terça-feira, 9 de junho de 2026

Trump vira peça-chave no tabuleiro da corrida eleitoral brasileira

A quatro meses da eleição presidencial, pelo menos quatro grandes temas despontam como centrais para a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os candidatos de oposição: a relação entre Brasil e Estados Unidos após o novo tarifaço anunciado por Washington; a segurança pública e o avanço das facções criminosas, tema em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também tentou interferir recentemente; a economia em meio às discussões sobre a crise fiscal; e a condição das mulheres.

Para especialistas, a intersecção desses assuntos pode ser decisiva para a formação do voto nos próximos meses. O impacto das medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos abriu uma frente inédita de debate eleitoral. O episódio anunciado na semana passada colocou a política externa no centro da campanha e passou a ser explorado por ambos os campos políticos.

O cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), destaca que fatores externos podem influenciar diretamente o processo eleitoral brasileiro. "Pela primeira vez em muitos anos, a disputa presidencial corre o risco de ser influenciada de maneira significativa por uma decisão tomada fora do país. Donald Trump surge como uma das variáveis mais imprevisíveis do processo eleitoral brasileiro."

<><> Crime organizado

A expansão das organizações criminosas e a crescente percepção de insegurança também devem protagonizar o embate eleitoral. o cientista político Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, avalia que a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas internacionais pelos Estados Unidos fortaleceu o discurso oposicionista em defesa de medidas mais duras de combate ao crime.

Já Medeiros observa que o tema historicamente beneficia candidaturas conservadoras. "A expansão das facções criminosas e o aumento da percepção de insegurança criam um ambiente propício para discursos mais duros e punitivistas. É um tema que historicamente favorece a direita e coloca governos de esquerda na defensiva". Para o economista e professor da UnB César Bergo, a segurança tende a permanecer como uma pauta transversal, envolvendo desde o combate ao crime organizado até o debate sobre fronteiras, milícias e ambiente digital.

Em meio às interferências do presidente Donald Trump, os presidenciáveis Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (PSD-GO) se encontraram na última terça-feira, durante a abertura da 21ª edição da Megaleite, em Belo Horizonte (MG), e defenderam a união da direita contra o PT para impedir a reeleição de Lula em outubro.

Dias antes, Flávio havia agradecido a decisão de Washington. No documento enviado ao secretário de Estado Marco Rubio, ele afirmou que a medida dos EUA foi recebida com entusiasmo pela maioria da população brasileira, embora, segundo ele, não tenha agradado ao atual governo federal.

"A esmagadora maioria do povo brasileiro celebrou essa medida, ainda que ela não tenha agradado ao nosso governo atual. Trata-se de um passo decisivo para proteger cidadãos honestos em todo o nosso hemisfério", escreveu, sem mostrar dados que embasassem as afirmações.

Já o líder petista declarou estar "muito triste" com a decisão dos EUA. Ele destacou que o PCC e o CV são de fato "terroristas para as comunidades brasileiras", mas "não são os terroristas que o Trump quer". "Ele quer o Osama Bin Laden de não sei das quantas, e nós queremos os terroristas brasileiros que estão lá", emendou durante o anúncio de investimentos da Petrobras em Sergipe na última semana.

Com nova equipe na Esplanada, Lula fez na quarta-feira a primeira reunião ministerial após a decisão dos EUA. No encontro, o petista cobrou maior alinhamento entre os auxiliares e pediu que divulguem ações de outras pastas e não só das próprias, visando o quarto mandato. Na ocasião, também rebateu as declarações feitas por Flávio sobre segurança pública, relações com os Estados Unidos e a atuação do governo federal no combate ao crime organizado.

Caiado, ex-governador de Goiás, afirmou, por sua vez, que, se eleito, enviará ao Congresso Nacional uma proposta para identificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Segundo o político, a mudança na tipificação jurídica tem como objetivo permitir o emprego das Forças Armadas no combate direto a grupos como o Comando Vermelho e o PCC.

<><> Economia

No campo econômico, a disputa opõe duas leituras distintas sobre o papel do Estado na recuperação da atividade econômica. Enquanto o governo aposta em medidas de estímulo ao crédito e ao consumo, a oposição insiste na necessidade de maior rigor fiscal e controle dos gastos públicos.

César Bergo aponta que governo e oposição enfrentam dificuldades para convencer o eleitorado sobre a capacidade de resolver os problemas fiscais do país. "Nenhum dos dois mostra eficiência nesse cenário. Ambos tentam alinhar o discurso com uma gestão mais responsável, mas o eleitor vai avaliar quem apresentar uma proposta mais convincente."

Segundo o ex-governador de Minas Romeu Zema, caso seja eleito presidente, seu governo terá foco na economia, na segurança pública e na descentralização do poder de decisão de Brasília, promessa feita por todos os candidatos até o momento e que representa uma constante reclamação dos prefeitos.

Bergo observa, ainda, que a ausência de uma terceira via competitiva reforça a dinâmica polarizada. "De um lado, você tem um discurso mais social, com presença mais vigorosa do Estado na economia, políticas assistenciais e multilateralismo. Do outro, a busca pelo liberalismo, redução do Estado, empreendedorismo e uma diplomacia mais voltada para os Estados Unidos", resume.

Segundo Coimbra, o Planalto busca impulsionar a economia por meio de subsídios e incentivos financeiros, enquanto adversários defendem uma agenda mais austera diante das pressões fiscais. Medeiros pondera que o resultado eleitoral dependerá, sim, dos indicadores oficiais, mas não tanto quanto da percepção cotidiana dos brasileiros. "O eleitor vai ser impactado menos pelos indicadores macroeconômicos e mais pelos preços dos supermercados, da conta de luz e do orçamento doméstico."

<><> Mulheres

Nesse contexto, a campanha tende a se concentrar em temas capazes de influenciar diretamente o cotidiano dos eleitores, especialmente custo de vida, segurança e emprego. Murilo Medeiros enfatiza que "no centro dessa disputa está o custo de vida das famílias, que será o indicador fiel da balança capaz de impactar o humor do eleitorado e, principalmente, os rumos do voto feminino."

Área decisiva, o eleitorado feminino aparece como um dos segmentos mais estratégicos da campanha. Na avaliação do analista Márcio Coimbra, o governo tenta associar pautas trabalhistas e sociais à melhoria das condições de vida das mulheres, especialmente entre trabalhadoras de baixa renda. "O Planalto encontrou um forte vetor de contra-ataque ao pautar a condição das mulheres por meio do apelo popular pela aprovação do fim da escala 6x1, conectando o tema à jornada dupla feminina e à defesa dos direitos sociais", afirma.

Murilo Medeiros lembra que a rejeição feminina teve papel decisivo nas eleições anteriores e pode novamente influenciar o resultado. "A rejeição feminina costuma ser um indicador central nas eleições presidenciais. Se Lula conseguir recuperar parte das eleitoras de baixa renda e das periferias, amplia suas chances de vitória. Se a oposição reduzir a vantagem petista entre as mulheres, o cenário eleitoral se torna muito mais competitivo."

<><> Visões distintas sobre o papel do Estado

A polarização política volta a dominar o cenário nacional. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca a reeleição defendendo um modelo de desenvolvimento baseado na ampliação dos investimentos públicos, fortalecimento dos programas sociais e atuação internacional voltada ao multilateralismo. Do outro, os principais nomes da oposição apostam em uma agenda de austeridade fiscal — uma política econômica de contenção de gastos e equilíbrio das contas públicas —, redução do tamanho do Estado, privatizações e aproximação mais estreita com os Estados Unidos.

Para analistas, a campanha caminha para um embate que ultrapassa a disputa tradicional de propostas e se transforma em uma escolha entre visões distintas sobre o papel do Estado, a condução da economia e as prioridades do país. "As divergências estruturais entre o presidente Lula e os candidatos de oposição delineiam um debate que vai muito além da tradicional disputa de propostas, consolidando-se em visões de Estado colidentes", afirma o cientista político Márcio Coimbra, CEO da Casa Política.

Segundo Coimbra, o campo governista sustenta a centralidade do investimento público e das políticas sociais como instrumentos de desenvolvimento, enquanto a oposição, representada por lideranças conservadoras e de centro-direita, aposta em um discurso de choque de gestão, responsabilidade fiscal e liberalização econômica.

O cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), avalia que o pleito de outubro tende a ser apertado. "A disputa promete ser acirrada e definida por margens estreitas", diz. Na avaliação dele, cada lado possui temas nos quais encontra maior capacidade de mobilização eleitoral. "Lula encontra terreno favorável quando monopoliza o debate em torno da soberania nacional e do confronto com Trump. A oposição, por sua vez, ganha força popular quando a pauta é segurança pública e criminalidade."

<><> Jogo de empurra

Segundo Márcio Coimbra, a oposição utiliza as sanções norte-americanas para apresentar o governo como internacionalmente isolado, enquanto o Planalto tenta transformar o episódio em uma discussão sobre soberania nacional. "O embate sobre o tarifaço e a relação Brasil-EUA atuam como o estopim de uma crise de percepção internacional. Enquanto a oposição usa as sanções para carimbar o governo como ideologicamente isolado e ineficaz, o Planalto tenta reverter o golpe adotando um tom de soberania ferida contra o protecionismo americano", explica.

O petista pediu novamente, na última semana, que o Senado Federal aprove a proposta de emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública (PEC 18/2025). O texto foi aprovado em dois turnos pela Câmara dos Deputados em março de 2026 e, atualmente, tramita na Casa revisora. Assim que a emenda for aprovada e promulgada, o presidente pretende criar um Ministério da Segurança Pública específico para coordenar as ações. 

¨      O pix e o tormento mental dos bolsonaristas. Por Jair de Souza

É impossível negar a realidade visível: o pix se tornou um enorme tormento para a cúpula dirigente da extrema direita bolsonarista. Contudo, antes de explicar os motivos que estão por trás do atual pânico que acomete os bolsonaristas, convém fazer uma breve retrospectiva sobre o surgimento deste inovador sistema de pagamentos e sua evolução até os dias atuais.

Sua origem se remonta ao ano 2013, quando, em pleno governo de Dilma Rousseff, os técnicos do Banco Central começaram a desenvolver estudos para um projeto que visava agilizar os processos de compensações financeiras em nosso país.

As equipes técnicas do Banco Central continuaram avançando em seu trabalho mesmo após o golpe parlamentar que destituiu Dilma Rousseff e instalou Michel Temer na presidência. Em 2020, já no governo dirigido por Jair Bolsonaro, o pix entrou oficialmente em função e passou a ser adotado em todo nosso sistema bancário.

A dúvida colocada é saber a qual governante atribuir o mérito pela criação do pix, visto que sua projeção teve início no exercício de Dilma, avançou no período da usurpação de Temer e se efetivou na administração Bolsonaro. Em resposta, poderíamos dizer que a todos eles, e a nenhum deles. É que todo o trabalho sempre partiu e foi feito de forma autônoma pelas próprias equipes técnicas do Banco Central, sem nenhuma participação direta dos governantes de turno. A estes, resta o mérito de não haver colocado entraves que inviabilizassem a concretização do projeto.

Se, até pouco tempo atrás, os bolsonaristas queriam de todas as maneiras serem reconhecidos como os criadores do pix, agora isto lhes está tirando o sono. A razão para tal é mais ou menos simples de entender. O pix veio a representar um golpe muito forte contra os interesses dos mega oligopólios financeiros dos Estados Unidos, como Visa e Mastercard. Isto se deve a que, com o significativo crescimento da preferência do público brasileiro pelo uso do pix em todas as suas transações, os grupos financeiros gringos estão deixando de ganhar centenas de bilhões de reais.

E por que isto incomodaria aos bolsonaristas? Bem, o motivo também não é de difícil compreensão. Basta que tenhamos sempre em mente que o bolsonarismo é um movimento de extrema direita que foi criado sob a tutela absoluta de seus mentores estadunidenses. Então, como quem comanda a luta das corporações gringas contra o pix é seu principal orientador político a nível mundial, aquele a quem todos os bolsonaristas veneram como a expressão máxima a ser seguida e obedecida, ou seja, Donald Trump, aí, o bolsonarismo entrou em paranoia.

Como continuar querendo ganhar pontos junto ao povo brasileiro como os criadores do pix, se isto causa terror ao grande líder que eles prometeram seguir sem pestanejar? Este é o grande dilema que está transtornando a mente dos próceres do bolsonarismo.

Se, de fato, almejassem fazer valer suas reivindicações junto ao povo brasileiro de que são os verdadeiros arquitetos e criadores do pix, deveriam estar na linha de frente daqueles que estão gritando: “Trump, tire suas patas de nosso pix”. Mas, agir assim seria equivalente a cometer suicídio, posto que a razão de ser do bolsonarismo é zelar pela preservação dos grandes lucros do imperialismo gringo no Brasil.

Portanto, como havíamos dito no início, estamos em um momento de grandes tormentos mentais para todos os que comandam as hostes do mais entreguista e submisso movimento político que o imperialismo tem em nosso país. Aos que desejam analisar a situação dentro de parâmetros do humanismo e da condescendência cabe levar em conta o grande sofrimento mental pelo qual eles estão passando.

¨      Brasil quer convencer EUA de que acordo seria melhor que taxar em 25%

O governo brasileiro está buscando um acordo tarifário com os Estados Unidos (EUA) que seja capaz de evitar que a Casa Branca adote a recomendação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), que sugeriu a imposição de tarifa adicional de 25% sobre parte das importações oriundas do Brasil.

O governo avalia que é possível, apesar de difícil, chegar a um acordo tarifário que seja mais vantajoso, para ambos os países, do que a sobretaxa de 25% sugerida pelo USTR. Isso porque, entre outros motivos, os EUA têm superávit comercial com o Brasil.

A recomendação da USTR, tornada pública na última semana, é resultado de uma investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. O argumento usado é que o Brasil teria práticas “desleais” nas relações comerciais, o que incluiu ataques contra o Pix para favorecer empresas de pagamento estadunidenses.

O Brasil rebateu que os argumentos não são legítimos e que a decisão parte de uma tentativa de ingerência em assuntos internos, além de expressar o protecionismo comercial unilateral de Washington.

O governo vem questionando as tarifas adicionais dos EUA com o argumento de que a tarifa média aplicada pelo Brasil sobre as importações dos EUA é de 2,7%, o que não justificaria o argumento de que as empresas norte-americanas seriam prejudicadas no acesso ao mercado brasileiro.

<><> Novo prazo

O Brasil agora trabalha com o prazo de 15 de julho para fechar um acordo tarifário. Essa foi a data fixada pela USTR para uma definição sobre o tema. Tal prazo ainda poderia, em tese, ser prorrogado.

Com isso, os negociadores brasileiros esperam ter mais tempo para um acordo, uma vez que o prazo inicial estipulado após a reunião entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em Washington, no mês passado, foi de 30 dias que terminam neste domingo (7).

<><> Dificuldades das negociações

Entre as dificuldades da negociação, está o fato de os EUA estarem envolvidos em várias outras negociações tarifárias ao redor do mundo, além do conflito bélico que lidera no Oriente Médio contra o Irã.

Enquanto isso, o governo brasileiro avalia a conveniência de um novo encontro de Trump e Lula. Existe a possibilidade de os dois se encontrarem no G7, na França, entre os dias 15 a 17 de junho. Porém, não há ainda confirmação de um encontro bilateral.

Outra dificuldade para negociar com os EUA é que os norte-americanos costumam ter demandas muito amplas, o que abarcaria diversas reinvindicações em diferentes áreas.

Porém, por enquanto, o Brasil busca um acordo especificamente sobre questões tarifárias e comerciais, sem outras pautas que poderiam interessar os norte-americanos, como terras raras. Ao mesmo tempo, o governo afirma que o Pix não entra em qualquer negociação com Washington.

<><> A tarifa de 12,5%

Por outro lado, a taxação adicional de 10% ou 12,5% imposta a 60 países sob o argumento de que essas nações não combateriam, de forma eficiente, o trabalho análogo à escravidão é vista pelo governo brasileira como feita para não ser negociada.

Como é uma taxação imposta a boa parte do planeta, ela teria mais o objetivo de recompor, sob novas bases legais e argumentativas, o tarifaço anterior derrubado pela Suprema Corte de Justiça dos EUA.

A nova taxa afeta, além do Brasil, os aliados históricos de Washington, como Japão, União Europeia, Canadá e Índia, além da Argentina, presidida por Javier Milei, que tem se posicionado sempre ao lado de Donald Trump nas questões internacionais.

 

Fonte: Correio Braziliense/ICL Notícias

 

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