Muitas
mulheres só percebem anos depois que viveram violência obstétrica
O
nascimento de um filho costuma ser lembrado como um dos momentos mais marcantes
da vida de uma mulher. Mas, para muitas mães, o parto também se torna uma
experiência atravessada por medo, humilhação, solidão e sofrimento emocional
profundo, sentimentos que nem sempre conseguem ser compreendidos ou nomeados
naquele momento.
Em
muitos casos, a percepção de que houve violência obstétrica surge apenas anos
depois.
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Quando a dor é tratada como “normal”
A
violência obstétrica ainda é uma realidade silenciosa e frequentemente
naturalizada. Gritos, ironias, pressão psicológica, procedimentos realizados
sem consentimento, ausência de acolhimento e perda de autonomia sobre o próprio
corpo acabam sendo incorporados por muitas mulheres como se fossem parte
inevitável do parto.
Na
prática clínica, é comum encontrar pacientes que carregam durante anos
sentimentos persistentes de culpa, tristeza, raiva, medo ou inadequação sem
conseguir relacionar essas emoções à forma como foram tratadas durante o
nascimento do filho.
Muitas
só conseguem reconhecer o trauma quando encontram um espaço seguro para falar
sobre a própria experiência.
O mais
delicado é que o trauma nem sempre aparece de forma evidente. Às vezes, ele se
manifesta através de crises de ansiedade, medo de engravidar novamente,
dificuldade de vínculo materno, depressão pós-parto ou uma sensação constante
de fracasso e impotência emocional.
Uma
paciente acompanhada em psicoterapia relatava sofrimento intenso sempre que
lembrava do nascimento do primeiro filho. Durante muito tempo, acreditou que
tudo o que havia vivido era “normal”. Apenas anos depois conseguiu perceber que
tinha sido submetida a humilhações, ordens agressivas e procedimentos
conduzidos sem cuidado emocional.
Entre
as experiências relatadas estavam frases de repreensão durante o trabalho de
parto, gritos para que “colaborasse” e a realização da manobra de Kristeller,
técnica de pressão abdominal utilizada para acelerar a saída do bebê e cercada
de críticas por entidades médicas internacionais.
Após o
parto, a paciente desenvolveu dores intensas, dificuldade de locomoção e um
quadro de depressão pós-parto que permaneceu sem acolhimento ou tratamento.
Mesmo
assim, durante muitos anos, ela não utilizava a palavra “violência” para
definir o que havia vivido. Existia apenas a sensação persistente de que algo
naquele momento da vida permanecia emocionalmente aberto.
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O corpo registra o que não conseguiu ser elaborado
Muitas
mulheres cresceram ouvindo que sofrer faz parte da maternidade. Por isso,
frequentemente minimizam experiências profundamente traumáticas. Frases como “o
importante é que o bebê nasceu saudável” acabam invalidando a dor emocional e
física vivida pela mãe.
A
violência obstétrica não acontece apenas através da agressão física. Ela também
pode surgir na negligência, na desumanização do cuidado, na ausência de escuta
e na perda da autonomia da mulher em um momento de extrema vulnerabilidade.
Do
ponto de vista psíquico, o trauma acontece justamente quando a experiência
ultrapassa a capacidade emocional de compreensão e elaboração naquele instante.
O corpo registra. A memória emocional permanece ativa. E aquilo que não pôde
ser simbolizado retorna mais tarde através de sintomas emocionais, relacionais
e até físicos.
Por
isso, o acolhimento psicológico tem um papel tão importante nesse processo.
Quando
a mulher encontra um espaço onde sua dor é legitimada e escutada sem
julgamento, ela consegue reorganizar emocionalmente aquilo que viveu. Dar nome
ao trauma não aumenta o sofrimento. Muitas vezes, é justamente o que permite
que ele deixe de agir de forma silenciosa dentro da vida psíquica.
Compreender
que medo, tristeza, raiva ou frustração em relação ao parto não tornam ninguém
uma mãe pior também faz parte desse processo de elaboração.
Falar
sobre violência obstétrica não significa criar medo da maternidade nem
estabelecer oposição entre pacientes e profissionais de saúde. Significa
ampliar a consciência sobre a importância do respeito, da escuta e da
humanização no cuidado com a mulher.
Toda
mulher merece ser tratada com dignidade durante o parto. E toda dor emocional
ligada a essa experiência merece acolhimento, reconhecimento e cuidado.
Fonte:
CNN Brasil

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