sábado, 13 de junho de 2026

Florestan Fernandes Jr.: O mercado tem medo de Lula ou da democracia?

A pesquisa Genial/Quaest que mostra a ampliação da vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro mal havia sido divulgada nesta quarta-feira (10/06) e a GloboNews já repercutia o avanço do presidente nas intenções de voto junto ao mercado financeiro. A repercussão foi feita pelo economista-chefe da Ativa Investimentos que, como era previsível, vaticinou: uma eventual reeleição de Lula representaria uma ameaça à responsabilidade fiscal e à condução da política econômica.

Na prática, porém, o entrevistado defendia a manutenção de uma política econômica alinhada aos interesses do mercado financeiro, que privilegia o pagamento dos juros da dívida pública e a remuneração dos rentistas em detrimento da ampliação dos investimentos sociais em áreas como saúde, educação e previdência. 

O entrevistado destacou que para o mercado, o resultado da pesquisa poderia provocar reações negativas, com impactos sobre a Bolsa de Valores e a cotação do dólar. Mas tranquilizou os mais preocupados ao afirmar que o cenário eleitoral ainda está aberto e que muita coisa pode mudar até a votação.

A pergunta que muitos devem se fazer é: por que o jornalismo da Globo está mais preocupado com a repercussão do mercado financeiro do que com a opinião do setor produtivo, da indústria, do comércio e dos trabalhadores?

Quando as exigências do mercado são apresentadas como parâmetros incontornáveis para a formulação de políticas públicas, reformas estruturais passam a ser tratadas como necessidades técnicas e não como escolhas políticas sujeitas ao debate democrático. Esse enquadramento fortalece a influência do capital financeiro sobre a discussão pública e reduz o espaço para temas como justiça social, investimento estatal e distribuição dos recursos públicos.

A narrativa de que Lula representa uma ameaça aos mercados tampouco encontra respaldo no comportamento dos ativos financeiros. O Ibovespa alcançou patamares superiores aos observados no final do governo Bolsonaro enquanto o dólar, apesar das turbulências internacionais, não registrou a explosão frequentemente anunciada pelos críticos do governo.

Nos quatro anos da gestão Bolsonaro, a economia brasileira cresceu, em média, cerca de 1,5% ao ano, resultado influenciado pela pandemia, mas ainda assim modesto para os padrões de um país emergente. Já nos primeiros anos do governo Lula, o PIB voltou a crescer acima de 3% ao ano, superando inclusive as projeções do próprio mercado financeiro.

Os defensores da austeridade costumam atribuir aos governos do PT uma suposta irresponsabilidade fiscal, mas silenciam sobre a forte expansão dos gastos ocorrida durante a administração Bolsonaro, especialmente na pandemia e no ano eleitoral de 2022. A diferença central parece estar menos no volume dos gastos e mais em sua destinação. Enquanto parte significativa do debate econômico se concentra na preservação dos interesses do mercado financeiro e na remuneração dos detentores da dívida pública, governos de esquerda defendem ampliar investimentos em políticas sociais, infraestrutura e combate à desigualdade.

Talvez essa reação reflita também o receio de que operações como a Carbono Oculto continuem lançando luz sobre relações pouco transparentes entre setores do mercado financeiro e esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao crime organizado. O mesmo pode ser dito do caso Banco Master, que trouxe à tona o papel desempenhado por conhecidas corretoras na distribuição de títulos de elevado risco emitidos pela instituição de Daniel Vorcaro.

Mais do que uma disputa sobre indicadores econômicos, o debate exposto pela cobertura da GloboNews revela uma questão política central: quem tem legitimidade para definir os rumos do país? Quando a opinião do mercado financeiro é tratada como sinônimo de interesse nacional, outras vozes da economia como trabalhadores, pequenos empresários e beneficiários das políticas públicas acabam relegadas a um segundo plano.

A eleição de 2026 não será apenas uma disputa eleitoral. Estará em jogo a definição dos rumos estratégicos do Brasil nas próximas décadas. A escolha será entre um projeto de desenvolvimento baseado na soberania nacional, na inovação tecnológica, no fortalecimento da indústria e na inclusão social, e um modelo em que as prioridades do país sejam definidas principalmente pelos interesses do mercado financeiro, e não pelo debate democrático da sociedade brasileira. Uma democracia que, aliás, continua sob pressão diante das investidas da extrema direita e de iniciativas alinhadas ao projeto de Donald Trump de reafirmar a influência dos Estados Unidos sobre a América Latina.

¨      O fim do antilulismo automático. Por Luís Nassif

Os movimentos da mídia são curiosos. De um lado, as preferências políticas. De outro, os movimentos conduzidos por vazamentos direcionados. E, no meio, a necessidade de equilibrar posições — de disfarçar as preferências políticas por trás de uma suposta isenção jornalística.

A manipulação das narrativas começa na seleção dos fatos que merecem manchete de primeira página ou título de matéria. Com frequência, a cobertura se torna prisioneira de fontes privilegiadas, que entregam informações exclusivas — ou vazamentos de inquéritos — de modo a direcionar a pauta. O efeito-manada e o jornalismo-sela — a imprensa encilhada pela fonte, montada e conduzida por ela — são personagens recorrentes.

Faço essa introdução para uma análise do jornalismo da Globo, em especial do jornal O Globo e da GloboNews (confesso que não tenho assistido ao Jornal Nacional e ao Fantástico).

Quando começou a operação Master, uma parceria entre peritos lavajatistas e jornalistas lavajatistas de O Globo e da GloboNews enviesou totalmente a cobertura. O que era um escândalo do Centrão e do governo do Distrito Federal transformou-se em escândalo do Supremo Tribunal Federal e em tentativa de jogar Lula e o PT para o centro do caso. Caminhou-se para um ensaio de Lava Jato 2, cujo ápice foi o PowerPoint de Andréia Sadi. Via-se, com clareza, uma perda de rumo da direção — tanto do jornal quanto da GloboNews.

O desgaste foi imediato. As críticas explodiram em todos os canais digitais. E a marcha foi interrompida pelo vazamento da conversa entre Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro, divulgada por um jornal alternativo, o The Intercept.

Esse foi o ponto de virada que alertou os jornais: manter o antilulismo irracional significaria fortalecer as organizações que se escondem por trás do bolsonarismo.

Pode ter sido um clarão ocasional ou uma tomada de posição racional. Mas quem acompanha O Globo percebeu uma mudança radical no tratamento das matérias políticas. Um exemplo: a Quaest solta uma pesquisa. A nota relevante é o aumento da distância entre Lula e Flávio Bolsonaro. O eixo Estadão-Veja preferiu destacar a visão negativa em relação a Lula, empatada com a positiva. Já O Globo foi pródigo em praticar jornalismo e conferir à pesquisa os destaques efetivamente relevantes: o aumento da diferença entre Lula e Bolsonarinho e a diminuição da rejeição a Lula entre os evangélicos. Na própria GloboNews, a ala da direita não poupa críticas a Flávio Bolsonaro.

Aparentemente, caiu a ficha do que significaria para o país — e para a mídia hegemônica — uma eventual vitória do bolsonarismo. De um lado, o desmonte de qualquer veleidade de transformar o país em uma Nação. De outro, o tiroteio direto contra a mídia convencional, em favor das redes mais ligadas aos evangélicos.

Muita água ainda vai rolar, há muita narrativa no ar e muito amadorismo na edição dos jornais. Mas, ao menos nestes últimos dias, ficou a impressão de uma retomada da racionalidade.

¨      O Partido Digital Bolsonarista: síntese analítica

O relatório O Partido Digital Bolsonarista (CCI/CEBRAP/DX, 2025), coordenado por Marcos Nobre, sustenta que o bolsonarismo deve ser compreendido não apenas como uma corrente ideológica ou movimento de opinião, mas como uma organização política voltada à conquista e manutenção do poder. Os autores denominam essa estrutura de Partido Digital Bolsonarista (PDB).

A principal tese é que o PDB funciona como um partido de fato, embora opere parcialmente fora das instituições tradicionais da democracia representativa. Em vez de depender de estatutos, programas e estruturas burocráticas, ele se organiza por meio de redes digitais de influência, lealdade pessoal e mobilização permanente em torno da liderança de Jair Bolsonaro.

Nessa interpretação, o PL não constitui o partido bolsonarista propriamente dito. Funciona antes como uma plataforma institucional que fornece recursos financeiros, tempo de televisão, estrutura eleitoral e acesso ao sistema político, enquanto a coordenação política efetiva ocorre nas redes sociais e nos ecossistemas digitais de apoiadores e influenciadores.

O estudo combina análise de redes sociais, dados eleitorais e financiamento de campanhas para demonstrar que existe um núcleo parlamentar altamente coordenado, concentrado principalmente no PL, caracterizado por elevada capacidade de mobilização digital, baixa adesão às pautas do governo e forte alinhamento discursivo. A coordenação aparece em campanhas simultâneas, identidade visual padronizada e sincronização de mensagens.

A figura de Bolsonaro surge como o principal nó articulador da rede, enquanto parlamentares e influenciadores funcionam como multiplicadores. O ataque ao Supremo Tribunal Federal — especialmente ao ministro Alexandre de Moraes — aparece como o tema de maior convergência e coesão interna, reforçando o caráter antissistêmico atribuído ao grupo pelos autores.

O relatório também identifica fragilidades estruturais. Como a organização depende mais da lealdade pessoal do que de mecanismos institucionais, ela está sujeita a disputas por liderança e deserções. O crescimento de figuras como Pablo Marçal é apresentado como exemplo da vulnerabilidade inerente a uma estrutura política baseada em influência digital e carisma.

Entre os achados empíricos, destaca-se o desempenho singular de Nikolas Ferreira, cujo engajamento nas redes supera amplamente o dos demais parlamentares analisados, indicando a existência de hierarquias internas de influência que nem sempre coincidem com os cargos formais da política.

Em síntese, o relatório conclui que o bolsonarismo opera como um partido político digitalizado, organizado em torno de lideranças de influência, capaz de utilizar partidos tradicionais sem se confundir com eles e de mobilizar apoiadores por meio de redes digitais que funcionam paralelamente às estruturas convencionais da democracia representativa.

 

Fonte: Brasil 247/Jornal GGN

 

Extrair e calar: terras raras, silêncio informacional e o padrão colonial na exploração de minerais críticos no Brasil

“A senhora aguarde só um instante, e eu peço que não tire fotos, por favor“, me disse um segurança à porta do escritório da Mineradora Serra Verde, a única fora da China a produzir terras raras, em Minaçu, no norte do Goiás. Minha entrada na sede da empresa foi barrada assim que me identifiquei como jornalista.

Apesar de se tratar de um local público – um complexo de casas que antes serviam aos trabalhadores da mineradora Sama, predecessora da Serra Verde em Minaçu –, a hostilidade do segurança à minha presença e à da minha câmera fotográfica era notória.

Aguardei. Poucos minutos depois, o homem retorna acompanhado de duas mulheres. Uma delas era Herta Torres que, apesar de responsável pela comunicação da empresa, se negou a responder a qualquer uma de minhas perguntas. “Aqui não falamos com jornalistas, ainda mais porque o Grossi, nosso porta-voz, não está“, argumentou a funcionária, referindo-se a Ricardo Grossi Neves, presidente da Serra Verde.

Em 20 de abril de 2026, a empresa norte-americana USA Rare Earth anunciou a compra integral da mineradora Serra Verde por US$ 2,8 bilhões. A transação não é uma operação de mercado ordinária: inclui US$ 565 milhões em financiamento da DFC (a agência federal de desenvolvimento dos EUA), um contrato de fornecimento exclusivo de 15 anos com preços mínimos garantidos e 100% da produção da primeira fase vinculada a uma estrutura capitalizada pelo governo dos Estados Unidos, com cláusulas que explicitamente excluem a China. Na prática, a compra significou que o aparelho de Estado norte-americano capturou a única cadeia de terras raras em escala comercial fora da Ásia.

O silêncio da Serra Verde quanto ao assunto quando da minha visita, cerca de duas semanas depois da venda, se revelou não incidental. Noeli Ferreira, repórter local da Rádio Serra Dourada, não teve sorte diferente quando tentou chegar ao complexo de Cana Brava, a base de operações da mineradora, apenas uma semana antes da minha visita.

Na primeira das três guaritas do complexo da mineradora, seguranças armados barraram Noeli e os outros dois jornalistas da equipe da TV Serra Dourada. “Eles (os seguranças) impediram inclusive que a gente fotografasse a fachada do complexo“, relatou Noeli. Segundo a jornalista, as tentativas de contato com a equipe de comunicação da empresa começaram dias antes da visita, mas foram sistematicamente ignoradas por Herta Torres, a mesma funcionária que se recusou a responder às minhas perguntas durante minha passagem pela sede da Serra Verde. “Eles não estão falando o que está acontecendo“, afirmou Noeli. “Existe um sigilo muito grande em torno da empresa desde a compra pelos americanos.”

Naquela mesma tarde, tentei, sem sucesso, chegar ao complexo de Cana Brava, na mina de Pela Ema, onde Noeli havia sido impedida de entrar. Localizada a cerca de uma hora de carro de Minaçu, a base de operações da Serra Verde parece protegida não apenas por guaritas e seguranças, mas também pelo próprio isolamento geográfico. A estrada de terra que leva ao local não possui sinalização e atravessa uma região sem cobertura de telefonia móvel. Em meio ao emaranhado de bifurcações e caminhos vicinais, avançar sem orientação prévia se revelou impossível. O acesso à mina parece desenhado exclusivamente para quem foi previamente autorizado a chegar até ela.

É justamente ali, no meio do cerrado goiano, que está o único ativo mineral fora da Ásia capaz de reduzir, em escala comercial, a dependência dos Estados Unidos em relação à China para o fornecimento de terras raras utilizadas em sistemas de defesa, veículos elétricos, turbinas eólicas e semicondutores. O futuro de setores considerados estratégicos para a economia e a segurança nacional norte-americanas passa por uma cidade brasileira de pouco mais de 27 mil habitantes.

Minaçu fica no extremo norte de Goiás, a cerca de 460 quilômetros de Goiânia. Cercada por reservatórios hidrelétricos e extensas áreas de cerrado, a cidade está distante não apenas dos grandes centros econômicos, mas também dos principais circuitos da imprensa nacional. A estrutura midiática local é reduzida: existem duas rádios, mas não há jornais locais nem redações capazes de manter cobertura permanente sobre uma empresa que movimenta bilhões de dólares e ocupa posição central na disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.

A distância física se transforma, assim, em vácuo informacional. Para jornalistas de fora, cobrir a Serra Verde exige longos deslocamentos, custos elevados e uma logística complexa. Para os profissionais locais, a dificuldade é outra: a escassez de recursos, o acesso limitado às fontes e a dependência de uma economia profundamente marcada pela presença da mineradora. Somado a isso, o controle exercido pela empresa sobre o acesso às suas instalações cria uma camada adicional de opacidade. No isolamento geográfico da região, a inacessibilidade deliberada da Serra Verde encontra um aliado poderoso.

Talvez por isso Minaçu não apareça em nenhum dos 490 registros de ataques a jornalistas no Centro-Oeste catalogados pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) entre 2021 e 2025. No entanto, isso não significa que a cobertura jornalística flua livremente pela região – pelo contrário.

O levantamento da Abraji documenta aquilo que se torna visível: agressões filmadas, processos noticiados, ameaças denunciadas, notas de repúdio emitidas por entidades de classe. O silêncio em Minaçu opera em um nível anterior ao do incidente documentável. Não é a agressão que deixa de ser registrada – são os jornalistas que nem sequer chegam até lá para serem agredidos. O que opera não é a violência ostensiva, mas formas mais difusas de silenciamento: a ausência de veículos com capacidade financeira e editorial para investigar a atividade mineradora, a dificuldade logística de acesso ao território, o isolamento profissional dos poucos jornalistas locais e a opacidade institucional e intimidação a jornalistas cultivada pela própria empresa.

Esse é um padrão recorrente nos territórios de extração. Historicamente, o colonialismo não se sustentou apenas pela apropriação de recursos naturais, mas também pelo controle da informação sobre esses recursos. A exploração de ouro, borracha, petróleo ou minérios estratégicos depende da produção de zonas periféricas onde a circulação de informação seja tão desigual quanto a distribuição da riqueza gerada.

Não por acaso, a exploração da Serra Verde em Minaçu também ocorre à revelia de quem vive as consequências mais diretas da transformação do território. Dita Godinho é liderança do Quilombo Urbano São Félix, formado por famílias deslocadas compulsoriamente pela construção da Usina Hidrelétrica de Cana Brava em 2002 – a mesma que hoje abastece energeticamente a operação da Serra Verde.

Mais de duas décadas após o reassentamento forçado, a comunidade continua ausente das discussões sobre a mineração que avança ao seu redor. “Minha terra está até hoje debaixo da água“, contou Dita. Sobre a venda da Serra Verde para os norte-americanos, a líder quilombola ficou sabendo pelas redes sociais. “Não houve nenhuma espécie de consulta, nenhuma organização pública para discutir com a gente.”

Quando perguntada sobre a quem deveria pertencer a riqueza extraída de Minaçu, a resposta de Dita condensou séculos de história econômica brasileira em poucas frases: “Eu acho que ela deveria ser do nosso país, da União. Porque tudo que a gente tem aqui, a gente entrega lá fora. Já levaram o ferro, os diamantes, a nossa madeira do Amazonas. E não fica nada. Levam tudo embora.“

O caso Serra Verde é, nos termos da socióloga argentina Maristella Svampa, um exemplo do neoextrativismo do século XXI: um modelo em que governos, independentemente de sua coloração ideológica, tendem a dar ênfase às vantagens comparativas da exportação de recursos primários, negando ou minimizando as assimetrias econômicas, ambientais e territoriais que esse modelo produz. O que muda, em relação ao extrativismo clássico, não é a lógica – é o vocabulário. “Transição energética”, “cadeia de valor integrada” e “parceria estratégica” substituem o léxico colonial de outrora, mas a estrutura permanece: extração na periferia, beneficiamento no centro, e comunidades locais excluídas tanto da decisão quanto do resultado.

As terras raras extraídas em Minaçu abastecerão a fabricação de ímãs permanentes para veículos elétricos, data centers e sistemas militares nos Estados Unidos, sem garantia de processamento local, transferência tecnológica ou industrialização significativa em território brasileiro. É a velha posição de exportador de matérias-primas, agora aplicada ao recurso estratégico mais disputado do século XXI.

O caso Serra Verde não pode ser lido isoladamente da intervenção militar norte-americana na Venezuela em janeiro de 2026, da pressão de Trump sobre a Groelândia, da expansão militar dos EUA no Oriente Médio, em especial com a guerra contra o Irã desde fevereiro de 2026, e do Project Vault, iniciativa de US$ 12 bilhões do Estado americano para constituir estoques estratégicos de minerais críticos. Com a aquisição da Serra Verde, Washington faz da soberania brasileira mais uma variável subordinada à sua política industrial e de segurança nacional.

 

Fonte: Por Giovanna Vial, no Blog da Boitempo

 

Bolsa Família, uma política de saúde pública

Mesmo quando os discursos preconceituosos em relação ao Programa Bolsa Família (PBF) já parecem enterrados no passado, volta e meia as direitas brasileiras recolocam o questionamento à sua validade na ordem do dia. No entanto, o Brasil já conta com evidências científicas que reafirmam o sucesso do programa.

Se figuras de proa do empresariado do país acusam o programa de estimular a acomodação, pesquisadores e indicadores oficiais mostram que o programa é um catalisador de integração e avanços sociais. E isso inclui, de forma marcante, a saúde pública.

Na semana passada, o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), da Fiocruz Bahia, realizou evento online para apresentar o documento Efeitos do Programa Bolsa Família na Saúde da População Brasileira. O trabalho reúne e sistematiza pesquisas realizados por importantes especialistas da Saúde no Brasil, vários deles com passagens por governos e experiência na coordenação de políticas públicas.

“Vivemos uma nova onda de desinformação sobre o Bolsa Família, que culpabiliza os pobres pela sua pobreza. Este conjunto de evidências dá materialidade e argumentos para a construção de uma rede de proteção social. Ao lado do SUS, da rede de educação pública, da assistência social, o PBF complementa toda esta rede, em grande escala”, resumiu Tereza Campello, diretora Socioambiental do BNDES no atual governo, com uma longa trajetória no campo da saúde pública e coletiva.

Um tesouro público

O trabalho apresentado faz parte do projeto Evidências e Síntese e traz em documento de oito páginas um resumo, munido de numerosa bibliografia, dos avanços em saúde provocados pelo programa. As conclusões foram possíveis graças ao ativo mais precioso do Cidacs: os dados de 100 milhões de brasileiros registrados no CadÚnico, o cadastro do governo que concentra dados de todos os beneficiários de políticas assistenciais. “Depois do IBGE, quem tem a maior base de dados do Brasil é o CIDACS”, resumiu Rômulo Paes, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Tal grupo foi denominado “Coorte dos 100 milhões”, a base de dados de onde as pesquisas sistematizadas no documento têm extraído as conclusões que associam o Bolsa Família a melhores indicadores de saúde. Talvez a mais impactante das descobertas é a de que 700 mil vidas foram salvas e 8 milhões de internações hospitalares evitadas em função do Bolsa Família desde sua criação, em 2004.

Ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e coordenadora do Plano Brasil Sem Miséria nos governos Dilma, Campello é diretora Socioambiental do BNDES no atual governo e tem uma longa trajetória no campo da saúde pública e coletiva.

“O PBF está associado a melhorias em vários indicadores, incluindo taxas mais baixas de partos prematuros e mortalidade infantil, menos mortes por doenças cardiovasculares e outras enfermidades, incluindo aquelas relacionadas à saúde mental. Essa tese foi inequivocamente demonstrada”, afirma o documento.

Como afirmado pelos debatedores reunidos na vídeoconferência, o programa reduziu casos de doenças cardiovasculares, tuberculose, transtornos mentais e até suicídios, dentre outros agravos.

“As mães que recebem Bolsa Família têm 15% menos chance de morrer por alguma causa associada à maternidade. Isso sobe para 30% se o benefício para aquelas que receberam por 8 anos ou mais. O PBF reduz em 17% os déficits estaturais, ou seja, dificuldades de crescimento. Entre os beneficiários, a incidência e mortalidade por hiv/aids é significativamente menor. Hospitalização por transtornos mentais psiquiátricos caem 23%, por álcool e drogas caem 17% no geral e 41% nos municípios mais pobres”, enumerou Maurício Barreto, pesquisador do Cidacs e da Fiocruz Bahia.

Em outras palavras, as repercussões positivas do Bolsa Família na economia – outra dimensão que têm conquistado espaço no debate público – também dizem respeito ao SUS. Maurício sintetizou a sinergia entre ambas políticas públicas: “A mortalidade infantil caiu de 28 pra 12 por 1.000 nascidos vivos e a expectativa de vida aumentou 4,5 anos desde que o SUS existe. Nossa tese é que se trata de resultado da combinação do sistema de saúde com outras políticas sociais”.

<><> Novas metodologias

Como destacaram os pesquisadores no debate virtual, e está registrado no documento, os estudos que alcançaram tais conclusões se serviram de metodologias inovadoras. Basicamente, foram analisados dados de agravos de saúde disponibilizados em sistemas públicos de informação, como o Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) e o SIH (Sistema de Internações Hospitalares). A eles se somaram informações sobre os números de beneficiários do programa e as contrapartidas exigidas, como vacina atualizada e frequência escolar, de forma retrospectiva, ano após ano.

“Cerca de 60% das pessoas deixaram o programa porque melhoraram suas condições de vida. E o estudo mostra o que temos de mais potente na epidemiologia, com um estudo de coorte, com monitoramento de grupo controle, ótimo delineamento, avaliação de programas e produção de evidências. Não existe método melhor. Conseguimos mostrar que para além da mobilidade social há melhoria expressiva nos indicadores de saúde”, explicou Déborah Malta, pesquisadora e professora da Escola de Enfermagem da UFMG.

Parte inerente da Saúde Coletiva, o olhar sociológico se faz presente na fala dos pesquisadores. Dessa forma, as relações apresentadas entre o Bolsa Família e os indicadores de saúde reforçam a defesa da ação estatal em políticas sociais, em contraponto aos dogmas de austeridade fiscal que ainda predominam na classe política e mesmo na sociedade.

“Do ponto de vista tecnológico, a mudança no mundo do trabalho e expulsão de massas dos ramos industrial e comercial trazem a criação de novos programas de apoio a setores que nunca vão se integrar. A proteção social nunca foi tão necessária, mas segue muito contestada. E para isso precisamos de conhecimento sofisticado, robusto e organizado. Na prática, o discurso científico disputa espaço com o senso comum”, afirmou Rômulo Paes, que menciona a transição demográfica como outro fator de forte impacto no futuro próximo.

“Esse debate se renovou em era de fake news e negacionismo científico. E quando as famílias estão em contato com o serviço de saúde é possível contornar essa adversidade. Precisamos avançar na integração entre esses dados e as diferentes políticas e estruturas de serviços e assistência sociais”, acrescentou Rafael Osório, do Ministério do Desenvolvimento Social.

<><> O valor estratégico do Cidacs

Como destacado por Tereza Campello, o Cidacs possui um caráter inovador em sua própria existência, pelo fato de produzir informações quase em tempo real, uma ferramenta preciosa para tornar o Estado capaz de produzir políticas públicas mais rapidamente.

“O Cidacs contribui para disponibilizar informações e pesquisas, o que tem de melhor em evidências científicas, e entregar a quente para o gestor que tomará decisões”, celebrou.

Nesse sentido, os pesquisadores defendem que o Estado brasileiro acelere a integração de dados entre a plataforma e o SUS, a fim de refinar sua ação no contato diário e direto com a população.

“Lido com mais de mil movimentos sociais no Brasil e tenho certeza que a grande maioria não domina essas informações apresentadas aqui. Saúde mental, por exemplo, está na reivindicações de todos eles. E o PBF se conecta muito com a atenção primária. Este trabalho é fundamental para mostrar como ambos se conectam, a exemplo da saúde da mulher ou dos CAPS”, disse André Luís Bonifácio, servidor do Ministério da Saúde.

Membro da Rede de Mulheres Negras para Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional e pesquisadora do Cidacs, Débora Olímpio tem experiência direta com os setores mais vulneráveis da população, em especial mulheres, e não poupa palavras na defesa do programa e seu significado histórico.

“As pessoas não entendem os impactos reais do programa. Num país onde se vive racismo estrutural e institucional, determinados grupos querem que partes da população permaneçam em insegurança. O Bolsa Família é só um início de reparação social”, concluiu.

 

Fonte: Por Gabriel Brito, em Outra Saúde

 

Do social-desenvolvimento à reconstrução nacional: economia brasileira entre inclusão, austeridade e desenvolvimento

Quando os historiadores econômicos analisarem as primeiras décadas do século XXI no Brasil, dificilmente enxergarão uma trajetória linear. O que encontrarão será uma sucessão de projetos distintos de país, marcados por avanços, rupturas e disputas em torno do papel do Estado, do mercado e da própria ideia de desenvolvimento.

Entre 2003 e 2014, consolidou-se um ciclo de expansão econômica acompanhado por forte inclusão social. A partir de 2015, iniciou-se uma inflexão que culminaria em uma experiência prolongada de austeridade, desmonte das capacidades estatais e enfraquecimento dos instrumentos de planejamento público. Desde 2023, observa-se uma tentativa de reconstrução nacional em um contexto internacional muito diferente daquele que marcou os governos Lula e Dilma no início do século.

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Compreender essa trajetória é essencial para entender não apenas o passado recente, mas também os caminhos que se apresentam para o Brasil nas eleições de 2026.

<><> O ciclo do social-desenvolvimentismo

A chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República, em 2003, representou uma inflexão importante na trajetória econômica brasileira. A estabilidade monetária conquistada na década anterior foi preservada, mas passou a conviver com uma agenda voltada à expansão do emprego, da renda e da inclusão social.

Ao longo dos dois governos de Lula e do primeiro mandato de Dilma Rousseff, o país viveu um dos períodos de maior mobilidade social de sua história. O salário mínimo acumulou ganhos reais significativos. Milhões de brasileiros ingressaram no mercado de consumo. O desemprego atingiu níveis historicamente baixos. O Bolsa Família tornou-se referência internacional. O crédito expandiu-se, universidades federais foram criadas e ampliadas, e instituições como a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e o BNDES voltaram a desempenhar papel relevante no financiamento do investimento produtivo.

O crescimento econômico passou a ser impulsionado pela incorporação de amplas parcelas da população ao mercado interno. Em vez de concentrar seus benefícios em grupos restritos, o crescimento produziu efeitos distributivos que contribuíram para reduzir a pobreza e a desigualdade.

Muitos analistas classificaram essa experiência como uma forma de neodesenvolvimentismo. A definição, entretanto, permanece objeto de debate.

Para Luiz Carlos Bresser-Pereira, principal formulador do novo-desenvolvimentismo, o Brasil não chegou a implementar plenamente essa estratégia. Embora tenha havido ampliação das políticas sociais e fortalecimento da ação estatal, permaneceram problemas estruturais importantes, especialmente a manutenção de juros elevados e de uma taxa de câmbio frequentemente apreciada.

Por essa razão, talvez seja mais apropriado definir aquele período como uma experiência de social-desenvolvimentismo. Seu principal motor não foi uma estratégia de competitividade baseada no câmbio, mas a ampliação do emprego, da renda e do consumo popular.

Os resultados sociais foram expressivos. A pobreza caiu, a desigualdade diminuiu, o acesso ao ensino superior foi ampliado e o Brasil passou a exercer papel mais ativo nos BRICS, no G20 e em diversos organismos multilaterais.

Mas o modelo também revelou limitações importantes.

<><> O limite da financeirização

Apesar dos avanços obtidos entre 2003 e 2014, uma questão central permaneceu praticamente intocada: a estrutura financeira construída a partir dos anos 1990.

A estabilização monetária proporcionada pelo Plano Real foi uma conquista histórica. Entretanto, ela veio acompanhada de um regime macroeconômico baseado em elevadas taxas de juros, ampla liberdade para os fluxos de capitais e crescente influência do sistema financeiro sobre a formulação da política econômica.

Quando Lula assumiu a Presidência, esse arranjo já estava consolidado.

Embora os governos petistas tenham ampliado investimentos públicos, fortalecido políticas sociais e promovido significativa inclusão econômica, não conseguiram alterar estruturalmente o papel central desempenhado pelos juros na economia brasileira.

A tentativa mais importante ocorreu entre 2011 e 2013, durante o primeiro governo de Dilma Rousseff. O Banco Central promoveu uma redução expressiva da taxa Selic e o governo buscou ampliar o crédito produtivo e reduzir spreads bancários.

Pela primeira vez em décadas, discutia-se a possibilidade de o Brasil conviver com taxas de juros mais próximas dos padrões internacionais.

A experiência, porém, fracassou. A resistência dos setores financeiros, a desaceleração da economia mundial e dificuldades de coordenação econômica contribuíram para sua reversão.

O país retornou rapidamente ao padrão histórico de juros elevados.

Esse talvez tenha sido o principal limite do ciclo iniciado em 2003. Enquanto o Brasil avançava na inclusão social, permanecia submetido a uma estrutura econômica que continuava privilegiando a rentabilidade financeira em detrimento do investimento produtivo de longo prazo.

Em outras palavras, construiu-se um importante projeto de inclusão social sem que fosse possível romper integralmente com a lógica da financeirização.

<><> A inflexão de 2015

A partir de 2015, a economia brasileira entrou em uma fase distinta.

A desaceleração da economia mundial, a queda dos preços das commodities, os conflitos políticos internos e erros de condução econômica contribuíram para o esgotamento do ciclo anterior.

Nesse contexto, a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda do governo Dilma marcou uma mudança importante de orientação econômica.

A adoção de uma agenda de austeridade centrada no ajuste fiscal foi interpretada por amplos setores desenvolvimentistas como uma tentativa de responder às pressões dos mercados financeiros mediante cortes de gastos, contenção dos investimentos públicos e busca de superávits primários.

O resultado foi oposto ao esperado.

Longe de restaurar a confiança dos agentes econômicos, o ajuste aprofundou a desaceleração, enfraqueceu a base social do governo e agravou a crise política que culminaria no impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

Aquele momento marcou o início da ruptura com o ciclo social-desenvolvimentista.

<><> A restauração liberal

O governo Michel Temer transformou a austeridade em política de Estado.

A Emenda Constitucional nº 95, conhecida como Teto de Gastos, tornou-se o símbolo mais visível dessa mudança. Pela primeira vez na história brasileira, impunha-se um limite rígido à expansão das despesas públicas por um horizonte de vinte anos, independentemente do crescimento populacional, das necessidades sociais ou dos desafios do desenvolvimento.

A premissa era simples: reduzir o papel do Estado para estimular a confiança dos mercados.

Na prática, os resultados foram ruins. O investimento público recuou. Projetos de infraestrutura foram desacelerados. Universidades, instituições científicas e centros de pesquisa passaram a enfrentar restrições orçamentárias crescentes. A capacidade de planejamento estatal foi progressivamente enfraquecida.

O governo Jair Bolsonaro aprofundou essa orientação sob a liderança de Paulo Guedes. Privatizações, desregulamentação, flexibilização trabalhista e contenção fiscal tornaram-se os pilares centrais da política econômica. A prometida explosão de investimentos privados jamais ocorreu. A produtividade permaneceu estagnada. A indústria continuou perdendo participação na economia. O crescimento foi modesto e a reprimarização produtiva avançou. Ciência, tecnologia, inovação e planejamento estatal deixaram de ocupar posição estratégica.

A esse quadro somou-se a pandemia de Covid-19, que atingiu o Brasil de forma particularmente severa entre 2020 e 2022. Além da tragédia humana, com centenas de milhares de mortes, a crise sanitária aprofundou a recessão, ampliou o desemprego, pressionou as contas públicas e interrompeu cadeias produtivas em diversos setores. Embora a pandemia tenha afetado economias do mundo inteiro, no Brasil, seus impactos foram agravados pela condução errática da emergência sanitária, pelos conflitos entre diferentes níveis de governo e pela ausência de uma estratégia nacional articulada capaz de combinar proteção à saúde pública com recuperação econômica. Ao final daquele período, o país encontrava-se mais desigual, mais fragilizado institucionalmente e com menor capacidade de planejamento do que havia uma década antes.

A experiência revelou uma lição frequentemente ignorada pelos defensores do liberalismo econômico: mercados são mecanismos eficientes de coordenação, mas não substituem a ação estratégica do Estado nos processos de industrialização, inovação tecnológica e transformação estrutural. Muito menos na redistribuição da renda nacional.

Nenhum país hoje desenvolvido percorreu esse caminho sem planejamento público, financiamento de longo prazo e políticas nacionais de desenvolvimento.

<><> Reconstrução em um mundo transformado

Quando Lula retornou à Presidência, em 2023, encontrou um país marcado não apenas pelos efeitos da austeridade e do desmonte institucional dos anos anteriores, mas também pelas profundas cicatrizes econômicas e sociais deixadas pela pandemia.

A rivalidade entre Estados Unidos e China tornou-se o principal eixo da geopolítica mundial. A transição energética ganhou centralidade. A inteligência artificial começou a redefinir cadeias produtivas inteiras. A emergência climática passou a influenciar decisões de investimento, comércio e política industrial.

O desafio já não consistia apenas em reconstruir o que havia sido desmontado.

Era necessário preparar o Brasil para uma nova etapa do desenvolvimento.

Nesse contexto, surgiram iniciativas como a Nova Indústria Brasil, a retomada dos investimentos públicos, o fortalecimento das políticas sociais e a recuperação gradual das capacidades estatais.

Ao mesmo tempo, novos temas passaram a ocupar posição estratégica: a bioeconomia amazônica, a transição ecológica, a reindustrialização tecnológica, a soberania digital e a integração produtiva com os países do Sul Global.

<><> A reconstrução e os limites da austeridade

A volta de Lula à Presidência interrompeu o ciclo de desmonte institucional observado nos anos anteriores. Programas sociais foram retomados, investimentos públicos voltaram a crescer, políticas industriais reapareceram na agenda governamental e o Estado recuperou parte de sua capacidade de planejamento.

Entretanto, a reconstrução ocorreu sem uma ruptura mais profunda com o regime macroeconômico herdado das décadas anteriores.

A aprovação do novo arcabouço fiscal, sob a condução do ministro Fernando Haddad, substituiu o Teto de Gastos criado em 2016, mas preservou a preocupação central com a obtenção de resultados fiscais capazes de sinalizar compromisso permanente com a estabilidade das contas públicas. Embora mais flexível que o modelo anterior, o novo regime continuou subordinando parte importante da política econômica aos critérios de equilíbrio fiscal exigidos pelos mercados financeiros.

Ao mesmo tempo, o país permaneceu convivendo com algumas das mais elevadas taxas de juros reais do mundo. Durante boa parte do período recente, a taxa Selic manteve-se em níveis extremamente elevados, impondo custos significativos ao investimento produtivo, à expansão industrial e ao financiamento de longo prazo.

Essa realidade revela uma das grandes contradições da economia brasileira contemporânea. Enquanto o governo busca promover reindustrialização, transição ecológica, inovação tecnológica e ampliação da infraestrutura, o custo do capital continua funcionando como um poderoso freio ao investimento.

Não se trata apenas de um debate técnico sobre política monetária. Trata-se de uma disputa em torno do próprio modelo de desenvolvimento nacional. Juros persistentemente elevados favorecem a valorização dos ativos financeiros e a remuneração da riqueza já acumulada. Em contrapartida, dificultam a expansão da produção, reduzem a competitividade industrial e limitam a capacidade do Estado de financiar projetos estratégicos.

A experiência recente sugere que o Brasil avançou na reconstrução de políticas públicas, mas ainda não resolveu um dos problemas estruturais que atravessam sua história econômica: a predominância da lógica financeira sobre as necessidades do desenvolvimento produtivo.

Essa questão ajuda a explicar por que o crescimento tem sido mais modesto do que muitos esperavam. Também ajuda a compreender por que o debate sobre juros, investimento público e papel do Estado continuará ocupando posição central na disputa política e econômica dos próximos anos.

<><> O que está em disputa em 2026?

As eleições de 2026 transcendem a escolha entre candidatos, partidos ou coalizões políticas. O que estará em disputa é a própria interpretação da experiência brasileira das últimas duas décadas e, sobretudo, a definição de qual projeto de desenvolvimento deverá orientar o país nos próximos anos.

De um lado, encontra-se a visão segundo a qual o crescimento econômico depende fundamentalmente da contenção dos gastos públicos, da redução do papel do Estado e da ampliação dos espaços de atuação do mercado. Trata-se de uma perspectiva que ganhou força após 2015, orientou os governos Temer e Bolsonaro e continua influenciando parcelas importantes do debate econômico nacional.

De outro, está a compreensão de que países de grande dimensão territorial, populacional e econômica, como o Brasil, dificilmente conseguem superar o subdesenvolvimento sem planejamento estratégico, investimento público, política industrial, fortalecimento da ciência e da tecnologia, expansão da infraestrutura e coordenação estatal de longo prazo.

A experiência recente oferece elementos concretos para essa avaliação. O ciclo iniciado em 2003 demonstrou que crescimento econômico, geração de empregos e inclusão social podem caminhar simultaneamente. O período posterior mostrou que a simples retração do Estado não produz automaticamente investimentos, inovação, produtividade ou desenvolvimento sustentado.

Mas a questão de 2026 vai além do balanço do passado. O mundo atravessa uma transformação histórica marcada pela transição energética, pela revolução da inteligência artificial, pela reorganização das cadeias produtivas globais e pela crescente disputa tecnológica entre as grandes potências.

Nesse novo cenário, países que não investirem em conhecimento, inovação, infraestrutura e capacidade produtiva correm o risco de ocupar posições cada vez mais periféricas na economia mundial.

O desafio brasileiro já não consiste apenas em crescer. Consiste em decidir como crescer, em quais setores concentrar esforços e quem deverá se beneficiar dos frutos desse crescimento.

Trata-se, em última instância, de escolher entre um modelo baseado predominantemente na valorização financeira, na austeridade permanente e na remuneração do capital rentista, e outro orientado pela expansão da capacidade produtiva, pela inovação, pela soberania tecnológica e pela inclusão social.

A eleição de 2026 decidirá, portanto, muito mais do que a ocupação temporária do Palácio do Planalto. Ela ajudará a definir se o Brasil continuará buscando reconstruir suas capacidades produtivas, científicas e tecnológicas ou se retornará a uma estratégia que, nos últimos anos, produziu baixo crescimento, fragilidade industrial e aumento das desigualdades.

Em um mundo cada vez mais competitivo, tecnológico e marcado por disputas geoeconômicas de grande escala, essa escolha poderá influenciar não apenas o desempenho da próxima década, mas o lugar que o Brasil ocupará no século XXI.

 

Fonte: Por Maria Luiza Falcão, em Brasil 247

 

Como conquistar a Gen Z? As campanhas presidenciais testam suas armas

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) aparece em um vídeo de seu perfil no Instagram "rasgando" uma tela virtual com a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e, em um tom informal, disparou sua mensagem: "Sabe o que eles fazem com os jovens? Eles usam vocês!".

O perfil do movimento Juventude do PT, destinado à mobilização do público jovem, lança uma campanha nas redes sociais batizada de "Brota na urna".

Durante um evento em Ji-Paraná (RO), o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) dança um funk criado em sua homenagem.

Enquanto isso, Renan Santos (Missão) dispara anúncios nas redes sociais se apresentando como o pré-candidato do "partido da geração Z".

Seja nas redes sociais ou no mundo real, esses movimentos têm uma coisa em comum: a esquerda e a direita já deram início à disputa pelo eleitorado jovem, um público estimado em 18,7 milhões de pessoas entre 16 e 24 anos. São os eleitores da chamada geração Z, aqueles nascidos entre 1996 e 2012.

O motivo desse interesse é óbvio. Com todas as principais pesquisas de intenção de voto apontando que as eleições deste ano tendem a ser tão ou mais disputadas que as de 2022, o apoio dos jovens está entre os mais cobiçados.

Em jogo, está uma fatia responsável por 11,5% do eleitorado total, estimado em 156,4 milhões de eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Trata-se de um volume nada desprezível, considerando que as eleições presidenciais foram vencidas por Lula por uma diferença de apenas 2,1 milhões de votos.

Mas, na busca por esses votos, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que tanto a esquerda quanto a direita deverão enfrentar desafios.

À esquerda, o principal desafio, dizem, será reverter os baixos índices de aprovação do governo Lula junto a essa faixa etária e romper a resistência ao fato de o petista ter 80 anos de idade.

À direita, pesquisas e especialistas apontam que o desafio será reverter a preferência momentânea que o público jovem vem demonstrando em favor de Lula e diminuir a rejeição de parte do eleitorado geral em relação ao pai de Flávio, ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Os especialistas apontam ainda que ambos os lados enfrentaram pelo menos dois desafios adicionais: a aversão à polarização política e o tradicional descrédito do eleitorado jovem brasileiro em relação à importância do próprio voto, o que leva a uma taxa de abstenção maior que a média nacional.

<><> Apoio, desaprovação e mobilização

As principais pesquisas de intenção de voto divulgadas nos últimos meses apontam um cenário desafiador para o presidente Lula, que busca a reeleição.

Segundo pesquisa divulgada em maio pelo instituto Datafolha, entre eleitores de 16 a 24 anos, Lula venceria Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno com 35% dos votos, contra 28% do senador. No segundo turno, no entanto, Lula aparece com 47% a 41%. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Apesar de aparecer como favorito no segmento até 24 anos, segundo o Datafolha, uma outra pesquisa do instituto aponta um sinal de alerta para a equipe de campanha do presidente.

A pesquisa que avalia a aprovação do governo Lula também divulgada em maio mostra que os jovens estão entre os segmentos mais descontentes com a atual administração do petista.

No total, 50% dos entrevistados desse segmento desaprovam o governo, contra 45% que o aprovam. Aqui, a margem de erro também é de dois pontos percentuais.

Um dado ainda mais preocupante para o governo é que é neste segmento que Lula encontra o pior índice dos que consideram seu governo ótimo ou bom, 19%, quando a média nesse quesito foi de 32%.

A diretora do Datafolha, Luciana Chong, diz que a comparação com pesquisas anteriores mostra o tamanho do desafio de Lula junto aos jovens.

"Em março de 2023, Lula tinha 36% de avaliação ótima ou boa entre os jovens. Agora, ele tem 19%. Por outro lado, em 2023, ele tinha 17% de avaliação ruim ou péssima nesse segmento. Agora, ela subiu para 37%", diz Chong à BBC News Brasil.

Ela afirma que o Datafolha ainda não produziu dados qualitativos para entender, em detalhes, o que fez a avaliação de Lula cair tanto junto aos jovens.

Ela afirma, no entanto, que os entrevistados verbalizam um sentimento comum: "O que dá para perceber é que há um mau humor generalizado da população e uma grande desconfiança em relação às instituições".

Duas pesquisas divulgadas pelo Datafolha nos últimos meses apontam para este cenário.

Em uma delas, sobre quais são os principais problemas do país na avaliação dos entrevistados, os jovens apontaram que, para eles, o tema que mais os preocupa é a situação da economia. O resultado destoa da média dos entrevistados, que apontou a saúde como o principal problema.

"Os mais jovens parecem perceber essa piora da sensação econômica e relatam uma falta de perspectiva. Eles estão pessimistas em relação a tudo", afirma Chong.

Por outro lado, o fato de o cenário ser desafiador para Lula não significa, necessariamente, que a situação seja mais fácil para Flávio Bolsonaro ou para outros candidatos de direita.

A pesquisa mais recente de intenção de votos do Datafolha aponta que Lula venceria todos os adversários da direita no segundo turno neste segmento.

Além disso, Flávio Bolsonaro está empatado com Lula no quesito rejeição. Segundo o Datafolha, o senador e o petista têm uma rejeição de 46% no segmento do eleitorado mais jovem.

Além disso, segundo Luciana Chong e o pesquisador e presidente do Instituto Ideia, Maurício Moura, as pesquisas apontam que, também neste público, as mulheres demonstram mais apoio a Lula do que a Flávio Bolsonaro.

"A gente percebe que as mulheres mais jovens têm uma percepção mais positiva, especialmente por conta de políticas de proteção contra a violência doméstica e de programas como o Pé-de-Meia", diz Moura à BBC News Brasil.

A BBC News Brasil procurou Flávio Bolsonaro para comentar sobre esses dados, mas não obteve retorno.

<><> Nikolas: 'Antes, a gente só via mobilização do jovem por meio da esquerda'

Considerado um dos principais cabos eleitorais da direita, Nikolas Ferreira contou à BBC News Brasil qual foi estratégia por trás do vídeo em que pediu o engajamento dos eleitores jovens e que já acumulou 22,6 milhões de visualizações no Instagram. O número é quase igual ao total de seguidores do parlamentar, 22 milhões.

"Eu fiz o vídeo porque, antigamente, a gente só via a mobilização do jovem na política por meio da esquerda. Hoje, penso que o cenário se alterou e tem muita gente que ainda não sabe como tirar o título. Foi por isso que fiz o vídeo e não esperava a repercussão que teve", diz o parlamentar à BBC News Brasil.

O vídeo, no entanto, não se limita a orientar os jovens sobre como tirar o título. Boa parte da produção se dedica a criticar o atual governo e a dizer que a esquerda só se mobiliza em busca do voto jovem no período eleitoral.

À esquerda, a mobilização da Juventude do PT ainda parece longe de alcançar os mesmos números de Nikolas.

A campanha "Brota na urna", com vídeos e postagens em redes sociais orientando jovens a tirarem o título de eleitor, começou neste ano em meados de março e os vídeos com os maiores números de visualizações chegaram a ter entre 49 mil e 50 mil.

A presidente da Juventude do PT, Julia Köpf, diz à BBC News Brasil que uma das principais preocupações do movimento é com a taxa de abstenção do eleitorado brasileiro e, em especial, do eleitorado jovem.

"A gente tem atenção ao absenteísmo, que é presente na geração Z, mas também em outras faixas etárias. Nosso trabalho de militância é encantar as pessoas e mostrar que a política vale a pena", afirma.

A preocupação de Julia procede. Em 2022, a abstenção média no segundo turno das eleições foi de 20,5%, enquanto no público jovem, essa taxa foi de 21,5%.

Köpf diz ver os movimentos feitos pela direita em direção à geração Z como naturais em um cenário de disputa política.

"Da mesma forma que a gente tenta engajar esse público, a direita também vai tentar fazer isso. Faz parte da disputa pelos corações e mentes e vai fazer parte do restante deste ano", diz.

Luciana Chong diz que as pesquisas mostram que apostar nesse público pode render bons frutos aos candidatos presidenciais.

"Temos um grupo de 27% dos eleitores brasileiros que se identificam como não-alinhados. Eles não indicam que votarão em Lula ou em Flávio. E dentro desse segmento, quase um quarto é composto por eleitores jovens. Isso significa que há um espaço para crescer nessa faixa etária", diz.

<><> Renan Santos e a geração Z

Explorando o duelo entre Lula e Flávio Bolsonaro, o pré-candidato Renan Santos (Missão) vem se destacando, segundo algumas pesquisas de intenção de voto, justamente por seu desempenho nas pesquisas até agora junto a essa fatia do eleitorado.

No Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, que mostra as estimativas de intenções de voto para os pré-candidatos – uma "média" das pesquisas, mas que leva em conta pesos diferentes para cada levantamento –, Renan aparece com 3% dos votos, bem distante dos 31% de Flávio e de 40% de Lula.

Mas, segundo a pesquisa de intenção de voto mais recente divulgada pela AtlasIntel, de maio, Renan lidera entre o público jovem em todos os três cenários de primeiro turno.

No cenário em que Lula e Flávio Bolsonaro disputam o primeiro turno, Santos lidera o público entre 16 e 24 anos com 36,1% das intenções de voto, contra 28,2% de Lula e 24,5% do senador fluminense.

No cenário em que Flávio não aparece, sua liderança nesse segmento sobe para 41,5%.

Esta é a mesma pesquisa que foi suspensa pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) após um pedido da defesa de Flávio Bolsonaro sob suspeitas de o instituto ter manipulado questões para prejudicar o senador após ter vindo à tona seu áudio com o banqueiro preso Daniel Vorcaro. O instituto afirma que apenas exibiu o áudio ao final do que questionário e nega ter cometido irregularidades.

Segundo o Datafolha, Santos é o terceiro mais bem colocado entre os eleitores de 16 a 24 anos de idade, com 7% das intenções de voto, atrás de Flávio Bolsonaro (28%) e Lula (35%) e a frente dos demais candidatos, inclusive, de políticos com longa trajetória com o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), que aparece com 2%, e do ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), também com 2%.

Yuri Sanches, da Atlas/Intel, diz que a diferença nos dados sobre a preferência do eleitor jovem entre sua pesquisa e a do Datafolha é resultado da metodologia usada pela sua empresa, que utiliza formulários online e não os questionários aplicados por entrevistadores em pontos de fluxo, como o Datafolha.

Segundo Sanches, os formulários online deixariam os eleitores jovens mais à vontade para expressar suas preferências, especialmente quando elas se direcionam a um candidato ainda pouco conhecido ou marcado por posicionamentos considerados controversos como Renan Santos, que já defendeu o fim da presunção de inocência para pessoas suspeitas de pertencer a uma facção criminosa e a imposição de Estado de Defesa em áreas supostamente dominadas pelo crime organizado.

Aos 42 anos, Renan Santos é um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), no início dos anos 2010, ao lado do agora deputado federal Kim Kataguiri (Missão-SP). Após quase dez anos de militância à direita, Santos conseguiu fundar um partido, o Missão, em 2025.

No início deste ano, ele anunciou que disputaria a Presidência da República e, desde então, vem intensificando sua atuação nas redes sociais. Seu foco vem sendo se colocar como uma alternativa para o voto de direita em contraposição ao senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro.

Para isso, um dos seus principais trunfos tem sido ampliar sua popularidade junto ao público jovem, que, por algum tempo, mobilizou o MBL, especialmente durante o processo que levou ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016.

Dados da biblioteca de anúncios da empresa Meta, que controla o Facebook, Instagram e WhatsApp, mostram que, nos últimos 30 dias, o Missão publicou 513 anúncios. Uma análise de alguns deles mostra que boa parte dos anúncios atinge o público entre 16 e 24 anos de idade.

Em um desses anúncios, o apelo ao público jovem é claro.

"O nome desse partido é Missão. É o partido da geração Z. Se você não quer apenas ser aquela propaganda que aparece na TV [...] aqui é a tua casa. Aqui você não é apenas o foco. Você manda", diz Santos em um vídeo de aproximadamente 48 segundos, que atingiu, majoritariamente, internautas homens e com idades entre 18 e 34 anos.

Para o chefe de análise política da Atlas/Intel, Yuri Sanches, Santos vem crescendo sua popularidade junto a esse público usando uma estratégia bem definida.

"Ele se coloca como crítico tanto de Lula quanto de Flávio Bolsonaro. Ele acena para um eleitor jovem que está cansado ou desinteressado na polarização e oferece uma alternativa pro eleitor que é contra Lula, mas não quer abraçar o bolsonarismo", diz Sanches à BBC News Brasil.

Sanches afirma que a tendência é de que Santos se torne mais conhecido junto a outros segmentos do eleitorado à medida em que a campanha avance, mas salienta que a aparente liderança junto aos eleitores jovens não é suficiente para alavancar sua pré-candidatura.

"Por mais que ele lidere nessa faixa, ele precisa aumentar seu alcance para outros segmentos. Como se trata de um eleitorado reduzido na comparação com o total, ser líder entre os jovens ainda não faz dele um candidato competitivo no geral".

<><> Impacto do caso Master

Uma das principais preocupações dos comandos de campanha à esquerda e à direita é com relação ao potencial eleitoral das revelações do caso do Banco Master. O banco era comandado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, que está preso sob suspeita de ter cometido fraudes bilionárias contra o sistema financeiro nacional.

A pesquisa de intenção de voto divulgada em 19 de maio pelo instituto Atlas/Intel mostra que o público de 16 a 24 anos de idade está particularmente mobilizado em torno do assunto.

No início de maio, o site The Intercept Brasil revelou um áudio em que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro para Vorcaro um dia antes de ele ser preso pela primeira vez pela Polícia Federal. Segundo o senador, o pedido era para financiar parte dos custos do filme Dark Horse, uma cinebiografia de seu pai.

Em seguida, Flávio admitiu ainda ter se encontrado pessoalmente com Vorcaro após ele ter sido solto, em novembro de 2025, quando já havia suspeitas sobre supostas transações ilegais praticadas pelo banqueiro.

A pesquisa Atlas/Intel, realizada após a divulgação dos vínculos entre Flávio e Vorcaro, mostrou que o impacto do caso junto ao público mais jovem foi forte.

Em abril, Flávio estava na frente de Lula nesse segmento, com 36,6% das intenções de voto, enquanto o petista tinha 28,5%. Em maio, Flávio perdeu 12,1 pontos percentuais, caindo para 24,5%, enquanto Lula ficou com 28,2%.

A pesquisa mostrou que quase a totalidade das intenções de voto nesse segmento migraram de Flávio para Renan Santos.

A pesquisa mostrou, também, que o segmento jovem é o que menos diz acreditar na versão dada por Flávio de que o pedido a Vorcaro era uma tentativa legítima de obter financiamento para o filme. Apenas 12,9% disseram crer no relato do parlamentar. A média foi de 33%.

A pesquisa, no entanto, também mostra um cenário preocupante para Lula.

Seu desempenho junto a essa faixa do eleitorado, segundo a Atlas/Intel, não subiu na mesma proporção da queda de seu principal adversário.

Segundo o levantamento de maio, os eleitores entre 16 e 24 anos são os que mais avaliam negativamente o governo Lula: 66,3% dizem que o governo do petista é ruim ou péssimo. O número é pouco menor que o registrado em abril, quando 69,4% avaliavam o governo Lula de forma negativa.

Apesar da queda no percentual da avaliação negativa, a avaliação positiva (ótimo e bom) também caiu. A queda foi de 17,2% para 12,7%. A diferença se refletiu no aumento de 13,5% para 21,2% no percentual de jovens que avaliam o governo como regular.

 

Fonte: BBC News Brasil