Falta
de consenso interno faz Mercosul priorizar acordos extrarregionais, apontam
analistas
Em
entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmam que o interesse do Mercosul
por acordos com países de outras regiões sinaliza mais a falta de estratégia
coletiva do bloco do que uma busca por inserção internacional.
Seis
meses após oficializar a assinatura do acordo com a União
Europeia (UE), encerrando duas décadas de negociações, o Mercosul mira outros
mercados. No radar estão possíveis acordos de livre comércio com os
Emirados Árabes Unidos e países do continente asiático, entre eles China, Japão
e Coreia do Sul.
Líderes
do bloco se preparam para a cúpula no Paraguai, prevista para os dias 29 e
30, em Assunção, e a expectativa é o anúncio de novas tratativas
comerciais com parceiros extrarregionais.
À Sputnik
Brasil, Corival Alves do Carmo, professor do Departamento de Relações
Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (UFS), afirma que a busca por
parcerias extrarregionais é um reflexo da falta de entendimento entre os
membros do Mercosul. Como não há consenso sobre como avançar na integração
sul-americana, acaba sendo mais fácil fazer acordos com parceiros de outras
regiões.
Segundo
Carmo, 35 anos após sua fundação, o Mercosul ainda não avançou nem como
mercado comum, nem como união aduaneira ou área de livre comércio.
"De
fato, até retrocedeu em alguns momentos em que os membros optaram por
sacrificar a integração em função de objetivos internos. Como os países-membros
querem não apenas expandir as exportações, mas principalmente obter superávit
comercial, as parcerias extrarregionais tornam-se mais atrativas", explica
o especialista.
A falta
de consenso também é um entrave para que países que hoje são membros associados
do Mercosul ingressem como membros plenos do bloco. Carmo cita, em especial, o
caso de Chile e Peru, que são membros associados e têm uma política de
comércio exterior muito mais liberal que a do Mercosul; e destaca também o
Equador.
"Os
três países possuem acordo de livre comércio com a China. Chile e Peru têm
acordo de livre comércio também com os EUA. Para ingressarem como membros plenos do
Mercosul, o
bloco teria de adotar uma política de comércio exterior bem mais liberal do que
a adotada até agora; ou Chile, Peru e Equador teriam de ajustar as suas
políticas às do Mercosul."
Carmo
pondera que a adesão de novos países sul-americanos ao Mercosul, em tese,
beneficiaria o bloco, mas sublinha que nas condições atuais geraria um
desequilíbrio prejudicial ao Brasil, pois predominaria uma agenda mais liberal
do que a desejada pelo país.
"Por
outro lado, o Brasil está avançando na
integração com
uma estratégia de longo prazo, com a construção dos corredores bioceânicos, que
pode ser um caminho mais efetivo para promover a integração com o Chile e o
Peru, e, ao mesmo tempo, facilitar o acesso ao mercado chinês para a produção
brasileira."
Na
visão do especialista, o interesse do Mercosul por acordos extrarregionais
sinaliza mais a falta de estratégia coletiva do bloco do que uma busca por
inserção internacional. Ele observa que os acordos firmados são ad hoc,
circunstanciais, e destaca que o pacto com a UE foi atrasado por décadas por
conta de vetos e, no final, acabou sendo assinado em função do tarifaço dos
EUA, com termos que anteriormente eram motivos para negativas.
"Cada
novo acordo vai enfrentar as mesmas dificuldades, porque cada governo do
Mercosul tem interesses distintos, e apenas as circunstâncias conjunturais vão
definir o avanço ou não dos acordos extrarregionais."
Rodrigo
Lyra, professor adjunto de relações internacionais da Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE), não considera que o Mercosul está mirando mais em parcerias
externas. Ao contrário, ele afirma que, quando o Mercosul negocia com UE,
Cingapura ou Emirados Árabes Unidos, está fazendo isso em bloco, ou seja, é a
própria integração regional funcionando.
Segundo
ele, o que de fato está travado há anos é o aprofundamento interno do bloco
— eliminar barreiras entre os próprios sócios, convergir regulações,
tratar assimetrias.
"E
isso patina mais por razões políticas. Agora, a virada para fora também tem uma
lógica clara. O mundo ficou mais protecionista, as tarifas viraram arma
geopolítica, as cadeias produtivas estão se fragmentando. Então tudo isso se lê
como tentativa de não ficar refém de ninguém, diminuir vulnerabilidade",
argumenta o especialista.
Lyra
acrescenta que virar membro pleno do Mercosul significa adotar a Tarifa Externa
Comum do bloco e abrir mão de fechar acordos comerciais por conta própria,
e é exatamente essa perda de autonomia que trava a adesão de novos
membros.
"O
Chile, por exemplo, construiu toda sua estratégia comercial em cima de uma rede
enorme de acordos bilaterais próprios. Entrar no Mercosul como membro pleno
seria basicamente desmontar isso. Peru segue a mesma lógica. Os dois preferem
ficar como associados, que já dá acesso comercial preferencial sem o custo de
abrir mão da autonomia."
Ele
afirma que mais membros plenos significaria um mercado maior, e mais peso e voz
nas negociações, o que poderia fortalecer o bloco. Por outro lado, o Mercosul
decide por consenso, e cada novo membro pleno torna esse consenso mais
difícil de alcançar.
"A
heterogeneidade política já trava o bloco hoje. Ampliar sem antes resolver isso
pode aprofundar a paralisia", resume.
¨
Comércio será o foco da Cúpula de Assunção e Mercosul
prepara nova rodada de acordos
O
Itamaraty detalha a estratégia brasileira para a cúpula no Paraguai e prevê a
ampliação da rede de acordos do bloco.
O
comércio será o principal tema da Cúpula de Assunção do Mercosul, marcada para
a próxima semana. Durante briefing realizado nesta sexta-feira (26), no Palácio
Itamaraty, representantes do Ministério das Relações Exteriores detalharam a
agenda do encontro, que também celebrará os 35 anos do bloco e deverá
reunir chefes de Estado, ministros e autoridades de países parceiros.
A
embaixadora Gisele Pinheiro, secretária de América Latina e Caribe do
Itamaraty, destacou que o Mercosul "é sobretudo um acordo comercial e
existe um enorme potencial". Segundo ela, "além do volume do
comércio, a qualidade do comércio do Mercosul é notável".
Além da
agenda econômica, a reunião tratará do reconhecimento da nova carteira de
identidade entre os países do bloco, do protocolo de reconhecimento mútuo de
assinaturas digitais e dos serviços realizados pelo Gov.br. Também estarão na
pauta a criação de um grupo de trabalho de enfrentamento ao
crime transnacional, a
proposta brasileira de um pacto regional contra o feminicídio e o anúncio do
aumento da contribuição do Brasil ao Fundo para a Convergência Estrutural do
Mercosul (Focem).
Entre
os projetos que receberão apoio do fundo estão "Indígena Cidadão,
Fronteira Cidadã", "Cidade Bem Cuidada", em Bela Vista
(MS), e o Parque Tecnológico da Universidade Federal do Pampa (Unipampa),
em Sant’Ana do Livramento (RS).
Na área
comercial, o Brasil pretende buscar avanços específicos. "Buscaremos
pequenos avanços no setor açucareiro, na proposta de um acordo automotivo, como
também na eliminação de medidas que afetam o comércio intraMercosul",
afirmou a embaixadora.
A
estratégia brasileira também prevê a ampliação da rede de acordos do
bloco. Segundo Gisele Pinheiro, "iremos lançar negociações para um acordo
comercial do Mercosul com o Panamá". Ela acrescentou: "Estamos
trabalhando também em um acordo com a República Dominicana. Estamos nos
aproximando da Guiana e do Suriname. Estamos avançando em acordos com Trinidad,
Tobago e Chile. Estamos modernizando os acordos com a Colômbia na atualização
da nomenclaturas. Estamos trabalhando com o Peru também na atualização das
nomenclaturas e dos certificados digitais."
Outro
ato previsto para a cúpula será a assinatura de um acordo com o Paraguai
sobre o transporte de cargas menores. A diplomata informou ainda que a
participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá se concentrar na
reunião principal.
"A
presença do presidente é muito limitada. É uma reunião muito pequena e
certamente haverá contatos bilaterais."
Sobre a Venezuela, Gisele Pinheiro
afirmou que o tema não será discutido durante a cúpula. "Não há discussão
sobre reincorporar a Venezuela, suspensa do Mercosul. Não é um processo fácil
nem rápido. A Venezuela foi suspensa por descumprir o calendário para regularizar
extensas normativas. A Venezuela não cumpriu esse prazo e foi suspensa por uma
questão técnica. Posteriormente, ela foi suspensa novamente por conta do
Protocolo de Ushuaia. Não está em discussão." A secretária reforçou
que "não estava na agenda discutir a reintegração da Venezuela ao
Mercosul".
Ela
também informou que o governo brasileiro enviou um avião KC-390,
bombeiros, equipes da Defesa Civil, especialistas da Anatel e nove toneladas de
equipamentos de socorro para atender à situação de emergência em país
vizinho. Segundo a embaixadora, um novo voo será enviado, desta vez
voltado às operações de resgate e à instalação de um hospital de campanha.
Questionada
a respeito da ausência de um posicionamento oficial do Itamaraty sobre a
eleição presidencial no Peru, a secretária afirmou: "Com muita
cautela, estamos esperando os resultados finais para nos
pronunciarmos".
O
secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, embaixador Philip
Fox-Drummond Gough, afirmou que o Mercosul vive "uma época bastante rica e
intensa de negociações externas". Segundo ele, "as frentes mais
avançadas são com o Canadá e os Emirados Árabes Unidos". A expectativa é
de que "nos próximos meses" seja anunciado o acordo
entre Mercosul e Canadá e que também haja a conclusão das negociações
com os Emirados Árabes Unidos.
O
embaixador informou que haverá nova rodada de negociações com o Vietnã em
agosto e que o lançamento das negociações para um acordo comercial com o Japão
deverá ser formalizado durante a cúpula.
Segundo
ele, o Mercosul também trabalha para aprofundar o acordo comercial firmado com
a Índia em 2004, retomar as tratativas com a Coreia do Sul — interrompidas em
2021 — e reiniciar negociações com o Reino Unido "em novas bases". Em
relação à Guiana, país da Comunidade do Caribe (Caricom), ele afirmou que
"encontramos um terreno muito favorável para uma negociação maior".
Ao
resumir o cenário das negociações internacionais do bloco, Philip
Fox-Drummond Gough destacou que "há uma diversificação geográfica das
frentes". Sobre o tema da carne nas negociações com a União Europeia,
observou que o assunto foi debatido durante a última reunião do G7, mas
ressaltou que "isso não é Mercosul necessariamente".
A
Cúpula de Assunção reunirá cinco presidentes dos países do Mercosul, além
de representantes de países associados e parceiros internacionais. O encontro
marca os 35 anos do bloco e deverá consolidar uma nova etapa da estratégia
de ampliação da integração econômica e da abertura de mercados, tendo o
comércio como eixo central das discussões. Confirmaram a presença, além do
presidente anfitrião, Santiago Peña, do Paraguai: Luiz Inácio Lula da Silva
(Brasil), Javier Milei (Argentina), Yamandú Orsi (Uruguai), Rodrigo Paz
(Bolívia), José Antonio Kast (Chile) e Daniel Noboa (Equador).
O
Mercosul foi fundado em 1991 por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai por meio
do Tratado de Assunção, estrutura que posteriormente se expandiu com a adesão
da Venezuela em 2006 — atualmente suspensa de seus direitos e obrigações com
base no Protocolo de Ushuaia — e com o protocolo de ingresso da Bolívia, que se
encontra em fase final de incorporação legislativa pelos parlamentos dos
integrantes do bloco. Além dos Estados Partes, a organização regional conta com
uma ampla rede de Estados Associados na América Latina, composta por Chile,
Colômbia, Equador, Guiana, Panamá, Peru e Suriname.
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Bolívia abandona câmbio fixo e passa a adotar dólar com cotação de mercado
O
governo da Bolívia determinou que a cotação do dólar americano passará a ser
definida de acordo com a oferta e a demanda diárias no sistema financeiro.
O Banco
Central publicou em seu site oficial a nova taxa de câmbio oficial de 9,73
bolivianos por dólar, que entrará em vigor a partir de segunda-feira (29).
A desvalorização efetiva da moeda foi de cerca de 30%, com a cotação oficial passando de
6,86 bolivianos por dólar (compra) para 9,73 bolivianos, aproximando-se do
valor praticado no mercado.
Segundo
o Ministério da Economia, a medida tem como objetivo "fortalecer a
estabilidade macroeconômica, preservar a competitividade externa e contribuir
para o equilíbrio da balança de pagamentos".
A
Bolívia mantinha um regime de câmbio fixo desde novembro
de 2011, quando o Banco Central estabeleceu a cotação oficial do dólar
em 6,86 bolivianos para compra e 6,96 bolivianos para venda. No
entanto, no mercado paralelo, a moeda americana era negociada entre nove e
dez bolivianos.
"A
transição para o novo regime cambial será executada pelo Banco Central, no
exercício das atribuições e competências conferidas pela Lei nº 1670, de 31 de
outubro de 1995, tendo como base o reconhecimento da oferta e da demanda diária
de divisas no sistema financeiro", informou o Ministério da Economia.
Segundo
o governo, a medida busca enfrentar a grave escassez de dólares no país, que nos últimos
anos teve queda das reservas internacionais e aumentou o mercado paralelo.
Fonte:
Sputnik Brasil

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