Florestan
Fernandes Jr.: O mercado tem medo de Lula ou da democracia?
A
pesquisa Genial/Quaest que mostra a ampliação da vantagem de Lula sobre Flávio
Bolsonaro mal havia sido divulgada nesta quarta-feira (10/06) e a GloboNews já
repercutia o avanço do presidente nas intenções de voto junto ao mercado
financeiro. A repercussão foi feita pelo economista-chefe da Ativa
Investimentos que, como era previsível, vaticinou: uma eventual reeleição de
Lula representaria uma ameaça à responsabilidade fiscal e à condução da
política econômica.
Na
prática, porém, o entrevistado defendia a manutenção de uma política econômica
alinhada aos interesses do mercado financeiro, que privilegia o pagamento dos
juros da dívida pública e a remuneração dos rentistas em detrimento da
ampliação dos investimentos sociais em áreas como saúde, educação e
previdência.
O
entrevistado destacou que para o mercado, o resultado da pesquisa poderia
provocar reações negativas, com impactos sobre a Bolsa de Valores e a cotação
do dólar. Mas tranquilizou os mais preocupados ao afirmar que o cenário
eleitoral ainda está aberto e que muita coisa pode mudar até a votação.
A
pergunta que muitos devem se fazer é: por que o jornalismo da Globo está mais
preocupado com a repercussão do mercado financeiro do que com a opinião do
setor produtivo, da indústria, do comércio e dos trabalhadores?
Quando
as exigências do mercado são apresentadas como parâmetros incontornáveis para a
formulação de políticas públicas, reformas estruturais passam a ser tratadas
como necessidades técnicas e não como escolhas políticas sujeitas ao debate
democrático. Esse enquadramento fortalece a influência do capital financeiro
sobre a discussão pública e reduz o espaço para temas como justiça social,
investimento estatal e distribuição dos recursos públicos.
A
narrativa de que Lula representa uma ameaça aos mercados tampouco encontra
respaldo no comportamento dos ativos financeiros. O Ibovespa alcançou patamares
superiores aos observados no final do governo Bolsonaro enquanto o dólar,
apesar das turbulências internacionais, não registrou a explosão frequentemente
anunciada pelos críticos do governo.
Nos
quatro anos da gestão Bolsonaro, a economia brasileira cresceu, em média, cerca
de 1,5% ao ano, resultado influenciado pela pandemia, mas ainda assim modesto
para os padrões de um país emergente. Já nos primeiros anos do governo Lula, o
PIB voltou a crescer acima de 3% ao ano, superando inclusive as projeções do
próprio mercado financeiro.
Os
defensores da austeridade costumam atribuir aos governos do PT uma suposta
irresponsabilidade fiscal, mas silenciam sobre a forte expansão dos gastos
ocorrida durante a administração Bolsonaro, especialmente na pandemia e no ano
eleitoral de 2022. A diferença central parece estar menos no volume dos gastos
e mais em sua destinação. Enquanto parte significativa do debate econômico se
concentra na preservação dos interesses do mercado financeiro e na remuneração
dos detentores da dívida pública, governos de esquerda defendem ampliar
investimentos em políticas sociais, infraestrutura e combate à desigualdade.
Talvez
essa reação reflita também o receio de que operações como a Carbono Oculto
continuem lançando luz sobre relações pouco transparentes entre setores do
mercado financeiro e esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao crime
organizado. O mesmo pode ser dito do caso Banco Master, que trouxe à tona o
papel desempenhado por conhecidas corretoras na distribuição de títulos de
elevado risco emitidos pela instituição de Daniel Vorcaro.
Mais do
que uma disputa sobre indicadores econômicos, o debate exposto pela cobertura
da GloboNews revela uma questão política central: quem tem legitimidade para
definir os rumos do país? Quando a opinião do mercado financeiro é tratada como
sinônimo de interesse nacional, outras vozes da economia como trabalhadores,
pequenos empresários e beneficiários das políticas públicas acabam relegadas a
um segundo plano.
A
eleição de 2026 não será apenas uma disputa eleitoral. Estará em jogo a
definição dos rumos estratégicos do Brasil nas próximas décadas. A escolha será
entre um projeto de desenvolvimento baseado na soberania nacional, na inovação
tecnológica, no fortalecimento da indústria e na inclusão social, e um modelo
em que as prioridades do país sejam definidas principalmente pelos interesses
do mercado financeiro, e não pelo debate democrático da sociedade brasileira.
Uma democracia que, aliás, continua sob pressão diante das investidas da
extrema direita e de iniciativas alinhadas ao projeto de Donald Trump de
reafirmar a influência dos Estados Unidos sobre a América Latina.
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O fim do antilulismo automático. Por Luís Nassif
Os
movimentos da mídia são curiosos. De um lado, as preferências políticas. De
outro, os movimentos conduzidos por vazamentos direcionados. E, no meio, a
necessidade de equilibrar posições — de disfarçar as preferências políticas por
trás de uma suposta isenção jornalística.
A
manipulação das narrativas começa na seleção dos fatos que merecem manchete de
primeira página ou título de matéria. Com frequência, a cobertura se torna
prisioneira de fontes privilegiadas, que entregam informações exclusivas — ou
vazamentos de inquéritos — de modo a direcionar a pauta. O efeito-manada e o
jornalismo-sela — a imprensa encilhada pela fonte, montada e conduzida por ela
— são personagens recorrentes.
Faço
essa introdução para uma análise do jornalismo da Globo, em especial do jornal
O Globo e da GloboNews (confesso que não tenho assistido ao Jornal Nacional e
ao Fantástico).
Quando
começou a operação Master, uma parceria entre peritos lavajatistas e
jornalistas lavajatistas de O Globo e da GloboNews enviesou totalmente a
cobertura. O que era um escândalo do Centrão e do governo do Distrito Federal
transformou-se em escândalo do Supremo Tribunal Federal e em tentativa de jogar
Lula e o PT para o centro do caso. Caminhou-se para um ensaio de Lava Jato 2,
cujo ápice foi o PowerPoint de Andréia Sadi. Via-se, com clareza, uma perda de
rumo da direção — tanto do jornal quanto da GloboNews.
O
desgaste foi imediato. As críticas explodiram em todos os canais digitais. E a
marcha foi interrompida pelo vazamento da conversa entre Daniel Vorcaro e
Flávio Bolsonaro, divulgada por um jornal alternativo, o The Intercept.
Esse
foi o ponto de virada que alertou os jornais: manter o antilulismo irracional
significaria fortalecer as organizações que se escondem por trás do
bolsonarismo.
Pode
ter sido um clarão ocasional ou uma tomada de posição racional. Mas quem
acompanha O Globo percebeu uma mudança radical no tratamento das matérias
políticas. Um exemplo: a Quaest solta uma pesquisa. A nota relevante é o
aumento da distância entre Lula e Flávio Bolsonaro. O eixo Estadão-Veja
preferiu destacar a visão negativa em relação a Lula, empatada com a positiva.
Já O Globo foi pródigo em praticar jornalismo e conferir à pesquisa os
destaques efetivamente relevantes: o aumento da diferença entre Lula e
Bolsonarinho e a diminuição da rejeição a Lula entre os evangélicos. Na própria
GloboNews, a ala da direita não poupa críticas a Flávio Bolsonaro.
Aparentemente,
caiu a ficha do que significaria para o país — e para a mídia hegemônica — uma
eventual vitória do bolsonarismo. De um lado, o desmonte de qualquer veleidade
de transformar o país em uma Nação. De outro, o tiroteio direto contra a mídia
convencional, em favor das redes mais ligadas aos evangélicos.
Muita
água ainda vai rolar, há muita narrativa no ar e muito amadorismo na edição dos
jornais. Mas, ao menos nestes últimos dias, ficou a impressão de uma retomada
da racionalidade.
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O Partido Digital Bolsonarista: síntese analítica
O
relatório O Partido Digital Bolsonarista (CCI/CEBRAP/DX,
2025), coordenado por Marcos Nobre, sustenta que o bolsonarismo deve ser
compreendido não apenas como uma corrente ideológica ou movimento de opinião,
mas como uma organização política voltada à conquista e manutenção do poder. Os
autores denominam essa estrutura de Partido Digital Bolsonarista (PDB).
A
principal tese é que o PDB funciona como um partido de fato, embora opere
parcialmente fora das instituições tradicionais da democracia representativa.
Em vez de depender de estatutos, programas e estruturas burocráticas, ele se
organiza por meio de redes digitais de influência, lealdade pessoal e
mobilização permanente em torno da liderança de Jair Bolsonaro.
Nessa
interpretação, o PL não constitui o partido bolsonarista propriamente dito.
Funciona antes como uma plataforma institucional que fornece recursos
financeiros, tempo de televisão, estrutura eleitoral e acesso ao sistema
político, enquanto a coordenação política efetiva ocorre nas redes sociais e
nos ecossistemas digitais de apoiadores e influenciadores.
O
estudo combina análise de redes sociais, dados eleitorais e financiamento de
campanhas para demonstrar que existe um núcleo parlamentar altamente
coordenado, concentrado principalmente no PL, caracterizado por elevada
capacidade de mobilização digital, baixa adesão às pautas do governo e forte
alinhamento discursivo. A coordenação aparece em campanhas simultâneas,
identidade visual padronizada e sincronização de mensagens.
A
figura de Bolsonaro surge como o principal nó articulador da rede, enquanto
parlamentares e influenciadores funcionam como multiplicadores. O ataque ao
Supremo Tribunal Federal — especialmente ao ministro Alexandre de Moraes —
aparece como o tema de maior convergência e coesão interna, reforçando o
caráter antissistêmico atribuído ao grupo pelos autores.
O
relatório também identifica fragilidades estruturais. Como a organização
depende mais da lealdade pessoal do que de mecanismos institucionais, ela está
sujeita a disputas por liderança e deserções. O crescimento de figuras como
Pablo Marçal é apresentado como exemplo da vulnerabilidade inerente a uma
estrutura política baseada em influência digital e carisma.
Entre
os achados empíricos, destaca-se o desempenho singular de Nikolas Ferreira,
cujo engajamento nas redes supera amplamente o dos demais parlamentares
analisados, indicando a existência de hierarquias internas de influência que
nem sempre coincidem com os cargos formais da política.
Em
síntese, o relatório conclui que o bolsonarismo opera como um partido político
digitalizado, organizado em torno de lideranças de influência, capaz de
utilizar partidos tradicionais sem se confundir com eles e de mobilizar
apoiadores por meio de redes digitais que funcionam paralelamente às estruturas
convencionais da democracia representativa.
Fonte:
Brasil 247/Jornal GGN




