terça-feira, 9 de junho de 2026

A Amazon está explorando os correios até a última gota

Finn Green trabalha para os Correios dos EUA como carteiro rural associado em Ojai, Califórnia, e arredores. Em uma segunda-feira típica, Green e outros carteiros rurais passam horas entregando encomendas da Amazon sem receber horas extras. Quando o volume de correspondências é maior, como nos dias seguintes a feriados prolongados e durante as temporadas de festas de fim de ano, os carteiros recebem ordens para priorizar as encomendas da Amazon em relação às correspondências expressas e registradas, os produtos mais caros do Serviço Postal dos EUA (USPS). Somente após concluir as entregas da Amazon é que os carteiros podem retornar à sua rota regular para entregar as correspondências do USPS.

A recente declaração da Amazon sobre sua relação com o USPS apresenta uma narrativa cuidadosamente construída. Desde 2013, o USPS entrega encomendas da Amazon por meio de um programa conhecido informalmente como “Domingos da Amazon”. O contrato estava em processo de renegociação este ano, e as apostas eram altas. A Amazon gera US$ 6 bilhões em receita anual para a agência federal, que está à beira da falência. O contrato negociado para 2026 resultou na entrega, pelo USPS, de 80% das encomendas da Amazon que antes eram entregues pela própria empresa, um desdobramento que o USPS não tinha poder real para recusar. A Amazon, por sua vez, chama isso de “parceria de longa data”. A relação não é tão mútua quanto a Amazon sugere.

A relação da Amazon com o USPS é a de uma corporação de tecnologia independente e dominante que se aproveita de uma instituição pública com dificuldades financeiras, cuja sobrevivência depende de um contrato multibilionário. Green contesta explicitamente a ideia de que a Amazon está “salvando o dia” e sugere, em vez disso, que a Amazon também depende do USPS para entregas em áreas rurais e no extremo da cadeia de suprimentos, onde a logística privada é muito cara para ser mantida. Embora a Amazon se apresente como uma gigante de entregas de alta tecnologia, sua capacidade de oferecer frete barato, rápido e quase universal depende totalmente da infraestrutura pública e da mão de obra do USPS.

O USPS fornece as ferramentas necessárias para o sucesso da Amazon por meio de rotas de entrega consolidadas, obrigações de serviço universal legalmente impostas e uma força de trabalho nacional capaz de alcançar as regiões mais remotas. O papel da Amazon não é o de benfeitora, mas o de cliente dominante, cujas operações logísticas estão ativamente reorganizando uma instituição pública por meio de um lento processo de desgaste gradual. Nas palavras de Green: “A Amazon nos tem nas mãos, basicamente […] o sistema é manipulado, como se a Amazon definisse as metas que precisamos atingir e, se não as atingirmos, eles podem reter o dinheiro”. Essas pressões se propagam pelas operações do USPS e ditam como os carteiros priorizam seu trabalho.

Os trabalhadores são ainda mais explorados por meio do sistema de avaliação de rotas rurais. Nesse sistema, os carteiros rurais recebem um número fixo de horas remuneradas para uma determinada rota, com base em avaliações padronizadas da carga de trabalho esperada. O tempo de trabalho real muitas vezes excede em muito as horas atribuídas a uma rota avaliada, principalmente durante períodos de grande volume de correspondências ou encomendas da Amazon.

Os carteiros rurais trabalham muitas horas extras além do seu horário de trabalho previsto e não recebem pagamento correspondente nem pausas para almoço. Os carteiros não podem retornar a suas respectivas agência com correspondências não entregues, o que significa que devem completar toda a sua rota, independentemente do tempo que isso leve. Entregar correspondências com atraso é uma infração federal, e o carteiro que não completar a rota designada corre o risco de ser demitido.

O USPS mantém registros tanto das horas avaliadas quanto das horas efetivamente trabalhadas relatadas pelos carteiros. Embora os carteiros sejam obrigados a completar suas rotas de entrega sob pena de sanções disciplinares, a remuneração só é calculada com base em determinados limites, e não nas horas efetivamente trabalhadas. Isso significa que, embora a legislação trabalhista exija que os trabalhadores horistas sejam pagos por cada hora trabalhada, a realidade da combinação do sistema de avaliação de rotas rurais com a fiscalização das entregas normaliza o trabalho não remunerado.

Trabalhadores como Green alegam que a liderança sindical atrasa a resolução de quaisquer problemas estruturais. Quando Green expressou suas preocupações à Associação Nacional de Carteiros Rurais (NRLCA, na sigla em inglês), representantes reconheceram que o sistema de avaliação de rotas rurais pode resultar em carteiros trabalhando horas não remuneradas sem intervalos. Embora os representantes da NRLCA admitam que o sistema é injusto, ele é, no entanto, autorizado pelo contrato sindical e vinculado à estrutura salarial do carteiro rural.

Alguns carteiros estão desiludidos com a suposta cumplicidade do sindicato nessas práticas exploratórias. Além disso, segundo carteiros rurais como Green, suas condições e horários de trabalho tornam praticamente impossível a participação em atividades sindicais ou a responsabilização da gerência. A crise trabalhista imediata é um pesadelo burocrático e alimenta a crescente sensação entre os trabalhadores de que a privatização é inevitável. “Aqui há uma força de trabalho sindicalizada, mas os sindicatos não são fortes o suficiente”, explica Green — e a Amazon sabe disso.

Em 1970, os trabalhadores dos correios conquistaram proteção após iniciarem uma greve sem a aprovação da direção, mas fazer greve contra o governo federal continua sendo ilegal para os funcionários do USPS até hoje. Paralelamente à greve dos trabalhadores de 1970, o sistema postal foi reestruturado para operar mais como uma empresa autofinanciada, cortando em grande parte o apoio dos contribuintes e dependendo, em vez disso, da receita de postagem e serviços. O USPS manteve seu compromisso público de entregar correspondências em todos os endereços do país, incluindo áreas rurais e remotas, seis dias por semana. Isso criou um sistema contraditório: o USPS precisa permanecer financeiramente independente, ao mesmo tempo que continua entregando em endereços que as transportadoras privadas não atendem por não serem rotas lucrativas.

Em vez de ser desmantelado por completo, o USPS sofre pressão constante por meio de cortes de verbas, queda no volume de correspondências e uma exigência singular do Congresso para o pré-financiamento dos benefícios de saúde dos aposentados. O colapso do USPS não é acidental. Notícias recentes sobre a suspensão das contribuições previdenciárias e a projeção de falência do USPS são apresentadas como prova de falha institucional, embora essas crises sejam fruto de escolhas políticas. Hoje, Donald Trump alega não haver dinheiro suficiente para financiar adequadamente o USPS, enquanto destina bilhões de dólares dos contribuintes à guerra no Irã e aos gastos militares em geral.

Trump sinalizou repetidamente apoio à privatização do USPS. Se isso acontecer, Trump poderia usar a pressão federal sobre as operadoras postais privadas para influenciar o voto por correspondência. De acordo com um relatório recente, quase um em cada três estadunidenses votou por correspondência em 2024. Se as responsabilidades pelo voto por correspondência fossem dispersas dentro da corporação, a Amazon poderia aproveitar a oportunidade para controlar e influenciar as eleições.

Isso não está fora de cogitação. Em 2021, em uma unidade da Amazon no Alabama, seguranças foram vistos destrancando uma caixa de correio do USPS onde funcionários depositavam seus votos em uma eleição sindical. O Sindicato dos Trabalhadores do Comércio Varejista, Atacadista e de Lojas de Departamento (Retail, Wholesale and Department Store Union) acusou a Amazon de controlar os “mecanismos da eleição”, incluindo pressionar os trabalhadores a usar a caixa de correio do USPS solicitada pela empresa para depositar seus votos.

Se o USPS fosse desativado, milhões de pessoas em todo o país perderiam um sistema universal de comunicação pública que entrega correspondências, cédulas eleitorais, pagamentos de auxílio emergencial e bens essenciais a todos os endereços por uma taxa fixa. Sem o USPS, as transportadoras privadas perderão dinheiro entregando em áreas rurais remotas e não terão nenhum incentivo para continuar a fazê-lo. Isso afetará desproporcionalmente as comunidades rurais e as pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Uma população rural que sofrerá particularmente são as comunidades e nações indígenas, que já enfrentaram séculos de despossessão e negligência.

A integração da Amazon às operações do USPS não é uma parceria de boa-fé. Espera-se que a agência funcione tanto como um serviço público universal quanto como um veículo que prioriza a eficiência e os padrões de otimização definidos pela Amazon, em detrimento dos trabalhadores. “As pessoas estão prevendo isso”, alerta Green. “Elas percebem que, se a Amazon tiver prioridade, a força de trabalho federal se transformará em uma força de trabalho privada para uma empresa bilionária com fins lucrativos.”

 

Fonte: Por Rachel Herring - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

 

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