sábado, 27 de junho de 2026

Luís Nassif: Michelle, a Evita brasileira de um Perón eunuco

Ex-mulher de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, a desbocada Maria Christina Mendes Caldeira, com a perspicácia das mulheres, definiu: Michelle é a mais esperta e inteligente de todo o grupo de Bolsonaro. E falava na condição da ex-esposa injuriada, que acusava Valdemar de ter montado um bordel no seu gabinete.

Há tempos Michelle vem se preparando para uma atuação política ativa. Ouso dizer que será a próxima liderança hegemônica da direita.

Até agora, montou duas bases sólidas de apoio. A primeira, entre as mulheres bolsonaristas, especialmente as evangélicas. Quando começou a investir na sua carreira, chegou a balbuciar línguas estranhas em vídeos, para celebrar a indicação de seu amigo André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal.

Não fez carreira de atriz, fez de assessora parlamentar. Mas a comparação com Evita é inevitável.

María Eva Duarte de Perón — Evita — nasceu em 7 de maio de 1919, em Los Toldos, no interior da província de Buenos Aires, filha não reconhecida de Juan Duarte, fazendeiro local, e de Juana Ibarguren. Cresceu em ambiente pobre e marcado pelo estigma da ilegitimidade. Por volta dos 15 anos mudou-se para a capital em busca de carreira artística e, ao longo dos anos 1930 e início dos 1940, firmou-se como atriz de rádio, teatro e cinema, chegando a uma posição de relativa notoriedade no radioteatro.

O ponto de inflexão veio em janeiro de 1944, quando conheceu o coronel Juan Domingo Perón num evento beneficente em favor das vítimas do terremoto de San Juan. A parceria política e afetiva consolidou-se rapidamente. Em outubro de 1945, após a mobilização operária de 17 de outubro que libertou Perón da prisão — episódio fundador do peronismo e de sua base, os descamisados —, os dois se casaram. Com a eleição de Perón à presidência em 1946, Eva tornou-se uma primeira-dama de poder político incomum.

Michelle de Paula Firmo Reinaldo, conhecida como Michelle Bolsonaro (Ceilândia, Distrito Federal, 22 de março de 1982), nascida no Hospital Regional de Ceilândia, região administrativa do Distrito Federal, filha de Vicente de Paulo Reinaldo, motorista de ônibus aposentado, e de Maria das Graças Firmo.

Foi criada em um ambiente tóxico. A avó Maria Aparecida Firmo Ferreira foi condenada por tráfico de drogas. O tio materno, João Batista Firmo Ferreira foi preso em maio de 2019, em uma operação contra uma milícia acusada de grilagem.

A mãe, Maria das Graças Firmo Ferreira, enfrentou processo de falsidade ideológica e por agressão a um locatário por atraso de aluguel. Um segundo tio materno foi condenado a mais de 14 anos de prisão por estupro, em denúncia feita por duas sobrinhas.

Michelle cresceu assum, em ambiente de baixa renda, estudou em escola pública e, antes da política, trabalhou como promotora de eventos, modelo e demonstradora de produtos em supermercado. Formou-se intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras). Essa formação tornou-se base da agenda social que marcaria sua atuação como primeira-dama, voltada a pessoas com deficiência, autismo e doenças raras.

Depois, entrou para o mundo das assessoras parlamentares. Começou pelo gabinete do deputado Vanderlei Assis (PP-SP) — eleito na esteira da legenda de Enéas Carneiro e cujo mandato foi alvo de recomendação de cassação pela CPI do chamado Escândalo dos Sanguessugas, em agosto de 2006.

Em seguida, passou ao gabinete do deputado Marco Aurélio Ubiali (PSB-SP). Em junho de 2007, foi nomeada para uma vaga na liderança do Partido Progressista (PP), onde permaneceu até setembro daquele ano. Foi nesse trânsito pela liderança que teve o primeiro contato com Bolsonaro, então deputado federal pela mesma legenda.

Casou-se e entrou para uma família intrinsicamente misógina. Ou seja, uma sobrevivente.

<><> Carreira política

O ponto de partida é que o ingresso de Michelle na política não foi um ato único, mas a conversão progressiva de um capital simbólico (primeira-dama) em capital organizacional (dirigente partidária). Quatro medidas, na ordem em que se encadearam, foram as decisivas.

1.       A conversão da primeira-dama em ativo de campanha (2022).

Diante da alta rejeição de Bolsonaro entre as mulheres, ela foi deliberadamente deslocada para o centro da campanha de reeleição. Ascendeu como “grande trunfo da extrema direita frente à alta rejeição do eleitorado feminino a Bolsonaro”, reforçando a imagem da “ajudadora do esposo”, da mulher que ora pelo marido.

>>> 2. O veículo institucional: a presidência do PL Mulher (2022–2023).

Esta é a medida mais concreta, e não foi simbólica: deu a ela uma estrutura partidária real para comandar. Convidada em novembro de 2022, aceitou assumir o posto a partir de janeiro de 2023, no mesmo movimento em que Bolsonaro virava presidente de honra do PL. Valdemar Costa Neto a escolheu justamente para viajar pelo Brasil e atrair novas filiações. Foi a passagem de “esposa do líder” a quadro com mandato interno e missão definida.

>>> 3. A máquina de recrutamento: o “Projeto Mulher que Faz Acontecer”.

De posse da estrutura, ela montou um programa de identificação, mentoria e filiação de candidatas, com foco nas municipais de 2024. Em eventos reservados a lideranças, prometia “mentoria” e acompanhamento das candidatas “no antes, durante e no depois”, assinando fichas de filiação no próprio palco. Foi responsável por um crescimento de 930% no número de mulheres filiadas ao partido em 2024 e pela eleição recorde de 995 mandatárias municipais.

>>> 4. O circuito religioso-mobilizador como base autônoma.

A quarta medida é a que lhe deu alcance próprio, independente do mandato: a transformação de palestras, livros e reuniões de fé em plataforma política. A pesquisadora Christina Vital, da UFF, descreve estratégias que vão de produção de livros e palestras motivacionais a reuniões religiosas com debate político, com a habilidade de falar de política de modo pragmático, ligando-a à melhoria da vida cotidiana das mulheres. Após a inelegibilidade de Bolsonaro, ela se firmou como porta-voz da narrativa de perseguição: nos atos pró-anistia, faz orações e falas emocionadas, como a do 7 de outubro em Brasília, em que afirmou estar lutando “contra principados e potestades”.

Com a provável derrota de Flávio Bolsonaro, Michelle tem o caminho aberto para assumir a liderança da ultradireita.

A única diferença com a dupla Perón-Evita é a diferença de dimensão entre Perón e Jair. O clima político em ambos os momentos é similar. Só que Perón transformou o momento em um populismo consistente, enquanto Bolsonaro não entendeu, e provavelmente jamais entenderá, os fundamentos de um projeto político perpetuáveis.

Ou seja, Perón é tango e o Brasil de Bolsonaro é samba de breque de Morengueira da Silva.

•        Crise entre Michelle e filhos de Jair Bolsonaro: veja cronologia do conflito com Flávio, Carlos e Eduardo

As divergências entre Michelle Bolsonaro (PL) e os filhos mais velhos do ex-presidente Jair Bolsonaro deixaram de acontecer nos bastidores e passaram a aparecer em episódios públicos ao longo dos últimos meses, especialmente em vídeos na última quarta-feira (24). O pano de fundo são os conflitos, concordâncias e discordâncias em palanques estaduais.

O primeiro foco da crise foi a disputa no Ceará: Michelle rompeu com a estratégia defendida por parte do PL, criticou a aliança com Ciro Gomes (PSDB) durante evento em Fortaleza (CE). O tema é abordado nos vídeos de quarta-feira.

>>>> Veja, abaixo, a linha do tempo dos ataques entre Michelle e os Bolsonaro:

<><> Michelle x Flávio

Conflito entre ex-primeira-dama e senador tiveram início durante evento no Ceará e culminaram nos vídeos publicados na última quarta-feira. Veja abaixo:

•        30/11/2025: Michelle critica aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará, estado em que ela defende a candidatura de Eduardo Girão (NOVO) ao governo;

•        01/12/2025: No dia seguinte, Flávio Bolsonaro chama a madrasta de "autoritária";

•        24/12/2025: Michelle publica um vídeo com mensagem sobre perseverar diante de "traições", interpretada como um recado interno;

•        25/12/2025: Jair Bolsonaro confirma a escolha de Flávio como pré-candidato da família à Presidência da República;

•        17/01/2026: Apesar da sequência de atritos, em 17 de janeiro de 2026, o senador faz um aceno, ao defender a união da direita. Ele afirmou que a madrasta tinha um "papel importantíssimo" no campo conservador;

<><> Michelle x Carlos

O segundo conflito aconteceu com Carlos Bolsonaro por conta dos palanques da direita em Santa Catarina. Enquanto o PL lançou Carlos Bolsonaro ao Senado, Michelle fez acenos públicos à deputada Caroline de Toni. Veja abaixo:

•        05/02/2026: PL decide lançar Carlos Bolsonaro como pré-candidato ao Senado por Santa Catarina;

•        09/02/2026: Michelle Bolsonaro chama a deputada federal Caroline de Toni de "nossa senadora" durante um evento no estado;

•        07/03/2026: Michelle diz em entrevista que não fala com Carlos: "Já perdoei, mas não quero conviver", afirmou.

•        03/04/2026: Michelle compartilha vídeo de Espiridião Amin (PP/SC), adversário direto de Carlos na disputa estadual pela vaga no Senado.

<><> Michelle x Eduardo

O terceiro embate envolveu Eduardo Bolsonaro: depois de ele criticar a falta de apoio de Michelle à escolha de Flávio, a ex-primeira-dama publicou um vídeo fazendo banana frita -- uma resposta indireta ao enteado, chamado de "bananinha" por adversários.

•        20/02/2026: Eduardo critica a falta de apoio de Michelle à pré-candidatura de Flávio para a Presidência;

•        21/02/2026: Michelle publica em suas redes sociais um vídeo fazendo banana frita, lido por aliados como uma provocação indireta ao enteado.

<><> Vídeo de Michelle pode causar estrago maior que caso 'Dark Horse' para Flávio e expõe disputa por protagonismo, dizem analistas

O cientista político Thomas Traumann disse nesta quinta-feira (25), durante o programa Estúdio i, da GloboNews, que o vídeo publicado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro na noite de quarta-feira (24) pode ter impacto político ainda maior do que o caso "Dark Horse", que expôs a relação do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso por fraudes.

Para Traumann, o episódio não é apenas um desgaste pontual para o senador, que agora aparece atrás do presidente Lula (PT) nas pesquisas eleitorais. Ele representa uma disputa direta por protagonismo dentro do bolsonarismo.

"Ele consegue rachar o bolsonarismo onde o movimento é mais essencial, que é justamente o fato de ele ter uma direção única", afirma.

Segundo o analista, a manifestação pública de Michelle rompe uma característica marcante do grupo político liderado por seu marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro: a unidade em torno de uma liderança.

"Michelle quebra toda a organização que o bolsonarismo trouxe para a política brasileira, e que ele conseguiu sustentar em momentos de crises anteriores", diz.

Para Traumann, o principal efeito da declaração é abrir espaço para dúvidas sobre Flávio Bolsonaro entre os apoiadores do ex-presidente. "Ela semeia uma dúvida dentro do eleitor bolsonarista a respeito de Flávio, que nenhuma outra pessoa teria a mesma credibilidade para fazer", afirma.

<><> Liderança entre evangélicos e grito de independência

Octavio Guedes, comentarista da GloboNews e colunista do g1, avalia que Michelle Bolsonaro se consolidou como uma liderança da direita evangélica no país, com grande influência no eleitorado feminino, e fala a partir dessa posição.

Na avaliação de Guedes, a ex-primeira-dama passou a ocupar um espaço próprio em segmentos nos quais os filhos de Bolsonaro não têm a mesma interlocução.

"Ela está falando para as mulheres, está falando para o voto feminino. Ela fala o tempo todo que eles não têm essa interlocução. Ela é a evangélica da família, que é respeitada e tem influência", diz.

Guedes avalia também que a fala ocorre em um momento de disputa pela herança política do bolsonarismo.

A crise, segundo a avaliação do comentarista, começou a ganhar força quando Michelle foi ao Ceará declarar apoio ao senador Eduardo Girão, do Novo.

Na ocasião, Bolsonaro estava em casa, e aliados ligados aos filhos do ex-presidente insinuaram que Michelle estaria cuidando de articulações políticas em vez de cuidar do marido.

Para Guedes, esse episódio expôs uma disputa sobre o papel de Michelle. Ele avalia que os filhos de Bolsonaro tentavam restringir a atuação dela a uma função simbólica no PL Mulher.

Guedes compara essa tentativa de enquadramento a uma visão tradicional da primeira-dama como figura decorativa, voltada a ações sociais e beneficentes.

Segundo ele, a expectativa dos filhos de Bolsonaro seria que Michelle ajudasse a "arrumar votos", sem interferir na condução do partido.

O comentarista afirma que a disputa no Ceará tinha relação direta com o projeto político de Michelle, que buscava fortalecer candidaturas próximas a ela, inclusive para formar uma bancada própria.

Guedes avalia que os irmãos Bolsonaro trabalhavam contra candidaturas defendidas pela madrasta porque sabiam que, sem mandatos ligados a ela, Michelle teria menos poder no partido.

"Ela percebeu que havia um cerco a seu projeto de poder, que era formar uma bancada dela, mais dela até do que do PL, de Bolsonaro etc. O Ceará fazia parte desse contexto. O pai dela nasceu lá, então ela tem uma ligação maior com o Ceará", diz.

"Os filhos de Bolsonaro estavam isolando a Michelle num cargo decorativo, na cabeça deles seria um cargo decorativo, no PL Mulher, e estavam trabalhando contra todas as candidaturas da Michelle. Por isso, esse grito de independência", afirma.

 

Fonte: Jornal GGN/g1

 

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