Marcio
Pochmann: Quem lutará pela transformação do Brasil?
O
Brasil atravessou, em pouco mais de um século, três formas históricas de
conflito social. Cada uma delas correspondeu a uma etapa distinta do
capitalismo brasileiro. No país agrário da República Velha, prevaleceram
guerras camponesas, messianismos e rebeliões regionais. No Brasil
urbano-industrial desenvolvimentista, ganharam força o sindicalismo, as greves
gerais, os movimentos de massa e as guerrilhas ideológicas. Já na sociedade de
serviços hiperconectada da Era Digital, o Brasil neoliberal produziu algo novo
representado pelo conflito fragmentado, financeirizado e emocionalmente
mobilizado por algoritmos e redes sociais.
Da
mesma forma, a violência mudou de forma, acompanhando as alterações na
trajetória do capitalismo. Na República Velha, o conflito vinha do abandono. O
sertão rebelava-se contra um país que praticamente não existia fora das
oligarquias exportadoras. A Guerra de Canudos não foi apenas uma rebelião
religiosa, mas a explosão de um Brasil excluído da modernização oligárquica. O
mesmo ocorreu na Guerra do Contestado, no cangaço e nas revoltas tenentistas.
Aquele Brasil ainda era territorialmente fraturado. O Estado era pequeno,
regionalizado e incapaz de integrar a maioria da população. O conflito tinha
cheiro de terra, fome e abandono.
Depois
de 1930, o país mudou de eixo histórico. A Revolução de 1930 inaugurou o ciclo
do capitalismo industrial e do Estado nacional desenvolvimentista. O poder
centralizou-se, a industrialização avançou e milhões de pessoas migraram para
as cidades. O conflito deixou de ser apenas territorial e passou a ser social e
ideológico. A fábrica substituiu parcialmente o sertão como centro da vida
nacional. Surgiram sindicatos, movimentos operários, organizações estudantis,
partidos de massa, movimentos camponeses modernos e guerrilhas revolucionárias.
A rebeldia ganhou linguagem política moderna, permitindo que parte crescente
dos conflitos sociais fosse parcialmente institucionalizada pela legislação
trabalhista, previdência social e sindicatos reconhecidos pelo Estado.
O
trabalhador urbano passou a existir politicamente como sujeito coletivo. Havia
partidos, programas, lideranças, projetos nacionais e horizonte histórico.
Mesmo a esquerda armada dos anos 1960 e 1970 acreditava disputar o futuro do
país. A ditadura civil-militar reprimiu violentamente, mas, paradoxalmente,
aprofundou a centralidade estatal. O Estado desenvolvimentista integrava e
reprimia ao mesmo tempo. Planejava a economia, expandia a infraestrutura,
criava empresas estatais e organizava o mercado de trabalho. O conflito ocorria
dentro da lógica da construção nacional. Ao mesmo tempo, a Guerra Fria
internacionalizou os conflitos internos. A Intentona Comunista, as guerrilhas
urbanas e a Guerrilha do Araguaia já pertenciam ao universo das ideologias modernas:
comunismo, nacionalismo, anticomunismo e revolução social.
Tudo
isso começou a ruir a partir de 1990. O neoliberalismo não destruiu apenas
políticas econômicas. Desorganizou a própria arquitetura social construída ao
longo do século XX. A abertura comercial desindustrializou regiões inteiras. A
financeirização deslocou o centro da economia da produção para a renda
financeira. O mundo do trabalho tornou-se precário, terceirizado e
intermitente. O antigo operário industrial foi sendo substituído pelo
trabalhador fragmentado dos aplicativos, dos call centers e das plataformas
digitais.
O
Brasil deixou de sonhar em ser uma potência industrial para se tornar
exportador de commodities, consumidor de plataformas estrangeiras e território
subordinado às finanças globais. A consequência histórica foi brutal:, com o
conflito perdendo o seu centro organizador. A antiga greve operária exigia
concentração fabril, identidade coletiva e organização sindical. O
neoliberalismo dissolveu precisamente essas bases.
A nova
sociedade de serviços hiperconectada produziu outro tipo de rebeldia:
instantânea, emocional, dispersa, algorítmica e fragmentada. As Jornadas de
Junho de 2013 simbolizaram essa ruptura histórica. Milhões foram às ruas sem
liderança central, sem programa unificado e sem horizonte comum. O que emergiu
ali foi o resultado de uma nova sociedade saturada de frustração,
hiperconectividade e descrença institucional.
A
política deixou de ser organizada apenas por partidos, sindicatos ou movimentos
clássicos. Passou a ser organizada por fluxos digitais. O algoritmo tornou-se
ator político. As plataformas digitais não são meios neutros de comunicação.
Empresas como Meta Platforms, Google e TikTok operam máquinas globais de
captura de atenção baseadas em engajamento emocional. A raiva circula mais do
que a reflexão. O ódio mobiliza mais do que a argumentação. O choque moral
produz mais cliques do que a racionalidade. O capitalismo digital descobriu que
a indignação permanente é economicamente lucrativa. A política, assim, foi
subordinada aos interesses econômicos imediatos e transformada em guerra
afetiva contínua.
O
Brasil internalizou esse modelo proveniente principalmente dos Estados Unidos.
Não importou apenas plataformas, mas também guerras culturais, teorias
conspiratórias, ultraliberalismo, extremismo digital e polarização identitária.
O resultado tem sido uma sociedade permanentemente excitada por conflitos
simbólicos.
Enquanto
a desigualdade estrutural permanece intacta, a esfera pública é incendiada
diariamente por disputas morais, religiosas, identitárias, culturais e
algorítmicas. A ascensão política de Jair Bolsonaro expressou precisamente essa
mutação histórica. O bolsonarismo não nasceu do velho coronelismo nem do
nacionalismo desenvolvimentista. Nasceu do colapso das mediações coletivas
tradicionais, combinado à radicalização digital.
Trata-se
de um fenômeno típico da era neoliberal: individualizado, emocional,
antipolítico, hiperconectado e permanentemente mobilizado. A extrema direita
compreendeu, antes de muitos setores progressistas, que o poder contemporâneo
circula pelos algoritmos, pelas redes e pela captura emocional. Ao mesmo tempo,
as periferias urbanas foram atravessadas por outra transformação histórica: o
crescimento das economias ilegais organizadas. Facções como o Primeiro Comando
da Capital e o Comando Vermelho não são simples desvios criminais. São produtos
estruturais da combinação entre neoliberalismo periférico, encarceramento em
massa e fragmentação social.
A
antiga guerrilha revolucionária queria tomar o Estado. As facções
contemporâneas ocupam territórios abandonados pelo próprio Estado. O conflito
brasileiro entrou em uma nova era, pois menos ideológica, mais fragmentada;
menos organizada por classe, mais atravessada por ressentimento, medo e
precariedade.
O país
saiu do sertão rebelde, passou pela fábrica sindicalizada e desembocou no
labirinto digital da financeirização global. Hoje, a rebeldia já não precisa de
panfletos, sindicatos ou quartéis. Ela circula por vídeos curtos, grupos
fechados, fake news, influenciadores e impulsos emocionais programados por
inteligência algorítmica.
Canudos
foi destruída por canhões. A sociedade contemporânea é corroída por fluxos
invisíveis de desinformação, precarização e captura da subjetividade. Nesta
nova fase do conflito no Brasil, ele deixou de ser apenas social ou político.
Tornou-se também cognitivo, emocional e digital.
• O adversário não pode escalar nosso
time. Por Paulo Nogueira Batista Jr
Um tema
do momento é a dificuldade de traduzir os resultados econômicos do governo Lula
em intenções de voto para outubro.
A
recente crise da candidatura do principal opositor, Flávio Bolsonaro,
tranquilizou os apoiadores de Lula, mas a eleição está longe de ganha, como
sabemos, e o problema persiste.
O
governo Lula 3 produziu, de fato, resultados razoáveis, até bons, na área
econômica – crescimento do PIB (ainda que modesto, próximo de 3% a.a. em
média), desemprego aberto em queda (para os menores níveis registrados),
inflação controlada (embora com preços elevados de produtos críticos como
alimentos), entre outros feitos.
É
nítida a melhora em relação à situação que vigorava nos governos Michel Temer e
Jair Bolsonaro. Como explicar que a eleição se mostre apertada, com grande
parte das intenções de voto direcionada a Flávio Bolsonaro?
But it’s not the economy, stupid! (mas não é a
economia, estúpido!), poderíamos dizer, invertendo o célebre chavão oriundo dos
Estados Unidos.
Fatores
não econômico pesam. E mesmo a economia não está lá essas coisas – vide os
juros escorchantes, o elevado endividamento das famílias, as políticas
governamentais inibidas pelo arcabouço fiscal, o reduzido investimento público
e privado etc. E não vamos perder de vista que a base de comparação
Temer/Bolsonaro é bem modesta, para dizer o mínimo.
Mas,
para além da economia, falta algo fundamental que talvez ajude a entender as
intenções de voto – o governo não tem marca, não tem audácia, não tem alma.
Desde o
seu início, em 2023, o governo federal e a sua precária base parlamentar estão
infestados de pessoas que pouco ou nada têm a ver com a transformação real do
país. Temos de tudo: neoliberais, carreiristas, fisiológicos, até sionistas. E,
meio perdidos nesse ambiente hostil, uma minoria de brasileiros que lutam
dentro do governo para defender e mudar o Brasil.
Não sei
se preciso dar exemplos, mas vamos lá. O Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio (MDIC) ficou quase totalmente dominado por neoliberais.
Uma
recente entrevista de página inteira do atual chefe do MDIC, Elias Rosa, ao
jornal Valor (4 de maio, p. A6) é sintomática do estado das artes nesse
ministério. Rosa foi secretário-executivo durante toda a gestão de Geraldo
Alckmin, ele próprio um neoliberal.
Na
entrevista, o flamante ministro defende o desvantajoso acordo econômico com a
União Europeia – no qual abrimos nossos mercados industriais em troca de
concessões pequenas e facilmente revogáveis para o setor agroexportador – e se
vangloria de ter assinado acordos do mesmo naipe com Singapura e EFTA (European
Free Trade Association – a associação de livre comércio que inclui alguns
países europeus não-membros da União Europeia).
Para
completar o quadro, promete um acordo com o Canadá até o final do ano. Com essa
condução da política comercial, o Brasil terminará amarrado a uma teia de
acordos de corte neoliberal em que abrimos nossos mercados à competição
irrestrita com as empresas de países desenvolvidos, condenando ao fracasso
qualquer tentativa de reindustrialização do país.
Na
verdade, seria melhor passar a chamar o MDIC de Ministério do
Subdesenvolvimento e da Desindustrialização.
O
Itamaraty, apesar dos esforços de muitos bons diplomatas, ficou prejudicado
pela presença insuficiente de quadros ligadas à tradição
nacional-desenvolvimentista, que já foi tão forte na casa.
Isso se
reflete na condução das já referidas negociações comerciais externas, que foram
levados a cabo principalmente pelo Itamaraty e pelo MDIC. Os diplomatas
envolvidos nessa negociação são corresponsáveis pelo desastre.
No
Ministério da Fazenda, também faz falta a presença de quadros menos
comprometidos com o neoliberalismo e o carreirismo.
Há
exceções, notadamente entre os mais jovens da equipe, mas foi fraca a atuação
da Fazenda em vários temas candentes – na construção do arcabouço fiscal (que
acabou ficando excessivamente ambicioso), na definição da diretoria do Banco
Central (com a escolha de nomes que não trazem qualquer perspectiva de mudança)
e na quase total omissão nas negociações comerciais externas.
Foi
fraca, também, a participação do ministério no processo BRICS que o Brasil
presidiu em 2025.
Juntamente
com o Itamaraty e o Banco Central, a Fazenda liderou uma presidência vazia de
resultados importantes.
No
Ministério do Planejamento, pelos menos no tempo da ministra Simone Tebet que
deixou o cargo há pouco, a equipe quase inteira, com poucas exceções, era de
orientação neoliberal – e se existe algo que não combina de jeito nenhum com
planejamento é precisamente o neoliberalismo.
E do
Banco Central, bem, deste nem preciso falar mais. Já tratei dele em artigo
recente (“A política de juros do Banco Central é um desastre”, 1 de maio de
2026).
Meu
pai, que morreu em 1994, costumava dizer: “O problema do Brasil é que deixamos
o adversário escalar nosso time.”
Esse
problema crônico, que se manifestou, em maior ou menor medida, em todos os
governos nas décadas recentes, aparece claramente no atual.
Um dos
maiores diplomatas, se não o maior da sua geração, meu pai era um exemplo
notável desse problema. Ele teve carreira brilhante, mas nunca chegou a ser
ministro de Estado e nem secretário-geral.
E, no
entanto, posso dizer com tranquilidade, e sem favor de filho para pai: ele era,
como diplomata e homem público, muito superior à maioria dos que exerceram
essas funções. Havia um problema, entretanto. A sua nomeação incomodaria os
nossos amigos do Norte. Melhor não arriscar, pensaram sucessivos presidentes.
Imagine,
leitor ou leitora, quantos brasileiras e brasileiros existem em todas as áreas
que têm inclinação para atuar no setor público, que possuem qualidades para
tal, mas não são convocados por serem honestos demais, independentes demais,
combativos demais! São vetados por políticos venais, por interesses econômicos
e por forças estrangeiras e seus aliados domésticos.
Refiro-me
ao sistema financeiro e outros lobbies empresariais, à mídia corporativa, e a
entidades locais que representam ou são controladas por ideologias e interesses
estrangeiros. Da Febraban à Conib, da Fiesp à Rede Globo, da CNA à CNI.
Resultado:
o time escalado fica, na melhor das hipóteses, repleto de pessoas hábeis,
jeitosas, mas sem coragem e imaginação. São poucos os que entram em bola
dividida. E há muito cabeça de bagre.
No
fundo, no fundo, infelizmente, a escalação é a própria imagem do Brasil – país
em que sobra jogo de cintura, mas falta espinha dorsal.
Na
nossa seleção atual, temos como centroavante, capitão e técnico do time um
presidente da República experiente, tarimbado, um jogador de fama
internacional. Perde uns gols incríveis, é verdade, mas a sua capacidade é
inegável. Eis o problema, porém: a bola chega nele? Ou ele é forçado a voltar à
intermediária para buscá-la?
A
verdade é que o centroavante acaba sem opções de jogo, uma vez que boa parte do
resto do time passa a bola para o lado ou para trás – quando não faz gol
contra!
Porém,
convenhamos, o capitão pode reclamar? Afinal, quem senão ele permitiu que os
adversários escalassem a nossa seleção?
E
ficamos assim com um time que joga para o empate ou até para perder de pouco.
Com esse tipo de time, claro, não se ganha partida nenhuma e muito menos
campeonato.
Fonte:
Outras Palavras/Viomundo

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