sábado, 27 de junho de 2026

Maria Luiza Falcão: O longo declínio britânico

A renúncia de Keir Starmer ao cargo de primeiro-ministro, anunciada em 22 de junho de 2026, às vésperas dos dez anos do referendo (Brexit), representa mais do que a queda de mais um líder político. Ela simboliza uma transformação profunda em um país que, durante séculos, foi visto como referência mundial de estabilidade institucional, previsibilidade política e continuidade administrativa.

Durante muito tempo, o Reino Unido orgulhou-se de ser o berço do parlamentarismo moderno. Sua monarquia constitucional atravessou guerras, crises econômicas e mudanças sociais sem rupturas dramáticas. Enquanto muitos países enfrentavam golpes, revoluções e períodos de instabilidade, os britânicos cultivavam a imagem de um sistema político sólido, capaz de absorver conflitos sem colocar em risco suas instituições.

Hoje, entretanto, essa imagem encontra-se seriamente abalada.

A saída de Starmer faz dele o sexto primeiro-ministro a deixar o cargo em menos de uma década. Um recorde para um país que era visto com o símbolo de estabilidade institucional. Antes dele vieram David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss e Rishi Sunak. Em circunstâncias distintas, todos acabaram derrotados pela incapacidade de oferecer respostas duradouras aos desafios que o país enfrenta.

A sucessão acelerada de líderes não pode mais ser explicada por erros individuais ou acidentes políticos. O problema tornou-se estrutural.

<><> O esgotamento do modelo construído por Thatcher

As raízes da crise britânica são mais profundas do que normalmente se admite e remontam às transformações iniciadas nos governos de Margaret Thatcher nos anos 1980.

A primeira-ministra conservadora promoveu reformas que alteraram profundamente a estrutura econômica do país. Privatizações, desregulamentação financeira, enfraquecimento dos sindicatos e redução do papel do Estado tornaram-se marcas de um novo modelo de desenvolvimento que, posteriormente, influenciaria boa parte do mundo ocidental.

Durante algum tempo, os resultados pareceram impressionantes. Londres consolidou-se como um dos principais centros financeiros do planeta. O mercado imobiliário valorizou-se. O setor de serviços expandiu-se. O Reino Unido tornou-se uma das vitrines do neoliberalismo.

Entretanto, os custos desse modelo foram sendo acumulados silenciosamente.

A dependência crescente do setor financeiro fragilizou a economia diante das crises internacionais. A desindustrialização reduziu a capacidade produtiva do país. O investimento em infraestrutura ficou aquém das necessidades. As desigualdades regionais ampliaram-se. Enquanto Londres prosperava, antigas regiões industriais do norte da Inglaterra, do País de Gales e de partes da Escócia experimentavam estagnação econômica, perda de empregos e deterioração social.

Décadas depois, os efeitos tornaram-se impossíveis de ignorar.

A população que votou pelo Brexit não estava simplesmente rejeitando a União Europeia. Estava expressando uma insatisfação profunda com um modelo econômico que produziu vencedores e perdedores em escala crescente.

<><> Brexit: a revolta contra o sistema

O Brexit foi a manifestação política mais visível desse descontentamento.

O referendo de 2016 expressou a revolta de milhões de cidadãos que se sentiam abandonados pelas elites políticas e econômicas. A indignação popular tinha fundamento. O problema é que ela foi canalizada para um alvo que não correspondia inteiramente às causas da crise.

Segundo os defensores do Brexit, a culpa pelas dificuldades econômicas estaria em Bruxelas, na imigração e nas limitações impostas pela União Europeia. Bastaria recuperar a soberania nacional para que o país reencontrasse prosperidade e crescimento.

A realidade mostrou-se mais complexa. A saída da União Europeia não eliminou as desigualdades regionais, não reindustrializou a economia britânica e tampouco resolveu os problemas dos serviços públicos. Em vários aspectos, criou obstáculos ao comércio, aos investimentos e à circulação de trabalhadores.

Convém lembrar que o Reino Unido jamais aderiu integralmente ao projeto europeu. Diferentemente de muitos de seus parceiros continentais, preservou a libra esterlina e recusou-se a ingressar na zona do euro. Ao longo de décadas, negociou sucessivas exceções em temas considerados estratégicos, refletindo uma tradição política marcada pela defesa da soberania nacional e por certa desconfiança em relação aos projetos supranacionais.

O Brexit, portanto, não representou uma ruptura completa com uma adesão entusiástica à Europa. Foi o ponto culminante de uma relação historicamente ambivalente.

O problema é que abandonar a União Europeia não resolveu as contradições que haviam produzido o descontentamento inicial.

<>< A dupla ruptura: Europa e Estados Unidos

Durante grande parte do século XX, o Reino Unido compensou o declínio de seu império por meio de dois pilares estratégicos. O primeiro era sua participação ativa na construção europeia. O segundo era sua estreita relação com os Estados Unidos.

O Brexit enfraqueceu o pilar número um e a ascensão de Donald Trump colocou em dúvida o outro.

Durante décadas, a chamada "relação especial" entre Londres e Washington funcionou como uma das bases da projeção internacional britânica. Os governos britânicos atuavam frequentemente como ponte entre os Estados Unidos e a Europa, extraindo influência justamente dessa posição intermediária. O trumpismo alterou profundamente essa equação.

Ao adotar uma postura cada vez mais unilateral, protecionista e centrada exclusivamente nos interesses norte-americanos, o governo de Trump enfraqueceu pilares da ordem atlântica construída após a Segunda Guerra Mundial. Muitos defensores do Brexit acreditavam que a saída da União Europeia seria compensada por uma parceria econômica privilegiada com Washington. 

Essa expectativa revelou-se exagerada. Os Estados Unidos continuaram agindo de acordo com seus próprios interesses, sem oferecer ao Reino Unido as vantagens econômicas que os partidários do Brexit imaginavam.

O resultado foi paradoxal: Londres tornou-se simultaneamente mais distante da Europa e mais dependente de decisões tomadas em Washington.

Pela primeira vez em muitas décadas, o Reino Unido viu-se obrigado a repensar simultaneamente suas relações com a Europa e com os Estados Unidos.

<><> Uma potência à procura de um novo lugar

A crise britânica possui ainda uma dimensão geopolítica mais ampla.

O mundo que permitiu ao Reino Unido exercer influência desproporcional ao tamanho de sua economia está mudando rapidamente.

A ascensão da China, o crescimento da Índia e o fortalecimento de outras potências emergentes vêm acelerando a transição para uma ordem internacional mais multipolar. O centro de gravidade da economia mundial desloca-se gradualmente para a Ásia, reduzindo o peso relativo das antigas potências ocidentais.

O Reino Unido continua sendo um país relevante. Possui universidades de excelência, capacidade tecnológica, instituições respeitadas e influência diplomática significativa. Mas já não ocupa a posição central que exerceu durante boa parte dos séculos XIX e XX.

Em muitos aspectos, a política britânica parece presa entre a nostalgia de um passado imperial e as exigências de uma nova realidade internacional.

<><> A crise de representação

Existe ainda uma dimensão política frequentemente negligenciada.

A sucessão de primeiros-ministros revela uma crise de representação que atravessa não apenas o Reino Unido, mas boa parte das democracias ocidentais.

Os eleitores parecem cada vez menos convencidos pelas respostas oferecidas pelos partidos tradicionais. Governos mudam, lideranças se sucedem, mas muitos problemas permanecem.

O resultado é uma crescente sensação de frustração coletiva.

No caso britânico, conservadores e trabalhistas chegaram ao poder prometendo estabilidade, crescimento econômico e reconstrução dos serviços públicos. Nenhum conseguiu responder plenamente às expectativas criadas.

A consequência tem sido uma erosão contínua da confiança política.

A renúncia de Starmer deve ser compreendida nesse contexto. Ela não representa apenas o fracasso de um governo específico. É mais um capítulo de uma crise mais ampla que nenhum líder conseguiu resolver.

<><> A lição britânica

Talvez a principal lição da experiência britânica seja que democracias não entram em crise apenas quando suas instituições deixam de funcionar. Elas também entram em crise quando continuam funcionando formalmente, mas deixam de oferecer respostas convincentes aos problemas da sociedade.

O Reino Unido continua sendo uma democracia sólida. Suas eleições são competitivas. Seus tribunais funcionam. A liberdade de imprensa permanece preservada. Mas a sucessão de primeiros-ministros revela algo mais profundo: a dificuldade crescente de construir consensos capazes de enfrentar desafios econômicos, sociais e geopolíticos cada vez mais complexos.

Os radicais, representados pelo partido Reform UK vêm ganhando espaço com suas bandeiras racistas, anti-imigrantista, comprometendo a imagem de um Reino Unido que outrora fora um país mais tolerante e inclusivo.

A verdadeira questão colocada pela renúncia de Keir Starmer não é quem será o próximo primeiro-ministro. A pergunta mais importante é outra: qual projeto nacional será capaz de reconciliar um país dividido, revitalizar uma economia marcada por décadas de desigualdade e redefinir o lugar do Reino Unido em uma ordem internacional em transformação?

A sucessão de líderes tornou-se apenas o sintoma mais visível de uma crise muito mais profunda. O desafio britânico já não é simplesmente mudar de governo. É reencontrar um rumo histórico. 

¨      A Grã-Bretanha tornou-se viciada em apertar o botão do "novo primeiro-ministro". Por Jonathan Liew

O estado atual da democracia britânica: o sujeito que coloca o púlpito de renúncia em frente ao número 10 de Downing Street tornou-se tão familiar que virou meme. Na internet, o chamam de " Cara Gostosão do Púlpito ". A velha frase de William Hague sobre o Partido Conservador ser "uma autocracia moderada pelo regicídio" agora se aplica basicamente ao país como um todo.

E assim, Keir Starmer surge para proferir um discurso que, na grande tradição da oratória de Starmer, ocupa o curioso espaço liminar entre o instantaneamente esquecível e o quase inexistente. O que poderia compor uma supermontagem ao estilo de Davina dos melhores momentos de Starmer? A vez em que nos descreveu como uma “ ilha de estranhos ”, ou quando deixou escapar que Israel tinha o direito de privar Gaza de comida e água? Quando suas citações mais memoráveis ​​foram tão mal escolhidas, talvez fosse melhor para todos se você guardasse o microfone por um tempo.

Nem todos são oradores natos, o que, em certo nível, é claro, não é um problema. O que Starmer almejava acima de tudo era uma tarefa , um conjunto claro de instruções e uma solução. Para ele, o Estado britânico era essencialmente um móvel desmontável: inserir a legislação A no complexo problema social B, manipular o eleitorado C o máximo possível e, em caso de dúvida, ligar para a prática linha de ajuda 24 horas para falar com Morgan .

Por tudo isso, nos próximos dias você lerá muitos diagnósticos parciais sobre os motivos do fracasso de Starmer. Falta de personalidade. Ausência de uma visão ou ideologia clara. Uma série de erros políticos e mudanças de rumo totalmente evitáveis. E embora haja um fundo de verdade em tudo isso, tais diagnósticos se baseiam em uma premissa simples e fatal: a de que um político mais habilidoso, capaz de proporcionar melhorias tangíveis na vida das pessoas, teria obtido sucesso.

Como hipótese alternativa, vamos imaginar um cenário em que Starmer assuma o cargo em 2024 e se revele o político dos seus sonhos. Abolir a tripla trava de segurança . Um imposto sobre grandes fortunas. Reingressar na União Europeia. Implementar o plano de 10 passos para o "socialismo moral ", com o qual ele tão criativamente conquistou a liderança do Partido Trabalhista em 2020. Pena de morte para quem estacionar em fila dupla. Seja lá o que for que te faça vibrar.

Agora, sejamos honestos. Isso lhe garante a gratidão eterna de um público cético, restaura nossa fé na política, apazigua uma imprensa hostil? As multidões se calam ? Os tumultos de verão não acontecem? Ou os gritos dos poderosos ressoam tão alto e estridentemente, por todos os meios imagináveis, que ele simplesmente é expulso da cidade ainda mais rápido, talvez até esmagado na origem?

Uma das principais justificativas para substituir Starmer por Andy Burnham , segundo nos dizem, é que a maior popularidade de Burnham garantirá ao Partido Trabalhista uma "nova audiência". Mas talvez estejamos superestimando o quanto grandes parcelas do público – e uma proporção ainda maior da mídia, por meio da qual o público se informa – estavam dispostas a lhes dar uma chance, para começo de conversa.

Já é possível observar essas dinâmicas se repetindo sob a nova liderança presumida, a determinação da imprensa de direita e o algoritmo para extinguir o novo governo antes mesmo que ele possa trocar o timbre dos jornais. O ataque será feroz, imediato e descaradamente distante da realidade. "Quem quer que seja o próximo ministro da Fazenda, ele está vindo para tomar sua casa", brada o Telegraph . "Um homem sem plano e sem mandato legítimo", debocha o The Sun.

Não era preciso concordar com tudo o que Starmer fazia para reconhecer a hostilidade do ambiente que ele enfrentava. Mas sua grande ilusão era imaginar que essa malignidade pudesse ser apaziguada, ou mesmo conquistada. Para isso, ele ofereceu-lhes muita munição: a criminalização dos protestos e os cortes planejados nos benefícios para pessoas com deficiência . Mas nada disso funcionou diante de uma elite que não apenas despreza os eleitores de esquerda, como mal os considera humanos. "Amantes de pessoas trans de cabelos azuis, que vivem na cidade, simpatizantes do Partido Verde", foi uma descrição feita por uma colunista do Sunday Times, que, se pressionada, provavelmente ainda se classificaria como uma moderada sensata.

Portanto, não faz sentido apontar para o segundo maior crescimento econômico do G7, a queda na imigração e a redução das listas de espera do NHS (Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido). Nada disso realmente importa. O eleitor médio terá pouca noção do que Starmer de fato fez, porque aqueles que deveriam informá-lo não têm interesse em fazê-lo. Isso pode explicar por que muitas pessoas ainda pensam que a imigração está aumentando, a economia está encolhendo e que Starmer é um pedófilo rico que deixou Jimmy Savile impune .

Assim como o técnico de um time de futebol decadente na metade da tabela, o primeiro-ministro britânico moderno existe basicamente como um bode expiatório: está lá com o único propósito de ser demitido posteriormente como recurso narrativo. O cargo em si é menos influente do que jamais foi. Não se pode vencer o mercado de títulos , não se pode reabrir o Estreito de Ormuz , e não adianta criar uma grande história se ninguém vai acreditar nela. Mesmo assim, você já tentou apertar o botão mágico do Novo Primeiro-Ministro? Esta pode ser a vez em que ele realmente funciona.

É assim que se chega a ter sete primeiros-ministros em pouco mais de uma década, nenhum deles remotamente parecido. Já tivemos o falastrão, o diretor de escola bajulador, a personalidade do entretenimento leve, o fantasma reanimado de Friedrich Hayek , o gênio da matemática, o filho do ferramenteiro. Em que momento concluímos que o problema não é simplesmente a pessoa, mas o processo – um ciclo interminável de retroalimentação que gera resultados cada vez menores?

As pesquisas mostram consistentemente que os eleitores querem que o Estado interfira pouco em suas vidas, mas também acham que ele não faz o suficiente. Eles exigem impostos baixos e serviços públicos como os da Escandinávia, uma economia em crescimento e menos imigração. Anseiam por estabilidade, mas optam pelo caos praticamente sempre que são provocados. E assim, na ausência do tipo de mudança que você realmente desejaria, eles simplesmente continuam apertando os botões do controle, cada vez mais furiosamente, até que um dia ele finalmente quebre.

 

Fonte: Brasil 247/The Guardian

 

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