sexta-feira, 29 de maio de 2026

Marcio Pochmann: Quem lutará pela transformação do Brasil?

O Brasil atravessou, em pouco mais de um século, três formas históricas de conflito social. Cada uma delas correspondeu a uma etapa distinta do capitalismo brasileiro. No país agrário da República Velha, prevaleceram guerras camponesas, messianismos e rebeliões regionais. No Brasil urbano-industrial desenvolvimentista, ganharam força o sindicalismo, as greves gerais, os movimentos de massa e as guerrilhas ideológicas. Já na sociedade de serviços hiperconectada da Era Digital, o Brasil neoliberal produziu algo novo representado pelo conflito fragmentado, financeirizado e emocionalmente mobilizado por algoritmos e redes sociais.

Da mesma forma, a violência mudou de forma, acompanhando as alterações na trajetória do capitalismo. Na República Velha, o conflito vinha do abandono. O sertão rebelava-se contra um país que praticamente não existia fora das oligarquias exportadoras. A Guerra de Canudos não foi apenas uma rebelião religiosa, mas a explosão de um Brasil excluído da modernização oligárquica. O mesmo ocorreu na Guerra do Contestado, no cangaço e nas revoltas tenentistas. Aquele Brasil ainda era territorialmente fraturado. O Estado era pequeno, regionalizado e incapaz de integrar a maioria da população. O conflito tinha cheiro de terra, fome e abandono.

Depois de 1930, o país mudou de eixo histórico. A Revolução de 1930 inaugurou o ciclo do capitalismo industrial e do Estado nacional desenvolvimentista. O poder centralizou-se, a industrialização avançou e milhões de pessoas migraram para as cidades. O conflito deixou de ser apenas territorial e passou a ser social e ideológico. A fábrica substituiu parcialmente o sertão como centro da vida nacional. Surgiram sindicatos, movimentos operários, organizações estudantis, partidos de massa, movimentos camponeses modernos e guerrilhas revolucionárias. A rebeldia ganhou linguagem política moderna, permitindo que parte crescente dos conflitos sociais fosse parcialmente institucionalizada pela legislação trabalhista, previdência social e sindicatos reconhecidos pelo Estado.

O trabalhador urbano passou a existir politicamente como sujeito coletivo. Havia partidos, programas, lideranças, projetos nacionais e horizonte histórico. Mesmo a esquerda armada dos anos 1960 e 1970 acreditava disputar o futuro do país. A ditadura civil-militar reprimiu violentamente, mas, paradoxalmente, aprofundou a centralidade estatal. O Estado desenvolvimentista integrava e reprimia ao mesmo tempo. Planejava a economia, expandia a infraestrutura, criava empresas estatais e organizava o mercado de trabalho. O conflito ocorria dentro da lógica da construção nacional. Ao mesmo tempo, a Guerra Fria internacionalizou os conflitos internos. A Intentona Comunista, as guerrilhas urbanas e a Guerrilha do Araguaia já pertenciam ao universo das ideologias modernas: comunismo, nacionalismo, anticomunismo e revolução social.

Tudo isso começou a ruir a partir de 1990. O neoliberalismo não destruiu apenas políticas econômicas. Desorganizou a própria arquitetura social construída ao longo do século XX. A abertura comercial desindustrializou regiões inteiras. A financeirização deslocou o centro da economia da produção para a renda financeira. O mundo do trabalho tornou-se precário, terceirizado e intermitente. O antigo operário industrial foi sendo substituído pelo trabalhador fragmentado dos aplicativos, dos call centers e das plataformas digitais.

O Brasil deixou de sonhar em ser uma potência industrial para se tornar exportador de commodities, consumidor de plataformas estrangeiras e território subordinado às finanças globais. A consequência histórica foi brutal:, com o conflito perdendo o seu centro organizador. A antiga greve operária exigia concentração fabril, identidade coletiva e organização sindical. O neoliberalismo dissolveu precisamente essas bases.

A nova sociedade de serviços hiperconectada produziu outro tipo de rebeldia: instantânea, emocional, dispersa, algorítmica e fragmentada. As Jornadas de Junho de 2013 simbolizaram essa ruptura histórica. Milhões foram às ruas sem liderança central, sem programa unificado e sem horizonte comum. O que emergiu ali foi o resultado de uma nova sociedade saturada de frustração, hiperconectividade e descrença institucional.

A política deixou de ser organizada apenas por partidos, sindicatos ou movimentos clássicos. Passou a ser organizada por fluxos digitais. O algoritmo tornou-se ator político. As plataformas digitais não são meios neutros de comunicação. Empresas como Meta Platforms, Google e TikTok operam máquinas globais de captura de atenção baseadas em engajamento emocional. A raiva circula mais do que a reflexão. O ódio mobiliza mais do que a argumentação. O choque moral produz mais cliques do que a racionalidade. O capitalismo digital descobriu que a indignação permanente é economicamente lucrativa. A política, assim, foi subordinada aos interesses econômicos imediatos e transformada em guerra afetiva contínua.

O Brasil internalizou esse modelo proveniente principalmente dos Estados Unidos. Não importou apenas plataformas, mas também guerras culturais, teorias conspiratórias, ultraliberalismo, extremismo digital e polarização identitária. O resultado tem sido uma sociedade permanentemente excitada por conflitos simbólicos.

Enquanto a desigualdade estrutural permanece intacta, a esfera pública é incendiada diariamente por disputas morais, religiosas, identitárias, culturais e algorítmicas. A ascensão política de Jair Bolsonaro expressou precisamente essa mutação histórica. O bolsonarismo não nasceu do velho coronelismo nem do nacionalismo desenvolvimentista. Nasceu do colapso das mediações coletivas tradicionais, combinado à radicalização digital.

Trata-se de um fenômeno típico da era neoliberal: individualizado, emocional, antipolítico, hiperconectado e permanentemente mobilizado. A extrema direita compreendeu, antes de muitos setores progressistas, que o poder contemporâneo circula pelos algoritmos, pelas redes e pela captura emocional. Ao mesmo tempo, as periferias urbanas foram atravessadas por outra transformação histórica: o crescimento das economias ilegais organizadas. Facções como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho não são simples desvios criminais. São produtos estruturais da combinação entre neoliberalismo periférico, encarceramento em massa e fragmentação social.

A antiga guerrilha revolucionária queria tomar o Estado. As facções contemporâneas ocupam territórios abandonados pelo próprio Estado. O conflito brasileiro entrou em uma nova era, pois menos ideológica, mais fragmentada; menos organizada por classe, mais atravessada por ressentimento, medo e precariedade.

O país saiu do sertão rebelde, passou pela fábrica sindicalizada e desembocou no labirinto digital da financeirização global. Hoje, a rebeldia já não precisa de panfletos, sindicatos ou quartéis. Ela circula por vídeos curtos, grupos fechados, fake news, influenciadores e impulsos emocionais programados por inteligência algorítmica.

Canudos foi destruída por canhões. A sociedade contemporânea é corroída por fluxos invisíveis de desinformação, precarização e captura da subjetividade. Nesta nova fase do conflito no Brasil, ele deixou de ser apenas social ou político. Tornou-se também cognitivo, emocional e digital.

•        O adversário não pode escalar nosso time. Por Paulo Nogueira Batista Jr

Um tema do momento é a dificuldade de traduzir os resultados econômicos do governo Lula em intenções de voto para outubro.

A recente crise da candidatura do principal opositor, Flávio Bolsonaro, tranquilizou os apoiadores de Lula, mas a eleição está longe de ganha, como sabemos, e o problema persiste.

O governo Lula 3 produziu, de fato, resultados razoáveis, até bons, na área econômica – crescimento do PIB (ainda que modesto, próximo de 3% a.a. em média), desemprego aberto em queda (para os menores níveis registrados), inflação controlada (embora com preços elevados de produtos críticos como alimentos), entre outros feitos.

É nítida a melhora em relação à situação que vigorava nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Como explicar que a eleição se mostre apertada, com grande parte das intenções de voto direcionada a Flávio Bolsonaro?

But it’s not the economy, stupid! (mas não é a economia, estúpido!), poderíamos dizer, invertendo o célebre chavão oriundo dos Estados Unidos.

Fatores não econômico pesam. E mesmo a economia não está lá essas coisas – vide os juros escorchantes, o elevado endividamento das famílias, as políticas governamentais inibidas pelo arcabouço fiscal, o reduzido investimento público e privado etc. E não vamos perder de vista que a base de comparação Temer/Bolsonaro é bem modesta, para dizer o mínimo.

Mas, para além da economia, falta algo fundamental que talvez ajude a entender as intenções de voto – o governo não tem marca, não tem audácia, não tem alma.

Desde o seu início, em 2023, o governo federal e a sua precária base parlamentar estão infestados de pessoas que pouco ou nada têm a ver com a transformação real do país. Temos de tudo: neoliberais, carreiristas, fisiológicos, até sionistas. E, meio perdidos nesse ambiente hostil, uma minoria de brasileiros que lutam dentro do governo para defender e mudar o Brasil.

Não sei se preciso dar exemplos, mas vamos lá. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) ficou quase totalmente dominado por neoliberais.

Uma recente entrevista de página inteira do atual chefe do MDIC, Elias Rosa, ao jornal Valor (4 de maio, p. A6) é sintomática do estado das artes nesse ministério. Rosa foi secretário-executivo durante toda a gestão de Geraldo Alckmin, ele próprio um neoliberal.

Na entrevista, o flamante ministro defende o desvantajoso acordo econômico com a União Europeia – no qual abrimos nossos mercados industriais em troca de concessões pequenas e facilmente revogáveis para o setor agroexportador – e se vangloria de ter assinado acordos do mesmo naipe com Singapura e EFTA (European Free Trade Association – a associação de livre comércio que inclui alguns países europeus não-membros da União Europeia).

Para completar o quadro, promete um acordo com o Canadá até o final do ano. Com essa condução da política comercial, o Brasil terminará amarrado a uma teia de acordos de corte neoliberal em que abrimos nossos mercados à competição irrestrita com as empresas de países desenvolvidos, condenando ao fracasso qualquer tentativa de reindustrialização do país.

Na verdade, seria melhor passar a chamar o MDIC de Ministério do Subdesenvolvimento e da Desindustrialização.

O Itamaraty, apesar dos esforços de muitos bons diplomatas, ficou prejudicado pela presença insuficiente de quadros ligadas à tradição nacional-desenvolvimentista, que já foi tão forte na casa.

Isso se reflete na condução das já referidas negociações comerciais externas, que foram levados a cabo principalmente pelo Itamaraty e pelo MDIC. Os diplomatas envolvidos nessa negociação são corresponsáveis pelo desastre.

No Ministério da Fazenda, também faz falta a presença de quadros menos comprometidos com o neoliberalismo e o carreirismo.

Há exceções, notadamente entre os mais jovens da equipe, mas foi fraca a atuação da Fazenda em vários temas candentes – na construção do arcabouço fiscal (que acabou ficando excessivamente ambicioso), na definição da diretoria do Banco Central (com a escolha de nomes que não trazem qualquer perspectiva de mudança) e na quase total omissão nas negociações comerciais externas.

Foi fraca, também, a participação do ministério no processo BRICS que o Brasil presidiu em 2025.

Juntamente com o Itamaraty e o Banco Central, a Fazenda liderou uma presidência vazia de resultados importantes.

No Ministério do Planejamento, pelos menos no tempo da ministra Simone Tebet que deixou o cargo há pouco, a equipe quase inteira, com poucas exceções, era de orientação neoliberal – e se existe algo que não combina de jeito nenhum com planejamento é precisamente o neoliberalismo.

E do Banco Central, bem, deste nem preciso falar mais. Já tratei dele em artigo recente (“A política de juros do Banco Central é um desastre”, 1 de maio de 2026).

Meu pai, que morreu em 1994, costumava dizer: “O problema do Brasil é que deixamos o adversário escalar nosso time.”

Esse problema crônico, que se manifestou, em maior ou menor medida, em todos os governos nas décadas recentes, aparece claramente no atual.

Um dos maiores diplomatas, se não o maior da sua geração, meu pai era um exemplo notável desse problema. Ele teve carreira brilhante, mas nunca chegou a ser ministro de Estado e nem secretário-geral.

E, no entanto, posso dizer com tranquilidade, e sem favor de filho para pai: ele era, como diplomata e homem público, muito superior à maioria dos que exerceram essas funções. Havia um problema, entretanto. A sua nomeação incomodaria os nossos amigos do Norte. Melhor não arriscar, pensaram sucessivos presidentes.

Imagine, leitor ou leitora, quantos brasileiras e brasileiros existem em todas as áreas que têm inclinação para atuar no setor público, que possuem qualidades para tal, mas não são convocados por serem honestos demais, independentes demais, combativos demais! São vetados por políticos venais, por interesses econômicos e por forças estrangeiras e seus aliados domésticos.

Refiro-me ao sistema financeiro e outros lobbies empresariais, à mídia corporativa, e a entidades locais que representam ou são controladas por ideologias e interesses estrangeiros. Da Febraban à Conib, da Fiesp à Rede Globo, da CNA à CNI.

Resultado: o time escalado fica, na melhor das hipóteses, repleto de pessoas hábeis, jeitosas, mas sem coragem e imaginação. São poucos os que entram em bola dividida. E há muito cabeça de bagre.

No fundo, no fundo, infelizmente, a escalação é a própria imagem do Brasil – país em que sobra jogo de cintura, mas falta espinha dorsal.

Na nossa seleção atual, temos como centroavante, capitão e técnico do time um presidente da República experiente, tarimbado, um jogador de fama internacional. Perde uns gols incríveis, é verdade, mas a sua capacidade é inegável. Eis o problema, porém: a bola chega nele? Ou ele é forçado a voltar à intermediária para buscá-la?

A verdade é que o centroavante acaba sem opções de jogo, uma vez que boa parte do resto do time passa a bola para o lado ou para trás – quando não faz gol contra!

Porém, convenhamos, o capitão pode reclamar? Afinal, quem senão ele permitiu que os adversários escalassem a nossa seleção?

E ficamos assim com um time que joga para o empate ou até para perder de pouco. Com esse tipo de time, claro, não se ganha partida nenhuma e muito menos campeonato.

 

Fonte: Outras Palavras/Viomundo

 

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