Pedro
Serrano: “Nenhum outro presidiário no Brasil é tratado como Bolsonaro”
O
jurista e professor de Direito Constitucional Pedro Serrano afirmou que Jair
Bolsonaro recebe um tratamento excepcional por parte das autoridades
brasileiras, incompatível com a realidade enfrentada pela maioria da população
carcerária. A declaração foi feita durante entrevista ao programa Boa Noite
247, da TV 247, na qual o especialista analisou a situação jurídica do
ex-presidente e rebateu alegações de perseguição política feitas por seus
apoiadores.
Ao
comentar as medidas impostas a Bolsonaro e a forma como ele tem sido tratado
pelas instituições, Serrano foi categórico: "Nenhum outro presidiário no
Brasil é tratado como Bolsonaro".
Segundo
o jurista, a narrativa de que o ex-presidente seria vítima de arbitrariedades
não resiste a uma comparação com as condições enfrentadas pelos demais detentos
do país. Para ele, Bolsonaro tem acesso a garantias e condições que estão muito
distantes da realidade do sistema penitenciário brasileiro.
"Quando
se observa o que ocorre com a população carcerária comum, percebe-se que
Bolsonaro recebe um tratamento absolutamente diferenciado", argumentou.
Durante
a entrevista, Serrano destacou que o Brasil possui um dos maiores sistemas
prisionais do mundo, marcado por problemas estruturais como superlotação,
condições precárias de encarceramento e restrições severas ao contato com
familiares e advogados. Nesse contexto, afirmou, a situação do ex-presidente
revela um nível de atenção institucional raramente concedido a outros
investigados ou condenados.
O
constitucionalista também criticou o que considera uma contradição entre o
discurso histórico do bolsonarismo e a postura adotada agora por seus aliados.
Segundo ele, setores que durante anos defenderam políticas de endurecimento
penal passaram a reivindicar garantias amplas quando as investigações atingiram
Bolsonaro.
Para
Serrano, o debate público tem sido contaminado por tentativas de transformar
procedimentos judiciais em instrumentos de mobilização política. Em sua
avaliação, as investigações envolvendo o ex-presidente devem ser analisadas à
luz da Constituição e do devido processo legal, sem privilégios, mas também sem
exceções.
O
jurista ressaltou ainda que a defesa do Estado Democrático de Direito exige que
todos sejam submetidos às mesmas regras, independentemente de posição política
ou poder econômico. "A lei deve valer para todos", enfatizou ao longo
da conversa.
Ao
abordar o cenário político brasileiro, Serrano argumentou que a
responsabilização de agentes públicos por eventuais crimes não pode ser
confundida com perseguição. Segundo ele, em uma democracia, investigações e
processos judiciais são instrumentos legítimos quando conduzidos dentro dos
limites constitucionais.
A
entrevista ocorreu em meio à continuidade dos processos que envolvem Bolsonaro
e integrantes de seu círculo político. Para o professor, a discussão deve se
concentrar nos fatos e nas evidências produzidas pelas investigações, evitando
discursos que busquem desacreditar previamente as instituições responsáveis
pela apuração dos casos.
Ao
final da conversa com o Boa Noite 247, Serrano reiterou sua avaliação de que o
ex-presidente não é alvo de tratamento abusivo por parte do sistema de Justiça.
Pelo contrário, sustentou que as condições às quais Bolsonaro tem acesso
demonstram um grau de excepcionalidade inexistente para a imensa maioria dos
presos brasileiros.
• Os reais criminosos. Por João Takaes
Botto
Sob a
vigência da contemporaneidade, muito se fala de uma conjuntura nacional em que
a violência e o medo alastram-se em circuitos subconscientes, formando um
imaginário que vê isto como normativo. Nunca antes os brasileiros trouxeram
tanto as marcas da vida primitivo: o mesmo anseio do homem neandertal em meio
ao medo do predatismo se observa no trabalhador que, voltando para casa, olha a
todos os lados por ameaças a sua vida.
Em meio
a isso, as campanhas políticas de candidatos à presidência, as forças
internacionais e até mesmo o presidente nacional, observando as implicâncias
desta problemática, falam de um vilão em comum: as facções criminosas e o crime
sistemático. Mas, olhando a fundo, vê-se que, embora tenha um reflexo desta, o
crime não age sozinho; muito mais, todos os lados do poder se coadunam em um
ciclo cultural e político que, como sempre, nos levam às mazelas do
capitalismo.
As
facções são muito mais complexas do que se parece. Sob a égide da favelização e
o empobrecimento historicamente estabelecido em um país que, desde 1930, é
comandado por uma burguesia, o Brasil reflete um ciclo de pobreza profunda.
Muitos dos proletários são, evidentemente, vulneráveis o suficiente para
procurarem auxílio a qualquer custo. Nesse sentido, o homem pobre, privado de
opções de subsistência, acaba no crime.
É posto
em uma organização hierárquica que, em diversas conjunturas, refletem muito o
empresariado normativo: o favelado é o funcionário, o chefe, o engravatado da
Faria Lima. Recebe comandos, operações, deveres e age. Se morre, é facilmente
substituível. Em um dos países com o maior contingente de empobrecidos do
mundo, de onde vêm um vulnerável engendrado pelo crime, nasce outro para
substituí-lo. Esse é o ciclo infinito de manutenção de um sistema que abrange
dos altos burgueses ao lumpem proletariado.
No viés
prático deste espiral de substituição, cria-se um ciclo dialético o qual
subentende o vício da violência. Entende-se isso como uma tese e uma antítese
que age sob o indivíduo, culminando na síntese de um ser ambivalente,
conflitado pelo choque de oposições. Na tese, as forças públicas, “contendo as
facções”, matam em massa os “criminosos” – entrando em favelas já com o fuzil
em riste e exercendo, como sempre, a sua “necropolítica”. Sendo este um recurso
de marginalização e repressão pela morte, mata-se qualquer um: homem, mulher,
criança.
Efeito
prático é o massacre na favela do Rio de Janeiro em que, enquanto
enfileiravam-se centenas de corpos mortos, a cultura hegemônica os chamava de
impiedosos criminosos, justificando seus massacres irrestritos e privados de
fiscalização judicial. Mas, observando como, mal mortos, já haviam substitutos
que os pudessem retirar das matas nas quais foram fuzilados, a antítese subjaz
no maquinário que imediata e facilmente repõe aquele que é efeito de uma
vulnerabilização – achando um novo pobre para manter as tropas criminosas.
Assim,
as facções replicam às forças públicas sob a mesma ótica, a do embate belicoso.
Reagem violentamente, comandados pelos “Faria limer’s” – os reais criminosos.
Isto repete-se incessantemente, já que a própria morte de um permite que seja
substituído por outro, e a polícia mantém seu regime permissivo de contenção
mortal. Destarte, recorrentemente, a violência brutal é afirmada. A sociedade,
defronte disso, vê um ciclo de morte que assola seu imaginário: o Brasil dos
sonhos é perdido por manchetes que intercalam a morte dos pobres e a das forças
armadas.
A
ambivalência dessa síntese, em que a hostilidade é constante e a vivência é
dolorosa, é a de um civil que se atemoriza diante todas as forças, seja a
pública, seja a do crime. E, culturalmente, isto leva a sociedade a um eventual
questionamento, em meio a este engendramento: as razões?
Deste
modo, as forças políticas e a insatisfação pública da pequena burguesia abrem a
sutura do contexto complexo e denso. Especula-se o porquê dessa reiteração da
violência – como pode o povo desvendar os efeitos de uma elite burguesa que faz
a manutenção da dialética do crime organizado e das forças públicas? Medrosa
por seu desvelo, a burguesia age, nascendo a manipulação da indústria cultural.
Mais antigos, mas ainda eficientes, há os programas televisivos.
Um
carismático e “popular” comunicador que, extasiado em exibir isto, mostrava as
faces superficiais do crime: os traficantes atirando contra a polícia, os
choques do crime contra a civilidade média, os assaltos, os sequestros, etc. O
civil de classe média sentava em seu sofá e via, sob o olhar da mídia
hegemônica, as denúncias de um sistema criminal que chegava – putz! – até ao
conforto de sua casa. Embora a polícia tentasse, expandindo seus tentáculos, o
esforço era ineficiente: os criminosos ainda viviam.
Comemora-se
execuções públicas televisionadas, narradores que escarneciam a realidade e a
vida do marginal, e a indiferença perante as forças estruturais era frequente.
Devíamos matar, conter. Armar-nos. E aí está: carros blindados, casas muradas,
pistolas e, sempre, a relação do crime à visão do homem periférico. Hoje, esses
veículos ampliam-se, e, embora aqui ou acolá vê-se o vazamento dos burgueses
por trás do crime, o imaginário de medo e violência das classes médias e altas
aos pobres é mantido.
Vereadores,
deputados, influenciadores e empresários reclamam de um problema, embora
culpabilizando-o pela vida do homem pobre. Os meios são amplos e o alcance
sobrepassa até os enriquecidos: a internet, a micropolítica e até o simples
conversar são alvos desta conjuntura de manutenção capitalista. Assim,
mantêm-se os interesses do esquema estrutural de enriquecimento e corrupção em
função do crime, enquanto o pobre é afundado em uma profunda estigmatização e
vilanização necropolítica.
A
situação torna-se mais complexa quando se entende que a política rememora muito
o feudalismo, constituindo-se um poder meramente ilustrativo. Raymundo Faoro já
pensava como, em analogia ao que o clero era para o senhor feudal, o executivo
brasileiro é fruto de uma oligarquia engendrada na dominação capitalista. Seja
de direita ou de esquerda, enfeitam-se de gritos extasiantes e perfomances
entusiasmadas perante a violência do crime para disfarçar o silêncio
ensurdecedor da responsabilidade e da farsa sistemática. Se não são os donos
das facções, por eles são comandados.
Não se
pode – fardo brasileiro – clamar por uma soberania democrática em que a
democracia é empiricamente burguesa. E, ainda menos, quando vê-se que tudo é
abandonado quando entra em pauta o interesse dos empresários – desvanecem as
lutas identitárias, a miséria institucionalizada por auxílios ínfimos, as
políticas públicas de proteção, etc. Ouve-se o comando de acobertar as
operações de corrupção, e de repente o crime é terrorista.
Reclama-se
da hostilidade, propagam-se novas faces de poder, novas esperanças –, mas tudo
é preconcebido na sala de negócios, em que o empresário criminoso sabe que o
presidente irá protegê-lo a todos os custos. Fazendo uso da mão armada, da
intervenção internacional ou até da traição social. Sim, eles são “donos do
poder”, como dizia o historiador Raymundo Faoro. Agem propagando políticas de
armamento que estimulam tudo em prol do conflito e da proteção burguesa, e as
forças armadas são seus ávidos protetores. Ainda, para garantir, a pistola do
homem médio varre os restos dos pobres, culpabilizando-os.
Armar
os ricos e manter a polícia em permissividade caracteriza muitos dos grandes
eventos de morte injusta pois ambos são inflados pelo ego desta cultura: um é
alimentado pela estigmatização do pobre e o espírito da autodefesa em meio à
inoperância do poder público – que, obviamente, nunca irá resolver o problema
simplesmente aniquilando qualquer um que se encaixe em sua visão de criminoso.
O outro é alimentado pelas forças políticas que, sempre que questionadas,
clamam-nos para matar mais 100 em alguma favela.
Em
conclusão, sobreposta a toda essa violência, todos os horizontes tornam-se
brutais, e o Brasil é assolado por um dia-a-dia elitista, medroso e violento. O
imaginário do país, interno ou externo, é negativo, inoperante. Quase
anárquico, de completa falha institucional e liberdade individual. Movida pela
barbárie, pelo espírito da autonomia capitalista que age na concepção de
“justiça” narcísica. Defendendo a sua individualidade por meio da repressão, a
classe média está, a todo momento, armada. Enquanto, aos marginalizados, o caso
do medo e da necessidade cultural de defesa é o mesmo, mas privados das
regalias de um armamento, detêm muito menos imposição individual.
Isto é
outro fator, embora não venha ao caso: a adesão ao armamento público, embora
seja permitida a todos, leva-nos novamente a lembrar que, pelos altos custos em
balística, o direito de defesa é concedido apenas a aquele que “tem de quem se
proteger” – isto é, é um próprio marcador dessas diferenças sociais, de
tratamento e martírio de uma fragilização estrutural. Sem o benefício da dúvida
– ou da custosa defesa armada, muitas vezes, sua morte vem antes de sua defesa.
O medo torna-se massificado.
De um
problema profundamente capitalista advém esta barbárie. E, para muito além da
designação trumpista de grupo terrorista, o fenômeno da facção é problemático
pois implica em uma cultura de medo violento. Os ricos estão armados, os pobres
são relacionados ao que os vitimiza e os policiais têm o aval para matar, matar
e matar. A formação inconsciente do brasileiro já é moldada pelos impactos do
capitalismo – a pobreza, a alienação, a exploração e a precária proletarização
mercantil de tudo, mas a expansão disto, em que a invenção estereotípica do
outro abrange a todos, desvia a cultura hegemônica à criação de um proletário
relacionado ao matável.
Com
isso, não só a convivência normal é alterada sob a égide de uma constante
hostilidade, do medo sistemático e da atribuição da culpa às minorias, mas abre
portas para o imperialismo e à expansão da barbárie. Isto, pois a
internacionalização dessa conjuntura, com a designação estadunidense do PCC e
do Comando Vermelho como grupos terroristas, amplia os horizontes de morte e
intervenção internacional em nosso país. Muito mais que nas mazelas da
intromissão dos Estados Unidos para fins econômicos, tal aspecto nos insere
diretamente na rede de subjugação e amplia o ciclo de violência por meio da
duplicação da repressão violenta ao “crime”.
Nossa
conjuntura de medo e estigmatização violenta não é sanada, mas o capitalismo do
grande empresariado e a desterritorialização de nossa economia é ampliada.
Afinal, o medo e a manutenção de um sistema corrompido se torna sistemática, e
a harmonia destes fatores geram uma população que não tange apenas ao conflito,
mas é fragmentada por múltiplas camadas de manipulação cultural e mentiras
alienantes.
Estrutura
essa propagada pelos esporos de uma burguesia que constrói seu império com o
uso da violência e do crime, sequer se importando com a natureza de um
imaginário nacional, respaldando a barbárie institucionalizada, a destituição
da unidade nacional e a perpetuação da violência do crime, da sociedade e das
forças públicas.
Fonte:
Brasil 247/A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário