terça-feira, 30 de junho de 2026

Ricardo Almeida faz alerta e diz que América do Sul está sob pressão

A América do Sul vive um momento de pressão política e geopolítica, marcado pelo avanço da direita regional, por tensões eleitorais e pelo maior interesse dos Estados Unidos no continente, avaliou o analista político Ricardo Almeida nesta semana, durante entrevista ao programa Giro das Onze.

Em participação na TV 247, Almeida analisou o cenário regional a partir das eleições na Colômbia, das tensões na Bolívia, da posição estratégica do Brasil, e também falou sobre Cuba, país localizado na América Central e que sofre bloqueio econômico dos EUA. “Para entender o que está acontecendo na Colômbia, nós temos que entender o que acontece no mundo”, afirmou.

O analista disse que a pressão sobre a América do Sul aumentou em um contexto de disputas internacionais e de dificuldades enfrentadas pelos EUA, país presidido por Donald Trump (Partido Republicano), que representa a extrema direita estadunidense. “Eles se viraram para cá, para a América do Sul e América Central”, disse Almeida.

<><> Brasil no centro da disputa

O Brasil aparece como peça central nesse processo por sua dimensão econômica, seus recursos naturais e sua importância política regional, pontuou Almeida. “O Brasil é riquíssimo. O Brasil é o maior produtor de carne, de cereais, tem minérios a dar com pau. Quer dizer, é o País maravilhoso e eles estão precisando”, disse.

Conforme o analista, o Brasil precisa defender sua soberania e evitar relações desequilibradas. “Nós também temos interesse em vender petróleo, minérios, carne, laranja. Não estamos nos negando a negociar com os Estados Unidos, mas nós queremos uma negociação no mínimo equilibrada”, continuou.

O Brasil deve retornar ao grupo das dez maiores economias do mundo em 2026, afirmou o Fundo Monetário Internacional (FMI), com dados de 45 países compilados pela consultoria Austin Ratings. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve alcançar US$ 2,637 trilhões (10ª posição do ranking). Os EUA devem manter a liderança (US$ 32,399 trilhões), seguidos por China (US$ 20,863 trilhões), Alemanha (US$ 5,455 trilhões), Japão (US$ 4,381 trilhões) e Reino Unido (US$ 4,267 trilhões). Índia (US$ 4,158 trilhões) apareceu em sexto, seguida por França (US$ 3,597 trilhões), Itália (US$ 2,739 trilhões) e Rússia (US$ 2,655 trilhões).

<><> Colômbia e as eleições

Sobre a eleição na Colômbia, Almeida evitou tratar o resultado como encerrado. “Ainda não dou a Colômbia como derrotada”, disse, comparando o cenário o clima político colombiano a processos de polarização em outros países da região. “Vai depender muito da capacidade de resistência do povo colombiano”, seguiu, pontuando que a direita regional pode vencer eleições, mas não necessariamente consolidar projetos de governo. “Eles vencem alguns países, mas não conseguem implementar o que eles queriam”.

Na Colômbia, o candidato conservador Abelardo de la Espriella se declarou vencedor da eleição presidencial do dia 21. A eleição reforçou o avanço da direita na América Latina e ampliou a perda de força da chamada “onda rosa”, ciclo que levou lideranças progressistas a governos da região no começo dos anos 2020. 

Análise no Valor Econômico apontou que existe atualmente um ambiente regional favorável a forças conservadoras nas Américas - em países como Chile, Equador e Panamá, além de Argentina e Bolívia. A avalanche direitista também pode ocorrer no Peru, onde Keiko Fujimori, da direita conservadora, mantém pequena vantagem na apuração lenta e contestada do segundo turno presidencial realizado em 7 de junho.

<><> Bolívia como sinal de alerta

O analista também comentou a situação na Bolívia, onde destacou a mobilização popular contra o governo. Para ele, o caso boliviano pode antecipar tendências de conflito político na região. “Eu estou tentando criar um cenário futuro em que a América do Sul pode se espelhar na Bolívia de hoje”, afirmou.

Almeida disse que a mobilização boliviana está ligada ao custo de vida, à defesa de direitos e à soberania nacional. “Lá o povo está resistindo ao desmonte total dos direitos”, observou. “O povo boliviano tem uma consciência com os povos originários e todos os povos que lá é muito hegemônico, sentimento de defender a nação, de defender a soberania alimentar, energética e tudo mais”.

Em sua análise, Almeida defendeu que o momento exige organização política e leitura estratégica da conjuntura. “Não é o momento de ir para baixo da cama”, afirmou. Segundo o analista, a disputa regional não deve ser analisada apenas como avanço irreversível da direita, mas como parte de um enfrentamento em curso. “É um momento de tensão e de enfrentamento”, disse.

<><> Argentina 

O analista comentou sobre a situação da Argentina, país presidido pelo ultradireitista Javier Milei, aliado de Trump. “A situação tá complicada lá, tá complicada na Argentina, os argentinos estão atravessando pro lado brasileiro também, famílias inteiras”, acrescentou Almeida.

O governo Milei celebrou a queda da taxa de pobreza para 28%, menor índice dos últimos sete anos, apontou, no fim de março, o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec). Mas especialistas e centros de pesquisa questionam a estatística. Segundo reportagem publicada pela BBC em 18 de abril, pesquisadores de organismos públicos e consultorias privadas apontam divergências entre os números oficiais e outros indicadores como salários reais e das aposentadorias, que seguem diminuindo. 

A posse do ultradireitista foi em 10 de dezembro de 2023. Nos seis primeiros meses da nova gestão, a proporção de argentinos em situação de pobreza aumentou 11 pontos percentuais, alcançando quase 53% da população. O percentual foi o mais elevado em cerca de 20 anos, em patamar semelhante ao observado após a crise econômica de 2001.

Estudo da Pesquisa da Dívida Social Argentina, realizada pela Universidade Católica Argentina (UCA) apontou que aproximadamente dois em cada dez trabalhadores empregados vivem em situação de pobreza. Entre os trabalhadores informais, a proporção sobe para 26%. Outro levantamento divulgado em março pela Argendata-Fundar, mostrou que, entre os empregados formais, a pobreza chegou a 10% e, a 33% entre os trabalhadores informais (sem registro legal e sem contribuições ao sistema previdenciário).

<><> Cuba

Na TV 247, Almeida destacou a delicada situação de Cuba. Na avaliação feita por Almeida, o caso cubano deve ser observado dentro de uma lógica de negociação assimétrica. “Quando tu desafia uma potência que militarmente ela é muito maior do que a tua, tu tem que saber negociar. Cuba é simbólica”, afirmou, acrescentando que o tema não deve ser tratado como uma disputa voltada à destruição dos EUA, mas como uma busca por relações menos desiguais. “Não se trata de destruir os Estados Unidos, se trata de fazer com que a população dos Estados Unidos melhore de vida, mas sem nos explorar”.

Ricardo também destacou que países latino-americanos têm interesses comerciais com os EUA, mas defendeu que essas relações ocorram sem violação da soberania de países do continente. “Temos interesse de vender petróleo, vender minérios, vender carne, vender laranja. Não estamos nos negando a negociar com os Estados Unidos, mas queremos uma negociação equilibrada, onde não haja mais ameaças”, declarou.

O Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) identificou uma mudança inédita no perfil dos solicitantes de refúgio no Brasil. Em 2025, cidadãos cubanos passaram a liderar o número de pedidos, superando os venezuelanos pela primeira vez desde o início da série recente. “Eu não sei se eu morasse em Cuba hoje na situação cristão e eu fosse uma pessoa assim que desprendida da política, vou dizer, eu faria o mesmo, talvez”, opinou Almeida. 

Segundo o relatório Refúgio em Números 2026, divulgado nesta segunda-feira (22), o país recebeu 75.599 solicitações de refúgio ao longo do ano passado. Desse total, 41.919 foram apresentadas por cubanos, o equivalente a 55,4% de todos os requerimentos registrados. O contingente de cubanos que buscaram reconhecimento da condição de refugiado no Brasil cresceu 88,1% em um ano. Os venezuelanos ocuparam a segunda posição (21.233 pedidos, ou 28,1% das solicitações formalizadas em 2025. Na sequência aparecem cidadãos da Colômbia (1.432 requerimentos), seguidos por angolanos (1.253), marroquinos (888) e ganenses (792).

¨      Fiori: derrota dos EUA no Irã acelera mundo multipolar e torna eleição brasileira decisiva para o futuro da América do Sul

Em entrevista concedida à jornalista Eleonora de Lucena, do Tutaméia, o cientista político e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), José Luís Fiori faz uma das mais contundentes análises geopolíticas sobre os desdobramentos da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Para ele, o memorando de entendimento firmado entre Washington e Teerã representa uma derrota histórica da estratégia americana, expõe o fracasso militar israelense e acelera a transição para uma nova ordem internacional, na qual o centro do poder econômico e político continua se deslocando para a Ásia.

Ao longo da entrevista, Fiori sustenta que Donald Trump encerrou um conflito extremamente custoso sem alcançar os objetivos anunciados, avalia que Israel saiu ainda mais fragilizado do confronto, aponta o fortalecimento da China, da Rússia e do próprio Irã e afirma que as eleições presidenciais brasileiras deste ano serão um dos principais campos da disputa geopolítica mundial.

<><> Uma guerra sem vitória para Washington

Para Fiori, o memorando de entendimento representa aquilo que dirigentes israelenses classificaram como uma "rendição vergonhosa e humilhante" dos Estados Unidos. Em sua avaliação, essa caracterização é correta porque Washington iniciou uma guerra sem conseguir justificar plenamente suas razões nem alcançar os objetivos estratégicos que dizia perseguir.

Segundo ele, a promessa iraniana de não desenvolver armas nucleares já havia sido reiterada anteriormente por sucessivos governos de Teerã. Da mesma forma, a reabertura do Estreito de Ormuz apenas restaurou uma situação que havia sido alterada em consequência da própria ofensiva americana.

Na avaliação do professor, os Estados Unidos gastaram cerca de US$ 40 bilhões, destruíram infraestrutura militar e civil, eliminaram importantes lideranças iranianas e provocaram milhares de mortes para terminar praticamente no mesmo ponto em que estavam antes do conflito. Além disso, afirma que a guerra desorganizou os mercados globais de energia e alimentos e agravou a crise econômica enfrentada pela Europa desde o início do conflito na Ucrânia.

Para Fiori, tratou-se de uma guerra "completamente absurda", que terminou sem produzir ganhos estratégicos proporcionais aos custos humanos, econômicos e políticos envolvidos.

<><> Israel fracassa em sua estratégia histórica

Na visão do cientista político, Israel saiu ainda mais enfraquecido do conflito.

Ele lembra que Benjamin Netanyahu defendeu durante décadas um ataque conjunto entre Israel e Estados Unidos capaz de destruir definitivamente a estrutura militar, política e religiosa do Irã. Apesar da intensidade dos bombardeios e da eliminação de parte da alta cúpula iraniana, nenhum dos objetivos centrais teria sido alcançado.

O governo iraniano permaneceu de pé, o programa nuclear continuou existindo, a capacidade balística foi preservada e a população não rompeu com suas lideranças.

Mais do que isso, segundo Fiori, o Irã terminou a guerra ocupando uma posição estratégica superior à que possuía anteriormente ao assumir o controle militar e econômico do Estreito de Ormuz, elemento que considera decisivo para a derrota estratégica imposta aos Estados Unidos.

Outro ponto destacado pelo professor foi a vulnerabilidade demonstrada pelo sistema israelense de defesa aérea. Segundo ele, drones e novos mísseis iranianos conseguiram romper repetidamente o chamado Domo de Ferro, modificando profundamente os parâmetros militares da região.

<><> Conflito entre Irã e Israel continuará

Apesar do cessar-fogo, Fiori acredita que a rivalidade entre Irã e Israel permanecerá durante muitos anos.

Segundo ele, trata-se de um confronto muito mais profundo do que uma disputa convencional entre Estados nacionais. Há componentes religiosos, históricos e territoriais que impedem uma pacificação definitiva.

Por isso, mesmo que haja um período de relativa estabilidade diplomática, o professor considera que a tensão permanecerá latente e poderá voltar a explodir em novos confrontos.

<><> Trump pode recuar, mas não abandonará a estratégia imperial

Questionado sobre as razões que levaram Donald Trump a aceitar um acordo, Fiori admite que fatores econômicos e políticos podem ter pesado.

Ele observa que Trump costuma avançar agressivamente, mas também sabe reconhecer derrotas quando considera necessário, embora continue apresentando esses recuos como vitórias perante sua base política.

Entretanto, o professor faz uma distinção importante entre os reveses militares e a estratégia global dos Estados Unidos.

Segundo ele, derrotas como as do Vietnã, do Afeganistão e agora do Irã não significam o fim da capacidade imperial americana. Os Estados Unidos continuam sendo uma potência militar com capacidade de projetar força em escala global e deverão continuar intervindo onde julgarem necessário para defender seus interesses estratégicos.

Nesse contexto, Fiori acredita que Washington poderá intensificar sua atuação em outras frentes, citando explicitamente Cuba e as eleições brasileiras como alvos prioritários da política externa americana.

<><> China emerge como principal beneficiária

Uma das principais teses defendidas por Fiori é que a China foi a grande vencedora indireta da guerra.

Caso um dos objetivos americanos fosse enfraquecer Pequim por meio do conflito no Oriente Médio, afirma o professor, o resultado foi exatamente o oposto.

Segundo ele, os chineses participaram ativamente das negociações que levaram ao cessar-fogo e ampliaram seu prestígio diplomático justamente no momento em que Washington saía enfraquecido militarmente.

Fiori destaca ainda que Donald Trump acabou sendo obrigado a realizar uma visita diplomática à China logo após o acordo, movimento que considera simbólico da nova correlação internacional de forças.

<><> A ordem multipolar ganha velocidade

Para Fiori, ainda não existe um modelo claramente definido de mundo multipolar.

O que está ocorrendo, afirma, é um acelerado processo de fragmentação do antigo bloco ocidental.

Segundo sua análise, a União Europeia atravessa um período de enfraquecimento político, aumentam as divergências entre Europa e Estados Unidos e também surgem tensões inéditas entre Washington e Tel Aviv.

Ao mesmo tempo, o fechamento temporário do Estreito de Ormuz demonstrou que o centro do sistema internacional vem se deslocando progressivamente para a Ásia, especialmente para a China.

Na avaliação do professor, o atual processo de negociação entre Estados Unidos e Irã poderá ser lembrado como uma das primeiras grandes negociações da nova ordem multipolar que está emergindo no século XXI.

<><> Nova revolução militar

Fiori também identifica profundas transformações tecnológicas produzidas pela guerra.

A principal delas seria aquilo que chama de "dronificação" dos conflitos.

Segundo ele, drones relativamente baratos demonstraram enorme capacidade ofensiva e defensiva, alterando radicalmente os custos e a dinâmica das guerras contemporâneas.

Além disso, o professor considera que o uso estratégico do Estreito de Ormuz inaugurou uma nova forma de guerra econômica.

Na sua avaliação, outros pontos de estrangulamento do comércio internacional — como os estreitos de Málaca e Bab el-Mandeb e os canais de Suez e do Panamá — passam a adquirir importância estratégica ainda maior nos futuros conflitos globais.

<><> Irã emerge como potência regional

Na avaliação de Fiori, o mapa geopolítico do Oriente Médio foi profundamente alterado.

O Irã sobe de patamar como potência regional, enquanto Israel vê seu peso estratégico relativo diminuir, apesar de continuar sendo a única potência nuclear da região.

Ao mesmo tempo, os países árabes aliados dos Estados Unidos passam a questionar a eficácia da proteção militar americana, uma vez que, durante os momentos mais críticos da guerra, Washington concentrou seus esforços na defesa de suas próprias bases e tropas.

Mesmo assim, Fiori não acredita que os Estados Unidos abandonarão o Oriente Médio. Sua previsão é de que Washington continuará exercendo forte pressão política, econômica e militar sobre seus aliados e adversários na região.

<><> Europa e Ucrânia

Sobre a guerra na Ucrânia, Fiori avalia que o conflito está longe de terminar.

Segundo ele, a resistência ucraniana depende diretamente da União Europeia e da OTAN, que possuem interesse em prolongar a guerra para reconstruir sua capacidade industrial e militar.

Embora considere que a Rússia esteja próxima de consolidar sua posição no Donbass, o professor afirma que o verdadeiro objetivo estratégico de Moscou sempre foi modificar toda a arquitetura de segurança criada pelos Estados Unidos e pela Europa após o fim da União Soviética.

Nesse aspecto, avalia que Moscou já obteve importantes vitórias estratégicas ao conter a expansão da OTAN e aprofundar a crise política interna da União Europeia.

<><> Brasil será o principal campo de batalha político da América do Sul

Na parte final da entrevista, Fiori faz um alerta sobre as eleições presidenciais brasileiras.

Segundo ele, Donald Trump deverá atuar diretamente para influenciar o processo eleitoral brasileiro, com apoio de grandes grupos financeiros e tecnológicos ligados à extrema direita.

O cientista político afirma que, embora governos conservadores tenham conquistado espaço em vários países sul-americanos, nenhum deles possui relevância estratégica comparável à do Brasil.

Por isso, sustenta que o futuro geopolítico da América do Sul será decidido nas eleições brasileiras.

"De forma muito simples e direta: os países da América do Sul sem o Brasil não têm a menor relevância mundial, nem mesmo para Donald Trump. E, portanto, deste ponto de vista, a grande batalha sul-americana estará sendo travada mesmo é no Brasil, neste segundo semestre. Diria mais, o futuro do continente estará sendo decidido nestas próximas eleições presidenciais brasileiras", conclui José Luís Fiori.

 

Fonte: Brasil 247

 

Nenhum comentário: