Derrota
em dose dupla: o governo Lula virou "refém" do Congresso?
Em
menos de 24 horas, o governo do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) sofreu duas derrotas políticas
significativas. Na quinta-feira (30/4), o Congresso
Nacional derrubou o veto do presidente ao chamado PL da
Dosimetria. O projeto de lei prevê a redução de penas e do tempo no
regime fechado destinados a condenados por crimes relacionados aos atos
de 8 de janeiro
de 2023.
Entre
os principais beneficiários está o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos de
prisão por crimes como golpe de Estado e tentativa de abolição
violenta do Estado democrático de direito.
A
derrubada do veto foi celebrada pela oposição e aconteceu em meio ao clima de
"ressaca" pelo governo em razão do que havia acontecido na noite
anterior.
Na
quarta-feira (29/4), o Senado rejeitou a
indicação feita pelo presidente para que o Advogado-Geral da União, Jorge
Messias, ocupasse uma vaga como ministro do Supremo Tribunal Federal
(STF). A última vez que isso havia acontecido foi há 132 anos. A indicação foi
reprovada e a vaga continua aberta.
Se na
indicação de Messias, havia alguma expectativa de que o governo pudesse se
impor apesar de não ter maioria no Senado, no caso do PL da Dosimetria,
analistas e políticos ouvidos pela BBC News Brasil avaliavam que a derrota já
era dada como certa há vários dias, numa demonstração de força política do
bolsonarismo e de fraqueza da base governista.
O PL da
Dosimetria foi aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado em dezembro de
2025 e enviado para a sanção de Lula. O presidente,
no entanto, vetou o texto integralmente.
"O
dia de hoje, além de estarmos aniversariando três anos do nosso terceiro
mandato, é um dia que muita gente desse país pode comemorar. Primeiro pela
manutenção do Estado Democrático de Direito desse país", disse Lula ao
anunciar o veto.
A
principal alteração do projeto é o fim da somatória das penas pelos crimes de
golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito.
Na
prática, isso beneficiaria condenados pelos atos de 8 de janeiro porque
diminuiria o total das penas às quais eles foram sentenciados.
Com
isso, em vez de as penas de cada crime serem somadas, passaria a prevalecer
apenas o crime de maior pena.
A lei
ainda prevê uma progressão de regime mais rápida.
No caso
de Bolsonaro, juristas apontam que o tempo de prisão no regime fechado de
Bolsonaro sairia de algo estimado entre 6 a 8 anos para algo entre 2 anos e 4
meses ou 4 anos e 2 meses.
Atualmente,
Bolsonaro está em prisão domiciliar autorizada pelo STF por motivo de saúde.
Mas
diante de um cenário de derrotas consecutivas e de forte peso político, um
questionamento vem se repetindo nos bastidores em Brasília: a seis meses das
eleições presidenciais, o governo Lula virou refém do Congresso?
Especialistas
ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que o momento político do governo Lula é
delicado e que os episódios recentes refletem não só um desequilíbrio claro na
composição de forças do Congresso, mas também eventuais erros na articulação
política do governo.
Eles
afirmam, no entanto, que seria prematuro dizer que o governo virou refém do
Congresso à medida em que o governo ainda teria alguma "munição"
política e que seria necessário ver de que forma Lula pretende reagir à derrota
na indicação de Messias.
Eles
dizem, no entanto, que o próximo teste sobre a força e articulação do governo
vai se dar na votação do projeto defendido pelo governo que prevê o fim da
escala de trabalho 6 por 1.
<><>
Derrota de Messias e dosimetria
A
rejeição da indicação de Messias causou uma forte reação da ala governista e
foi alvo de comemoração da ala oposicionista.
"A
aliança entre bolsonarismo e chantagem política venceu na rejeição ao nome de
Jorge Messias ao STF. O Senado sai menor desse episódio lamentável", disse
o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos em uma postagem
no X (antigo Twitter).
Por
outro lado, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), comemorou.
"Hoje
o Senado deu um recado claro ao Brasil. Não foi apenas uma votação. Foi um
sinal político. O Congresso começa a reagir. Começa a retomar seu papel.
Parabéns aos senadores que tiveram coragem", disse o deputado em uma
publicação no X.
Messias
foi o terceiro indicado por Lula a uma vaga no STF neste mandato. Antes dele,
Lula havia indicado seu ex-advogado, o agora ministro Cristiano Zanin, e o
ex-ministro da Justiça Flávio Dino. Apesar de serem considerados muito próximos
a Lula, ambos foram aprovados pelo Senado e hoje integram a Corte.
A
indicação de Messias, porém, enfrentou resistência tanto da oposição e do
Centrão como do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que
defendia a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
Oficialmente,
Alcolumbre sustentava a tese de neutralidade em relação à indicação de Messias,
mas nos últimos dias, veículos como o jornal O Globo relataram que Alcolumbre
teria enviado emissários a senadores orientando o voto contra a ida do indicado
para o STF.
A
poucos minutos da divulgação do resultado da votação no painel do Senado,
Alcolumbre foi flagrado pelos microfones da TV Senado indicando seu palpite.
"Ele
vai perder por oito", disse o senador.
Em
nota, a assessoria do Senado disse que o comentário de Alcolumbre foi em
resposta a um comentário de outro parlamentar e que "isso só reafirma e
demonstra a experiência do presidente da Casa em votações".
Para o
cientista político Cláudio Couto, a derrota do governo no Senado foi resultado
de diversos fatores: a atuação contrária de Alcolumbre; o empoderamento do
Congresso Nacional; e a proximidade com as eleições.
"O
empoderamento do Congresso e a atuação do Alcolumbre se manifestam na medida em
que o Senado, ao rejeitar Messias, mandou um recado: 'Lula, você já indicou
dois ministros. Agora, é a nossa vez'. Não seria possível essa rejeição em um
contexto em que o Congresso não estivesse tão empoderado", diz Couto à BBC
News Brasil.
O
cientista político explica que esse empoderamento teve início há
aproximadamente 10 anos, quando as regras para o pagamento de emendas ao
orçamento foram alteradas, tirando do Executivo a prerrogativa de escolher
quais delas pagar, o chamado orçamento impositivo.
A
estimativa é de que somente no orçamento deste ano, o governo deverá pagar R$
49,9 bilhões em emendas parlamentares. Às vésperas da votação da indicação de
Messias, o governo chegou a empenhar R$ 12 bilhões em emendas parlamentares, um
movimento que a oposição atribuiu a uma tentativa de influenciar votos em favor
do indicado.
Couto
explica ainda que a proximidade da indicação de Messias com o período eleitoral
também pode ter afetado o resultado da votação.
"Os
senadores usaram a indicação de Messias para fragilizar o governo. Eles dizem
aos seus eleitores que o governo está fraco, fragilizado e que não tem mais
forças para seguir no comando do país. Essa votação também serve para que
alguns candidatos se posicionem e usem essa reprovação como uma espécie de
bandeira política nas eleições", afirma Couto.
Já o
professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Marco Antônio
Teixeira, minimiza o impacto da proximidade da votação sobre Messias com o
período eleitoral e atribui a derrota à articulação política feita pelo líder
do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).
"A
articulação política do governo foi o principal fator nessa questão. Houve uma
grande incapacidade do governo de articular o seu interesse junto a quem detém
o controle da pauta, que era o Davi Alcolumbre", afirma o professor.
Teixeira
aponta ainda dois outros motivos que levaram o governo às duas derrotas no
Congresso.
"O
governo Lula vive uma crise de popularidade e ainda vê o crescimento nas
pesquisas do seu principal adversário nestas eleições, o senador Flávio
Bolsonaro. Esse cenário faz com que o presidente tenha pouca capacidade de
impor a sua agenda política", diz Teixeira.
<><>
"Refém" do Congresso?
Couto e
Teixeira avaliam que ainda não é possível afirmar que o governo tenha se
tornado "refém" do Congresso.
Eles
explicam que ao longo do seu terceiro mandato, mesmo sem maioria consolidada, o
governo Lula conseguiu aprovar projetos de seu interesse como o que criou o
programa "Pé-de-Meia" e a reforma tributária.
No caso
da derrubada do veto de Lula ao PL da Dosimetria, porém, esse movimento já
estaria "precificado".
"A
derrubada do veto era certa. Com a composição atual do Congresso, seria muito
difícil o governo reverter", diz Cláudio Couto.
Além
disso, a votação do veto também teria contado com a ajuda de Alcolumbre, que
pautou o tema logo após a votação da derrota da indicação de Messias.
À BBC
News Brasil, o deputado Sóstenes Cavalcante afirmou que o senador deu aval para
que o Congresso vote o veto de Lula de uma maneira que impedisse, pelo menos em
tese, que ele atinja pontos da Lei Antifacção aprovada neste ano.
A ala
governista vinha defendendo a manutenção do veto sob o argumento de que se ele
fosse derrubado e o PL da Dosimetria passasse a vigorar, isso teria como efeito
a redução no tempo que condenados por outros tipos de crimes teriam de passar
no regime fechado antes de progredirem para regimes mais brandos.
Isso
aconteceria porque o PL da Dosimetria usou como base trechos da Lei de Execução
Penal que foram revogados posteriormente pela Lei Antifacção.
Cavalcante,
porém, rechaçou as críticas.
"Isso
não irá acontecer. Vamos votar os vetos sem que haja prejuízo da Lei
Antifacção. O presidente Alcolumbre já deliberou isso e será feito. Será mais
uma vitória nossa", disse o parlamentar ainda na quarta-feira à BBC News
Brasil.
Para
que o veto de Lula fosse derrubado, eram necessários os votos de pelo menos 41
senadores e 257 deputados federais computados separadamente. O veto foi
derrubado com o apoio de 318 deputados e 49 senadores.
Os
especialistas ouvidos pela BBC News Brasil dizem reconhecer que o governo Lula
enfrenta um período delicado na sua relação com o Congresso Nacional, mas
avaliam que ele ainda teria alguma condição de fazer avançar parte de sua
agenda às vésperas das eleições.
"A
situação do governo hoje é semelhante ao que, nos Estados Unidos, chamam de
'pato manco'. O governo está fragilizado, mas o cenário não é irreversível. Ele
ainda tem capacidade de retaliar Alcolumbre. Além disso, o governo ainda terá
mais um desafio que é a votação do fim da escala 6 por 1. Essa pauta, apesar da
contrariedade da oposição, tem chances de avançar", diz Couto.
Para
Marco Antônio Teixeira, a avaliação é semelhante.
"O
governo vai governar juntando os cacos, mas a sorte é que não há tantos
projetos de interesse absoluto do governo a serem votados. O próximo é o da
escala 6 por 1. Neste caso, como a pauta tem apoio popular, o governo vai usar
isso a seu favor para tentar aprová-la e isso pode acuar o Congresso",
disse.
A
professora de Ciência Política da Universidade Federal de Alagoas (Ufal),
Luciana Santana, disse que as derrotas desta semana foram, sim, significativas
e que deverão ter algum custo eleitoral. Ela diz ainda que elas revelam
desarticulação do governo e erro de cálculo político em relação à indicação de
Messias.
Segundo
ela, o termo "refém" seria exagerado para definir a relação do
governo com o Legislativo, mas ela disse reconhecer que hoje o Executivo tem um
grau de dependência maior em relação ao Congresso do que tinha antes.
"A
relação entre os poderes se alterou há um bom tempo e ela está mais favorável
ao Legislativo. Hoje, controlar as emendas impositivas ao orçamento vale mais
do que controlar um ministério do governo. Isso faz com que o Legislativo tenha
mais poder de agenda e de veto", diz a professora.
A
professora argumenta, contudo, que as duas derrotas não deveriam ser vistas
como o símbolo de colapso do governo. "As derrotas ampliam a percepção de
fragilidade do governo. O governo subestimou as duas situações e isso teve um
custo político alto. Mas essas derrotas não inviabilizam o governo. É muito
mais um sinal de alerta que de ruptura ou colapso do governo", diz.
O
senador governista Humberto Costa (PT-PE) critica a rejeição ao nome de Messias
e a derrubada do veto ao PL da Dosimetria, mas minimiza a tese de que o governo
seja, hoje, refém do Congresso Nacional.
"Não
há muitos projetos relevantes para serem encaminhados ao Congresso. Temos, é
claro, o projeto da escala 6 por 1, mas acho que a partir de agora, o governo
vai se encaminhar para pensar mais nas eleições. O momento é de sentar e
conversar", disse o parlamentar.
Tanto
Couto quanto Teixeira concordam que a evolução do cenário eleitoral deverá
ditar a força do governo junto ao Congresso no final deste mandato.
"É
o resultado das pesquisas que vai apontar como será essa relação. Se Lula
melhorar nas pesquisas de intenção de voto, o cenário político no Congresso
pode mudar positivamente para ele", diz Teixeira.
"O
cenário não é irreversível porque vai depender da evolução dos números das
pesquisas. Podemos ter um 'pato manco' que se recupere em alguma medida, caso
Lula suba nas pesquisas. E isso pode acontecer porque, apesar de tudo, Lula
ainda está no comando do governo e isso tem um peso grande", afirma Couto.
¨
Crise com Alcolumbre coloca em xeque avanço de pautas
prioritárias de Lula no Congresso
A derrota
histórica imposta ao governo com a rejeição da indicação do advogado-geral da
União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF)
e a derrubada do
veto do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) ao PL da Dosimetria colocam em xeque o
avanço de pautas prioritárias para o Palácio do Planalto a cinco meses das
eleições.
Entre
as prioridades estão as propostas de redução da escala 6x1, em debate no
Congresso Nacional, e a PEC da Segurança, que avançou na Câmara dos
Deputados, mas está parada no Senado e sequer foi
despachada da gaveta do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).
É
justamente a crise deflagrada entre o governo e Alcolumbre que torna
imprevisível o avanço dessas matérias caras ao governo Lula.
O
Palácio do Planalto e parlamentares governistas atribuem as derrotas do governo
principalmente a articulação do presidente do Senado e consideram um rompimento
iminente e inevitável.
O
vice-líder do governo na Câmara dos Deputados, Lindbergh
Farias (PT-RJ), disse que Alcolumbre comandou um golpe ao
pautar a derrubada do veto de Lula ao PL da Dosimetria.
“Eu
chamo isso aqui de um golpe comandado por Alcolumbre com dois objetivos: livrar
a cara de Bolsonaro dos generais golpistas e fazer um grande acordão de
blindagem das investigações da Polícia Federal", disse.
<><>
Escala 6x1
Sobre a
proposta de redução da jornada de trabalho, governistas avaliam que há uma
chance maior do tema avançar justamente em função das eleições, mas há o temor
que o Congresso atue para puxar para si o protagonismo do tema, deixando de
lado o projeto enviado pelo Planalto.
No
Senado, há uma PEC que já foi analisada pelas comissões e precisa passar pela
análise do Plenário.
Já na
Câmara, o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), criou uma
comissão especial que analisará duas PECs que preveem o fim da
escala de trabalho 6x1 no Brasil.
O
governo enviou um projeto — instrumento diferente de uma PEC e que não altera a
Constituição – que prevê a
redução do limite de jornada de trabalho semanal para 40 horas e
reduz a escala de 6 para 5 dias de trabalho, com dois dias de descanso
remunerado.
A
proposta foi encaminhada com urgência constitucional.
🔎A chamada urgência constitucional
limita a até 45 dias o prazo máximo de tramitação em cada Casa Legislativa.
Além disso, prevê mais 10 dias, caso o texto seja alterado na Casa revisora,
como aconteceu com o PL Antifacção.
➡️Depois, disso, se não retirada a urgência, o
projeto passa a trancar a pauta e impede a votação de outras matérias até que o
texto seja apreciado.
Não há,
no entanto, a sinalização de que a proposta do governo irá avançar.
<><>
PEC da Segurança
A PEC
da Seguranrelação a PEC da Segurança, aposta de Lula para deixar uma marca
desse governo na segurança pública, o rompimento com Alcolumbre faz governistas
projetarem dois cenários:
- a PEC seguirá na
gaveta do presidente do Senado, ou;
- será colocada
nas mãos da oposição, de quem Alcolumbre se aproximou neste ano.
Nos
dois cenários o governo verá a proposta que prevê redesenhar a segurança
pública e o combate ao crime organizado no país ser enterrada ou desfigurada
pela oposição.
A proposta
foi aprovada pela Câmara dos Deputados em março deste ano e
estabelece na Constituição o 'Sistema Único de Segurança', que tem como
objetivo integrar o combate ao crime organizado entre os entes.
<><>
Redata
Outro
tema importante para o governo Lula neste ano é o projeto que institui Regime
Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, apelidado de Redata.
O
projeto tem o mesmo teor de uma medida provisória (MP) editada pelo governo e
que perdeu a
validade em fevereiro.
A Câmara
votou a matéria antes da MP caducar, mas Alcolumbre não colocou o
tema em pauta no Senado sob o argumento que devem ser enviadas com
antecedência, garantindo tempo suficiente para o debate responsável".
Os data
centers sustentam a estrutura do mundo digital. Informações usadas por
empresas, bancos, governos e por todos nós circulam por servidores espalhados
em vários países.
Trazer
data centers para o Brasil pode aumentar a eficiência de aplicativos, operações
financeiras e inteligência artificial, porque os dados são processados aqui
mesmo.
Além
disso, os investimentos das empresas de tecnologia nessa área levam o país para
uma posição estratégica, com geração de empregos de alta qualificação e
desenvolvimento de produtos.
Fonte:
BBC News Brasil/g1



