar a destruição total de nossas Forças Armadas e danos massivos à população civil, como sem dúvida teria ocorrido. Mas quatro meses depois, o Estado venezuelano deveria denunciar internacionalmente a coerção a que está sendo submetido.

·        Em seu “Manifesto por uma República Democrática”, o senhor propõe um “acordo nacional” para “demonstrar ao mundo que a vasta maioria dos venezuelanos não aceita ser um Estado tutelado, nem uma colônia”. Poderia explicar sua proposta?

EJ - Você me perguntou o que poderia ser feito? Bem, a resposta está naquele documento ao qual você se referiu. A realidade é que o governo sozinho não pode fazer isso. É preciso que a nação como um todo — todos os atores políticos e sociais, e uma ampla maioria da população — se una em torno de uma reivindicação política e diplomática. Isso inclui fóruns internacionais, mesmo sabendo que esses fóruns e o direito internacional não são aplicáveis ​​no momento, mas ainda estão em vigor. A República deve estabelecer precedentes para que, no futuro, possa fazer reivindicações apropriadas em relação aos graves atos cometidos contra a Venezuela.

Primeiro: um ataque militar injustificado, não provocado e desproporcional, que colocou em risco grandes segmentos da população civil na cidade de Caracas e em outras localidades. Segundo: a ocupação, que é absolutamente proibida pelas resoluções das Nações Unidas, que afirmam que nenhum país pode ser explorado por seus recursos. Nenhum governo pode reivindicar o direito de administrar os recursos econômicos de outro país. Nenhum país pode ser coagido a tomar decisões políticas, econômicas ou legislativas sob ameaça militar. A nação como um todo, todas as forças políticas, devem levantar esta questão imediatamente perante os organismos internacionais e os povos livres do mundo. É preciso exigir a devolução do controle sobre a renda nacional ao Estado venezuelano para que este possa enfrentar os graves problemas que todo esse confronto político, o bloqueio, as sanções, a agitação social, a violência e outros fatores causaram, provocando danos estruturais à economia. Esta é a única maneira de o Estado abordar as questões mais importantes para a população: salários, educação, saúde e serviços públicos. Não haverá prosperidade sem uma república de fato. Este acordo nacional implica uma resolução, ou pelo menos uma regulamentação, do conflito político na Venezuela e o estabelecimento de um caminho democrático, eleitoral, político e pacífico. Deve ser uma decisão tomada pela nação venezuelana para resolver o conflito interna e democraticamente, e não imposta pela potência ocupante. Meu ponto final é que a Venezuela deveria ter autonomia para gerar uma política externa independente, o que é um elemento fundamental para a soberania de um Estado.

·        A Venezuela tem se caracterizado por seu alto nível de politização e organização popular, particularmente com o exemplo comunas. Qual é o estado atual desse nível de politização e organização?

EJ -  Tanto as comunas quanto o partido mantêm uma estrutura organizacional significativa. Além disso, o PSUV é a única estrutura organizacional realmente existente hoje, porque possui presença territorial e setorial. Parte do problema no país é que os partidos de oposição não são realmente partidos de oposição. Eles não têm uma presença enraizada, entre a classe trabalhadora, e assim por diante. A maioria dos líderes da oposição são simplesmente comentaristas de redes sociais, fortemente financiados do exterior, pelos EUA e por países europeus. E, particularmente nos últimos seis anos, a principal atividade política de grande parte da liderança da oposição na Venezuela não tem sido a construção de partidos ou movimentos, mas sim a promoção da agressão militar que, em última análise, conseguiram desencadear em 3 de janeiro. Contudo, a deterioração das condições materiais e sociais diminuiu não os níveis de politização — porque a sociedade venezuelana não é despolitizada — mas sim os níveis de participação política. Tanto que o próprio nível de politização entre grande parte da população, tanto na oposição quanto nas bases chavistas, permitiu compreender o que aconteceu depois de 2018. O que havia sido um conflito de luta social para transformar as condições materiais de existência, onde as sucessivas vitórias do chavismo se traduziram em melhorias e ampliação de direitos, tornou-se novamente um conflito clássico entre grupos de poder, onde a grande maioria nada ganhou, mas, ao contrário, perdeu cada vez mais.

Isso reduziu a participação política. A partir de então, numa democracia que havia alcançado níveis de participação eleitoral superiores a 80%, a mobilização permanente em massa de setores da população em favor de uma ou outra proposta, o entusiasmo pela participação nos níveis territorial, setorial e outros, começou a declinar. Esse declínio se manifestou nos altos níveis de abstenção em todos os processos eleitorais realizados desde 2015. Também se manifestou na diminuição do ativismo político, social e comunitário. Isso se deve, entre outros fatores, à preocupação das pessoas com a sobrevivência: “Preciso ter três ou quatro empregos; não tenho mais tempo para ir a uma reunião, a uma marcha, para participar da autogestão”. A situação econômica também teve um impacto político na participação.

Portanto, sem dúvida alguma, o ataque militar de 3 de janeiro foi perpetrado contra uma sociedade exausta pelo conflito, de ambos os lados. Porque, independentemente do que os EUA tivessem planejado, se a oposição aqui tivesse possuído a força política organizada que alegava ter, aquele dia teria sido a oportunidade perfeita para tomar o poder por meio de uma insurreição, o que não aconteceu. Mas também é preciso reconhecer que havia uma certa hesitação entre os setores que historicamente apoiaram o processo revolucionário naquele fatídico dia.

·        A questão da solidariedade com a Venezuela tem sido um ponto de debate na esquerda internacional. De que tipo de solidariedade o povo venezuelano precisa hoje?

EJ - Neste momento, manifestamos nossa solidariedade à Venezuela, ao país, ao povo que tem sido atacado e explorado. Fundamentalmente, a esquerda internacional precisa compreender que — independentemente do governo e da interpretação que se faça dele — a Venezuela é hoje um país que foi militarmente e ocupado militarmente, submetido a uma política de coerção e controle. Portanto, o dever da esquerda internacional é denunciar isso, independentemente do governo no poder. Sempre me lembro de que éramos jovens ativistas de esquerda durante a invasão do Panamá, e nada poderia estar mais distante de nossas simpatias do que Manuel Noriega. Mas não era sobre Noriega; era uma nação irmã sendo invadida e massacrada, e nós, a juventude de esquerda latino-americana, nos levantamos durante meses, marchando, protestando e assim por diante, contra essa intervenção militar. Portanto, a esquerda internacional não deve excluir a luta pela libertação da Venezuela de sua agenda. Porque o povo venezuelano terá que travar uma luta de libertação nacional nos próximos meses e anos. E essa luta pela libertação nacional de nosso país da tutela do governo dos EUA deve ter a solidariedade de toda a esquerda internacional e, muito além da esquerda, daqueles setores que acreditam que o mundo não pode ser o que Trump quer que ele seja. Hoje é o momento de erguer as bandeiras anti-imperialistas com mais força do que nunca e denunciar o fato de que estão esmagando o direito internacional, esmagando Estados-nação e cometendo crimes contra a humanidade e genocídio, como os que testemunhamos em Gaza e que continuam a se desenrolar diante dos olhos do mundo, ou como vemos com o ataque contra o Irã. Independentemente da opinião que se tenha sobre o regime que governa o Irã, o que está acontecendo é inaceitável. Isso obriga a esquerda internacional a fortalecer sua capacidade de organização, comunicação e mobilização, porque a luta contra o imperialismo e a agressão militar dos impérios contra os povos tem sido uma bandeira histórica da esquerda. Hoje, a causa humana exige que lutemos.

 

Fonte: Entrevista com Elías Jaua - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil