Folha força comparação entre Bolsonaro e
Mensalão e ignora avanços no STF
Uma
reportagem publicada pela Folha de S.Paulo neste domingo (23),
intitulada "Trama golpista no
STF tem ritmo 14 vezes mais rápido que mensalão", traçou um
paralelo entre a tramitação da denúncia contra Jair Bolsonaro e o caso do
Mensalão (AP 470), mas falha ao ignorar avanços processuais do Supremo Tribunal
Federal (STF) e diferenças
fundamentais entre os dois casos.
A
denúncia contra Bolsonaro foi oferecida pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em 18 de fevereiro
e será analisada pela Primeira Turma do STF na próxima terça-feira (25), um
intervalo de 35 dias. Já no Mensalão, a PGR apresentou
sua denúncia em março de 2006, e o STF a aceitou apenas em agosto de 2007, 17
meses depois.
Embora
a diferença nos prazos seja evidente, a comparação ignora três fatores
centrais:
1. A
natureza distinta dos julgamentos
- O Mensalão
envolvia um esquema de corrupção com 40 réus, requerendo uma instrução
penal complexa antes do julgamento.
- O caso de Bolsonaro
trata do recebimento da denúncia, uma etapa preliminar que apenas decide
se o ex-presidente se tornará réu.
2. O
impacto da digitalização processual
- Em 2006, o
Mensalão ainda não era digitalizado, e a transição dos 14 mil volumes
físicos atrasou a tramitação.
- Em 2025, todos
os autos da investigação contra Bolsonaro são digitais, permitindo acesso
imediato a juízes, procuradores e advogados.
3.
Mudanças no rito do STF
- Em dezembro de
2023, o STF redefiniu sua competência interna, permitindo que denúncias e
ações penais fossem julgadas por turmas, e não pelo plenário.
- A mudança busca
desafogar a pauta do STF e dar mais celeridade a casos de relevância
nacional, como o que envolve Bolsonaro.
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Novo modelo do STF agiliza julgamentos sem comprometer a defesa
Antes,
o plenário do STF era responsável por julgar todos os processos de grande
impacto, incluindo ações penais contra autoridades. No entanto, a superlotação
da pauta exigiu ajustes:
- Superlotação do
Plenário -
O STF analisa milhares de processos por ano, e a concentração de casos
tornava os julgamentos lentos.
- Necessidade de
celeridade -
O Brasil enfrenta crises políticas e institucionais frequentes, exigindo
respostas mais ágeis da Suprema Corte.
- Maior eficiência -
Com apenas cinco ministros decidindo, os processos andam mais rápido, sem
perda de rigor técnico.
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Composição das turmas do STF
>>>
Primeira Turma (responsável pelo julgamento de Bolsonaro)
- Alexandre de
Moraes (presidente)
- Cristiano Zanin
- Luiz Fux
- Cármen Lúcia
- Flávio Dino
>>>
Segunda Turma
- Gilmar Mendes
(presidente)
- Edson Fachin
- André Mendonça
- Nunes Marques
- Dias Toffoli
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Moraes mantém coerência na condução de casos de alta relevância
A Folha também
sugere que o ministro Alexandre de Moraes está acelerando a tramitação da
denúncia contra Bolsonaro de forma excepcional. Entretanto, uma análise de
outros casos conduzidos pelo magistrado desmonta essa tese:
- O julgamento do
deputado Daniel Silveira, por ameaças ao STF, ocorreu 70 dias após a
denúncia da PGR.
- Os acusados do
assassinato da vereadora Marielle Franco se tornaram réus em 42 dias.
- A deputada Carla
Zambelli e o hacker Walter Delgatti tiveram suas denúncias analisadas em
menos de um mês.
Ou
seja, o tempo de análise do caso Bolsonaro segue o padrão adotado pelo STF em
outros processos de alta gravidade, sem indicar qualquer tipo de favorecimento
político.
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Comparação com o Mensalão ignora mudanças no sistema jurídico
A
reportagem da Folha enfatiza que o julgamento do Mensalão
levou 17 meses para que a denúncia fosse aceita, contrastando com os 35 dias do
caso Bolsonaro. No entanto, essa comparação desconsidera avanços processuais
desde 2006:
- Antes: O STF exigia
tramitação completa antes de aceitar denúncias contra políticos, tornando
os processos mais longos.
- Agora: As denúncias
são analisadas rapidamente para evitar impunidade e garantir o andamento
eficiente das investigações.
- Importante: A decisão da
Primeira Turma não condenará Bolsonaro – apenas decidirá se há elementos
para que ele se torne réu e avance para a fase de instrução criminal.
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Bolsonaro e Collor: outra comparação enganosa
A
reportagem também menciona o caso do ex-presidente Fernando Collor, cuja
denúncia foi aceita pelo STF apenas dois anos após ser apresentada. A demora,
no entanto, ocorreu devido a fatores específicos, como:
- Complexidade das
provas da Lava Jato, envolvendo contratos da BR Distribuidora.
- Fragmentação do
processo, que envolvia múltiplas frentes de investigação.
Já a
denúncia contra Bolsonaro tem fatos delimitados e provas documentais diretas, o
que justifica sua tramitação mais rápida.
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STF age com rigor, mas sem atropelar direitos de defesa
Os
advogados de Bolsonaro alegam que o prazo para a defesa analisar os autos foi
exíguo. No entanto, todos os documentos do processo estavam disponíveis desde
novembro de 2024, quando a Polícia Federal indiciou Bolsonaro e outros aliados.
O tempo
de 15 dias para defesa prévia é o mesmo concedido em todos os processos do STF,
sem exceções.
Além
disso:
- A PGR teve o
mesmo prazo para analisar e manifestar-se sobre os autos
- O julgamento
ocorrerá em sessão pública, garantindo transparência total.
Portanto,
não há indícios de violação ao devido processo legal.
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Rapidez não significa parcialidade
A
denúncia contra Bolsonaro está sendo analisada com o mesmo rigor e celeridade
de outros casos recentes no STF.
A
comparação com o Mensalão é falaciosa, pois ignora avanços processuais,
mudanças na legislação e a natureza distinta das acusações.
O que
se vê não é uma "pressa seletiva", mas sim um STF que se modernizou,
digitalizou processos e estabeleceu novos critérios para crimes contra a
democracia.
A
aceleração de processos não deve ser vista como afronta à justiça, mas sim como
um aperfeiçoamento do sistema jurídico brasileiro, garantindo que crimes de
alta gravidade não se arrastem por anos sem solução.
¨ Se respeitado o
direito à defesa, uma Justiça mais célere não é má, diz Noblat
Da
Justiça, sempre se disse que é lenta e cega. O que pode parecer a princípio um
elogio é, no mais das vezes, uma crítica. Mas a crítica à Justiça e aos demais
Poderes da República não faz mal a ninguém. É uma das belezas do Estado
Democrático de Direito.
Uma das
primeiras medidas que toma um ditador é liquidar com a liberdade de imprensa.
Aqui, como ela apoiou o golpe militar de 1964, a imprensa atravessou mais ou
menos livre a fase que se tornaria conhecida como “Ditadura envergonhada”.
A fase
seguinte começou em dezembro de 1968 quando a ditadura finalmente tirou a
máscara e editou o Ato Institucional nº 5. Todos os direitos adquiridos por
pessoas e instituições foram suspensos. A autocensura cedeu à censura oficial.
Caso a
tentativa de abolição violenta da democracia e de golpe de Estado em dezembro
de 2022 e em 8 de janeiro de 2023 tivesse sido bem-sucedida, não seríamos
livres para escrever o que escrevemos e até mesmo para errar. Felizmente somos.
“Se
tivesse que escolher entre governo sem jornais ou jornais sem governo, não
hesitaria em escolher esta última”, disse Thomas Jefferson, o terceiro
presidente dos Estados Unidos. “Nossa liberdade depende da liberdade de
imprensa”.
Em sua
edição do domingo (23), a Folha de S. Paulo estampou na capa: “Processo de
trama golpista no STF é mais rápido que mensalão. O trâmite da denúncia contra
Bolsonaro e outros 33 é 14 vezes mais veloz que a do escândalo do primeiro
mandato de Lula”.
No
mesmo dia, às 20h06m, em sua home, o UOL abriu espaço para que Isabela Kalil,
antropóloga da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo,
comentasse a reportagem da Folha. Entre outras coisas, ela afirmou:
– Eu
acho descabido essa comparação porque ela é muito perigosa, porque a gente está
falando de coisas que são distintas de fato. Isso não significa minimizar o que
foi escândalo de corrupção, questões envolvendo a Lava Jato ou até o mensalão.
–
Comparar mensalão e o 8 de janeiro precisa ter um determinado cuidado.
Primeiro, há um interesse que esse julgamento aconteça, se possível, ainda no
ano de 2025, para que não contamine o ano eleitoral de 2026. Isso está posto, a
gente sabe que é isso.
–
Quando do julgamento do mensalão, a própria tecnologia era diferente. A justiça
precisou de um prazo para pegar o que estava em papel e digitalizar para ficar
acessível a todas as partes. Hoje já não é mais assim. Hoje todos os processos
já são digitais.
– A
Corte tem uma configuração que é diferente da do mensalão, não são os mesmos
ministros. Tem muita coisa que aconteceu. A gente tem uma expertise diferente,
a Corte e todo o sistema de justiça aprendeu com os erros e acertos do
mensalão.
– São
processos diferentes. Uma coisa é a gente julgar o mensalão, e aí eu não estou
minimizando a relevância do julgamento do mensalão, mas outra coisa é julgar
uma tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, uma tentativa de
golpe de Estado.
– Essa
comparação é uma tentativa também de minimizar os atos do 8 de janeiro […] como
se eles fossem menores. […] Quando a gente está falando de corrupção, a gente
está falando de crimes que estão acontecendo dentro do nosso sistema.
–
Agora, quando você tem uma ação coordenada para acabar com o sistema como um
todo, é uma coisa diferente. Então, tem também essa tentativa de igualar para
tentar criar uma espécie de minimização do que é, de fato, o processo do 8 de
janeiro.
Os
denunciados pelo golpe, e seus advogados, devem ter celebrado a manchete da
Folha e detestado a entrevista da antropóloga no UOL. Liberdade de imprensa é
assim. Não é bonita?
¨ Cappelli detona
Estadão por criticar pena imposta pelo STF a golpista do 8 de janeiro
Ricardo Cappelli, presidente da
Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e interventor
federal da Segurança Pública no Distrito Federal logo após
os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, detonou artigo
publicado no jornal Estado de S. Paulo.
Na
coluna “Opinião do Estadão” deste sábado (22), o jornal
conservador criticou o Supremo Tribunal Federal (STF) por condenar
uma golpista, que participou dos atos que vandalizaram as sedes dos Três
Poderes, em Brasília, no fatídico 8 de janeiro de 2023.
Com o
título “Isso não é justiça”, o jornalão diz: “Moraes condena uma cidadã
que nem sequer deveria ter sido julgada pelo STF a 14 anos de prisão por causa
de uma pichação com batom, num flagrante exagero que desmoraliza o judiciário”.
Cappelli,
demonstrando indignação, foi às redes sociais para rebater com veemência a
publicação.
“Eu
estava no campo de batalha. Havia homens armados que tentaram assassinar a
soldado Marcela. Eu vi de perto homens com rádio levantando juntos e derrubando
os gradis. Não foi um passeio no parque. Eu vi tanques se movendo na minha
direção. Eu vi homens armados que me impediram de desmontar o acampamento
golpista na mesma noite”, começou Cappelli.
“Eu vi
gente que tentou explodir um aeroporto nos festejos do Natal. Eu vi a sede dos
3 Poderes destruídas. Eu vi o Cristo arrancado da parede vandalizado. Eu vi
minha família chorar de medo, achando que eu poderia ser assassinado por eles a
qualquer momento”, acrescentou.
“Eu
ouvi do Comanda do Exército que eu precisava entender que o país estava
dividido. Eu vi nossa democracia na beira do abismo. Eu temi por ela e por um
banho de sangue em nosso país”, destacou Cappelli.
“O
Estadão, que já apoiou um Golpe de Estado no Brasil, flerta novamente,
infelizmente, com o obscurantismo sombrio, com o autoritarismo, tentando
relativizar a gravidade dos fatos. Saiba, Estadão, que nós ainda estamos aqui,
por Rubens e Eunice Paiva. Nós ainda estamos aqui pelo Brasil”, completou.
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Havia profissionais no 8 de janeiro
Em
entrevista ao Fórum Onze e Meia do dia 17 de março, Cappelli já havia
abordado o projeto de anistia articulado pelos bolsonaristas e pelo próprio
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que buscam inflar a narrativa de
que os presos pelos atos golpistas de 8 de janeiro eram pessoas desavisadas ou
idosos que não tinham noção do que estavam fazendo.
Cappelli
acompanhou de perto as investigações. Na entrevista, ele desconstruiu
a narrativa de Bolsonaro e apontou que havia até profissionais no dia em que
apoiadores do ex-presidente vandalizaram as sedes dos Três Poderes em
Brasília.
"Você
tinha pessoas ali [nos atos golpistas] que descolaram da realidade, isso é um
fato. Mas você também tinha, entre essas pessoas que descolaram da realidade,
que foram capturadas por essa extrema direita mais radical, você tinha
profissionais. Profissionais que foram presos não só ao longo daqueles dias,
mas que depois a Polícia Federal também foi atrás e identificou no meio dos
manifestantes", afirmou Cappelli. Ele ainda acrescentou que isso não só o
é que ele está dizendo, mas o que está no depoimento dos policiais militares do
Distrito Federal.
"Nós
tivemos 44 policiais militares feridos no dia 8 tentando defender os prédios
dos Três Poderes e eles me relataram: 'interventor, nós estamos acostumados a
conter manifestação que tem 50 (mil), 100 mil pessoas'. A diferença é que nessa
manifestação, que tinha entre 4 e 5 mil pessoas, não eram manifestantes
comuns, entre eles tinham homens preparados, que conheciam o campo da batalha,
conheciam táticas de combate, tinham equipamentos profissionais",
relembrou.
Fonte:
Fórum/Metrópoles

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