Elisabeth
Lopes: O déjà vu da vassalagem do clã bolsonarista
Nas
últimas semanas, o Brasil tem assistido à reincidência de um déjà vu de
sabotagem nacional promovido pelo clã Bolsonaro, resultante de pedidos ao
governo trumpista de ingerências nos assuntos brasileiros. Movidos pela
obsessão mesquinha por ganhos pessoais, os irmãos comportam-se como os mais vis
traidores da pátria, reles mercadores da nossa dignidade. Para esses falsos
patriotas, o projeto de assalto ao poder justifica qualquer baixeza, inclusive
o ato de rifar e alienar o que uma nação e seu povo, que se prezam, têm de mais
precioso: a soberania nacional e a altivez de jamais se curvar diante de outro
país.
Na
semana passada, em um movimento para desviar o foco de seu envolvimento
umbilical com o ex-banqueiro malfeitor Daniel Vorcaro, o pré-candidato à
Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu a Washington a classificação do PCC
e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Sob a justificativa
hipócrita do combate ao crime, os filhos do ex-presidente condenado pela
tentativa de golpe de Estado convidaram o lobo para o galinheiro ao chancelarem
esse pretexto, abrindo as portas para que o imperialismo americano legitime
intervenções diretas no território nacional, ataque nossa soberania, prejudique
instituições financeiras e sabote a cooperação policial autônoma. É a síntese
perfeita do “complexo de vira-lata” em sua versão mais perigosa, o sacrifício da
segurança e da independência do Brasil no âmbito do oportunismo familiar com
fins eleitoreiros.
Nesta
semana, após a investigação comercial da Seção 301, por razões meramente
políticas, os EUA sinalizaram uma proposta de 25% de sobretaxa sobre produtos
brasileiros, sob a justificativa de práticas cerceadoras ao comércio
estadunidense, com vinte menções ao Pix, entre outros questionamentos que não
se sustentam na atual conjuntura do Brasil. O cronograma dessa investida prevê
um período de consultas públicas até o início de julho, com a data-limite de 15
de julho de 2026 para que os EUA tomem a decisão final sobre a aplicação ou não
da tarifa.
No dia
seguinte, como se não bastasse a sobretaxa de 25%, a arrogância estadunidense
anunciou um novo tarifaço de 12,5%, cinicamente camuflado sob alegações de
combate ao trabalho forçado na produção brasileira. Na análise de negociadores,
o que o império promove é um massacre comercial cumulativo. A junção das duas
penalidades joga uma barreira alfandegária asfixiante de 37,5% contra as
exportações do Brasil.
Flávio
Bolsonaro tenta se descolar do anúncio dessas propostas de tarifaço; no
entanto, resta impossível para qualquer bom entendedor engolir os argumentos
falaciosos do senador de que não tem nada a ver, sobretudo depois da postagem
de Trump sobre o efusivo encontro com Flávio, publicada em rede social no mesmo
dia do golpe de novas taxações. Trump escreveu: “Foi muito bom ter Flávio
Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca, um jovem inteligente que ama muito o
seu país”.
Numa
esperada virada de chave, Trump explicita, sem a falsa máscara de “química” com
Lula, que tipo de governante brasileiro prefere que seja eleito em outubro: um
jovem capacho do imperialismo, um traidor da pátria que jamais amou seu país,
que age unicamente para defender seus mesquinhos interesses individuais e
familiares. Um jovem, nem tanto, que, ao longo de sua vida, nunca trabalhou
como os verdadeiros patriotas brasileiros, que acordam cedo, pegam condução
lotada para, horas depois, chegarem ao local de trabalho, submetidos a uma
massacrante escala 6x1; um sujeito supostamente esperto, embora plenamente
incapaz de dirigir um país.
Sem
nenhuma sombra de dúvida, Flávio Bolsonaro é o candidato ideal de Trump para
presidir o Brasil a partir de janeiro de 2027. O jovem sujeito improdutivo que
se tornou político pelo parasitismo do “Cê é fi de quem?” (frase da camiseta
usada por Flávio em um evento em Minas Gerais) e que continuou ineficaz desde
2003, quando se elegeu deputado estadual, até os dias de hoje como senador; um
indivíduo que coleciona amizades íntimas com criminosos milicianos e
parlamentares ligados ao crime organizado; um lacaio que trata como irmão um
ex-banqueiro acusado de se apropriar de recursos públicos e apontado como
protagonista de um dos maiores escândalos financeiros do país, cuja proximidade
entre ambos se tornou ainda mais controversa após o recebimento de uma vultosa
quantia de Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai, fato cercado
por crescentes suspeitas de irregularidades, desvios obscuros e questionamentos
sobre a aplicação do montante para além do custeio da produção cinematográfica.
Essa
vocação entreguista e vassala atinge o ápice do ridículo na patética carta
enviada por Flávio Bolsonaro ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, após
a repercussão do tarifaço. Em um misto de delírio e bajulação rasteira, o
senador incapaz de formular um projeto de governo e já se oferecendo como
futura marionete presidencial chegou ao desplante de prometer entregar sua
equipe de transição, de bandeja, aos interesses da Casa Branca. Ao apelar pelo
recuo na proposta de tarifas a Rubio, enquanto argumenta um cenário caótico da
economia brasileira, ele demonstra sua total inaptidão para ser presidente. Sua
promessa de submeter o destino do Brasil à tutela americana demonstra sua
rendição prévia e subserviente e que, se pudesse, rifaria a soberania nacional
em troca de uma foto de aprovação na Casa Branca.
A
bizarrice da família se acentua quando Eduardo Bolsonaro sai em defesa do
Zelle, o sistema de transferências dos EUA, sugerindo que o Brasil abandone o
Pix para adotar o modelo americano. Acontece que o Zelle é uma ferramenta
privada, cara e fragmentada, absolutamente inferior. O Pix, por sua vez,
humilha o concorrente norte-americano em eficiência e alcance, por ser um bem
público regulado pelo Banco Central, por oferecer liquidação imediata em
segundos e com custo zero para o cidadão, além de possuir uma segurança
institucional que o mercado privado americano jamais conseguirá replicar.
Não é
surpresa que o imperialismo em tensionamento, diante de sua superação
hegemônica mundial pela China, almeje um político rasteiro no cargo de
presidente do Brasil, em vez de um estadista como o presidente Lula, que não se
curva e não negocia, em hipótese nenhuma, a soberania do país. Com toda a
certeza, um líder dessa estirpe não é bem-vindo pelos EUA. Um governante que
intimida a onipotência americana por meio de sua projeção internacional na
defesa de uma nova ordem mundial, um presidente reconhecido mundialmente que
ousa anunciar sua ida à Cúpula do G7 na França, com a missão explícita de
costurar uma reação multilateral à ofensiva protecionista de Donald Trump e
restabelecer o equilíbrio global frente ao arbítrio de Washington, sem sombra
de dúvida, assusta pela coragem e determinação.
Esse
embate constante nos fóruns globais reflete a perda de controle da Casa Branca
sobre as estruturas de poder que antes dominava com facilidade. Exemplo
categórico disso é que o ataque ao Pix se tornou, na avaliação estadunidense,
um problema geopolítico e comercial para os Estados Unidos, justamente por ter
minimizado o monopólio das maiores empresas de pagamento do mundo. Relatórios
do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) já vinham
apontando a ferramenta brasileira como uma suposta “barreira comercial” sob o
argumento falacioso de que o Banco Central do Brasil atua de forma injusta por
ser, ao mesmo tempo, o regulador do mercado e o operador do Pix, prejudicando
empresas norte-americanas como Visa, Mastercard e as Big Techs apoiadoras do
Make America Great Again de Trump. Na realidade, o que incomoda o governo
americano é a perda de bilhões de dólares em taxas de intermediação e o avanço
de modalidades como o Pix Parcelado, que ameaçam diretamente o império dos
cartões de crédito tradicionais. Além do mais, uma escalada do Pix
internacional também abre caminhos alternativos ao domínio global do dólar e
esvazia a dependência do sistema SWIFT.
Esse
sistema revolucionário não nasceu do dia para a noite; ele começou a ser
pensado em 2016 pelo corpo técnico do Banco Central do Brasil e foi lançado em
novembro de 2020 com o objetivo de modernizar o Sistema de Pagamentos
Brasileiro (SPB), a partir de uma infraestrutura pública aberta e gratuita para
pessoas físicas. É preciso desmistificar a narrativa falsa de que o Pix foi uma
criação do governo Bolsonaro, ao contrário do que afirmam postagens enganosas
de seus filhos nas redes sociais. Na verdade, na véspera do lançamento da
ferramenta, o próprio ex-presidente demonstrou desconhecer o projeto ao ser
questionado por um apoiador, respondendo que ainda iria se informar com o
presidente do Banco Central.
Para os
brasileiros, o Pix significou uma das maiores ferramentas de inclusão
financeira e digital da história, permitindo que milhões de pessoas saíssem da
informalidade e que pequenos comerciantes e vendedores ambulantes passassem a
receber o dinheiro de suas vendas na hora, sem ficar reféns dos prazos de 30
dias e das taxas abusivas das maquininhas de cartão. Ao transformar o celular
na principal carteira do país e virar sinônimo de praticidade no cotidiano, o
Pix provou que o Brasil pode liderar a vanguarda tecnológica financeira
mundial, e a reação protecionista americana com menções diretas ao Pix é a
prova definitiva de que a soberania digital brasileira mexeu com os interesses
dos EUA.
O
sucesso do Pix no Brasil transformou o país em uma vitrine de tecnologia
financeira. O receio dos Estados Unidos não é apenas perder mercado em
território brasileiro, mas sim que o modelo de infraestrutura pública e
gratuita se espalhe por outros países, ameaçando o monopólio dos cartões de
crédito e das remessas internacionais em outras regiões. Países da Ásia,
América Latina e África querem adotar o sistema de pagamento instantâneo a
exemplo do Pix.
Em
reação ao anúncio da proposta dessa sobretaxa de 25% contra os produtos
nacionais, o governo brasileiro emitiu uma nota oficial manifestando profunda
indignação contra essa nova investida dos EUA. A nota sinaliza que, a pretexto
de punir supostas práticas desleais e mirando inclusive infraestruturas
soberanas como o Pix, o governo estadunidense impõe uma violência econômica
infundada contra um parceiro com quem acumula um superávit. Refere ainda que a
retaliação é politicamente motivada e sabotada internamente pela
extrema-direita bolsonarista, que atua como linha de apoio estrangeira contra a
própria pátria. Enquanto o Brasil garante tarifa zero para 76% das importações
norte-americanas (incluindo petróleo e gás), Washington responde sufocando as
exportações brasileiras, que já atingiram o menor patamar histórico de
participação, forçando o país a acionar sua Lei de Reciprocidade para defender
sua soberania e proteger os empregos nacionais.
Nesse
horizonte de prepotência, os Estados Unidos entram com carga estridente na
campanha eleitoral contra o presidente Lula. O coadjuvante ativo dessa ofensiva
é Marco Rubio, cuja atuação revela uma psique comprometida e neurotizada em
relação à sua própria latinidade. Cubano de origem, Rubio é uma figura
complexada e frustrada, mas movida por uma ambição desmedida, o desejo de
suceder a Donald Trump, que, num passado recente, o ridicularizou publicamente.
Para provar sua lealdade ao império, Rubio projeta seu auto-ódio contra os
governos progressistas da América Latina. O ápice desse ressentimento
materializou-se nesta terça-feira (2), em audiência no Senado americano, quando
ele rejeitou abertamente os vizinhos do sul e afirmou que o Brasil não integra o
grupo de nações amigáveis aos interesses estadunidenses no hemisfério
ocidental, contrariando a histórica relação amigável entre o Brasil e os EUA,
que perdura há mais de duzentos anos.
A
ojeriza do “tal Rubio”, como Lula acertadamente o chamou ao se referir a Marco
Rubio, aplicou, não por acaso, a sua costumeira diretriz ideológica na escolha
do novo embaixador dos EUA no Brasil, Daniel Perez. Recém-indicado por Donald
Trump, Perez é presidente da Câmara da Flórida e, assim como Rubio, um filho de
imigrantes cubanos que ascendeu na ala mais radical do Partido Republicano. O
diplomata chega a Brasília sob o apadrinhamento direto de Marco Rubio,
consolidando uma política de trincheira na América Latina. Juntos, padrinho e
afilhado operam o mesmo mecanismo psicológico de negação. Utilizam sua
ascendência latina não como ponte diplomática, mas como escudo ideológico para
perseguir governos progressistas e enquadrar o hemisfério ocidental aos
interesses da Casa Branca.
Vale
ressaltar que os interesses americanos no Brasil vão além do Pix e alcançam
setores altamente estratégicos. O Brasil é visto pelos EUA como um ponto
estratégico de abastecimento para sua transição energética e segurança
tecnológica. Esse interesse se traduz na extração e controle de minerais
críticos para a indústria de defesa americana, no uso do território para
tecnologia de satélites e no aproveitamento da matriz energética limpa do país
para sustentar a infraestrutura de seus data centers. Esse intuito de
exploração de recursos não vem sozinho; ele exige uma estrutura de força
militar e alinhamento político para se consolidar no continente. O jornalista
Jamil Chade, em publicação na revista CartaCapital, revela, inclusive, a
articulação do “Escudo das Américas”, uma aliança moldada nos termos da OTAN,
mas sob o controle irrestrito dos EUA. Segundo a análise de Chade, o tratado
visa impor a supremacia de Washington por meio da militarização e da
dependência regional, já atraindo cerca de dez nações, entre as quais
Argentina, Chile, Paraguai e Panamá. Nesse contexto geopolítico, a ascensão de
Flávio Bolsonaro à Presidência representaria o encaixe perfeito para os planos
de subordinação defendidos pelo poder americano.
Diante
de tudo isso, não resta dúvida de que a subserviência do clã Bolsonaro e de
seus aliados vem sendo amplamente rechaçada nas redes sociais. Em um certeiro
tiro no pé, os movimentos dessa família nociva ao país acabaram se convertendo
num bom cabo eleitoral em favor do presidente Lula. Por outro lado, como
previsível, os pré-candidatos da direita alinhada ao bolsonarismo, Romeu Zema
(Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), ignorando deliberadamente o papel entreguista de
Flávio Bolsonaro na crise, transformaram a ameaça do tarifaço em plataforma
eleitoral, jogando a culpa do ataque imperialista nas costas da política
externa do Planalto.
Ao
final, o que se vê é mais um capítulo do déjà vu da vassalagem bolsonarista.
Resta saber se, nas urnas de outubro, a teimosia de uma parte inacreditável de
brasileiros optará por abandonar de vez essa tonalidade política obscura
marcada pelo entreguismo, pela dependência externa e pela traição aos
interesses nacionais.
¨ Entre Trump e a
soberania brasileira. Por José Antonio da Silva Filho
O
debate sobre soberania nacional ultrapassou os limites das academias, dos
círculos diplomáticos e dos espaços tradicionais da política. Hoje, ele ocupa
as mesas das famílias, os locais de trabalho e até os bares espalhados pelo
país. A ação dos filhos de Bolsonaro, aliada aos interesses trumpistas, fez com
que cada cidadão, à sua maneira e dentro de suas referências culturais,
passasse a refletir sobre o futuro do Brasil como nação livre, independente e
capaz de decidir seus próprios destinos.
Há
quem, tomando como referência experiências recentes de outros países
latino-americanos, especialmente a Venezuela, chegue a cogitar a hipótese de
uma intervenção externa liderada pelos Estados Unidos. Não parece ser esse o
cenário mais provável. O Brasil não é uma república periférica sem relevância
internacional. Trata-se da maior economia da América Latina e de uma das
principais economias do planeta. No entanto, isso não significa que esteja fora
do radar dos interesses estratégicos das grandes potências.
Dois
fatores tornam o Brasil particularmente atraente para os Estados Unidos: a
extraordinária riqueza de seu subsolo e sua posição geopolítica privilegiada. O
país possui vastas reservas de petróleo, minerais estratégicos e terras raras,
recursos essenciais para a nova economia digital e para a corrida tecnológica
global. Além disso, ocupa posição central em um continente dotado de imensas
riquezas naturais e crescente importância geopolítica.
É
justamente nesse ponto que reside a principal preocupação. Para qualquer
potência global, influenciar politicamente um país com essas características
representa uma vantagem estratégica significativa. Um governo alinhado a
interesses externos, politicamente dócil e ideologicamente afinado com os
interesses dos Estados Unidos, facilitaria o acesso a recursos naturais e
ampliaria a capacidade de influência sobre toda a América Latina. Não se trata
de uma novidade histórica. Durante séculos, no período da colonização, o
continente latino-americano forneceu riquezas que contribuíram decisivamente
para o desenvolvimento econômico das potências europeias. Em diferentes formas,
a disputa pelos recursos estratégicos da região sempre esteve presente.
Isso
não significa, a meu ver, que veremos tanques cruzando fronteiras ou tropas
desembarcando em território brasileiro. No século XXI, as formas de pressão são
outras — mais discretas, sofisticadas e, muitas vezes, mais eficazes. Elas se
manifestam por meio de instrumentos econômicos, financeiros, diplomáticos,
jurídicos e tecnológicos. Taxações comerciais, barreiras econômicas, sanções e
mecanismos de pressão política passaram a desempenhar o papel que, em outros
tempos, era exercido pela força militar. A própria utilização extraterritorial
de legislações norte-americanas, como a chamada Lei Magnitsky, ilustra como o
poder econômico e jurídico pode ser empregado como instrumento de influência
internacional.
Nesse
contexto, medidas recentes, como a classificação do PCC e do Comando Vermelho
como organizações terroristas por autoridades estrangeiras, inserem-se em uma
dinâmica mais ampla de ampliação de instrumentos de pressão e intervenção
indireta. São movimentos que, para muitos analistas, podem ser interpretados
como atos preparatórios dentro de uma estratégia geopolítica mais abrangente.
Mas
talvez o elemento mais relevante dessa nova realidade seja o poder acumulado
pelas Big Techs. Se informação sempre foi sinônimo de poder, nunca na história
da humanidade um conjunto tão reduzido de empresas concentrou tamanha
quantidade de dados sobre bilhões de pessoas. Essas corporações conhecem
hábitos de consumo, preferências culturais, inclinações ideológicas, padrões de
comportamento, medos, desejos e até potenciais capacidades de liderança dos
indivíduos.
O
domínio dos algoritmos e da inteligência artificial transformou os dados em um
dos ativos mais valiosos da economia contemporânea. E daí surge uma questão
fundamental: existe poder econômico verdadeiramente dissociado do poder
político?
A
história demonstra que não. Grandes interesses econômicos inevitavelmente
procuram influenciar decisões políticas. Quando governos defendem determinados
modelos regulatórios, questionam sistemas de pagamento ou disputam o controle
de recursos estratégicos, frequentemente estão também defendendo interesses
econômicos específicos. Na atual disputa global por petróleo, minerais
críticos, terras raras, infraestrutura digital e inteligência artificial,
economia e política tornaram-se praticamente indissociáveis.
Por
isso, as próximas eleições brasileiras não serão observadas apenas pelos
brasileiros. O futuro da maior economia da América Latina interessa a governos,
corporações, investidores e centros de poder espalhados pelo mundo. Seria
ingenuidade acreditar que atores econômicos globais permanecerão neutros diante
de uma disputa capaz de influenciar o acesso a recursos estratégicos e a
orientação política de um país com as dimensões e a relevância do Brasil.
Nada
será como antes. A disputa pelo poder já não ocorre apenas nos parlamentos, nos
partidos ou nas urnas. Ela também se desenvolve nos mercados financeiros, nos
fluxos de dados, nas plataformas digitais e nas estruturas globais de
informação. Defender a soberania nacional, neste novo contexto histórico,
significa compreender que independência política, autonomia tecnológica e
controle sobre riquezas estratégicas tornaram-se dimensões inseparáveis de um
mesmo desafio.
Por
consequência, dificilmente esses atores permanecerão neutros diante da disputa
eleitoral vindoura. Utilizarão todos os instrumentos de influência de que
dispõem para defender interesses econômicos, políticos e estratégicos
considerados fundamentais para seus projetos globais. Afinal, o que está em
jogo não é apenas o resultado de uma eleição, mas a orientação política da
maior e mais importante economia da América Latina.
Portanto,
a escolha que os brasileiros farão nas próximas eleições será decisiva para o
futuro do país. Estamos diante de uma verdadeira bifurcação histórica. De um
lado, apresenta-se um projeto político alinhado à agenda da direita
internacional liderada por Donald Trump e suas concepções econômicas, que
defendem uma maior integração subordinada à sua obsessão ideológica. De outro,
encontra-se a perspectiva de um projeto comprometido com a soberania nacional,
a autonomia decisória do Estado brasileiro e a utilização estratégica de nossas
riquezas naturais em favor do desenvolvimento econômico e social do próprio
país.
Mais do
que uma simples disputa eleitoral, trata-se de uma escolha entre diferentes
concepções de nação. Está em jogo a capacidade de o Brasil preservar sua
independência, fortalecer suas instituições democráticas, ampliar direitos
fundamentais e aprofundar conquistas civilizatórias que tenham como horizonte a
dignidade e o desenvolvimento integral da pessoa humana.
Em um
mundo marcado pela disputa geopolítica, pelo poder das grandes corporações
tecnológicas e pela crescente influência dos interesses econômicos globais
sobre a política, a defesa da soberania nacional deixa de ser apenas uma
questão diplomática para se tornar um imperativo democrático. O Brasil do
futuro dependerá, em grande medida, da capacidade de seu povo escolher, de
forma livre e consciente, o caminho que deseja trilhar. E não se esqueçam:
depois de outubro, nada será como antes.
Fonte:
Brasil 247




