terça-feira, 30 de junho de 2026

O Irã foi a seleção mais azarada da Copa do Mundo?

Tristeza é algo esperado em uma Copa do Mundo.

Por trás de cada momento de glória, há uma história de azar — uma nação lamentando sua sorte e injustiças que levaram à sua queda.

Ainda assim, poucas situações se comparam à crueldade que o Irã enfrentou nesta Copa.

Enfrentando desafios sem precedentes antes mesmo de a bola rolar, a equipe dirigida pelo técnico Amir Ghalenoei esteve muito perto da vaga no mata-mata — apenas para vê-la escapar no último momento... não uma, mas duas vezes.

Apesar de invicto na fase de grupos, o Irã perdeu a vaga na fase eliminatória por causa do saldo de gols.

Mas a história da sua eliminação foi ainda muito pior...

<><> Gol salvador do Irã nos acréscimos é anulado

Após empates contra Nova Zelândia e Bélgica, o Irã sabia que uma vitória sobre o Egito, em Seattle, garantiria a classificação para o mata-mata.

O Irã começou perdendo logo cedo, mas reagiu bem. E embora o atacante Mehdi Taremi tenha perdido um pênalti, Ramin Rezaeian empatou o jogo com um chute preciso, quase sem ângulo.

A partida seguiu empatada até os acréscimos do segundo tempo, quando o iraniano Shoja Khalilzadeh marcou um gol após uma confusão na área.

O gol foi muito comemorado, com Khalilzadeh tirando a camisa — pelo que recebeu cartão amarelo — e posando para uma foto com óculos escuros.

No entanto, a alegria logo virou angústia quando o gol foi anulado por impedimento. O impedimento foi no limite — com a ponta do pé de Khalilzadeh ligeiramente à frente do penúltimo defensor do Egito.

A partida terminou 1 a 1, o que significava que o Irã teria de esperar pelo desfecho de outros jogos para descobrir se avançaria, pela primeira vez, à fase mata-mata da Copa do Mundo.

<><> Gol aos 51 minutos do 2º tempo elimina o Irã

O Irã teve de esperar até os jogos finais da fase de grupos para descobrir seu destino.

Argélia contra Áustria era o confronto decisivo — e uma vitória de qualquer uma das equipes favoreceria o Irã.

Um jogo emocionante parecia destinado a terminar 2 a 2, eliminando o Irã, até que Riyad Mahrez arrancou em direção ao gol e colocou a Argélia na frente aos 48 minutos do segundo tempo.

Com apenas alguns instantes restantes, o Irã estava novamente muito perto da vaga.

Mas o drama não terminou ali. Em um último ataque, a Áustria conseguiu empatar com um cabeceio de Sasa Kalajdzic, a poucos segundos do fim.

Pela segunda vez em 24 horas, a alegria do Irã foi tirada no último momento.

O saldo de gols superior do Senegal garantiu aos africanos a última vaga entre os terceiros colocados. Já o Cabo Verde, que assim como o Irã havia empatado os três jogos da fase de grupos, avançou em segundo lugar no Grupo H.

<><> 'O país anfitrião nos tratou de forma muito injusta'

O fato de o Irã ter chegado tão perto da classificação já é notável por si só, considerando os obstáculos únicos que teve de superar.

O Irã disputou a Copa do Mundo em meio ao contexto do conflito do país com os EUA e Israel.

A base de treinamento da seleção para a Copa foi transferida do Arizona para Tijuana, no México, antes do início do torneio, e a equipe enfrentou restrições de viagem durante toda a competição.

O Irã só foi autorizado a entrar nos EUA no dia anterior aos seus dois primeiros jogos e teve de sair novamente no mesmo dia da partida, nos termos de seus vistos.

Posteriormente, Ghalenoei descreveu sua equipe como a "mais oprimida" do torneio.

Ele disse que o elenco foi "privado" de tempo de preparação e teve "menos da metade" da janela de treinos necessária, enquanto outras equipes desfrutaram de condições normais.

Essas restrições de viagem foram flexibilizadas para o jogo em Seattle, permitindo que a equipe chegasse dois dias antes, mas teve de retornar a Tijuana após a partida.

Após o jogo, Ghalenoei voltou a expressar sua frustração: "Aos meus jogadores e à equipe, quero dizer que estou orgulhoso deles".

"O que estes jovens, estes jogadores fizeram deveria ser registrado na história, porque o país anfitrião nos tratou de forma muito injusta."

"Apesar de todos esses problemas, conseguimos ter um bom desempenho e o mundo está orgulhoso dos iranianos e da nossa equipe."

"Apelo à Fifa: não deixem que anfitriões tratem jogadores e equipes da mesma forma nas próximas Copas do Mundo."

•        A trajetória do Irã rumo à Copa do Mundo

Quando o Irã se classificou para a Copa do Mundo em 25 de março de 2025, poucos poderiam imaginar os desafios que estavam por vir.

Mais de um ano depois, a participação do Irã se tornou uma das mais complexas do torneio. A seleção iraniana deve jogar em um país anfitrião — os Estados Unidos — cujos ataques militares conjuntos com Israel mataram o líder supremo do Irã e desencadearam um conflito que ainda está em curso.

Neste domingo (7/6), o Irã lançou ataques a mísseis contra o norte de Israel, após as Forças de Defesa israelenses atacarem o sul de Beirute, no Líbano. Depois dos ataques, o ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, afirmou em uma postagem nas redes sociais que Teerã "deve queimar".

Sob essa sombra de guerra, a seleção iraniana de futebol enfrentou inúmeros desafios, incluindo onde ficariam hospedados durante o torneio e se conseguiriam vistos para os EUA.

<><> A saga dos vistos

O Irã foi uma das primeiras seleções a se classificar para o torneio, e os vistos americanos para os jogadores só foram aprovados na sexta-feira (5/6).

No entanto, os vistos foram negados para vários membros da comissão técnica, incluindo o presidente da federação iraniana de futebol, Mehdi Taj.

O Departamento de Estado dos EUA informou à BBC que os vistos necessários para o Irã competir na Copa do Mundo, incluindo os dos jogadores e da equipe de apoio essencial, foram emitidos.

Contudo, acrescentou que não permitiria que a seleção iraniana "abusasse desse sistema para infiltrar terroristas nos Estados Unidos sob falsos pretextos".

O embaixador do Irã no México, Abolfazl Pasandideh, afirma que a seleção nacional foi notificada de que, de acordo com as condições de seus vistos, os jogadores devem entrar e sair do território americano no mesmo dia de suas partidas.

O Irã transferiu seu centro de treinamento para a Copa do Mundo dos Estados Unidos para Tijuana, no México, em meio à guerra e após a Fifa aprovar a mudança. A equipe havia planejado originalmente ficar baseada em Tucson, no Arizona.

Os três jogos da fase de grupos do Irã serão disputados nos Estados Unidos: contra a Nova Zelândia e a Bélgica, em Los Angeles, e contra o Egito, em Seattle.

<><> Mais de 40 anos de tensão

As relações entre Irã e EUA têm sido hostis por mais de quatro décadas. Desde a tomada da embaixada americana em Teerã e a crise dos reféns que se seguiu em 1979, os dois países não mantêm relações diplomáticas formais.

O futebol tem sido, muitas vezes, uma das poucas oportunidades para um contato direto entre os dois países.

O encontro mais famoso ocorreu na Copa do Mundo de 1998, na França, quando o Irã derrotou os Estados Unidos por 2 a 1 em uma partida carregada de enorme simbolismo político. Apelidada por alguns de "Mãe de Todos os Jogos" devido ao contexto político, a partida atraiu atenção global e se tornou um dos jogos mais memoráveis da história da Copa do Mundo.

Antes do início da partida, os jogadores iranianos presentearam seus colegas americanos com rosas brancas como um gesto de paz, em um momento amplamente visto como transcendente à política.

As duas equipes se encontraram novamente na Copa do Mundo de 2022, no Catar, onde os Estados Unidos venceram por 1 a 0 e avançaram para a fase eliminatória.

A possibilidade de um encontro entre Irã e EUA ainda durante o torneio de 2026 também aumenta o interesse. Com o formato expandido da Copa do Mundo, as duas seleções poderiam se enfrentar na fase eliminatória. Tal partida teria um significado muito além do futebol, dada a guerra entre os dois países.

<><> Futebol unia o Irã — agora, não mais

Em meio aos problemas logísticos, a relação entre a seleção nacional de futebol e setores da população iraniana parece mais complexa do que em torneios anteriores.

A seleção nacional tem sido tradicionalmente uma das poucas instituições capazes de gerar apoio que transcende as divisões políticas e sociais. Durante as Copas do Mundo de 2014 e 2018, a equipe atraiu amplo apoio de torcedores de todo o espectro político.

Isso mudou antes da Copa do Mundo de 2022 no Catar, que ocorreu em meio a protestos em todo o país após a morte sob custódia policial da jovem Mahsa Amini e a repressão das autoridades contra os manifestantes.

A equipe se viu no centro de um debate político, com alguns iranianos esperando que os jogadores demonstrassem solidariedade aos manifestantes e outros insistindo que o futebol deveria permanecer separado da política.

A Copa do Mundo de 2026 acontece apenas seis meses após uma grande repressão a protestos anti-regime no Irã, durante a qual grupos de direitos humanos afirmam que milhares de pessoas foram mortas.

Alguns torcedores continuam a ver a equipe como um símbolo de orgulho nacional, independentemente da política. Outros têm se tornado cada vez mais críticos, argumentando que a equipe está muito associada às instituições estatais e não deve ser vista separadamente do establishment político do país.

Isso não significa que o apoio à seleção Iraniana tenha desaparecido. O futebol continua sendo, de longe, o esporte mais popular do Irã e milhões de pessoas devem acompanhar o desempenho da equipe na América do Norte.

Mas, enquanto o Irã se prepara para mais uma Copa do Mundo, o nível de consenso nacional que antes acompanhava os grandes torneios parece menos certo do que no passado.

Em campo, o Irã espera alcançar algo que nunca conseguiu antes.

Apesar de ter se classificado para sete Copas do Mundo, nunca passou da fase de grupos. O formato expandido com 48 equipes oferece novas oportunidades, e o Irã acredita que chegar às oitavas de final é um objetivo alcançável.

Se o futebol continuará sendo o assunto principal é outra questão.

As Copas do Mundo muitas vezes refletiram as realidades políticas de sua época. No entanto, é difícil lembrar de outra seleção que tenha chegado a um torneio sob uma combinação tão grande de isolamento diplomático, tensões militares, incerteza quanto aos vistos e divisão política entre setores de sua própria torcida.

 

Fonte: BBC Sport

 

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