Luís
Nassif: Michelle, a Evita brasileira de um Perón eunuco
Ex-mulher
de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, a desbocada Maria Christina Mendes
Caldeira, com a perspicácia das mulheres, definiu: Michelle é a mais esperta e
inteligente de todo o grupo de Bolsonaro. E falava na condição da ex-esposa
injuriada, que acusava Valdemar de ter montado um bordel no seu gabinete.
Há
tempos Michelle vem se preparando para uma atuação política ativa. Ouso dizer
que será a próxima liderança hegemônica da direita.
Até
agora, montou duas bases sólidas de apoio. A primeira, entre as mulheres
bolsonaristas, especialmente as evangélicas. Quando começou a investir na sua
carreira, chegou a balbuciar línguas estranhas em vídeos, para celebrar a
indicação de seu amigo André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal.
Não fez
carreira de atriz, fez de assessora parlamentar. Mas a comparação com Evita é
inevitável.
María
Eva Duarte de Perón — Evita — nasceu em 7 de maio de 1919, em Los Toldos, no
interior da província de Buenos Aires, filha não reconhecida de Juan Duarte,
fazendeiro local, e de Juana Ibarguren. Cresceu em ambiente pobre e marcado
pelo estigma da ilegitimidade. Por volta dos 15 anos mudou-se para a capital em
busca de carreira artística e, ao longo dos anos 1930 e início dos 1940,
firmou-se como atriz de rádio, teatro e cinema, chegando a uma posição de
relativa notoriedade no radioteatro.
O ponto
de inflexão veio em janeiro de 1944, quando conheceu o coronel Juan Domingo
Perón num evento beneficente em favor das vítimas do terremoto de San Juan. A
parceria política e afetiva consolidou-se rapidamente. Em outubro de 1945, após
a mobilização operária de 17 de outubro que libertou Perón da prisão — episódio
fundador do peronismo e de sua base, os descamisados —, os dois se casaram. Com
a eleição de Perón à presidência em 1946, Eva tornou-se uma primeira-dama de
poder político incomum.
Michelle
de Paula Firmo Reinaldo, conhecida como Michelle Bolsonaro (Ceilândia, Distrito
Federal, 22 de março de 1982), nascida no Hospital Regional de Ceilândia,
região administrativa do Distrito Federal, filha de Vicente de Paulo Reinaldo,
motorista de ônibus aposentado, e de Maria das Graças Firmo.
Foi
criada em um ambiente tóxico. A avó Maria Aparecida Firmo Ferreira foi
condenada por tráfico de drogas. O tio materno, João Batista Firmo Ferreira foi
preso em maio de 2019, em uma operação contra uma milícia acusada de grilagem.
A mãe,
Maria das Graças Firmo Ferreira, enfrentou processo de falsidade ideológica e
por agressão a um locatário por atraso de aluguel. Um segundo tio materno foi
condenado a mais de 14 anos de prisão por estupro, em denúncia feita por duas
sobrinhas.
Michelle
cresceu assum, em ambiente de baixa renda, estudou em escola pública e, antes
da política, trabalhou como promotora de eventos, modelo e demonstradora de
produtos em supermercado. Formou-se intérprete de Língua Brasileira de Sinais
(Libras). Essa formação tornou-se base da agenda social que marcaria sua
atuação como primeira-dama, voltada a pessoas com deficiência, autismo e
doenças raras.
Depois,
entrou para o mundo das assessoras parlamentares. Começou pelo gabinete do
deputado Vanderlei Assis (PP-SP) — eleito na esteira da legenda de Enéas
Carneiro e cujo mandato foi alvo de recomendação de cassação pela CPI do
chamado Escândalo dos Sanguessugas, em agosto de 2006.
Em
seguida, passou ao gabinete do deputado Marco Aurélio Ubiali (PSB-SP). Em junho
de 2007, foi nomeada para uma vaga na liderança do Partido Progressista (PP),
onde permaneceu até setembro daquele ano. Foi nesse trânsito pela liderança que
teve o primeiro contato com Bolsonaro, então deputado federal pela mesma
legenda.
Casou-se
e entrou para uma família intrinsicamente misógina. Ou seja, uma sobrevivente.
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Carreira política
O ponto
de partida é que o ingresso de Michelle na política não foi um ato único, mas a
conversão progressiva de um capital simbólico (primeira-dama) em capital
organizacional (dirigente partidária). Quatro medidas, na ordem em que se
encadearam, foram as decisivas.
1. A conversão da primeira-dama em ativo de
campanha (2022).
Diante
da alta rejeição de Bolsonaro entre as mulheres, ela foi deliberadamente
deslocada para o centro da campanha de reeleição. Ascendeu como “grande trunfo
da extrema direita frente à alta rejeição do eleitorado feminino a Bolsonaro”,
reforçando a imagem da “ajudadora do esposo”, da mulher que ora pelo marido.
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2. O veículo institucional: a presidência do PL Mulher (2022–2023).
Esta é
a medida mais concreta, e não foi simbólica: deu a ela uma estrutura partidária
real para comandar. Convidada em novembro de 2022, aceitou assumir o posto a
partir de janeiro de 2023, no mesmo movimento em que Bolsonaro virava
presidente de honra do PL. Valdemar Costa Neto a escolheu justamente para
viajar pelo Brasil e atrair novas filiações. Foi a passagem de “esposa do
líder” a quadro com mandato interno e missão definida.
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3. A máquina de recrutamento: o “Projeto Mulher que Faz Acontecer”.
De
posse da estrutura, ela montou um programa de identificação, mentoria e
filiação de candidatas, com foco nas municipais de 2024. Em eventos reservados
a lideranças, prometia “mentoria” e acompanhamento das candidatas “no antes,
durante e no depois”, assinando fichas de filiação no próprio palco. Foi
responsável por um crescimento de 930% no número de mulheres filiadas ao
partido em 2024 e pela eleição recorde de 995 mandatárias municipais.
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4. O circuito religioso-mobilizador como base autônoma.
A
quarta medida é a que lhe deu alcance próprio, independente do mandato: a
transformação de palestras, livros e reuniões de fé em plataforma política. A
pesquisadora Christina Vital, da UFF, descreve estratégias que vão de produção
de livros e palestras motivacionais a reuniões religiosas com debate político,
com a habilidade de falar de política de modo pragmático, ligando-a à melhoria
da vida cotidiana das mulheres. Após a inelegibilidade de Bolsonaro, ela se
firmou como porta-voz da narrativa de perseguição: nos atos pró-anistia, faz
orações e falas emocionadas, como a do 7 de outubro em Brasília, em que afirmou
estar lutando “contra principados e potestades”.
Com a
provável derrota de Flávio Bolsonaro, Michelle tem o caminho aberto para
assumir a liderança da ultradireita.
A única
diferença com a dupla Perón-Evita é a diferença de dimensão entre Perón e Jair.
O clima político em ambos os momentos é similar. Só que Perón transformou o
momento em um populismo consistente, enquanto Bolsonaro não entendeu, e
provavelmente jamais entenderá, os fundamentos de um projeto político
perpetuáveis.
Ou
seja, Perón é tango e o Brasil de Bolsonaro é samba de breque de Morengueira da
Silva.
• Crise entre Michelle e filhos de Jair
Bolsonaro: veja cronologia do conflito com Flávio, Carlos e Eduardo
As
divergências entre Michelle Bolsonaro (PL) e os filhos mais velhos do
ex-presidente Jair Bolsonaro deixaram de acontecer nos bastidores e passaram a
aparecer em episódios públicos ao longo dos últimos meses, especialmente em
vídeos na última quarta-feira (24). O pano de fundo são os conflitos,
concordâncias e discordâncias em palanques estaduais.
O
primeiro foco da crise foi a disputa no Ceará: Michelle rompeu com a estratégia
defendida por parte do PL, criticou a aliança com Ciro Gomes (PSDB) durante
evento em Fortaleza (CE). O tema é abordado nos vídeos de quarta-feira.
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Veja, abaixo, a linha do tempo dos ataques entre Michelle e os Bolsonaro:
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Michelle x Flávio
Conflito
entre ex-primeira-dama e senador tiveram início durante evento no Ceará e
culminaram nos vídeos publicados na última quarta-feira. Veja abaixo:
• 30/11/2025: Michelle critica aliança do
PL com Ciro Gomes no Ceará, estado em que ela defende a candidatura de Eduardo
Girão (NOVO) ao governo;
• 01/12/2025: No dia seguinte, Flávio
Bolsonaro chama a madrasta de "autoritária";
• 24/12/2025: Michelle publica um vídeo
com mensagem sobre perseverar diante de "traições", interpretada como
um recado interno;
• 25/12/2025: Jair Bolsonaro confirma a
escolha de Flávio como pré-candidato da família à Presidência da República;
• 17/01/2026: Apesar da sequência de
atritos, em 17 de janeiro de 2026, o senador faz um aceno, ao defender a união
da direita. Ele afirmou que a madrasta tinha um "papel
importantíssimo" no campo conservador;
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Michelle x Carlos
O
segundo conflito aconteceu com Carlos Bolsonaro por conta dos palanques da
direita em Santa Catarina. Enquanto o PL lançou Carlos Bolsonaro ao Senado,
Michelle fez acenos públicos à deputada Caroline de Toni. Veja abaixo:
• 05/02/2026: PL decide lançar Carlos
Bolsonaro como pré-candidato ao Senado por Santa Catarina;
• 09/02/2026: Michelle Bolsonaro chama a
deputada federal Caroline de Toni de "nossa senadora" durante um
evento no estado;
• 07/03/2026: Michelle diz em entrevista
que não fala com Carlos: "Já perdoei, mas não quero conviver",
afirmou.
• 03/04/2026: Michelle compartilha vídeo
de Espiridião Amin (PP/SC), adversário direto de Carlos na disputa estadual
pela vaga no Senado.
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Michelle x Eduardo
O
terceiro embate envolveu Eduardo Bolsonaro: depois de ele criticar a falta de
apoio de Michelle à escolha de Flávio, a ex-primeira-dama publicou um vídeo
fazendo banana frita -- uma resposta indireta ao enteado, chamado de
"bananinha" por adversários.
• 20/02/2026: Eduardo critica a falta de
apoio de Michelle à pré-candidatura de Flávio para a Presidência;
• 21/02/2026: Michelle publica em suas
redes sociais um vídeo fazendo banana frita, lido por aliados como uma
provocação indireta ao enteado.
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Vídeo de Michelle pode causar estrago maior que caso 'Dark Horse' para Flávio e
expõe disputa por protagonismo, dizem analistas
O
cientista político Thomas Traumann disse nesta quinta-feira (25), durante o
programa Estúdio i, da GloboNews, que o vídeo publicado pela ex-primeira-dama
Michelle Bolsonaro na noite de quarta-feira (24) pode ter impacto político
ainda maior do que o caso "Dark Horse", que expôs a relação do
senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) com o ex-banqueiro Daniel
Vorcaro, preso por fraudes.
Para
Traumann, o episódio não é apenas um desgaste pontual para o senador, que agora
aparece atrás do presidente Lula (PT) nas pesquisas eleitorais. Ele representa
uma disputa direta por protagonismo dentro do bolsonarismo.
"Ele
consegue rachar o bolsonarismo onde o movimento é mais essencial, que é
justamente o fato de ele ter uma direção única", afirma.
Segundo
o analista, a manifestação pública de Michelle rompe uma característica
marcante do grupo político liderado por seu marido, o ex-presidente Jair
Bolsonaro: a unidade em torno de uma liderança.
"Michelle
quebra toda a organização que o bolsonarismo trouxe para a política brasileira,
e que ele conseguiu sustentar em momentos de crises anteriores", diz.
Para
Traumann, o principal efeito da declaração é abrir espaço para dúvidas sobre
Flávio Bolsonaro entre os apoiadores do ex-presidente. "Ela semeia uma
dúvida dentro do eleitor bolsonarista a respeito de Flávio, que nenhuma outra
pessoa teria a mesma credibilidade para fazer", afirma.
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Liderança entre evangélicos e grito de independência
Octavio
Guedes, comentarista da GloboNews e colunista do g1, avalia que Michelle
Bolsonaro se consolidou como uma liderança da direita evangélica no país, com
grande influência no eleitorado feminino, e fala a partir dessa posição.
Na
avaliação de Guedes, a ex-primeira-dama passou a ocupar um espaço próprio em
segmentos nos quais os filhos de Bolsonaro não têm a mesma interlocução.
"Ela
está falando para as mulheres, está falando para o voto feminino. Ela fala o
tempo todo que eles não têm essa interlocução. Ela é a evangélica da família,
que é respeitada e tem influência", diz.
Guedes
avalia também que a fala ocorre em um momento de disputa pela herança política
do bolsonarismo.
A
crise, segundo a avaliação do comentarista, começou a ganhar força quando
Michelle foi ao Ceará declarar apoio ao senador Eduardo Girão, do Novo.
Na
ocasião, Bolsonaro estava em casa, e aliados ligados aos filhos do
ex-presidente insinuaram que Michelle estaria cuidando de articulações
políticas em vez de cuidar do marido.
Para
Guedes, esse episódio expôs uma disputa sobre o papel de Michelle. Ele avalia
que os filhos de Bolsonaro tentavam restringir a atuação dela a uma função
simbólica no PL Mulher.
Guedes
compara essa tentativa de enquadramento a uma visão tradicional da
primeira-dama como figura decorativa, voltada a ações sociais e beneficentes.
Segundo
ele, a expectativa dos filhos de Bolsonaro seria que Michelle ajudasse a
"arrumar votos", sem interferir na condução do partido.
O
comentarista afirma que a disputa no Ceará tinha relação direta com o projeto
político de Michelle, que buscava fortalecer candidaturas próximas a ela,
inclusive para formar uma bancada própria.
Guedes
avalia que os irmãos Bolsonaro trabalhavam contra candidaturas defendidas pela
madrasta porque sabiam que, sem mandatos ligados a ela, Michelle teria menos
poder no partido.
"Ela
percebeu que havia um cerco a seu projeto de poder, que era formar uma bancada
dela, mais dela até do que do PL, de Bolsonaro etc. O Ceará fazia parte desse
contexto. O pai dela nasceu lá, então ela tem uma ligação maior com o
Ceará", diz.
"Os
filhos de Bolsonaro estavam isolando a Michelle num cargo decorativo, na cabeça
deles seria um cargo decorativo, no PL Mulher, e estavam trabalhando contra
todas as candidaturas da Michelle. Por isso, esse grito de independência",
afirma.
Fonte:
Jornal GGN/g1

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