Celso Amorim diz que Trump expôs a verdade
'nua e crua' dos interesses geopolíticos
O diplomata e ex-chanceler Celso Amorim,
atual assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirmou
que o mundo está atravessando uma das maiores transformações estruturais desde
o fim da Segunda Guerra Mundial e que a ascensão de Donald Trump nos Estados
Unidos simboliza o colapso de uma era marcada pelo multilateralismo e expõe de
"forma crua" os interesses geopolíticos das grandes potências. “Nós
estamos vivendo, de certa maneira, a hora da verdade”, disse Amorim à coluna da
jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.
Paulo.
“A chegada de Trump acabou com certa
hipocrisia do multilateralismo”, destacou. Segundo Amorim, o presidente
estadunidense abandonou qualquer verniz diplomático ao atuar “de forma
deslavada” para defender os interesses exclusivos dos EUA. Esse movimento, diz,
exige que países como o Brasil se reorganizem e encontrem novos caminhos diante
da mudança de eixo global.
Amorim observa que os EUA, após o fim da
Guerra Fria, operaram como uma potência quase inquestionável, recorrendo
frequentemente a instituições como a ONU ou a Otan para legitimar sua
influência. “Trump não quer saber dessas estruturas. Ele não esconde o
autointeresse”, afirmou citando como exemplo a proposta do mandatário de
adquirir a Groenlândia por seu potencial mineral. “É a verdade nua e crua. Ele
não faz parecer que defende a Ucrânia porque defende a democracia no mundo, o
que era discutível: os EUA defendiam a democracia quando interessava.”,
acrescentou.
O ex-chanceler vê essa nova postura como
parte de um realismo geopolítico que também impacta a Europa, historicamente
dependente do “guarda-chuva moral, militar e econômico” dos americanos. “Quando
de repente chega um presidente americano e diz ‘eu vou cuidar do meu interesse,
vocês que se virem’, eles ficam totalmente perplexos”, disse Amorim.
Ao comentar a possibilidade de Trump aderir à
narrativa bolsonarista de que o Brasil vive sob uma "ditadura
judicial", Amorim minimizou ao observar que “Bolsonaro ficou pequeno
diante das grandes questões do mundo”. Segundo ele, Trump respeita “quem é
capaz de agir” e tende a desprezar figuras que “ficam lá querendo adular”, como
o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski. “Trump disse que gosta do Putin.
Pode até não gostar, mas respeita. O mesmo vale para Xi Jinping”, completou.
Sobre o papel do Brasil nesse cenário, Amorim
defendeu uma postura pragmática, aliada a uma diplomacia ativa e independente.
“Temos que aprender a viver nesse mundo multipolar. Saber jogar com alianças
variáveis e nos relacionar com as superpotências de forma inteligente”,
apontou. Para ele, o país tem trunfos importantes, como o prestígio
internacional acumulado por seu histórico pacifista e sua liderança no Sul
Global. “A China precisa do soft power que o Brasil tem. Nós temos
credibilidade”, ressaltou.
Apesar das divergências políticas entre
países da América do Sul, como Argentina e Venezuela, Amorim aposta na
reconstrução da união regional. “Sempre digo que o primeiro mandato de Lula era
um mundo de oportunidades. Agora, é um mundo de desafios. Mas acredito que, a
médio prazo, a maioria dos países da América do Sul vai voltar a se unir.”
Ao abordar as tensões entre o Brasil e os
EUA, especialmente diante da imposição de tarifas, o assessor defendeu a
aplicação da reciprocidade como estratégia de defesa dos interesses nacionais.
“Você não pode dar um tiro no pé, mas há áreas onde podemos reagir, como
propriedade intelectual e remessa de lucros. Se o Brasil morder, eles pensam
duas vezes”, afirmou.
Sobre o embate entre o Judiciário e as big
techs, Amorim declarou apoio ao ministro Alexandre de Moraes. “Ele está fazendo
um trabalho muito importante. As plataformas estão entendendo que o Brasil não
vai abrir mão da soberania. Se quiserem atuar aqui, têm que seguir nossas
regras, que não são arbitrárias”, disse, comparando a posição brasileira à da
Europa.
Questionado se o futuro das relações
internacionais será definido por uma nova divisão global entre Trump, Xi
Jinping e Vladimir Putin, Amorim não descartou a possibilidade, mas advertiu
que “o nosso grande desafio é, nessa divisão do mundo, não ser colônia de
ninguém”.
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"Brasil é Sul
Global e um de seus desafios é não ser colônia de ninguém", diz Celso
Amorim
O assessor especial da Presidência para
assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou que o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva é hoje uma liderança incontornável no cenário global e defendeu o
posicionamento do Brasil como integrante do chamado Sul Global. Em entrevista
publicada pela Folha de S. Paulo e repercutida
pela Sputnik Brasil neste domingo (23), Amorim reforçou a
autonomia da política externa brasileira e destacou: “Um dos grandes desafios
do Brasil, atualmente, é não ser colônia de ninguém”.
Amorim confirmou que Lula realizará visitas
oficiais à China e à Rússia em maio, onde se encontrará com os presidentes Xi
Jinping e Vladimir Putin. O ex-chanceler fez questão de esclarecer que esse
movimento diplomático não representa um confronto com os Estados Unidos, mas
sim a expressão de uma postura soberana: “Não é que a gente quer brigar com os
EUA, mas mostra que o Brasil não está subordinado e mostra que o Brasil é Sul
Global”.
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Na entrevista, o diplomata abordou ainda o
impacto da possível volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.
Para Amorim, a mudança na Casa Branca representaria uma guinada pragmática nas
relações internacionais: “O atual governo Trump não esconde o autointeresse. A
mediação para tentar chegar à uma solução de paz no conflito na Ucrânia não
acontece porque o presidente norte-americano ‘é bonzinho’. Trump vai defender
os interesses dos EUA de maneira deslavada”.
Segundo ele, essa mudança de postura revela
uma nova dinâmica no sistema internacional, exigindo reorganização e adaptação
por parte de outros atores. “O Sul Global vem se fortalecendo, já a Europa está
desorientada”, afirmou. Amorim criticou a dependência europeia em relação aos
EUA, especialmente na esfera militar: “Eles se acostumaram a viver sob o
guarda-chuva americano moral, militar e econômico. Quando de repente chega um
presidente americano e diz ‘eu vou cuidar do meu interesse, vocês que se virem’,
eles ficam totalmente perplexos, impactados”.
O ex-chanceler ironizou também a narrativa de
que a Rússia teria um “DNA expansionista”. “Quando eu vejo dizerem que a Rússia
tem um DNA expansionista, eu penso: foi Napoleão que invadiu a Rússia, ou foi o
contrário?”, provocou.
Ao comentar sobre o cenário político interno,
Amorim disse que o ex-presidente Jair Bolsonaro “ficou pequeno diante das
questões do mundo de hoje” e que “um governo de extrema-direita no Brasil era
importante. Hoje é um pouco diferente”. No entanto, ele alertou para riscos
persistentes: “Existe um perigo sobre temas como direitos humanos e liberdade
de expressão com governos de direita no poder”.
Sobre a crescente atuação das big techs,
Amorim defendeu a regulação do setor com base na soberania nacional: “Se
quiserem atuar aqui, têm que ser de acordo com as nossas regras, que não são
arbitrárias. São para todos, são para proteger os cidadãos”.
A entrevista reflete o alinhamento da
política externa brasileira com uma visão multipolar do mundo, em que o país
busca ocupar um papel de mediador autônomo e articulador entre diferentes
blocos de poder, sem subordinação a potências tradicionais.
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Governo Lula vê risco de
guerra comercial 'ampla e linear' dos EUA contra o Brasil
O
governo brasileiro acompanha com crescente apreensão os sinais vindos de
Washington sobre a nova política comercial do presidente Donald Trump. De
acordo com reportagem publicada pela Folha de S. Paulo, autoridades do
Palácio do Planalto consideram real o risco de um tarifaço abrangente e linear
contra produtos brasileiros, que pode ser anunciado já em 2 de abril como parte
de uma estratégia de tarifas recíprocas prometida por Trump.
A
equipe do presidente Lula (PT) teme que o Brasil acabe atingido por um pacote tarifário mais amplo do que o
inicialmente previsto. A preocupação vai além das taxas sobre aço e alumínio,
que já foram implementadas em 12 de março, e da ameaça sobre o etanol. Está no
radar do governo brasileiro a possibilidade de um ataque tarifário generalizado
sobre praticamente toda a pauta exportadora do Brasil para os Estados Unidos —
em um movimento considerado extremo e sem precedentes.
Trump e seus assessores indicam que o plano é
estabelecer uma política comercial mais agressiva baseada em critérios de
reciprocidade, o que, segundo análise do governo dos EUA, colocaria o Brasil em
posição vulnerável. Em entrevista recente à Fox Business, o secretário do
Tesouro, Scott Bessent, afirmou que cada país será avaliado com base em
tarifas, barreiras não tarifárias, manipulação cambial, subsídios e direitos
trabalhistas.
“No dia 2 de abril, nós vamos produzir uma
lista das tarifas dos outros países e vamos dizer a eles: aqui está o que
achamos sobre as suas tarifas, [sobre] barreiras não tarifárias, manipulação de
câmbio, subsídios injustos e supressão de direitos trabalhistas. Se vocês
pararem com isso, nós não vamos erguer a muralha tarifária. Caso contrário,
vamos erguer a muralha tarifária para proteger nossa economia, nossos
trabalhadores e nossa indústria”, declarou Bessent. “Cada país vai receber um
número que, acreditamos, representa as suas tarifas. Então, para alguns países,
poderia ser [uma tarifa] baixa. Para alguns, poderia ser bastante alta”,
completou.
Apesar dos contatos bilaterais mantidos entre
o Itamaraty e representantes norte-americanos, os sinais vindos da Casa Branca
permanecem vagos e preocupantes. O etanol foi um dos temas centrais nas
conversas diplomáticas — os EUA reclamam da tarifa brasileira de 18% sobre o
produto, enquanto praticam uma alíquota de 2,5% para o combustível brasileiro.
No entanto, fontes diplomáticas relatam que os norte-americanos evitam detalhar
a extensão real das medidas em elaboração.
A imprensa americana, incluindo o Wall
Street Journal, revelou que a administração Trump chegou a considerar a
divisão dos países parceiros dos EUA em três faixas tarifárias, conforme o
nível de protecionismo de cada um. Contudo, segundo o jornal, essa ideia foi
abandonada em favor de uma abordagem caso a caso, em que cada país teria um
“número” atribuído conforme suas barreiras comerciais, o que pode servir de
base para aplicação de tarifas.
Para o governo Lula, o que está em jogo é o
impacto potencial sobre um fluxo comercial de grande relevância. Dados da
Amcham (Câmara Americana de Comércio para o Brasil) apontam que, em 2024, as
exportações industriais brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 31,6
bilhões. O mercado norte-americano é o principal destino de produtos
industriais do Brasil, com destaque para aeronaves e partes, além de
maquinário, motores, químicos e itens metalúrgicos.
Dos dez principais produtos brasileiros
vendidos aos EUA, oito pertencem à indústria de transformação — o que amplifica
o temor de que uma política comercial mais dura afete diretamente a base da
economia exportadora nacional.
Outro fator de tensão são as recentes
investigações comerciais abertas por Trump, que podem culminar em novas tarifas
sobre produtos como cobre e madeira, ambos relevantes na pauta exportadora
brasileira.
O último relatório do USTR (Representante de
Comércio dos EUA), ainda sob o governo Joe Biden, já apontava que o Brasil
impõe tarifas “relativamente altas” sobre uma gama extensa de setores, com
média de 11,1%. Esse histórico contribui para a percepção de que o Brasil pode
ser enquadrado como parceiro comercial “protegido demais” e, por isso, sujeito
a retaliações em nome da reciprocidade.
Diante da opacidade das informações e da
postura combativa da equipe de Trump, o governo brasileiro trabalha com
múltiplos cenários, todos considerados incertos e com potencial alto de
impacto. Autoridades consultadas admitem que a estratégia norte-americana pode
empurrar o Brasil para o centro de uma nova guerra comercial — e que a resposta
brasileira dependerá da amplitude das medidas a serem reveladas nas próximas
semanas.
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'Trump tomou conta de
tudo, mas no momento certo vamos ter o nosso papel', diz Celso Amorim
O assessor especial da Presidência da
República para assuntos internacionais e ex-chanceler Celso Amorim rejeita a
tese de que o Brasil esteja ausente dos principais debates sobre o fim da
guerra entre Ucrânia e Rússia. Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.
Paulo, o diplomata argumentou que a exclusão do país — e de outros com propostas de paz — se deve à
reconfiguração provocada pela volta do protagonismo dos Estados Unidos com
Donald Trump, e não a um esvaziamento da liderança internacional de Luiz Inácio
Lula da Silva (PT).
“A presença do Trump tomou conta de tudo com
essas atitudes novas e inesperadas dele”, afirmou Amorim. “Não é só o Brasil
[que parece ausente]. É o Brasil, a França, são todos os países que tinham um
projeto de paz”, completou. Segundo ele, os EUA quebraram o gelo da negociação
e empurraram outros atores para fora do tabuleiro diplomático.
Para Amorim, o diálogo entre Washington e
Moscou — que, segundo ele, deve evoluir — exigirá futuramente a participação de
outros países. "O Putin está lá conversando com o Trump. Não vamos dar uma
de Woody Allen e dizer: "olha aqui, você tem que me ouvir também".
Mas, na medida em que isso [o diálogo entre EUA, Rússia e Ucrânia] se
desenvolva, acho que ele vão precisar de outros países, de mediadores. Vão ter
que multilateralizar o processo, até mesmo para evitar os atritos naturais que
existem entre Rússia e EUA. Deixa as coisas evoluírem. No momento adequado, nós
vamos ter, sim, um papel", ressaltou.
A resposta também rebate críticas sobre uma
possível retração do Brasil nos temas internacionais sob o terceiro mandato de
Lula. Amorim usa como prova da vitalidade diplomática a viagem do presidente
programada para maio, quando visitará a Rússia e a China e se reunirá com os
presidentes Vladimir Putin e Xi Jinping.
“O presidente está indo para a Rússia, onde
vai ter uma reunião bilateral com o Putin, e para a China, onde vai se
encontrar com Xi Jinping. Está mostrando claramente que o Brasil não está
subordinado”, afirmou. Para ele, a agenda reforça a atuação ativa do país no
Sul Global e demonstra que o Brasil busca caminhos autônomos, sem confronto com
os EUA, mas com opções estratégicas.
Questionado sobre rumores de que Lula teria
sido aconselhado a “pisar no freio” nos temas internacionais, Amorim negou ter
feito qualquer recomendação nesse sentido: “Não por mim. E acho que o
presidente não se deixa orientar. Ele é dono da cabeça dele”, disse.
O assessor ainda reforçou a importância do
multilateralismo diante de negociações bilaterais de grande escala, como a
aproximação entre EUA e Rússia. “Nesta primeira etapa, Trump quebrou o gelo na
busca da paz. Quando uma superpotência como os EUA adota uma posição diferente
da de quase todos os países do chamado Ocidente, as pedras do jogo têm que se
rearrumar”, concluiu.
Fonte: Brasil 247

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